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meu anjo caido
Fandom: gow
Created: 5/1/2026
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AU (Alternate Universe)DramaAngstDarkActionCrimeGraphic ViolenceCharacter DeathMain Character DeathNoir
O Eclipse do Sol de Ouro
As luzes de neon de Midgard Gardens nunca pareceram tão artificiais quanto naquela noite. O asfalto úmido refletia o brilho intermitente dos letreiros de motéis e lojas de conveniência, criando um caleidoscópio de cores sujas sob as solas dos tênis de Heimdall. Aos dezoito anos, ele já carregava nos olhos uma fadiga que homens com o triplo da sua idade desconheciam. Ele era o "Vidente", o prodígio que ascendera na hierarquia do tráfico local com uma rapidez assustadora, capaz de antecipar o movimento da polícia e dos rivais antes mesmo que eles soubessem o que fariam.
Mas, ao lado dele, caminhando com uma leveza que desafiava a gravidade daquele submundo, estava Atreus.
Atreus era o erro estatístico na vida de Heimdall. Ele era a luz que se recusava a ser engolida pela escuridão do asfalto. Com seus cabelos castanhos bagunçados e olhos que pareciam conter a curiosidade de mil mundos, Atreus era a única coisa pura que Heimdall já havia tocado.
— Você está distraído hoje — disse Atreus, com um sorriso de canto que fez o coração de Heimdall falhar uma batida. — O grande Heimdall, que vê tudo, não percebeu que estamos andando em círculos há dez minutos?
Heimdall parou, ajustando a jaqueta de couro sobre os ombros. Ele olhou para o garoto à sua frente, sentindo aquela familiar pontada de incredulidade. Como alguém como Atreus podia existir? Como ele podia olhar para um traficante, um criminoso com as mãos sujas de sangue e dinheiro ilícito, e ver algo que valesse a pena amar?
— Eu não estou andando em círculos — mentiu Heimdall, aproximando-se para ajeitar o cachecol de Atreus. — Só estou escolhendo o caminho mais longo. A noite está... calma.
— Calma? — Atreus riu, um som que parecia música clássica em meio ao ruído de escapamentos furados. — Você odeia a calma, Heimdall. Você diz que o silêncio é onde os problemas se escondem.
— Com você é diferente — sussurrou Heimdall, sua voz perdendo a aspereza habitual. — Você é como um deus que caiu nesse lixo de cidade por engano. Às vezes tenho medo de que, se eu piscar, você vai simplesmente evaporar.
Atreus pegou a mão de Heimdall, entrelaçando seus dedos. A pele de Atreus era quente, um contraste gritante com o frio metálico da arma que Heimdall carregava na cintura.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Atreus. — A menos que você me mande embora.
Heimdall apertou a mão dele, um gesto possessivo e desesperado. Ele nunca o mandaria embora. Atreus era sua redenção silenciosa, o motivo pelo qual ele ainda tentava manter um resquício de humanidade sob a fachada de implacabilidade.
No entanto, nas sombras das marquises, outros olhos observavam. Olhos que não viam amor, mas sim fraqueza.
Magni e Modi, os "parceiros" de negócios de Heimdall, observavam de dentro de um SUV preto estacionado do outro lado da rua. Eles eram brutos, movidos por uma lógica de força e lucro, e para eles, Atreus era uma "distração". Desde que o garoto entrara na vida de Heimdall, as remessas estavam sendo conferidas com menos rigor, as reuniões terminavam mais cedo e o "Vidente" parecia mais preocupado em comprar flores do que em expandir o território.
— Ele está amolecendo — rosnou Magni, apertando o volante. — Um cão de guarda que começa a brincar com borboletas não serve para proteger a matilha.
— O pai não vai gostar disso — comentou Modi, verificando o carregador de sua pistola. — Se Heimdall não corta o câncer, nós cortamos por ele.
O plano já estava em movimento.
Heimdall sentiu um calafrio na nuca. Seus instintos, sua percepção aguçada que lhe rendera o apelido de Vidente, gritaram um aviso tardio. O ar mudou. O cheiro de ozônio e perigo saturou seus pulmões.
— Atreus, para trás — ordenou Heimdall, sua voz voltando a ser a lâmina afiada de sempre.
— O que foi? — Atreus perguntou, a confusão nublando seus olhos claros.
— Agora! — gritou Heimdall.
Mas era tarde demais. O SUV acelerou, subindo a calçada com um estrondo de metal e borracha. Heimdall empurrou Atreus para longe, mas o carro não estava ali para atropelá-los. Ele parou bruscamente, bloqueando a saída do beco para onde haviam acabado de entrar.
As portas se abriram. Magni, Modi e mais três homens armados saltaram.
— O que significa isso? — Heimdall rugiu, colocando-se na frente de Atreus, as mãos já buscando a arma. — Saiam daqui antes que eu perca a paciência.
— A paciência já acabou faz tempo, prodígio — disse Magni, caminhando para a frente com um sorriso cruel. — Você ficou lento. O amor faz isso com as pessoas. Ele te deixa cego.
— Ele não tem nada a ver com os negócios — disse Heimdall, sentindo um suor frio escorrer por suas costas. Pela primeira vez na vida, ele sentiu medo. Não por si mesmo, mas pela vida que pulsava atrás dele. — Deixem ele ir e resolveremos isso como homens.
— Ah, mas ele é o problema, Heimdall — Modi riu, apontando a arma diretamente para o peito de Atreus, que estava paralisado, os olhos arregalados de terror. — Você olha para ele e esquece quem você é. Nós estamos apenas devolvendo o foco para você.
— Não ouse — ameaçou Heimdall, sua voz trêmula de fúria. — Se você tocar nele, eu vou queimar o mundo inteiro com vocês dentro.
— Você não vai fazer nada — Magni sinalizou para os outros homens.
Em um movimento coordenado, dois homens avançaram sobre Heimdall. Ele lutou como um animal encurralado, derrubando o primeiro com uma coronhada e chutando o joelho do segundo, mas Magni era enorme e o atingiu com a base de um fuzil na nuca. Heimdall caiu de joelhos, a visão turvando, o sangue quente começando a ensopar seu cabelo.
— Não! Deixem ele em paz! — Atreus gritou, tentando correr para ajudar Heimdall, mas Modi o agarrou pelo colarinho, jogando-o contra a parede de tijolos do beco.
— Olhe bem, Heimdall — ordenou Magni, puxando a cabeça de Heimdall pelos cabelos para forçá-lo a assistir. — Veja o que acontece com as distrações.
— Por favor... — Heimdall implorou, uma palavra que nunca havia cruzado seus lábios anteriormente. — Matem a mim. Façam o que quiserem comigo, mas deixem ele! Magni, por favor!
Magni apenas riu, um som seco e sem alma.
Modi sacou uma faca longa e serrilhada. Ele olhou para Atreus com um desprezo profundo. Atreus, mesmo aterrorizado, não gritou. Ele olhou para Heimdall, e naqueles últimos segundos, não havia culpa ou medo em seu olhar, apenas uma tristeza infinita e um amor que Heimdall não merecia.
— Eu te amo — sussurrou Atreus, as palavras quase perdidas no som da chuva que começava a cair.
— NÃO! — o grito de Heimdall rasgou a noite, mas foi abafado pelo som da violência.
O que se seguiu foi um pesadelo em câmera lenta. Modi não foi rápido. Ele queria que a mensagem fosse clara. Atreus foi golpeado repetidamente, o brilho em seus olhos sendo substituído por uma névoa de dor e vazio. O sangue, tão vermelho e tão real, espirrou no asfalto sujo, misturando-se com a água da chuva.
Heimdall lutava contra os homens que o seguravam, seus dedos arranhando o chão, as unhas quebrando, a garganta em carne viva de tanto gritar. Ele viu a luz de sua vida ser apagada de forma brutal, sistemática e cruel.
Quando Modi finalmente terminou, ele limpou a lâmina na camisa de Atreus e chutou o corpo inerte para o lado, como se fosse nada mais do que lixo descartado.
— Agora você está livre, Vidente — disse Magni, soltando o cabelo de Heimdall. — Amanhã, às oito, na doca quatro. Não se atrase. Temos trabalho a fazer.
Os homens voltaram para o SUV e arrancaram, deixando o silêncio e o cheiro de morte para trás.
Heimdall ficou imóvel por um longo tempo, a chuva lavando o sangue de seu rosto, mas nada podia lavar o que ele acabara de presenciar. Com movimentos robóticos, ele se arrastou até o corpo de Atreus.
O garoto parecia tão pequeno agora. Tão frágil. Heimdall puxou o corpo para o seu colo, embalando-o como se Atreus estivesse apenas dormindo, ignorando o fato de que suas roupas estavam agora encharcadas com o sangue do único ser que ele já amara.
— Atreus... — ele sussurrou, encostando a testa na do garoto. — Acorda. Por favor, acorda. Eu te levo embora daqui. A gente vai para longe. Para onde não existam deuses, nem traficantes, nem sombras.
Mas não houve resposta. Apenas o som rítmico da chuva batendo nas latas de lixo.
O "Vidente" olhou para cima, para o céu escuro de Midgard Gardens. Ele sempre se orgulhara de ver tudo antes que acontecesse. Ele vira impérios caírem, vira homens morrerem por menos de dez dólares, vira a traição antes mesmo do primeiro aperto de mãos.
Mas ele não vira isso. Ele fora cego pela própria felicidade.
— Eles tiraram você de mim — Heimdall disse, sua voz agora baixa, desprovida de qualquer emoção, mais fria do que o gelo de Niflheim. — Eles tiraram a única coisa boa que eu já tive.
Ele beijou a testa fria de Atreus e, gentilmente, fechou os olhos do garoto.
— Você era um deus na terra, Atreus — continuou ele, levantando-se devagar, o corpo tremendo não de frio, mas de uma fúria que ameaçava consumir sua própria sanidade. — E eles são apenas homens.
Heimdall olhou para as próprias mãos, cobertas pelo sangue de Atreus. Ele não as limparia. Ele queria que aquele sangue secasse em sua pele, que se tornasse uma parte dele, um lembrete constante do que ele havia perdido e do que ele se tornaria agora.
A luz se apagara. O sol de ouro fora eclipsado pela ganância e pela brutalidade do mundo que Heimdall ajudara a construir.
— Magni. Modi. Odin — ele recitou os nomes como uma oração profana. — Eu vi o futuro de vocês. E ele é feito de cinzas.
Naquela noite, o traficante de dezoito anos morreu junto com seu namorado no beco sujo. O que se levantou dali, caminhando sob a chuva com o olhar fixo no vazio, era algo muito mais perigoso.
O Vidente não veria mais o perigo para evitá-lo. Ele seria o próprio perigo. Ele seria a tempestade que destruiria tudo o que tocasse, até que não restasse nada além do silêncio que Atreus tanto amava.
Ele caminhou em direção às luzes da cidade, deixando para trás o corpo da única pessoa que o vira como algo além de um monstro. E, enquanto desaparecia na escuridão, Heimdall soube que nunca mais sentiria calor. O mundo, a partir daquele momento, seria um inverno eterno.
Mas, ao lado dele, caminhando com uma leveza que desafiava a gravidade daquele submundo, estava Atreus.
Atreus era o erro estatístico na vida de Heimdall. Ele era a luz que se recusava a ser engolida pela escuridão do asfalto. Com seus cabelos castanhos bagunçados e olhos que pareciam conter a curiosidade de mil mundos, Atreus era a única coisa pura que Heimdall já havia tocado.
— Você está distraído hoje — disse Atreus, com um sorriso de canto que fez o coração de Heimdall falhar uma batida. — O grande Heimdall, que vê tudo, não percebeu que estamos andando em círculos há dez minutos?
Heimdall parou, ajustando a jaqueta de couro sobre os ombros. Ele olhou para o garoto à sua frente, sentindo aquela familiar pontada de incredulidade. Como alguém como Atreus podia existir? Como ele podia olhar para um traficante, um criminoso com as mãos sujas de sangue e dinheiro ilícito, e ver algo que valesse a pena amar?
— Eu não estou andando em círculos — mentiu Heimdall, aproximando-se para ajeitar o cachecol de Atreus. — Só estou escolhendo o caminho mais longo. A noite está... calma.
— Calma? — Atreus riu, um som que parecia música clássica em meio ao ruído de escapamentos furados. — Você odeia a calma, Heimdall. Você diz que o silêncio é onde os problemas se escondem.
— Com você é diferente — sussurrou Heimdall, sua voz perdendo a aspereza habitual. — Você é como um deus que caiu nesse lixo de cidade por engano. Às vezes tenho medo de que, se eu piscar, você vai simplesmente evaporar.
Atreus pegou a mão de Heimdall, entrelaçando seus dedos. A pele de Atreus era quente, um contraste gritante com o frio metálico da arma que Heimdall carregava na cintura.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Atreus. — A menos que você me mande embora.
Heimdall apertou a mão dele, um gesto possessivo e desesperado. Ele nunca o mandaria embora. Atreus era sua redenção silenciosa, o motivo pelo qual ele ainda tentava manter um resquício de humanidade sob a fachada de implacabilidade.
No entanto, nas sombras das marquises, outros olhos observavam. Olhos que não viam amor, mas sim fraqueza.
Magni e Modi, os "parceiros" de negócios de Heimdall, observavam de dentro de um SUV preto estacionado do outro lado da rua. Eles eram brutos, movidos por uma lógica de força e lucro, e para eles, Atreus era uma "distração". Desde que o garoto entrara na vida de Heimdall, as remessas estavam sendo conferidas com menos rigor, as reuniões terminavam mais cedo e o "Vidente" parecia mais preocupado em comprar flores do que em expandir o território.
— Ele está amolecendo — rosnou Magni, apertando o volante. — Um cão de guarda que começa a brincar com borboletas não serve para proteger a matilha.
— O pai não vai gostar disso — comentou Modi, verificando o carregador de sua pistola. — Se Heimdall não corta o câncer, nós cortamos por ele.
O plano já estava em movimento.
Heimdall sentiu um calafrio na nuca. Seus instintos, sua percepção aguçada que lhe rendera o apelido de Vidente, gritaram um aviso tardio. O ar mudou. O cheiro de ozônio e perigo saturou seus pulmões.
— Atreus, para trás — ordenou Heimdall, sua voz voltando a ser a lâmina afiada de sempre.
— O que foi? — Atreus perguntou, a confusão nublando seus olhos claros.
— Agora! — gritou Heimdall.
Mas era tarde demais. O SUV acelerou, subindo a calçada com um estrondo de metal e borracha. Heimdall empurrou Atreus para longe, mas o carro não estava ali para atropelá-los. Ele parou bruscamente, bloqueando a saída do beco para onde haviam acabado de entrar.
As portas se abriram. Magni, Modi e mais três homens armados saltaram.
— O que significa isso? — Heimdall rugiu, colocando-se na frente de Atreus, as mãos já buscando a arma. — Saiam daqui antes que eu perca a paciência.
— A paciência já acabou faz tempo, prodígio — disse Magni, caminhando para a frente com um sorriso cruel. — Você ficou lento. O amor faz isso com as pessoas. Ele te deixa cego.
— Ele não tem nada a ver com os negócios — disse Heimdall, sentindo um suor frio escorrer por suas costas. Pela primeira vez na vida, ele sentiu medo. Não por si mesmo, mas pela vida que pulsava atrás dele. — Deixem ele ir e resolveremos isso como homens.
— Ah, mas ele é o problema, Heimdall — Modi riu, apontando a arma diretamente para o peito de Atreus, que estava paralisado, os olhos arregalados de terror. — Você olha para ele e esquece quem você é. Nós estamos apenas devolvendo o foco para você.
— Não ouse — ameaçou Heimdall, sua voz trêmula de fúria. — Se você tocar nele, eu vou queimar o mundo inteiro com vocês dentro.
— Você não vai fazer nada — Magni sinalizou para os outros homens.
Em um movimento coordenado, dois homens avançaram sobre Heimdall. Ele lutou como um animal encurralado, derrubando o primeiro com uma coronhada e chutando o joelho do segundo, mas Magni era enorme e o atingiu com a base de um fuzil na nuca. Heimdall caiu de joelhos, a visão turvando, o sangue quente começando a ensopar seu cabelo.
— Não! Deixem ele em paz! — Atreus gritou, tentando correr para ajudar Heimdall, mas Modi o agarrou pelo colarinho, jogando-o contra a parede de tijolos do beco.
— Olhe bem, Heimdall — ordenou Magni, puxando a cabeça de Heimdall pelos cabelos para forçá-lo a assistir. — Veja o que acontece com as distrações.
— Por favor... — Heimdall implorou, uma palavra que nunca havia cruzado seus lábios anteriormente. — Matem a mim. Façam o que quiserem comigo, mas deixem ele! Magni, por favor!
Magni apenas riu, um som seco e sem alma.
Modi sacou uma faca longa e serrilhada. Ele olhou para Atreus com um desprezo profundo. Atreus, mesmo aterrorizado, não gritou. Ele olhou para Heimdall, e naqueles últimos segundos, não havia culpa ou medo em seu olhar, apenas uma tristeza infinita e um amor que Heimdall não merecia.
— Eu te amo — sussurrou Atreus, as palavras quase perdidas no som da chuva que começava a cair.
— NÃO! — o grito de Heimdall rasgou a noite, mas foi abafado pelo som da violência.
O que se seguiu foi um pesadelo em câmera lenta. Modi não foi rápido. Ele queria que a mensagem fosse clara. Atreus foi golpeado repetidamente, o brilho em seus olhos sendo substituído por uma névoa de dor e vazio. O sangue, tão vermelho e tão real, espirrou no asfalto sujo, misturando-se com a água da chuva.
Heimdall lutava contra os homens que o seguravam, seus dedos arranhando o chão, as unhas quebrando, a garganta em carne viva de tanto gritar. Ele viu a luz de sua vida ser apagada de forma brutal, sistemática e cruel.
Quando Modi finalmente terminou, ele limpou a lâmina na camisa de Atreus e chutou o corpo inerte para o lado, como se fosse nada mais do que lixo descartado.
— Agora você está livre, Vidente — disse Magni, soltando o cabelo de Heimdall. — Amanhã, às oito, na doca quatro. Não se atrase. Temos trabalho a fazer.
Os homens voltaram para o SUV e arrancaram, deixando o silêncio e o cheiro de morte para trás.
Heimdall ficou imóvel por um longo tempo, a chuva lavando o sangue de seu rosto, mas nada podia lavar o que ele acabara de presenciar. Com movimentos robóticos, ele se arrastou até o corpo de Atreus.
O garoto parecia tão pequeno agora. Tão frágil. Heimdall puxou o corpo para o seu colo, embalando-o como se Atreus estivesse apenas dormindo, ignorando o fato de que suas roupas estavam agora encharcadas com o sangue do único ser que ele já amara.
— Atreus... — ele sussurrou, encostando a testa na do garoto. — Acorda. Por favor, acorda. Eu te levo embora daqui. A gente vai para longe. Para onde não existam deuses, nem traficantes, nem sombras.
Mas não houve resposta. Apenas o som rítmico da chuva batendo nas latas de lixo.
O "Vidente" olhou para cima, para o céu escuro de Midgard Gardens. Ele sempre se orgulhara de ver tudo antes que acontecesse. Ele vira impérios caírem, vira homens morrerem por menos de dez dólares, vira a traição antes mesmo do primeiro aperto de mãos.
Mas ele não vira isso. Ele fora cego pela própria felicidade.
— Eles tiraram você de mim — Heimdall disse, sua voz agora baixa, desprovida de qualquer emoção, mais fria do que o gelo de Niflheim. — Eles tiraram a única coisa boa que eu já tive.
Ele beijou a testa fria de Atreus e, gentilmente, fechou os olhos do garoto.
— Você era um deus na terra, Atreus — continuou ele, levantando-se devagar, o corpo tremendo não de frio, mas de uma fúria que ameaçava consumir sua própria sanidade. — E eles são apenas homens.
Heimdall olhou para as próprias mãos, cobertas pelo sangue de Atreus. Ele não as limparia. Ele queria que aquele sangue secasse em sua pele, que se tornasse uma parte dele, um lembrete constante do que ele havia perdido e do que ele se tornaria agora.
A luz se apagara. O sol de ouro fora eclipsado pela ganância e pela brutalidade do mundo que Heimdall ajudara a construir.
— Magni. Modi. Odin — ele recitou os nomes como uma oração profana. — Eu vi o futuro de vocês. E ele é feito de cinzas.
Naquela noite, o traficante de dezoito anos morreu junto com seu namorado no beco sujo. O que se levantou dali, caminhando sob a chuva com o olhar fixo no vazio, era algo muito mais perigoso.
O Vidente não veria mais o perigo para evitá-lo. Ele seria o próprio perigo. Ele seria a tempestade que destruiria tudo o que tocasse, até que não restasse nada além do silêncio que Atreus tanto amava.
Ele caminhou em direção às luzes da cidade, deixando para trás o corpo da única pessoa que o vira como algo além de um monstro. E, enquanto desaparecia na escuridão, Heimdall soube que nunca mais sentiria calor. O mundo, a partir daquele momento, seria um inverno eterno.
