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Olimpo

Fandom: Mitologia grega

Created: 5/7/2026

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RomanceFantasySandalpunkRetellingCanon SettingDramaAdventureHumorAlcohol Abuse
Contents

O Vinho, o Vento e a Ira de um Pai

O Monte Olimpo raramente conhecia o silêncio, mas naquela noite, a cacofonia era de uma natureza diferente. As festas oferecidas por Zeus costumavam ser grandiosas, mas o néctar e o vinho de Dionísio pareciam estar especialmente potentes. Entre as colunas de mármore e os jardins suspensos, deuses e ninfas celebravam uma vitória militar recente, e o centro das atenções não era o soberano dos deuses, mas sim uma disputa de resistência etílica.

Lysíandra inclinou a taça de ouro, sentindo o líquido doce e perigoso queimar sua garganta. Seus longos cabelos escuros e cacheados caíam em cascatas sobre seus ombros, e seus olhos cor de âmbar brilhavam com um fogo que não era apenas do álcool. Ela tinha a delicadeza de Afrodite, o rosto que poderia fazer reinos caírem, mas a postura era puramente a de Ares.

— Você está perdendo, irmãozinho — provocou ela, batendo a taça vazia na mesa de pedra com um ruído seco.

Eros, cujas asas douradas estavam levemente desalinhadas pelo esforço, limpou uma gota de vinho do canto da boca.

— Eu sou o deus do desejo, Lysíandra. Eu aguento desejos, não necessariamente dois barris de vinho de Chios.

— Então admita a derrota — retrucou ela, sentindo o calor da raiva competitiva borbulhar em seu sangue. — Ou vou ter que pedir para Ares te dar um treinamento de verdade para aguentar o tranco?

Uma risada leve, como o som de moedas caindo em um prato de prata, interrompeu a briga. Lysíandra sentiu um arrepio na nuca antes mesmo de vê-lo. Hermes estava encostado em uma coluna próxima, girando o caduceu entre os dedos com uma agilidade hipnotizante. Seu sorriso era de soslaio, e o olhar esperto parecia ler cada pensamento impuro que passava pela mente da deusa.

— Sabe, Eros, eu não acho que ela vá parar até você estar debaixo da mesa — disse Hermes, aproximando-se com passos que mal pareciam tocar o chão. — E seria uma pena uma beleza dessas desperdiçar a noite inteira apenas contando taças vazias.

Lysíandra sentiu a influência de sua própria natureza vacilar. Ela, que podia despertar fúria em exércitos, sentia-se estranhamente desarmarda pela presença leve do mensageiro.

— E o que você sugere, ladrão de gado? — perguntou ela, embora o tom fosse mais de flerte do que de insulto.

— Sugiro que Zeus está prestes a começar um discurso sobre as virtudes da ordem — mentiu Hermes descaradamente, aproximando-se do ouvido dela. — E eu vi um certo pomar de romãs que fica especialmente bonito sob a luz de Ártemis. Além disso, recebi uma mensagem... de que você precisa urgentemente de um pouco de ar puro antes de começar a quebrar as ânforas na cabeça do seu irmão.

Lysíandra olhou para Eros, que já parecia pronto para desmaiar, e depois para Hermes. O instinto de guerreira dizia que ele estava tramando algo, mas o coração herdado de Afrodite queria descobrir exatamente o quê.

— Vá embora, Eros — disse ela, levantando-se com uma elegância que desafiava a quantidade de vinho ingerida. — Eu tenho negócios a tratar com o mensageiro.

Hermes a conduziu para fora do salão principal com uma velocidade que deixaria qualquer mortal tonto. Eles atravessaram corredores de sombra e luz, passando por ninfas risonhas, até que o som da festa se tornou apenas um eco distante. O lugar para onde ele a levou era um terraço escondido, cercado por heras e flores que exalavam um perfume inebriante sob o luar.

— Você mente muito bem — observou Lysíandra, prensando-o contra a balaustrada de mármore. — Não havia mensagem nenhuma, não é?

— A única mensagem era a minha própria vontade de tirar você de perto daqueles bárbaros — disse Hermes, as mãos habilidosas encontrando a cintura dela. — Você é muito intensa para aquele salão, Lysíandra. Sua aura de fúria e paixão estava começando a derreter as sandálias dos convidados.

— E isso te assusta? — Ela aproximou o rosto, o hálito com cheiro de vinho e mel.

— Pelo contrário — sussurrou ele, o sorriso sumindo para dar lugar a um olhar de desejo genuíno. — Isso me fascina.

Enquanto isso, de volta ao salão, Afrodite ajustava uma mecha de seus cabelos ruivos ondulados, observando a multidão com um olhar distraído e perfeitamente belo. Ela franziu a testa, sentindo a ausência de uma vibração específica no ar. A energia de Lysíandra era como uma nota alta e vibrante que, de repente, silenciara.

Ela caminhou até Ares, que estava sentado em um trono de bronze, limpando uma mancha imaginária em sua adaga de combate, o rosto mal-humorado de sempre.

— Ares, querido — disse Afrodite, a voz suave como seda. — Você viu nossa pequena chama?

O deus da guerra levantou os olhos escuros, a testa franzida.

— Ela estava competindo com Eros. Por que?

— Ela não está mais lá. E Hermes também desapareceu — comentou a deusa, um sorriso malicioso começando a brincar em seus lábios. — Sinto um rastro de paixão... e um pouco de pressa.

Ares levantou-se de um salto, o metal de sua armadura rangendo.

— Aquele moleque de sandálias aladas? Se ele tocar nela, eu vou arrancar as asas dos pés dele e fazê-lo correr até o Tártaro.

— Oh, não seja tão dramático — riu Afrodite, seguindo o marido que já marchava para fora do salão com passos pesados que faziam o chão tremer. — É primavera, o amor está no ar.

— O amor não, a insolência! — rugiu Ares.

Eles não demoraram a encontrá-los. O rastro de energia de Lysíandra era fácil de seguir para quem a conhecia. No terraço escondido, a cena era exatamente o que Ares temia e Afrodite secretamente esperava. Lysíandra e Hermes estavam em um abraço fervoroso, as mãos dele perdidas nos cachos escuros dela, enquanto ela o puxava para mais perto com uma urgência que era puramente herdada do pai.

— HERMES! — O grito de Ares ecoou pelas colunas, fazendo as aves noturnas levantarem voo em pânico.

O casal se separou bruscamente. Hermes, com reflexos de quem já fugiu de muitos problemas, deu um passo para trás, mas Lysíandra apenas se virou, os olhos de âmbar brilhando de indignação por ter sido interrompida.

— Por todos os raios de Zeus, pai! — exclamou ela, a voz carregada daquela autoridade explosiva que fazia soldados tremerem. — Não pode um deus ter um momento de privacidade?

— Privacidade? — Ares avançou, apontando o dedo para Hermes, que tentava recuperar sua compostura habitual. — Você, seu ladrãozinho de quinta categoria! Como ousa tocar na minha filha?

— Ora, Ares — disse Hermes, abrindo os braços com um sorriso amarelo, embora estivesse pronto para desaparecer a qualquer segundo. — Eu estava apenas... entregando uma mensagem de afeto. Muito urgente, por sinal.

— Eu vou te dar uma mensagem urgente gravada na ponta da minha lança! — berrou o deus da guerra.

Afrodite apareceu logo atrás, batendo palmas levemente, os olhos brilhando de encanto.

— Oh, vejam só como eles ficam lindos juntos! — exclamou a deusa. — O movimento e a paixão. É quase poético, Ares. Olhe para o rosto dela, ela está radiante.

— Ela está bêbada e sendo enganada por esse trapaceiro! — retrucou Ares, voltando-se para a filha. — Lysíandra, saia de perto dele agora.

— Não — respondeu Lysíandra, cruzando os braços. A aura ao redor dela começou a mudar; o ar ficou pesado, carregado com uma tensão que incitava a rebelião. — Eu não sou um dos seus soldados para receber ordens, pai. E se você der mais um passo, eu juro que vou fazer todos os seus generais se apaixonarem pelas próprias espadas e abandonarem o campo de batalha.

Ares estancou. Ele conhecia o poder da filha. Ela não apenas herdara sua força, mas a habilidade de Afrodite de manipular o que havia de mais profundo na alma humana.

Nesse momento, um som de risadinhas veio das sombras. Eros, Phobos, Deimos e Harmonia haviam seguido os pais. Phobos e Deimos, os gêmeos do medo e do terror, estavam dobrados de tanto rir da expressão de choque de Ares.

— Olhem só — zombou Deimos —, o grande deus da guerra sendo peitado pela própria filhinha por causa de um mensageiro.

— Eu pagaria para ver o Hermes tentando voar com uma perna só — completou Phobos, limpando uma lágrima de riso.

Eros, ainda um pouco zonzo do vinho, apontou para a irmã.

— Ela te venceu no vinho e agora te venceu na escolha, Ares. Aceita que dói menos.

Lysíandra virou-se para os irmãos, seus olhos âmbar faiscando como brasas. Um poder invisível emanou dela, uma onda de obsessão repentina que atingiu Eros em cheio.

— Continue rindo, Eros — disse ela, a voz baixa e perigosa —, e eu vou garantir que a próxima pessoa por quem você se apaixonar seja um espantalho em um campo de trigo esquecido por Deméter. E eu vou tirar suas flechas para que você não possa desfazer o feitiço.

O riso de Eros morreu instantaneamente. Ele sabia que Lysíandra não estava brincando.

— Tudo bem, tudo bem! — disse Eros, recuando. — Eu fico calado. Ela é louca, pai, não mexe com ela hoje.

Ares bufou, a fúria ainda vibrando em seu peito, mas ele olhou para Afrodite, que apenas deu de ombros com um olhar de "eu te avisei".

— Isso não acabou, Hermes — rosnou Ares, começando a se retirar, mas não antes de lançar um olhar mortal ao deus mensageiro. — Se eu encontrar um único fio de cabelo seu no quarto dela, eu transformo suas sandálias em cinzas.

— Entendido, mestre da guerra — disse Hermes, fazendo uma reverência exagerada enquanto Ares se afastava, ainda resmungando sobre "falta de respeito" e "gerações perdidas".

Quando os outros irmãos seguiram o pai, ainda trocando empurrões e sussurros, Afrodite aproximou-se da filha. Ela tocou o rosto de Lysíandra com carinho, ajeitando uma mecha de seu cabelo escuro.

— Use proteção, querida — sussurrou a deusa do amor com um piscar de olhos cúmplice. — E Hermes? Tente não se perder no caminho de volta. Seria uma pena se ela tivesse que ir buscar você no submundo.

Com um riso cristalino, Afrodite se retirou, deixando o silêncio do terraço retornar gradualmente.

Lysíandra soltou um suspiro longo, a tensão da batalha familiar deixando seu corpo. Ela olhou para Hermes, que parecia visivelmente aliviado por ainda estar inteiro.

— Você é um problema — disse ela, embora houvesse um sorriso em seus lábios.

— Eu sou o deus dos viajantes, Lysíandra — respondeu ele, puxando-a de volta para seus braços. — E devo dizer que esta é a viagem mais perigosa e interessante que já fiz.

— Onde estávamos? — perguntou ela, sentindo a raiva se transformar novamente naquela paixão avassaladora que só ela sabia conjurar.

— Acho que eu estava prestes a te mostrar que, embora seu pai seja o deus da guerra, eu sou o deus que sabe exatamente como invadir as defesas mais difíceis.

E sob o olhar silencioso das estrelas e a vigilância distante de um pai furioso, o mensageiro e a guerreira do amor provaram que, no Olimpo, nem mesmo a fúria de um deus podia competir com o caos de um desejo correspondido.
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