Fanfy
.studio
Loading...
Background image
← Back
0 likes

Armas e seringas

Fandom: História original

Created: 5/3/2026

Tags

DarkPsychologicalCharacter StudyBiopunkHuman ExperimentationDrug UseGothic NoirCrimeAngstDystopiaAU (Alternate Universe)Self-HarmDiscriminationThrillerHurt/Comfort
Contents

O Sorriso da Rata no Escuro do Morcego

O sinal do intervalo ecoou pelos corredores da escola como um alarme de incêndio, mas para Renata, era apenas a trilha sonora de mais uma oportunidade de observação. Ela não se apressou. Guardou seus cadernos rabiscados com esquemas químicos e diagramas de morcegos de forma lenta, sentindo o olhar de nojo de uma das garotas populares que passava por sua mesa.

— Sai da frente, Rata Gorda — sibilou a garota, desviando o caminho para não encostar no braço de Renata.

Renata soltou uma risadinha anasalada, ajustando os óculos de grau grosso que insistiam em escorregar pelo nariz oleoso. Ela passou a língua pelos dentes, sentindo o gosto metálico de um pequeno corte que ela mesma fizera na bochecha mais cedo, apenas para sentir a pulsação da dor.

— Ratos sobrevivem ao apocalipse, sabiam? — murmurou Renata para as costas da garota, que já estava longe. — Vocês são apenas baratas que morrem com o primeiro spray de veneno.

Ela se levantou, ajeitando a camiseta desbotada que trazia o emblema do Batman desgastado pelo uso excessivo. Por baixo da calça larga, ela sentia o conforto de sua roupa íntima temática; era seu pequeno segredo, sua armadura de algodão. Ela sabia quem era o herói. Ela sabia quem estava por trás da máscara de frieza que caminhava solitário pelos corredores.

Breno estava sentado no canto mais afastado do pátio, sob a sombra de uma figueira antiga. Ele mantinha a cabeça baixa, os cabelos pretos caindo sobre os olhos azuis que pareciam ter perdido o brilho no dia em que seus pais foram enterrados. Ele era forte, os músculos tensionados sob o uniforme escolar, mas sua postura era a de alguém que carregava o peso do mundo — ou de Gotham, como Renata gostava de imaginar — nos ombros.

Renata caminhou em sua direção com um andar pesado e desajeitado, ignorando as risadinhas e os comentários maldosos que surgiam em sua passagem. Ela adorava o desconforto que causava. Ela adorava ser o erro no sistema daquela escola de adolescentes fúteis.

Ela parou diante de Breno, projetando sua sombra sobre o livro que ele tentava ler.

— Você está com olheiras hoje, Breno — disse ela, o tom de voz carregado de um sarcasmo ácido. — A noite foi produtiva nos telhados ou o vovô bilionário esqueceu de desligar o aquecimento da bat-caverna?

Breno nem sequer levantou o olhar de imediato. Seus dedos apertaram as bordas do livro com tanta força que as juntas ficaram brancas.

— Vá embora, Renata — disse ele, a voz fria e profunda. — Eu não estou com paciência para as suas alucinações.

Renata soltou uma gargalhada rouca, sentando-se pesadamente ao lado dele, invadindo seu espaço pessoal sem a menor cerimônia. Ela podia sentir o cheiro dele — sabão neutro e algo metálico, como sangue seco ou armadura de Kevlar.

— Alucinações? — Ela se inclinou, sussurrando perto do ouvido dele, ignorando o fato de que sua pele estava brilhando de suor e espinhas. — Eu te sequestrei, Breno. Eu te amarrei naquela cadeira no meu porão semana passada. Eu vi as cicatrizes nas suas costas. Eu vi a dor nos seus olhos quando eu apertei os parafusos. Você não é um herói para mim, você é meu brinquedo favorito.

Breno finalmente olhou para ela. Seus olhos azuis eram como gelo, mas havia uma faísca de irritação que Renata adorava acender. Ele se sentia humilhado por ter sido pego por ela, por aquela garota que todos desprezavam, mas que possuía uma inteligência perversa e um laboratório que faria muitos cientistas profissionais terem inveja.

— Aquilo foi um erro — Breno rosnou, fechando o livro com um estrondo. — Você me pegou desprevenido. Não vai acontecer de novo.

— Ah, vai sim — ela sorriu, revelando dentes levemente tortos. — Porque você gosta, não gosta? Do jeito que eu te trato. Ninguém mais aqui embaixo sabe quem você é. Eles te chamam de esquisito, de órfão rico e triste. Mas eu? Eu conheço o monstro que rasteja no escuro. E eu sou a única que não tem medo de ser mordida por ele.

Breno sentiu um arrepio de raiva e algo que ele se recusava a admitir como fascínio. Renata era repulsiva para os padrões da sociedade, mas ela era a única pessoa que falava com ele sem piedade ou interesse financeiro. Ela era pura em sua malícia.

— O que você quer, Renata? — perguntou ele, tentando manter o controle. — Dinheiro? Eu posso pedir ao meu avô para comprar o seu silêncio.

Renata soltou um som de desdém, cutucando uma espinha inflamada no queixo até que um pouco de sangue brotasse. Ela limpou o dedo na própria calça.

— Dinheiro é para gente medíocre, Breno. Eu quero o que o dinheiro não compra. Eu quero ver o Batman se ajoelhar para a Rata Gorda. Eu quero que você admita que, sem as suas bugigangas e o seu dinheiro, você é tão quebrado quanto eu. Talvez mais.

— Nós não somos iguais — afirmou Breno, levantando-se para sair.

Renata foi mais rápida, segurando-o pelo pulso. A força dela o surpreendeu; não era a força de um atleta, mas a persistência de alguém que nunca soltava sua presa.

— Somos sim — disse ela, os olhos brilhando por trás das lentes grossas. — Eu tenho um novo composto químico no porão. Algo que vai acelerar a sua regeneração, ou talvez te deixar em coma por três dias. Eu ainda não testei em humanos. O que acha de uma visita hoje à noite?

Breno tentou puxar o braço, mas a proximidade dela o deixava tonto. O cheiro de produtos químicos e óleo de cabelo dela era sufocante, mas havia uma verdade crua naquelas palavras que o prendia.

— Você é doente — disse ele, embora sua voz não tivesse a convicção de antes.

— E você é um vigilante fantasiado que soca criminosos para lidar com o trauma de ver os pais morrerem em um beco — rebateu ela, soltando o pulso dele com um empurrão. — Quem é o mais doente aqui?

Breno ficou em silêncio por um longo momento. Ao redor deles, o pátio fervilhava com a vida normal de estudantes que se preocupavam com notas e namoros. Eles dois eram ilhas de escuridão em um mar de futilidade.

— Meia-noite? — perguntou Breno, quase num sussurro, a derrota pesando em seus ombros.

Renata abriu um sorriso largo, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava uma satisfação predatória.

— Meia-noite, meu herói. Traga a máscara. Eu gosto de olhar para os olhos brancos dela enquanto eu te vejo sangrar.

Ela se levantou, limpando as migalhas inexistentes de sua calça. Antes de sair, ela deu um tapinha no ombro de Breno, um gesto que parecia carinhoso, mas que deixou uma mancha de gordura no tecido caro de sua blusa.

— E Breno? — Ela parou e olhou por cima do ombro. — Não se atrase. Eu odeio quando minhas cobaias perdem o horário.

Breno a viu caminhar de volta para o prédio principal. Ela andava com os ombros curvados, a mochila pesada batendo contra as costas, sendo o alvo de olhares de escárnio de todos os lados. Ele sentiu uma pontada de raiva — não dela, mas dos outros. Eles não tinham ideia do perigo que aquela "Rata" representava. Eles não sabiam que ela era a única pessoa na cidade capaz de colocar o Batman de joelhos e fazê-lo agradecer por isso.

Ele se sentou novamente, mas o livro já não fazia sentido. Sua mente estava no porão escuro, nos frascos de vidro, no cheiro de mofo e na dor que Renata infligiria a ele com um sorriso sarcástico. Ele odiava o poder que ela exercia sobre ele. Ele odiava como ela o via de verdade.

Mas, acima de tudo, ele odiava o fato de que, no fundo de sua alma torturada, ele estava ansioso para que a meia-noite chegasse.

Enquanto isso, Renata entrava no banheiro feminino. Ela ignorou as garotas que se retocavam no espelho e se trancou em uma cabine. Ela tirou do bolso um pequeno rastreador que havia plantado na mochila de Breno enquanto ele estava distraído. O ponto vermelho piscava ritmicamente.

— Tão previsível — murmurou ela para si mesma, sentindo o pulso acelerar. — Tão forte e tão fraco ao mesmo tempo.

Ela encostou a cabeça na parede fria da cabine, fechando os olhos. Ela podia ser a "Rata Gorda" para o resto do mundo, mas no seu reino de sombras e produtos químicos, ela era a rainha. E o rei de Gotham era apenas mais um súdito em sua mesa de experimentos.

A dor de ser quem era sumia quando ela estava com ele. No masoquismo de sua existência, Renata encontrou o par perfeito: um herói que precisava ser quebrado para se sentir vivo.

Ela soltou uma risada baixa, um som que faria qualquer pessoa sã correr para longe. Mas Breno não era uma pessoa sã. E era por isso que eles funcionavam tão bem naquela toxicidade pitoresca.

O sinal tocou novamente, anunciando o fim do intervalo. Renata saiu da cabine, lavou as mãos rapidamente, jogando água no rosto para espantar o calor da antecipação. Ela olhou para o espelho, para as espinhas, para o cabelo oleoso, para a imagem que todos repudiavam.

— Eles não têm ideia — sussurrou ela para o reflexo. — Eles não têm a menor ideia do que a Rata é capaz de fazer com o Morcego.

Ela saiu do banheiro com um passo firme, pronta para enfrentar o resto do dia de tédio acadêmico, sabendo que a verdadeira vida começaria quando o sol se pusesse e os monstros — tanto os fantasiados quanto os de carne e osso — saíssem para brincar.
Contents

Want to write your own fanfic?

Sign up on Fanfy and create your own stories!

Create my fanfic