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Until i know

Fandom: &team

Created: 5/4/2026

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RomanceOmegaverseSlice of LifeHurt/ComfortFluffCurtainfic / Domestic StoryCharacter Study
Contents

Pincéis, Café e o Silêncio Entre Nós

A névoa matinal de Tóquio ainda se agarrava aos arranha-céus de Minato quando Koga Yudai, conhecido por todos apenas como K, abriu as portas de vidro do *Lumière*. O aroma reconfortante de grãos torrados e baunilha parecia despertar as paredes de tijolos expostos do café, um refúgio acolhedor no meio do caos urbano. K era um ômega que desafiava os estereótipos: alto, de ombros largos e com um sorriso que parecia ter o poder de iluminar o dia de qualquer cliente mal-humorado. Sua energia era contagiante, e ele se movia atrás do balcão com uma agilidade graciosa, organizando xícaras e ajustando a máquina de espresso.

— Bom dia, mundo! — exclamou ele para ninguém em particular, enquanto prendia o avental preto sobre a cintura.

O fluxo matinal começou como de costume. Executivos apressados, estudantes sonolentos e turistas perdidos passavam por ele, recebendo doses generosas de cafeína e o entusiasmo característico de K. No entanto, o relógio marcava exatamente 9h15 quando o sino acima da porta tocou de forma suave, quase hesitante.

K nem precisou olhar para o relógio para saber quem era. Seu olfato, apurado como o de qualquer ômega, captou a primeira nota daquele aroma: sândalo frio e chuva fresca. Era um cheiro de alfa, mas não um que impunha domínio ou agressividade. Era, em vez disso, melancólico e profundo.

Asakura Jo entrou no café com a cabeça baixa, os fios escuros de seu cabelo caindo levemente sobre os olhos. Ele carregava uma pasta de couro desgastada e um estojo de tubos para telas, marcas registradas de um estudante da Universidade de Artes de Tóquio. Jo era um alfa de uma beleza estonteante, com traços finos e uma estatura que deveria comandar atenção, mas ele parecia fazer um esforço hercúleo para se tornar invisível.

Ele caminhou até o balcão, evitando o contato visual com qualquer pessoa no caminho. K inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na superfície de madeira, o sorriso já pronto.

— Bom dia! O de sempre, Jo? — perguntou K, sua voz soando como uma melodia vibrante no ambiente silencioso.

Jo parou diante dele, os dedos apertando a alça da pasta. Ele levou alguns segundos para processar a pergunta, ou talvez para reunir coragem para responder. Seus olhos encontraram os de K por uma fração de segundo antes de se desviarem para o cardápio, embora ele já soubesse o que queria.

— Um... um americano gelado. Por favor — murmurou Jo. Sua voz era baixa, um barítono suave que raramente ultrapassava o volume de um sussurro.

K deu um risinho leve, começando a preparar a bebida.

— Você sabe, um dia eu vou te convencer a provar o nosso latte de caramelo salgado. É a especialidade da casa hoje.

Jo apenas assentiu levemente, um movimento quase imperceptível. Ele não era rude; K sabia disso depois de meses observando-o. Ele era apenas... trancado. Um labirinto sem placa de entrada. Enquanto a água corria, K tentou puxar mais um fio de conversa.

— Como estão as aulas na Geidai? — K perguntou, referindo-se à prestigiada universidade de artes. — Ouvi dizer que a exposição de meio de semestre está chegando.

Jo pareceu tencionar os ombros. Ele buscou a carteira no bolso com uma urgência desajeitada.

— Está... está indo. Muita pressão — respondeu Jo, as palavras saindo truncadas.

— Imagino. Mas com o seu talento, deve ser moleza — disse K, entregando o copo de plástico suado para o alfa. — Aqui está.

Jo pegou a bebida, e por um breve momento, as pontas de seus dedos roçaram as de K. O ômega sentiu uma faísca elétrica, um calor súbito que subiu pelo seu braço, mas o alfa rapidamente recuou, como se tivesse levado um choque.

— Obrigado — disse Jo, curvando-se levemente antes de se dirigir à mesa mais isolada no fundo do café, perto da janela que dava para um beco tranquilo.

K o observou partir. Ele viu Jo abrir seu caderno de esboços e, em questão de segundos, o mundo ao redor do alfa desapareceu. Jo não bebia o café para acordar; ele parecia beber para se ancorar enquanto sua mente vagava por telas imaginárias.

— Ele é um mistério, não é? — Uma voz vinda do lado despertou K de seus pensamentos. Era Fuma, o gerente do café e um beta que tinha a percepção de um falcão.

— Ele só é tímido, Fuma-kun — defendeu K, limpando o balcão com um pano. — É um alfa que não sabe que é um alfa. Ou talvez ele só não se importe com isso.

— Ele é o cliente mais fiel que temos e acho que nunca ouvi mais de dez palavras saindo da boca dele de uma vez — comentou Fuma, cruzando os braços. — E você, Yudai, parece muito interessado nessas dez palavras.

K sentiu as bochechas esquentarem levemente, mas não desviou o olhar.

— Há algo nele... algo que parece que vai quebrar se alguém falar muito alto. Eu só quero que ele se sinta confortável aqui.

As semanas se transformaram em meses. A rotina entre o barulhento ômega e o silencioso alfa tornou-se uma dança coreografada. Toda manhã, às 9h15, Jo aparecia. Toda manhã, K tentava uma nova abordagem.

Às vezes, K desenhava um pequeno sol na tampa do copo de Jo. Outras vezes, deixava um biscoito de cortesia ao lado do americano gelado. Jo nunca comentava sobre os gestos, mas K notava como o alfa demorava um pouco mais para sair do café naqueles dias, ou como o vinco de preocupação em sua testa parecia relaxar.

Certo dia, a chuva caía torrencialmente sobre Tóquio, transformando a rua em um borrão de guarda-chuvas coloridos. O café estava mais vazio do que o normal. Jo estava em seu lugar habitual, mas desta vez, ele não estava desenhando. Ele estava apenas olhando para a janela, as mãos em volta do copo vazio, parecendo mais pálido do que o comum.

K, aproveitando a calmaria, saiu de trás do balcão com uma jarra de água e dois copos. Ele caminhou lentamente, não querendo assustar o "pássaro arisco" que Jo parecia ser.

— Posso? — perguntou K, apontando para a cadeira à frente de Jo.

Jo piscou, saindo de seu transe. Ele olhou para K, depois para a cadeira, e finalmente assentiu, um pouco desorientado.

— Você parece estar a quilômetros de distância hoje — disse K, servindo água para ambos. — Algum bloqueio criativo?

Jo suspirou, um som pesado que pareceu vibrar no peito de K. O alfa fechou o caderno de esboços que estava sobre a mesa, mas não antes que K visse um vislumbre de traços caóticos em carvão.

— Eu não consigo... — Jo começou, sua voz falhando. Ele limpou a garganta e tentou novamente. — Eu não consigo encontrar a luz certa. O professor disse que minhas pinturas são tecnicamente perfeitas, mas falta... alma.

K ficou surpreso. Era a frase mais longa que Jo já havia dito a ele. O ômega sentiu uma onda de empatia. Ele sabia o que era ser julgado pelo que se esperava de sua natureza — no caso de Jo, um alfa deveria ser assertivo e cheio de "alma" dominante, mas Jo era suavidade e introspecção.

— Alma não é algo que você encontra, Jo — disse K suavemente, inclinando-se para frente. — É algo que você transborda quando para de tentar ser o que os outros esperam.

Jo levantou os olhos, encontrando o olhar de K de forma direta pela primeira vez. Os olhos do alfa eram de um castanho profundo, quase cor de mel sob a luz quente do café. Havia uma vulnerabilidade ali que fez o coração de K dar um solavanco.

— Como você faz isso? — perguntou Jo, sua voz quase um sopro.

— O quê?

— Como você consegue falar com todo mundo? Como você consegue... brilhar assim? — Jo desviou o olhar, as orelhas ficando vermelhas. — Eu sinto que, se eu falar demais, eu vou estragar o ambiente. Que eu sou um erro de sistema para um alfa.

K sentiu uma vontade imensa de segurar a mão de Jo, mas se conteve. O slow burn de sua afeição exigia paciência.

— Você não é um erro, Jo. Você é apenas uma frequência diferente. E para quem sabe ouvir, sua música é linda.

Um silêncio confortável caiu sobre eles, pontuado apenas pelo som da chuva batendo no vidro. Jo não respondeu, mas não se retraiu. Pela primeira vez, ele não parecia querer fugir.

— K-kun? — chamou Jo, usando o sufixo pela primeira vez.

— Sim?

— O café... estava bom hoje. Obrigado.

K sorriu, aquele sorriso que Jo secretamente desenhava em seu caderno todas as noites quando chegava em casa, tentando capturar a luz que o ômega emanava.

— De nada, Jo. Estarei aqui amanhã para garantir que o próximo seja ainda melhor.

Quando Jo saiu do café naquela tarde, ele não caminhou com a cabeça tão baixa. E K, enquanto limpava a mesa onde o alfa estivera, encontrou um pequeno pedaço de papel arrancado. Nele, havia um desenho rápido, feito a lápis, de uma mão segurando uma xícara de café, com uma pequena aura de luz ao redor.

Não havia assinatura, mas o aroma de sândalo que ainda pairava no papel dizia tudo o que K precisava saber.

O caminho seria longo. Jo ainda era um alfa que temia o próprio peso, e K era um ômega que amava demais a liberdade do som. Mas ali, entre o cheiro de café e o barulho da chuva, o primeiro traço de uma história maior havia sido desenhado.

No dia seguinte, K preparou o balcão com um entusiasmo renovado. Ele verificou o relógio: 9h10. Cinco minutos para a chegada de Jo. Ele colocou um novo pote de flores de cerejeira perto do caixa, pensando em como as cores combinariam com a paleta de cores que vira nos esboços de Jo.

Quando o sino tocou, K não apenas sorriu; ele sentiu o próprio coração bater no ritmo daquela presença silenciosa.

— Bem-vindo de volta — disse K, antes mesmo de Jo chegar ao balcão.

Jo parou, olhou para as flores, depois para K. Ele deu um passo à frente, hesitou, e então, pela primeira vez, esboçou o início de um sorriso. Foi pequeno, quase invisível para qualquer outra pessoa, mas para K, foi como o nascimento de uma estrela.

— Um americano gelado — disse Jo, sua voz um pouco mais firme. — E... talvez eu queira provar aquele latte de caramelo.

K riu, uma risada clara e vibrante que fez alguns clientes olharem, mas ele não se importou.

— Ótima escolha, Jo. Ótima escolha.

Enquanto preparava as duas bebidas, K percebeu que o café não era mais apenas um lugar de trabalho, e Jo não era apenas um cliente. Eles eram dois pontos em um mapa de Tóquio que finalmente haviam encontrado uma linha para se conectar. E, embora o fogo estivesse apenas começando a aquecer, K sabia que não tinha pressa. Algumas das melhores obras de arte levavam tempo para serem concluídas, e ele estava disposto a esperar por cada pincelada.
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