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a dor da perda

Fandom: httyd

Created: 4/24/2026

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Post-ApocalypticDramaAngstHurt/ComfortActionPsychologicalSurvivalGraphic ViolenceTragedyCharacter StudyCurtainfic / Domestic Story
Contents

O Fantasma de Berk

O silêncio do mundo novo era o que mais assombrava Soluço. Não era o silêncio da paz, mas o silêncio do que foi roubado. Vinte anos se passaram desde que o primeiro "estalo" aconteceu, transformando vizinhos em monstros famintos e cidades em necrotérios a céu aberto.

Ele ainda conseguia fechar os olhos e sentir o cheiro de queimado daquela noite em que Valka se foi. Ela sempre fora a alma da família, a mulher que via bondade até nas feras, mas não houve bondade nos olhos vazios do zumbi que a encurralou na cozinha. Stoico, um homem que parecia esculpido em granito, carregou Soluço para longe enquanto a casa ardia, deixando para trás metade de seus corações.

Eles sobreviveram. Durante anos, a Zona de Quarentena de Nova Berk foi o seu forte. Stoico tornou-se o líder da milícia local, o escudo que protegia os fracos. Mas o mal humano era mais insidioso que o vírus.

No dia em que Soluço completou dezenove anos, o mundo desabou novamente. Ele se lembrava de cada detalhe: o beco úmido, o cheiro de lixo e o grupo de homens liderados por Alvin, um desertor cruel que via em Stoico um obstáculo para seu poder.

— Olhe bem, garoto! — gritou Alvin, enquanto dois homens seguravam Soluço pelos braços, forçando-o a assistir.

Stoico estava de joelhos, o rosto inchado, mas os olhos ainda fixos no filho, transbordando um amor desesperado.

— Não olhe, Soluço! — rugiu Stoico, antes que o primeiro golpe de cano de ferro atingisse sua têmpora.

Soluço gritou. Ele implorou. Ele lutou contra os braços que o prendiam até seus ombros quase saírem do lugar. Ele viu o homem que chamava de pai ser transformado em uma massa de carne e sangue. O som do metal atingindo o crânio de Stoico ecoaria em seus pesadelos para sempre.

— Parem! Por favor, parem! — Soluço soluçava, a voz quebrando.

Alvin riu, limpando o sangue do rosto. Ele caminhou até Soluço e desferiu um golpe seco com a coronha da arma na nuca do jovem. A escuridão foi um alívio.

Semanas depois, movido por um ódio cego, Soluço tentou sua vingança. Ele era apenas um rapaz magro com uma faca de caça. Alvin era um monstro experiente. A surra que Soluço levou naquele dia deixou cicatrizes permanentes em seu corpo e em sua alma. Ele foi jogado para fora dos portões, deixado para morrer na terra de ninguém.

Mas ele não morreu. Ele aprendeu a caçar. Aprendeu a lutar. E encontrou Astrid.

***

Anos depois.

O sol estava se pondo sobre a fazenda nos arredores das montanhas. O som do vento nas plantações de milho deveria ser calmante, mas para Soluço, soava como sussurros de mortos.

Dentro da casa, o choro baixo de Giovana, sua filha de apenas três meses, preenchia o ambiente. Astrid estava sentada na poltrona, amamentando a pequena, observando o marido com olhos preocupados. Soluço estava parado junto à janela, segurando uma caneca de café frio, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a cerâmica.

— Outro pesadelo? — perguntou Astrid suavemente.

Soluço não se virou. Ele ainda sentia o peso do corpo de seu pai caindo no chão do beco.

— Ele ainda está por aí, Astrid. Eu sei onde ele está.

Astrid suspirou, um som carregado de cansaço e medo.

— Soluço, faz anos. Nós temos uma vida aqui. Temos a Giovana. Olhe para ela.

— Eu olho para ela e vejo o que ele tirou de mim — Soluço se virou, os olhos injetados de sangue. — Eu vejo o avô que ela nunca vai conhecer. Eu vejo o homem que me quebrou e saiu rindo. Eu não consigo respirar, Astrid. Cada vez que fecho os olhos, eu ouço o som daquele cano batendo nele.

— Se você for, você pode não voltar — ela se levantou, a voz tremendo agora. — Você vai nos deixar sozinhas por causa de um fantasma?

— Eu já sou um fantasma — ele disse, pegando sua jaqueta de couro e o machado que ele mesmo forjara. — Eu volto quando terminar.

— Não vá! — ela gritou, mas Soluço já estava atravessando a porta, o motor da velha motocicleta rugindo na garagem improvisada.

A viagem levou dois dias. Ele seguiu os rastros de boatos e informações que vinha colhendo há meses. Alvin estava vivendo em um acampamento isolado, uma pequena comunidade de saqueadores que ele governava com mão de ferro.

Soluço não entrou como um herói. Ele entrou como um demônio. Ele usou a furtividade que a floresta lhe ensinara, eliminando os guardas um a um até chegar à cabana central.

Quando ele chutou a porta, Alvin estava sentado à mesa, envelhecido, mas ainda com aquele sorriso arrogante.

— Ora, se não é o pequeno Soluço. Veio para outra surra?

Soluço não disse uma palavra. Ele avançou como um lobo.

O combate foi brutal. Soluço não sentia dor, apenas o fogo da adrenalina. Ele derrubou Alvin, montando sobre ele e desferindo socos que quebravam ossos. Ele pegou o braço de Alvin e o torceu até ouvir o estalo seco do rádio. O grito de agonia do homem era a música que Soluço esperara vinte anos para ouvir.

— É por ele! — Soluço rugiu, levantando o machado para o golpe final. — É pelo meu pai!

— Papai?

A voz era pequena. Aguda.

Soluço congelou. Na porta do quarto dos fundos, uma menina de não mais que seis anos observava a cena, os olhos arregalados de terror, as mãos pequenas cobrindo a boca.

A hesitação de Soluço foi seu erro. Alvin, num último esforço de sobrevivência, puxou uma faca escondida na bota e golpeou a mão de Soluço. A lâmina desceu com força, decepando dois dedos da mão esquerda do rapaz.

Soluço soltou um urro de dor, recuando e segurando o coto ensanguentado. Ele olhou para a criança, depois para Alvin, que tossia sangue no chão, tentando se arrastar para perto da filha.

O ódio ainda estava lá, mas algo mais forte o atingiu: o espelho. Aquela menina era ele, vinte anos atrás. Se ele matasse Alvin agora, ele estaria criando o monstro que ele mesmo se tornara. Ele estaria perpetuando o ciclo de sangue que destruiu o mundo.

— Vá — disse Soluço, a voz rouca, a visão escurecendo pela perda de sangue. — Pegue ela e suma daqui. Se eu vir seu rosto de novo, eu não vou parar.

Alvin, trêmulo e humilhado, pegou a menina no colo e fugiu pela porta dos fundos, desaparecendo na floresta.

Soluço caiu de joelhos no chão sujo da cabana. Ele olhou para os dedos perdidos, para o sangue que não parava de jorrar. Ele estava sozinho. Ele tinha sua vingança pela metade e um vazio ainda maior no peito.

***

O retorno para a fazenda foi um borrão de dor e febre. Quando a motocicleta parou diante da varanda, Soluço mal conseguia se manter consciente. Ele caiu da moto antes mesmo de desligar o motor.

Astrid saiu correndo da casa, o rosto pálido.

— Soluço! Meu Deus, Soluço!

Ela o arrastou para dentro, ignorando os protestos fracos dele. Ela o colocou na mesa da cozinha, a mesma mesa onde eles tomavam café e planejavam o futuro de Giovana.

— Você é um idiota! — ela gritou, as lágrimas escorrendo enquanto ela rasgava a camisa dele para ver os ferimentos. — Você quase morreu! Por quê? Por que você fez isso?

Ela deu um tapa no ombro dele, um golpe carregado de frustração e medo, e depois o abraçou com tanta força que ele gemeu.

— Eu sinto muito — ele sussurrou, a voz falhando.

— Cale a boca — ela disse, começando a limpar o sangue dos cotos de seus dedos com água morna e antisséptico. — Apenas fique quieto.

O silêncio voltou, mas desta vez era diferente. Havia o som da água na bacia, o som da respiração pesada de Soluço e o choro distante de Giovana acordando no quarto ao lado.

Astrid trabalhava com precisão, costurando os ferimentos e enfaixando sua mão com cuidado maternal, apesar da raiva que ainda emanava dela. Quando terminou, ela limpou o sangue do rosto dele com um pano macio.

— Ele se foi? — ela perguntou finalmente.

— Ele não vai voltar — Soluço respondeu, fechando os olhos enquanto sentia o toque dela. — Mas eu também não voltei inteiro, Astrid.

— Você está vivo — ela encostou a testa na dele. — E você está em casa. Isso é tudo o que importa agora. O resto... o resto a gente cura com o tempo.

Soluço olhou para a mão enfaixada. Ele perdera partes de si naquela jornada, físicas e emocionais. Mas, ao sentir o calor da mão de Astrid e ouvir o chamado da filha, ele percebeu que o fantasma de Stoico não queria que ele vivesse no passado.

Pela primeira vez em anos, o silêncio da noite não parecia assustador. Ele era apenas o início de uma longa e dolorosa cura.
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