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Loucura

Fandom: Esquadrão suicida

Created: 4/24/2026

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RomanceDramaAngstHurt/ComfortDarkActionCrimePsychologicalThrillerDivergence
Contents

O Sorriso que a Cidade Esqueceu

O silêncio nas profundezas do Asilo Arkham nunca era realmente silencioso. Havia sempre um gotejar distante, o eco de um grito abafado ou o zunido constante das luzes fluorescentes que pareciam querer fritar o cérebro de quem estivesse sob elas. No entanto, para o Coringa, o mundo estava mudo há dois anos.

Ele se sentava na borda da cama de metal, as mãos pálidas e tatuadas repousando sobre os joelhos. O batom vermelho estava borrado, não por um ataque de riso, mas por puro desleixo. Desde que os agentes da ARGUS e a polícia de Gotham haviam invadido o seu antigo esconderijo e levado Clara, a luz da cidade parecia ter se apagado. Eles disseram que ela reagiu. Disseram que houve um tiroteio. Disseram que ela estava morta.

— Dois anos... — sussurrou ele, a voz rouca e sem o tom melódico de outrora. — Dois anos sem o meu raio de sol.

Clara não era como as outras mulheres que orbitavam o crime em Gotham. Ela era curvilínea, com bochechas que ficavam rosadas quando ele contava uma piada particularmente cruel, e uma risada extrovertida que preenchia os vazios da alma distorcida do Palhaço do Crime. Ela se achava insegura, reclamava das roupas que apertavam e de como não se sentia "vilã o suficiente", mas para ele, ela era a única coisa real em um mundo de papelão.

Enquanto isso, em uma instalação subterrânea a quilômetros dali, uma porta de aço pesado se abriu.

— Ela está pronta? — perguntou Amanda Waller, sua voz fria como gelo.

— Ela não fala nada há meses, senhora — respondeu um guarda, nervoso. — Mas o condicionamento foi concluído. Ela acredita que ele a abandonou naquela noite.

No centro da sala iluminada por um único refletor, Clara estava sentada. Ela parecia mais magra, mas as curvas que o Coringa tanto amava ainda estavam lá, agora envoltas em um uniforme cinza de detenta. Seus olhos, antes cheios de vida e diversão, estavam nublados por uma névoa de medicamentos e traumas.

A polícia não a matara. Eles a esconderam. Eles precisavam de uma alavanca, de uma arma secreta contra o homem que ninguém conseguia controlar. E agora, com a formação de um novo Esquadrão Suicida, Waller decidiu que era hora de usar sua peça mais valiosa.

— Clara — disse Waller, aproximando-se da luz. — Você se lembra por que está aqui?

Clara levantou a cabeça lentamente. O medo ainda brilhava no fundo de suas pupilas, a velha insegurança de que ela nunca seria boa o suficiente para sobreviver àquele mundo.

— Porque ele me deixou morrer — a voz de Clara saiu fraca, mas carregada de uma dor profunda. — Ele fugiu e me deixou com os policiais.

— Exatamente — mentiu Waller, sem um pingo de remorso. — Mas agora você tem uma chance de retribuição. Gotham está um caos. O Coringa escapou do Arkham hoje de manhã. Ele está destruindo tudo de novo. Se você nos ajudar a capturá-lo, você será livre.

Clara sentiu um aperto no peito. A ideia de ver o marido novamente a aterrorizava e a atraía ao mesmo tempo. Ela se lembrava de como ele a abraçava por trás, chamando-a de sua "Pudim Real", e de como ele dizia que sua beleza era a única coisa que fazia sentido no caos. Mas a dor da suposta traição era uma ferida aberta.

— Eu... eu não sou uma lutadora — disse ela, as mãos tremendo sobre o colo. — Eu sou apenas a Clara. Eu sou gordinha, sou lenta... eu vou estragar tudo.

Waller inclinou-se para frente, colocando uma mão pesada no ombro da mulher.

— Você é a única pessoa que ele não verá chegando. Você é a fraqueza dele.

***

As ruas de Gotham cheiravam a fumaça e ozônio. O Coringa estava no topo de um caminhão de lixo capotado, disparando uma metralhadora dourada para o alto enquanto seus capangas saqueavam uma joalheria. Ele ria, mas era um som vazio, um hábito mecânico.

— Onde você está, minha querida? — ele gritou para o céu escuro. — Onde estão os anjos que levaram minha piada favorita?

De repente, o som de botas táticas ecoou no asfalto. O Esquadrão Suicida estava se aproximando. Pistoleiro assumiu posição em um telhado próximo, e Arlequina — que agora agia de forma independente e com um ódio renovado pelo ex — saltou de um beco.

— Ora, ora, se não é o Sr. J! — exclamou Arlequina, girando seu martelo. — Veio para a festa?

O Coringa saltou do caminhão com uma agilidade felina, o rosto se contorcendo em uma careta de desprezo.

— Harley... Você sempre foi tão previsível. Onde está o resto do circo da Waller?

— Bem atrás de você, palhaço — disse o Pistoleiro pelo comunicador.

Mas não foi o Pistoleiro que chamou a atenção do Coringa. Foi uma figura que saiu das sombras, caminhando hesitante, vestindo um colete à prova de balas que parecia desconfortável em seu corpo.

O mundo parou. O Coringa deixou a arma cair no chão com um baque metálico. Suas pupilas se dilataram, e o sorriso desapareceu completamente, deixando apenas uma expressão de choque puro.

— Clara? — o nome saiu como um sopro, carregado de uma descrença que ele nunca havia demonstrado antes.

Clara parou a cinco metros de distância. Ela estava tremendo, as lágrimas já começando a trilhar caminhos limpos em seu rosto sujo de fuligem.

— Você me deixou — ela disse, a voz subindo de tom, a insegurança dando lugar a uma raiva desesperada. — Você me deixou naquele esconderijo! Eles disseram que você foi embora sem olhar para trás!

O Coringa deu um passo à frente, mas parou quando viu Clara levar a mão a uma arma no coldre.

— Minha boneca... minha doce, doce Clara... — Ele estendeu as mãos, as palmas para cima, em um gesto de rendição que ninguém em Gotham jamais presenciara. — Eles me disseram que você estava morta. Eu vi o sangue no chão. Eu queimei metade da cidade em seu funeral!

— Mentira! — gritou ela, soluçando. — Eu passei dois anos em uma cela escura! Eu achei que não era boa o suficiente para você me salvar! Eu achei que você tinha se cansado de mim porque eu não era... eu não era como elas!

O Coringa soltou uma risada curta, mas não era a sua risada de maníaco. Era uma risada quebrada, quase um choro.

— Como elas? Clara, você era a única coisa que não era uma piada! — Ele deu mais um passo, ignorando os lasers vermelhos do Pistoleiro apontados para sua cabeça. — Olhe para mim. Olhe nos meus olhos. Você acha que eu suportaria viver em um mundo onde você não existisse para rir das minhas maldades?

Clara hesitou. O modo como ele a olhava... não era o olhar de um monstro para sua presa. Era o olhar de um homem que tinha encontrado sua alma perdida no fundo de um abismo.

— Eles mentiram para nós, querida — continuou ele, sua voz agora suave, sedutora. — A polícia, a Waller... eles nos roubaram dois anos. Dois anos de beijos, de caos, de nós dois contra o mundo.

— Clara, não escute ele! — gritou Arlequina de longe. — Ele é um mestre em manipular pessoas!

Clara olhou para Arlequina e depois voltou para o marido. Ela se sentia pequena, sentia que o uniforme do esquadrão a sufocava. Mas, ao olhar para o Coringa, ela viu algo que ninguém mais via. Ela viu a dor que ele tentava esconder sob a maquiagem.

— Você realmente sentiu minha falta? — perguntou ela, a voz pequena, a velha insegurança brilhando nos olhos. — Mesmo eu sendo... apenas eu?

O Coringa chegou perto o suficiente para tocar o rosto dela. Seus dedos enluvados acariciaram a bochecha de Clara com uma ternura assustadora.

— Você é a minha rainha de Gotham. E uma rainha nunca é "apenas" nada.

Nesse momento, o rádio no colete de Clara chiou. Era a voz de Waller.

— Atire nele, Clara. Agora! Ou eu detono o dispositivo no seu pescoço!

Clara congelou. O medo da morte voltou a assombrá-la. Mas o Coringa apenas sorriu, um sorriso largo e genuíno.

— Deixe que tentem, minha querida.

Com um movimento rápido, o Coringa puxou um pequeno dispositivo do bolso — um bloqueador de sinal que ele vinha desenvolvendo desde que soube das táticas da ARGUS. Ele o ativou e, ao mesmo tempo, puxou Clara para um abraço apertado, protegendo-a com seu próprio corpo.

— Corra! — gritou o Pistoleiro, percebendo que o sinal de Waller havia sido cortado.

Mas o Coringa não ia fugir. Ele olhou para os seus capangas, que ainda esperavam ordens.

— Matem todos! — ordenou ele, a voz voltando ao seu tom autoritário e insano. — Mas protejam a Sra. C com suas vidas!

O caos recomeçou, mas no meio do tiroteio e das explosões, o Coringa segurava Clara como se ela fosse o tesouro mais precioso do universo.

— Senti tanta falta desse perfume — murmurou ele no ouvido dela, ignorando as balas que passavam perto.

Clara, sentindo o calor do corpo dele e o cheiro familiar de pólvora e colônia barata, finalmente deixou a arma cair. Ela o abraçou de volta, enterrando o rosto em seu ombro.

— Nunca mais me deixe — ela pediu, a voz abafada pelo tecido do paletó roxo.

— Eu vou queimar este mundo antes de permitir que encostem um dedo em você novamente — prometeu ele. — Agora, o que você acha de irmos para casa e planejarmos o que fazer com aquela mulher chamada Waller?

Clara olhou para ele, e pela primeira vez em dois anos, sua insegurança foi substituída por um brilho de malícia. Se Gotham a queria como uma vilã, se a polícia a queria como uma arma, ela daria a eles exatamente o que pediram. Mas ela faria isso ao lado do homem que a amava, não por ela ser perfeita, mas por ela ser exatamente quem era.

— Eu acho — disse Clara, limpando as lágrimas e dando um sorriso que rivalizava com o do marido — que eu gostaria de ver o escritório dela pegando fogo.

O Coringa soltou uma gargalhada que ecoou por toda a rua, um som de puro triunfo.

— Essa é a minha garota!

E assim, sob o céu avermelhado de Gotham, o rei e a rainha do crime se reuniram, prontos para lembrar à cidade que algumas piadas nunca perdem a graça, e que o amor, mesmo o mais distorcido, é a força mais perigosa de todas.
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