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Ritmo

Fandom: Parmiga

Created: 4/13/2026

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RomanceDramaHurt/ComfortCrimeDetectiveCharacter StudyRealismNoirThriller
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Batimentos e Sombras sob o Neon

O som rítmico do monitor cardíaco era, para muitos, um prenúncio de ansiedade, mas para mim, era a melodia que regia a minha existência. Eu observava a linha verde oscilar no monitor da Unidade de Terapia Intensiva, sentindo o peso familiar do estetoscópio em volta do meu pescoço. Ser cardiologista aos vinte e oito anos exigia mais do que apenas habilidade técnica; exigia uma blindagem emocional que, às vezes, eu sentia que estava começando a rachar.

Meu dia havia começado às cinco da manhã. Entre cirurgias de ponte de safena e atendimentos de emergência, o hospital parecia um labirinto de azulejos brancos e cheiro de antisséptico. Eu gostava do caos controlado. Ali, eu tinha domínio. Ali, eu sabia exatamente como consertar um coração partido — pelo menos, o tipo físico.

— Doutora Farmiga? — A voz doce de Taissa me tirou dos meus pensamentos.

Taissa era minha melhor amiga e enfermeira-chefe da ala. Seus olhos castanhos transmitiam uma calma que eu raramente sentia. Ela era a irmã que a vida me deu, e seu irmão, Jack, trabalhava na delegacia logo em frente ao hospital. Era um arranjo curioso: a vida sendo salva de um lado da rua e a ordem sendo mantida do outro.

— O paciente do quarto 402 está estável, Vera. Vá tomar um café. Você está aqui há doze horas seguidas e seus olhos azuis estão começando a parecer cinzas de tanto cansaço — ela brincou, encostando a mão no meu ombro.

— Eu só preciso terminar de revisar esses prontuários, Tai. Você sabe como o Dr. Aris é exigente com a burocracia — respondi, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos.

— O Dr. Aris que se exploda por meia hora. Vá. Agora.

Eu obedeci. Caminhei pelo corredor, meus passos ecoando suavemente. No caminho para a cafeteria, passei pelas grandes janelas de vidro que davam para a rua. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um laranja melancólico que logo daria lugar ao azul profundo da noite fria que se aproximava. Do outro lado da avenida, vi a movimentação na delegacia. Viaturas entrando e saindo. Ouvi dizer que um novo delegado havia assumido o posto naquela semana, mas com a minha escala insana, eu mal tinha tempo de saber o que acontecia fora das paredes do hospital, quanto mais conhecer os novos vizinhos da lei.

O restante da tarde foi um borrão de consultas. Atendi o Sr. Miller, um senhor de setenta anos cujo coração estava cansado de carregar tantas memórias, e a jovem Amanda, que nascera com uma malformação congênita e me olhava como se eu fosse uma espécie de super-heroína de jaleco branco. Se ela soubesse que, por dentro, eu me sentia tão frágil quanto o cristal de um frasco de remédio, talvez não sorrisse tanto.

Quando o relógio marcou quase nove da noite, eu finalmente me dei por vencida. Meus músculos protestavam e minha mente implorava por silêncio. Troquei o jaleco pelo meu sobretudo de lã escura, ajeitei meus cabelos loiros curtos no espelho do vestiário e suspirei. O espelho devolveu a imagem de uma mulher que muitos chamariam de bem-sucedida, mas que eu via apenas como alguém tentando não afundar no próprio passado.

Saí pelo portão lateral dos funcionários. O ar gelado da noite atingiu meu rosto como um choque elétrico, fazendo-me encolher os ombros. O estacionamento estava quase vazio, mergulhado em uma penumbra quebrada apenas pelos postes de luz amarelada.

Enquanto eu caminhava em direção ao meu carro, tateando a bolsa em busca das chaves, uma silhueta se desprendeu das sombras perto da entrada da delegacia e atravessou a rua em minha direção. Eu reconheci o porte antes mesmo de ver o rosto. Era Ricardo Miller, um policial que vinha me importunando há semanas com convites insistentes e olhares que me deixavam desconfortável.

— Doutora Farmiga! Que coincidência encontrar você saindo agora — disse ele, com um sorriso que não transmitia confiança.

— Não é coincidência, Ricardo. Eu saio quase sempre neste horário — respondi, tentando manter a voz neutra enquanto apertava o passo.

— Você trabalha demais, Vera. Precisa relaxar. Que tal irmos tomar um drink naquele bar novo no centro? Eu insisto.

— Eu já disse que não, Ricardo. Estou exausta e só quero ir para casa. Por favor, me dê licença.

Cheguei ao meu carro, mas ele se posicionou entre mim e a porta do motorista. O cheiro de cigarro e um perfume barato emanavam dele.

— Qual é, loirinha? Só uma bebida. Não seja difícil. Eu sei que você gosta de um pouco de atenção — ele disse, aproximando-se mais do que o permitido pelo bom senso.

— Eu disse para sair da minha frente — minha voz saiu mais firme, embora meu coração estivesse começando a disparar contra as costelas.

— E se eu não sair? — Ele riu, uma risada seca, e segurou meu braço com força excessiva. — Você é muito metidinha para uma médica.

— Solta o meu braço agora! — eu disse, tentando puxar o membro, mas seus dedos se enterraram na minha pele.

O medo, aquele velho conhecido que eu tentava enterrar, começou a subir pela minha garganta. Mas, antes que eu pudesse gritar ou que Ricardo pudesse dizer qualquer outra grosseria, um vulto alto e imponente surgiu da escuridão como um predador protegendo seu território.

Em um movimento tão rápido que meus olhos mal conseguiram acompanhar, Ricardo foi arrancado de perto de mim. O som do corpo dele sendo prensado contra a lataria do meu carro ecoou pelo estacionamento silencioso.

— Você não ouviu a moça dizer que não? — A voz era profunda, gélida e carregada de uma autoridade que fazia o ar parecer ainda mais pesado.

Olhei para cima, paralisada. Era um homem que eu nunca tinha visto. Loiro, de ombros largos, vestindo uma jaqueta de couro escura. Ele segurava Ricardo pelo colarinho com uma mão, enquanto a outra pressionava o cano de uma pistola contra a têmpora do policial. Seus olhos eram de um azul tão intenso que pareciam brilhar sob a luz do poste, mas estavam transbordando de uma fúria controlada.

— Calma, delegado! — Ricardo gaguejou, a arrogância desaparecendo instantaneamente, substituída por um terror puro. — A gente... a gente só estava conversando.

O homem, que agora eu percebia ser o novo delegado, soltou uma risada curta e carregada de deboche, um som que não tinha alegria alguma.

— Conversando? Engraçado... — O delegado aproximou o rosto do de Ricardo, sua voz caindo para um sussurro perigoso. — Eu já ouvi essa mesma desculpa antes. O meu pai dizia exatamente isso, que estava "apenas conversando", logo antes de espancar e estuprar a minha mãe.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu senti um arrepio percorrer minha espinha. A dor pessoal na voz daquele homem era palpável, uma ferida aberta que ele usava como arma.

— Então me diga, Miller — continuou o delegado, destravando a arma com um clique metálico que soou como um trovão. — Você quer que eu termine essa "conversa" agora? Você quer uma bala atravessando o seu crânio para aprender a respeitar uma mulher?

— Patrick, solta ele! Por favor! — Outra voz surgiu.

Era Jack. O irmão de Taissa correu em direção ao grupo, com as mãos levantadas em um gesto de apaziguamento. Ele olhou para mim rapidamente, seus olhos cheios de preocupação, antes de focar no delegado.

— Patrick, ele é um idiota, mas não vale a pena sujar o seu registro na primeira semana. Solta o Miller. Vera está bem, veja.

O homem chamado Patrick não desviou o olhar de Ricardo por vários segundos. A tensão era tão alta que eu temia que qualquer movimento meu fizesse o gatilho ser puxado. Finalmente, ele relaxou a pressão, mas não antes de empurrar Ricardo com força para o lado.

— Saia da minha frente antes que eu mude de ideia e decida que o mundo fica melhor com menos um verme como você — rosnou Patrick.

Ricardo não esperou uma segunda ordem. Ele tropeçou, recuperou o equilíbrio e correu em direção à delegacia sem olhar para trás.

Patrick guardou a arma no coldre oculto sob a jaqueta e soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo aloirado. A fúria que emanava dele parecia ter se dissipado, dando lugar a uma expressão de cansaço e algo que parecia... remorso?

— Você está bem, Vera? — Jack se aproximou de mim, colocando as mãos nos meus ombros. — Me desculpe por isso. O Miller é um lixo, eu já deveria ter dado um corretivo nele.

— Eu... eu estou bem, Jack. Só foi um susto — respondi, embora minhas mãos estivessem tremendo visivelmente.

Jack se virou para o outro homem.

— Vera, este é Patrick Wilson, o novo delegado. Ele chegou na segunda-feira. Patrick, esta é a Dra. Vera Farmiga. Ela é a melhor cardiologista deste hospital e a melhor amiga da minha irmã.

Patrick deu um passo à frente. De perto, ele era ainda mais impressionante. Seus olhos azuis encontraram os meus, e por um momento, o mundo ao redor pareceu desaparecer. Não havia mais hospital, nem delegacia, nem o frio da noite. Havia apenas a intensidade daquele olhar.

— Peço desculpas pela cena, Doutora — disse ele, e sua voz agora era gentil, quase doce, em um contraste absoluto com o homem que quase executara alguém há um minuto. — Eu não tolero esse tipo de comportamento. Especialmente de quem deveria proteger a ordem.

— Obrigada — eu consegui dizer, minha voz saindo um pouco mais rouca do que o normal. — E obrigada por... intervir.

— Ele machucou você? — Patrick perguntou, seus olhos descendo para o meu braço, onde as marcas dos dedos de Ricardo começavam a escurecer a pele clara.

Ele estendeu a mão, como se quisesse tocar o local, mas hesitou e recuou, respeitando o meu espaço. Eu notei o movimento. Ele era calculista, observador, mas havia uma delicadeza nele que me pegou de surpresa.

— Vai ficar um roxo, mas eu sou médica. Já vi coisas piores — tentei brincar, mas o tremor na minha voz me traiu.

— Jack, acompanhe o Miller para dentro e garanta que ele entregue o distintivo e a arma. Ele está suspenso até que eu decida se vou expulsá-lo formalmente ou apenas dar um chute na bunda dele para fora da cidade — ordenou Patrick, sem desviar os olhos de mim.

— Pode deixar, chefe — Jack assentiu, lançando-me um olhar encorajador antes de se afastar.

Ficamos sozinhos no estacionamento. O vento soprou, levando algumas folhas secas pelo asfalto. Eu me senti vulnerável, não pelo perigo que passara, mas pela presença esmagadora de Patrick Wilson.

— Você mora longe daqui? — ele perguntou, quebrando o silêncio.

— A uns quinze minutos. Por quê?

— Eu vou seguir você até em casa. Só para garantir que nenhum outro "colega" meu decida ter uma conversa noturna.

— Não precisa, Delegado. Eu sei me cuidar.

Ele deu um meio sorriso, algo que suavizou suas feições endurecidas pela vida policial.

— Eu não duvido que saiba, Doutora. Mas eu não conseguiria dormir sabendo que deixei você sair daqui sozinha depois de tudo isso. Considere um serviço de proteção ao cidadão. Ou apenas uma cortesia do seu novo vizinho.

Eu olhei para ele, procurando qualquer sinal de ameaça, mas encontrei apenas uma honestidade desarmadora. Havia algo nele que me atraía e me assustava ao mesmo tempo. Ele mencionara o pai. Ele mencionara um trauma que espelhava as sombras que eu mesma carregava.

— Tudo bem — aceitei, finalmente abrindo a porta do meu carro. — Mas não precisa sair do carro. Só... obrigada.

— Vera? — ele chamou, antes que eu entrasse.

— Sim?

— Sinto muito que tenha tido um dia tão longo e que ele tenha terminado assim. Você merece mais do que corações doentes e policiais idiotas.

Eu não soube o que responder. Apenas assenti e entrei no carro. Enquanto eu dirigia pelas ruas desertas da cidade, via as luzes do SUV preto dele pelo retrovisor. Pela primeira vez em muito tempo, o peso no meu peito não parecia tão insuportável.

Meu coração, aquele órgão que eu estudava e tratava todos os dias, batia em um ritmo novo. Não era taquicardia de medo. Era algo diferente. Algo que eu ainda não sabia nomear, mas que tinha a cor dos olhos azuis de Patrick Wilson.

Ao chegar em frente ao meu prédio, estacionei e esperei. Ele parou logo atrás, esperou que eu entrasse no saguão e acenasse pela vidraça. Ele retribuiu com um breve aceno de cabeça e partiu.

Subi para o meu apartamento, joguei as chaves na mesa e me encostei na porta fechada. O silêncio da casa era acolhedor, mas minha mente estava em chamas. Eu pensava na forma como ele me defendeu. Na forma como ele falou da própria mãe. Patrick Wilson era um homem machucado, assim como eu. E, de alguma forma, naquela noite fria, nossos mundos colidiram de uma maneira que eu sabia que mudaria tudo.

Eu era médica. Eu sabia como tratar feridas. Mas, enquanto olhava para o roxo no meu braço, percebi que algumas feridas precisavam de mais do que remédios e bandagens. Elas precisavam de alguém que não tivesse medo de enfrentar a escuridão para nos trazer de volta à luz.

E, talvez, o delegado vizinho fosse exatamente esse alguém.
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