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A bela e a fera
Fandom: Wandinha addams,e eu Karen. Sou gordinha,baixa,docinha,tipo Gomez.
Created: 5/2/2026
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RomanceDramaAngstSlice of LifeCurtainfic / Domestic StoryJealousyAU (Alternate Universe)Character StudyGothic NoirFluffPsychologicalHurt/ComfortSoulmatesFix-itFantasyExplicit Language
Espinhos, Estrelas e o Perfume de Dálias
O ar de Jericho estava pesado com a umidade que precedia uma tempestade, o tipo de clima que Wandinha Addams considerava "confortável", mas que fazia meus cabelos cacheados ganharem vida própria. Eu caminhava ao lado dela, sentindo a diferença gritante entre nossas silhuetas. Wandinha era uma linha reta, afiada e pálida, vestida em seu habitual preto fúnebre que parecia absorver a luz do sol. Eu, por outro lado, era feita de curvas suaves e baixa estatura, uma versão feminina e ligeiramente mais "doce" do temperamento de Gomez Addams, embora sem o bigode e com muito mais paciência.
— Você está andando devagar demais, Karen — observou Wandinha, sem desviar os olhos do caminho à frente. — Se continuarmos nesse ritmo, a loja fechará antes de encontrarmos o que você deseja. E eu detesto ineficiência quase tanto quanto detesto cores primárias.
Sorri, ajustando a alça da minha bolsa. Eu conhecia aquele tom. Não era irritação real, era apenas o jeito dela de dizer que estava prestando atenção em mim.
— O mundo não vai acabar se chegarmos cinco minutos mais tarde, Wandinha — respondi, minha voz soando como mel perto do granito da dela. — Além disso, Dália merece o vestido perfeito. É o primeiro aniversário dela. Uma data única.
Wandinha soltou um suspiro que beirava o imperceptível.
— Um ano desde que aquela criatura barulhenta e fascinante emergiu para reivindicar nossas noites de sono. Nomeá-la em homenagem às dálias negras foi a única decisão sensata que tomamos naquele hospital.
— Foi uma decisão linda — corrigi suavemente. — E ela tem os seus olhos. Mas o apetite... bem, o apetite é todo meu.
Senti o olhar de Wandinha vacilar por um segundo, descendo para o contorno do meu rosto e para a forma como meu vestido floral (em tons escuros, para agradá-la, claro) abraçava meu corpo. Havia algo ali, uma chama antiga que ela tentava enterrar sob camadas de indiferença gótica, mas que eu fingia não notar. Para o bem da nossa convivência e da criação de Dália, eu mantinha a fachada de "apenas boas amigas e co-mães". Mas, às vezes, o jeito que ela segurava a porta para mim ou a forma como sua mão roçava a minha "acidentalmente" tornava o disfarce difícil de manter.
Entramos na pequena boutique infantil no centro da cidade. Era um lugar excessivamente iluminado para o gosto de Wandinha, mas eles tinham a peça exclusiva que eu havia encomendado: um vestido de tule azul-noite, coberto por pequenas estrelas prateadas que brilhavam como facas sob a luz.
— Ali está — apontei, meus olhos brilhando. — Não é perfeito? Estrelas para iluminar a escuridão, exatamente como ela é para nós.
Wandinha aproximou-se do cabide com a cautela de quem analisa um artefato amaldiçoado. Ela tocou o tecido fino com as pontas dos dedos pálidos.
— É aceitável — declarou ela, embora eu pudesse ver o brilho de aprovação em suas íris escuras. — As estrelas têm pontas agudas o suficiente. Lembra-me de constelações moribundas. Dália ficará adequadamente sombria, porém festiva.
— Eu sabia que você ia gostar — eu disse, aproximando-me dela. O perfume de Wandinha — terra molhada e algo que lembrava veneno de beladona — invadiu meus sentidos. — Ela vai ser a estrela da festa. Literalmente.
— Karen — Wandinha chamou, sua voz baixando um oitava, tornando-se aquele sussurro que costumava me fazer estremecer quando ainda éramos um casal.
— Sim? — respondi, tentando manter a voz firme e o coração no ritmo normal.
— Por que você insiste em fingir que esse acordo de "boa convivência" é puramente pragmático? — Ela se virou para mim, a distância entre nós reduzida a meros centímetros. — Você me olha como se estivesse lendo um livro de feitiços proibidos que ainda deseja conjurar.
Engoli em seco, sentindo o calor subir pelas minhas bochechas. Eu era baixa, precisava inclinar a cabeça consideravelmente para encará-la, o que me deixava em uma posição vulnerável que ela adorava explorar.
— Somos ex, Wandinha. Temos uma filha. É importante que sejamos civilizadas — eu disse, embora minhas mãos estivessem inquietas. — O que passou, passou.
— O passado é um cadáver que eu me recuso a enterrar, e você sabe disso — rebateu ela, dando um passo à frente, obrigando-me a recuar até que minhas costas batessem no balcão de vidro da loja. — Sua doçura sempre foi o contraveneno para o meu cinismo. E eu nunca fui boa em abrir mão de minhas posses mais preciosas.
— Eu não sou uma posse — retruquei, tentando manter o tom "docinho" que meu pai sempre dizia ser minha maior arma. — E você foi quem disse que o amor era uma fraqueza que nublava o julgamento.
— E eu estava certa — disse ela, sua mão subindo para afastar uma mecha de cabelo do meu rosto. O toque era frio, mas queimava. — Meu julgamento está completamente nublado desde que você decidiu que seríamos apenas "boas convivências". É uma tortura medieval requintada. Eu quase admiro sua crueldade em me manter por perto sem me deixar tocar.
— Wandinha... — suspirei, fechando os olhos por um breve momento. — Estamos aqui pelo vestido da Dália. Faltam dois dias para a festa. Não vamos complicar as coisas.
Ela se afastou subitamente, a expressão voltando à máscara de mármore habitual.
— Complicar as coisas é a especialidade da nossa família. Mas você está certa. A herdeira do caos precisa de sua armadura estelar.
Paguei pelo vestido enquanto Wandinha observava a vitrine com um desdém fingido. Quando saímos da loja, a chuva finalmente começou a cair, gotas grossas e pesadas. Wandinha abriu um guarda-chuva preto imenso e, sem dizer uma palavra, puxou-me para perto, protegendo-me da água.
Caminhamos em silêncio por alguns minutos, o som da chuva contra o tecido do guarda-chuva criando uma bolha de isolamento do resto do mundo. Eu sentia o ombro dela contra o meu, a firmeza de sua presença.
— Sabe — comecei, tentando quebrar o gelo —, eu comprei as dálias negras para a decoração. O florista achou que eu estava planejando um funeral, mas eu expliquei que era para o aniversário de um ano.
— O que, tecnicamente, é o funeral da infância precoce — comentou Wandinha. — Uma celebração adequada. Dália vai apreciar o esforço. Ela já demonstra um interesse saudável por aranhas e por sabotar os brinquedos que o seu tio Pugsley envia.
— Ela é incrível — sorri, sentindo uma onda de amor puro. — E ela ama você, Wandinha. O jeito que ela para de chorar quando você lê aqueles poemas fúnebres para ela... é a coisa mais bizarra e fofa que eu já vi.
Wandinha parou de andar, fazendo com que eu parasse também. Estávamos sob a marquise de uma antiga livraria.
— Ela ama você porque você é o sol dela, Karen — disse Wandinha, olhando para a rua inundada. — E eu... eu sou apenas a sombra que tenta protegê-la. Mas até as sombras precisam de algo para se projetar.
— Você não é "apenas" nada, Wandinha Addams — eu disse, pegando a mão dela que não segurava o guarda-chuva. — Você é a mãe dela. E você foi... você é a pessoa mais importante da minha vida, mesmo que o rótulo tenha mudado.
Wandinha apertou minha mão. Não era o aperto de uma amiga. Era o aperto de alguém que não tinha intenção de soltar, nunca.
— O rótulo é irrelevante — declarou ela. — As correntes que nos prendem são feitas de algo muito mais resistente do que definições sociais. Vá para casa, Karen. Prepare o vestido. Eu chegarei em breve com as velas negras e o ponche de frutas silvestres fermentadas.
— Você não vem agora? — perguntei, sentindo uma pontada de decepção que tentei esconder.
— Tenho um assunto a tratar com o confeiteiro — respondeu ela, um brilho perigoso nos olhos. — Ele sugeriu colocar um unicórnio de açúcar no topo do bolo. Preciso garantir que ele entenda que, se o fizer, o unicórnio será a menor das preocupações dele.
Ri alto, o som ecoando pela rua deserta.
— Não o assuste demais, Wandinha. Ainda precisamos do bolo.
— Ele sobreviverá. Provavelmente — ela disse, inclinando-se levemente. Por um segundo, achei que ela me beijaria, mas ela apenas encostou a testa na minha, um gesto de intimidade que doeu mais do que qualquer distância. — Até logo, caríssima.
Ela se virou e caminhou pela chuva, uma silhueta solitária e poderosa. Eu fiquei ali, segurando a sacola com o vestido de estrelinhas, o coração acelerado. Eu podia fingir o quanto quisesse que éramos apenas "boas convivências", mas a verdade era que, no universo de Wandinha Addams, eu era a única estrela que ela permitia brilhar em sua noite eterna. E, enquanto eu caminhava de volta para casa, pensando na nossa pequena Dália, eu sabia que a festa de um ano seria apenas o começo de um novo capítulo, onde as sombras e a luz finalmente encontrariam um equilíbrio... ou um caos deliciosamente planejado.
— Você está andando devagar demais, Karen — observou Wandinha, sem desviar os olhos do caminho à frente. — Se continuarmos nesse ritmo, a loja fechará antes de encontrarmos o que você deseja. E eu detesto ineficiência quase tanto quanto detesto cores primárias.
Sorri, ajustando a alça da minha bolsa. Eu conhecia aquele tom. Não era irritação real, era apenas o jeito dela de dizer que estava prestando atenção em mim.
— O mundo não vai acabar se chegarmos cinco minutos mais tarde, Wandinha — respondi, minha voz soando como mel perto do granito da dela. — Além disso, Dália merece o vestido perfeito. É o primeiro aniversário dela. Uma data única.
Wandinha soltou um suspiro que beirava o imperceptível.
— Um ano desde que aquela criatura barulhenta e fascinante emergiu para reivindicar nossas noites de sono. Nomeá-la em homenagem às dálias negras foi a única decisão sensata que tomamos naquele hospital.
— Foi uma decisão linda — corrigi suavemente. — E ela tem os seus olhos. Mas o apetite... bem, o apetite é todo meu.
Senti o olhar de Wandinha vacilar por um segundo, descendo para o contorno do meu rosto e para a forma como meu vestido floral (em tons escuros, para agradá-la, claro) abraçava meu corpo. Havia algo ali, uma chama antiga que ela tentava enterrar sob camadas de indiferença gótica, mas que eu fingia não notar. Para o bem da nossa convivência e da criação de Dália, eu mantinha a fachada de "apenas boas amigas e co-mães". Mas, às vezes, o jeito que ela segurava a porta para mim ou a forma como sua mão roçava a minha "acidentalmente" tornava o disfarce difícil de manter.
Entramos na pequena boutique infantil no centro da cidade. Era um lugar excessivamente iluminado para o gosto de Wandinha, mas eles tinham a peça exclusiva que eu havia encomendado: um vestido de tule azul-noite, coberto por pequenas estrelas prateadas que brilhavam como facas sob a luz.
— Ali está — apontei, meus olhos brilhando. — Não é perfeito? Estrelas para iluminar a escuridão, exatamente como ela é para nós.
Wandinha aproximou-se do cabide com a cautela de quem analisa um artefato amaldiçoado. Ela tocou o tecido fino com as pontas dos dedos pálidos.
— É aceitável — declarou ela, embora eu pudesse ver o brilho de aprovação em suas íris escuras. — As estrelas têm pontas agudas o suficiente. Lembra-me de constelações moribundas. Dália ficará adequadamente sombria, porém festiva.
— Eu sabia que você ia gostar — eu disse, aproximando-me dela. O perfume de Wandinha — terra molhada e algo que lembrava veneno de beladona — invadiu meus sentidos. — Ela vai ser a estrela da festa. Literalmente.
— Karen — Wandinha chamou, sua voz baixando um oitava, tornando-se aquele sussurro que costumava me fazer estremecer quando ainda éramos um casal.
— Sim? — respondi, tentando manter a voz firme e o coração no ritmo normal.
— Por que você insiste em fingir que esse acordo de "boa convivência" é puramente pragmático? — Ela se virou para mim, a distância entre nós reduzida a meros centímetros. — Você me olha como se estivesse lendo um livro de feitiços proibidos que ainda deseja conjurar.
Engoli em seco, sentindo o calor subir pelas minhas bochechas. Eu era baixa, precisava inclinar a cabeça consideravelmente para encará-la, o que me deixava em uma posição vulnerável que ela adorava explorar.
— Somos ex, Wandinha. Temos uma filha. É importante que sejamos civilizadas — eu disse, embora minhas mãos estivessem inquietas. — O que passou, passou.
— O passado é um cadáver que eu me recuso a enterrar, e você sabe disso — rebateu ela, dando um passo à frente, obrigando-me a recuar até que minhas costas batessem no balcão de vidro da loja. — Sua doçura sempre foi o contraveneno para o meu cinismo. E eu nunca fui boa em abrir mão de minhas posses mais preciosas.
— Eu não sou uma posse — retruquei, tentando manter o tom "docinho" que meu pai sempre dizia ser minha maior arma. — E você foi quem disse que o amor era uma fraqueza que nublava o julgamento.
— E eu estava certa — disse ela, sua mão subindo para afastar uma mecha de cabelo do meu rosto. O toque era frio, mas queimava. — Meu julgamento está completamente nublado desde que você decidiu que seríamos apenas "boas convivências". É uma tortura medieval requintada. Eu quase admiro sua crueldade em me manter por perto sem me deixar tocar.
— Wandinha... — suspirei, fechando os olhos por um breve momento. — Estamos aqui pelo vestido da Dália. Faltam dois dias para a festa. Não vamos complicar as coisas.
Ela se afastou subitamente, a expressão voltando à máscara de mármore habitual.
— Complicar as coisas é a especialidade da nossa família. Mas você está certa. A herdeira do caos precisa de sua armadura estelar.
Paguei pelo vestido enquanto Wandinha observava a vitrine com um desdém fingido. Quando saímos da loja, a chuva finalmente começou a cair, gotas grossas e pesadas. Wandinha abriu um guarda-chuva preto imenso e, sem dizer uma palavra, puxou-me para perto, protegendo-me da água.
Caminhamos em silêncio por alguns minutos, o som da chuva contra o tecido do guarda-chuva criando uma bolha de isolamento do resto do mundo. Eu sentia o ombro dela contra o meu, a firmeza de sua presença.
— Sabe — comecei, tentando quebrar o gelo —, eu comprei as dálias negras para a decoração. O florista achou que eu estava planejando um funeral, mas eu expliquei que era para o aniversário de um ano.
— O que, tecnicamente, é o funeral da infância precoce — comentou Wandinha. — Uma celebração adequada. Dália vai apreciar o esforço. Ela já demonstra um interesse saudável por aranhas e por sabotar os brinquedos que o seu tio Pugsley envia.
— Ela é incrível — sorri, sentindo uma onda de amor puro. — E ela ama você, Wandinha. O jeito que ela para de chorar quando você lê aqueles poemas fúnebres para ela... é a coisa mais bizarra e fofa que eu já vi.
Wandinha parou de andar, fazendo com que eu parasse também. Estávamos sob a marquise de uma antiga livraria.
— Ela ama você porque você é o sol dela, Karen — disse Wandinha, olhando para a rua inundada. — E eu... eu sou apenas a sombra que tenta protegê-la. Mas até as sombras precisam de algo para se projetar.
— Você não é "apenas" nada, Wandinha Addams — eu disse, pegando a mão dela que não segurava o guarda-chuva. — Você é a mãe dela. E você foi... você é a pessoa mais importante da minha vida, mesmo que o rótulo tenha mudado.
Wandinha apertou minha mão. Não era o aperto de uma amiga. Era o aperto de alguém que não tinha intenção de soltar, nunca.
— O rótulo é irrelevante — declarou ela. — As correntes que nos prendem são feitas de algo muito mais resistente do que definições sociais. Vá para casa, Karen. Prepare o vestido. Eu chegarei em breve com as velas negras e o ponche de frutas silvestres fermentadas.
— Você não vem agora? — perguntei, sentindo uma pontada de decepção que tentei esconder.
— Tenho um assunto a tratar com o confeiteiro — respondeu ela, um brilho perigoso nos olhos. — Ele sugeriu colocar um unicórnio de açúcar no topo do bolo. Preciso garantir que ele entenda que, se o fizer, o unicórnio será a menor das preocupações dele.
Ri alto, o som ecoando pela rua deserta.
— Não o assuste demais, Wandinha. Ainda precisamos do bolo.
— Ele sobreviverá. Provavelmente — ela disse, inclinando-se levemente. Por um segundo, achei que ela me beijaria, mas ela apenas encostou a testa na minha, um gesto de intimidade que doeu mais do que qualquer distância. — Até logo, caríssima.
Ela se virou e caminhou pela chuva, uma silhueta solitária e poderosa. Eu fiquei ali, segurando a sacola com o vestido de estrelinhas, o coração acelerado. Eu podia fingir o quanto quisesse que éramos apenas "boas convivências", mas a verdade era que, no universo de Wandinha Addams, eu era a única estrela que ela permitia brilhar em sua noite eterna. E, enquanto eu caminhava de volta para casa, pensando na nossa pequena Dália, eu sabia que a festa de um ano seria apenas o começo de um novo capítulo, onde as sombras e a luz finalmente encontrariam um equilíbrio... ou um caos deliciosamente planejado.
