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Os irmãos
Fandom: Nenhum
Created: 5/10/2026
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RomanceDramaAngstHurt/ComfortPsychologicalDarkAlcohol AbuseJealousyTragedyThrillerCrimeIncest MentionRapeRealismCharacter StudyCurtainfic / Domestic StoryExplicit Language
O Gosto Amargo do Champanhe e das Memórias
O salão de festas estava decorado com um luxo que sufocava. Lustres de cristal pendiam do teto, lançando reflexos gélidos sobre o mármore polido, e o som das risadas polidas se misturava ao tilintar constante de taças de cristal. Liana ajeitou o vestido de seda azul-marinho, sentindo-se pequena demais para aquele ambiente. Seus cabelos enrolados, escuros e volumosos, estavam presos em um penteado que parecia apertar seu couro cabeludo, e sua pele parda brilhava sob as luzes, mas não de alegria.
Ela procurou por Arthur, seu marido. Ele era o centro das atenções, o homem da noite, celebrando a promoção a sócio sênior da empresa de advocacia mais prestigiada da cidade. Liana o viu de longe, cercado por homens de terno cinza e mulheres com joias que valiam mais do que a casa onde ela cresceu.
Liana se aproximou devagar, tentando encontrar uma brecha no círculo de conversas. Quando finalmente tocou o braço de Arthur, ele nem sequer desviou o olhar do interlocutor.
— Sim, querida, agora não. — Ele deu um tapinha distraído na mão dela, como se estivesse afastando uma criança insistente. — O Dr. Menezes estava me contando sobre o novo contrato em Brasília. Vá pegar algo para beber.
O tom era doce, mas o descaso era cortante. Liana sentiu um nó na garganta. Ela era a esposa troféu que ele esquecia de exibir. Recuou, sentindo o rosto esquentar de humilhação. A timidez, que sempre fora sua sombra, agora parecia uma prisão. Ela não sabia como se impor, como exigir o espaço que era seu por direito.
Caminhou até o bar de mármore e, em vez de pedir o suco de sempre, apontou para a garrafa de champanhe mais próxima.
— Uma taça, por favor — pediu em um sussurro.
— Só uma? — perguntou o barman, servindo o líquido borbulhante.
Liana bebeu em um gole só. O álcool subiu rápido, aquecendo seu peito e nublando levemente as bordas da realidade. Ela pediu a segunda. Depois a terceira. O mundo começou a girar de uma forma mais tolerável, as vozes se tornaram um zumbido distante e a sensação de invisibilidade foi substituída por uma coragem líquida e perigosa.
Ela se afastou da multidão, buscando o terraço onde o ar era mais fresco. A brisa da noite bateu em seu rosto, balançando alguns fios soltos de seus cachos. Liana se apoiou na mureta de pedra, olhando para as luzes da cidade lá embaixo.
— O champanhe daqui sempre foi melhor do que a companhia, não acha?
A voz era profunda, levemente rouca, e enviou um arrepio pela espinha de Liana. Ela se virou bruscamente, quase perdendo o equilíbrio. À sombra de uma das colunas, com um copo de uísque na mão e a gravata frouxa, estava Gabriel.
O irmão mais novo de Arthur. O homem que ela não via há quase três anos.
— Gabriel? — Liana piscou, sentindo a visão um pouco turva. — Eu não sabia que você vinha. Arthur disse que você estava em Portugal.
Gabriel se aproximou, saindo da sombra. Ele era a versão mais rústica e menos polida de Arthur. Onde o marido de Liana era calculista e frio, Gabriel era intenso e imprevisível.
— Eu voltei ontem. Não perderia a coroação do meu irmão perfeito por nada neste mundo — disse ele, com um sorriso sarcástico que não chegava aos olhos. — Mas parece que a rainha da festa está um pouco... solitária. E talvez um pouco bêbada.
Liana deu uma risada nervosa, sentindo as bochechas queimarem.
— Eu não estou bêbada. Só estou... cansada de ser um móvel na sala dele.
Gabriel deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de sândalo e tabaco que emanava dele era familiar e, por um momento, Liana foi transportada para cinco anos atrás, antes de Arthur aparecer com suas promessas de estabilidade.
— Ele continua fazendo isso, não é? — Gabriel perguntou, sua voz agora mais suave. — Ignorando o que tem de mais precioso porque está ocupado demais olhando para o próprio reflexo.
— Não fale assim dele — Liana tentou dizer, mas a defesa soou fraca. — Ele trabalha duro.
— Ele é um idiota, Liana. Sempre foi. — Gabriel colocou o copo de lado e se inclinou sobre a mureta, ficando ao lado dela. — Você se lembra daquela noite na casa de praia? Antes de vocês ficarem noivos?
Liana sentiu o coração disparar. Como ela poderia esquecer? Foi a noite em que ela e Gabriel ficaram sentados na areia até o amanhecer, falando sobre sonhos que Arthur nunca entenderia. Houve uma tensão ali, algo que quase se concretizou, mas Liana era tímida demais e Gabriel, por respeito ao irmão que já demonstrava interesse nela, recuou.
— Eu me lembro — sussurrou ela, olhando para as próprias mãos. — Nós éramos jovens.
— Eu não era tão jovem que não soubesse o que estava perdendo — rebateu Gabriel. — Eu vi o jeito que ele te cercou. Ele te queria porque você era pura, doce, o oposto de tudo o que o mundo dele representa. Ele te queria como um refúgio, mas nunca soube como cuidar de você.
Liana sentiu uma lágrima solitária escorrer. O álcool estava baixando suas defesas, expondo a ferida aberta da sua solidão.
— Ele nem me viu hoje, Gabriel. Eu passei horas me arrumando... e ele me tratou como uma interrupção.
Gabriel se virou para ela, os olhos escuros brilhando com uma mistura de raiva e algo muito mais profundo. Ele estendeu a mão e, com o polegar, secou a lágrima no rosto de Liana. O toque foi elétrico.
— Eu vi você — disse ele, a voz baixa. — Desde o momento em que você entrou naquele salão. Eu vi como aquele vestido azul destaca a cor da sua pele. Eu vi como você tenta se encolher para não incomodar ninguém. E eu odiei o fato de que você se sente assim.
Liana olhou para ele, hipnotizada. A proximidade era perigosa. Ela conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele.
— Por que você voltou, Gabriel?
— Porque eu cansei de fugir de memórias que não morrem — respondeu ele. — Eu tentei te esquecer em Lisboa, em Paris, em qualquer lugar. Mas toda vez que eu fechava os olhos, eu via esse seu sorriso tímido que você só dá quando acha que ninguém está olhando.
Liana sentiu o mundo girar mais rápido. A música da festa lá dentro parecia um eco distante. Ali, sob o luar, só existiam os dois e o peso de anos de palavras não ditas.
— Gabriel, eu sou casada com o seu irmão... — A voz dela falhou.
— Eu sei. E isso é o que mais me dói. Mas olhe para mim, Liana. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a encarar a intensidade de seu olhar. — Olhe para mim e me diga que você está feliz. Me diga que ele te faz sentir viva.
Liana abriu a boca para mentir, para dizer que estava tudo bem, mas o que saiu foi um soluço baixo. Ela fechou os olhos, derrotada pela própria verdade.
— Eu me sinto tão sozinha — confessou, a voz quebrada.
— Você não está sozinha agora — sussurrou Gabriel.
Ele diminuiu o espaço final. Liana sentiu a respiração dele contra seus lábios, um convite e uma promessa. Ela deveria recuar, deveria voltar para o salão e encontrar o marido que a ignorava, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo e seu coração clamava por um momento de atenção, de calor, de ser vista.
Quando os lábios de Gabriel tocaram os dela, foi como se uma represa se rompesse. O beijo não foi suave; foi carregado de anos de frustração, de desejo reprimido e de uma conexão que nunca deveria ter sido interrompida. Liana passou as mãos pelos ombros de Gabriel, puxando-o para mais perto, perdendo-se no gosto de uísque e na urgência dos movimentos dele.
O mundo ao redor desapareceu. Não havia festa, não havia Arthur, não havia as expectativas da sociedade. Havia apenas o toque firme das mãos de Gabriel em sua cintura e a maneira como ele a segurava, como se ela fosse a coisa mais valiosa do mundo.
Gabriel se afastou apenas alguns milímetros, a testa encostada na dela, ambos respirando com dificuldade.
— Eu não vou deixar ele te quebrar, Liana — murmurou ele contra a pele dela. — Não mais.
Liana abriu os olhos, a realidade começando a se infiltrar novamente pelas bordas de sua consciência embriagada. O que eles tinham acabado de fazer era imperdoável aos olhos do mundo, mas, pela primeira vez em anos, ela não se sentia invisível.
— O que a gente faz agora? — perguntou ela, a voz trêmula.
Gabriel olhou para a porta de vidro que levava de volta ao salão, onde Arthur provavelmente ainda falava sobre contratos e poder, sem notar a ausência da esposa. Depois, voltou a olhar para Liana com uma determinação que a assustou e a encantou ao mesmo tempo.
— Agora — disse ele, segurando a mão dela com força —, nós paramos de fingir.
Liana olhou para a mão dele entrelaçada na sua. O champanhe ainda corria em suas veias, mas a névoa estava começando a se dissipar, revelando um caminho perigoso e incerto. No entanto, ao sentir o aperto protetor de Gabriel, ela percebeu que o silêncio da sua vida anterior era muito mais assustador do que o caos que estava prestes a começar.
Ela procurou por Arthur, seu marido. Ele era o centro das atenções, o homem da noite, celebrando a promoção a sócio sênior da empresa de advocacia mais prestigiada da cidade. Liana o viu de longe, cercado por homens de terno cinza e mulheres com joias que valiam mais do que a casa onde ela cresceu.
Liana se aproximou devagar, tentando encontrar uma brecha no círculo de conversas. Quando finalmente tocou o braço de Arthur, ele nem sequer desviou o olhar do interlocutor.
— Sim, querida, agora não. — Ele deu um tapinha distraído na mão dela, como se estivesse afastando uma criança insistente. — O Dr. Menezes estava me contando sobre o novo contrato em Brasília. Vá pegar algo para beber.
O tom era doce, mas o descaso era cortante. Liana sentiu um nó na garganta. Ela era a esposa troféu que ele esquecia de exibir. Recuou, sentindo o rosto esquentar de humilhação. A timidez, que sempre fora sua sombra, agora parecia uma prisão. Ela não sabia como se impor, como exigir o espaço que era seu por direito.
Caminhou até o bar de mármore e, em vez de pedir o suco de sempre, apontou para a garrafa de champanhe mais próxima.
— Uma taça, por favor — pediu em um sussurro.
— Só uma? — perguntou o barman, servindo o líquido borbulhante.
Liana bebeu em um gole só. O álcool subiu rápido, aquecendo seu peito e nublando levemente as bordas da realidade. Ela pediu a segunda. Depois a terceira. O mundo começou a girar de uma forma mais tolerável, as vozes se tornaram um zumbido distante e a sensação de invisibilidade foi substituída por uma coragem líquida e perigosa.
Ela se afastou da multidão, buscando o terraço onde o ar era mais fresco. A brisa da noite bateu em seu rosto, balançando alguns fios soltos de seus cachos. Liana se apoiou na mureta de pedra, olhando para as luzes da cidade lá embaixo.
— O champanhe daqui sempre foi melhor do que a companhia, não acha?
A voz era profunda, levemente rouca, e enviou um arrepio pela espinha de Liana. Ela se virou bruscamente, quase perdendo o equilíbrio. À sombra de uma das colunas, com um copo de uísque na mão e a gravata frouxa, estava Gabriel.
O irmão mais novo de Arthur. O homem que ela não via há quase três anos.
— Gabriel? — Liana piscou, sentindo a visão um pouco turva. — Eu não sabia que você vinha. Arthur disse que você estava em Portugal.
Gabriel se aproximou, saindo da sombra. Ele era a versão mais rústica e menos polida de Arthur. Onde o marido de Liana era calculista e frio, Gabriel era intenso e imprevisível.
— Eu voltei ontem. Não perderia a coroação do meu irmão perfeito por nada neste mundo — disse ele, com um sorriso sarcástico que não chegava aos olhos. — Mas parece que a rainha da festa está um pouco... solitária. E talvez um pouco bêbada.
Liana deu uma risada nervosa, sentindo as bochechas queimarem.
— Eu não estou bêbada. Só estou... cansada de ser um móvel na sala dele.
Gabriel deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de sândalo e tabaco que emanava dele era familiar e, por um momento, Liana foi transportada para cinco anos atrás, antes de Arthur aparecer com suas promessas de estabilidade.
— Ele continua fazendo isso, não é? — Gabriel perguntou, sua voz agora mais suave. — Ignorando o que tem de mais precioso porque está ocupado demais olhando para o próprio reflexo.
— Não fale assim dele — Liana tentou dizer, mas a defesa soou fraca. — Ele trabalha duro.
— Ele é um idiota, Liana. Sempre foi. — Gabriel colocou o copo de lado e se inclinou sobre a mureta, ficando ao lado dela. — Você se lembra daquela noite na casa de praia? Antes de vocês ficarem noivos?
Liana sentiu o coração disparar. Como ela poderia esquecer? Foi a noite em que ela e Gabriel ficaram sentados na areia até o amanhecer, falando sobre sonhos que Arthur nunca entenderia. Houve uma tensão ali, algo que quase se concretizou, mas Liana era tímida demais e Gabriel, por respeito ao irmão que já demonstrava interesse nela, recuou.
— Eu me lembro — sussurrou ela, olhando para as próprias mãos. — Nós éramos jovens.
— Eu não era tão jovem que não soubesse o que estava perdendo — rebateu Gabriel. — Eu vi o jeito que ele te cercou. Ele te queria porque você era pura, doce, o oposto de tudo o que o mundo dele representa. Ele te queria como um refúgio, mas nunca soube como cuidar de você.
Liana sentiu uma lágrima solitária escorrer. O álcool estava baixando suas defesas, expondo a ferida aberta da sua solidão.
— Ele nem me viu hoje, Gabriel. Eu passei horas me arrumando... e ele me tratou como uma interrupção.
Gabriel se virou para ela, os olhos escuros brilhando com uma mistura de raiva e algo muito mais profundo. Ele estendeu a mão e, com o polegar, secou a lágrima no rosto de Liana. O toque foi elétrico.
— Eu vi você — disse ele, a voz baixa. — Desde o momento em que você entrou naquele salão. Eu vi como aquele vestido azul destaca a cor da sua pele. Eu vi como você tenta se encolher para não incomodar ninguém. E eu odiei o fato de que você se sente assim.
Liana olhou para ele, hipnotizada. A proximidade era perigosa. Ela conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele.
— Por que você voltou, Gabriel?
— Porque eu cansei de fugir de memórias que não morrem — respondeu ele. — Eu tentei te esquecer em Lisboa, em Paris, em qualquer lugar. Mas toda vez que eu fechava os olhos, eu via esse seu sorriso tímido que você só dá quando acha que ninguém está olhando.
Liana sentiu o mundo girar mais rápido. A música da festa lá dentro parecia um eco distante. Ali, sob o luar, só existiam os dois e o peso de anos de palavras não ditas.
— Gabriel, eu sou casada com o seu irmão... — A voz dela falhou.
— Eu sei. E isso é o que mais me dói. Mas olhe para mim, Liana. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a encarar a intensidade de seu olhar. — Olhe para mim e me diga que você está feliz. Me diga que ele te faz sentir viva.
Liana abriu a boca para mentir, para dizer que estava tudo bem, mas o que saiu foi um soluço baixo. Ela fechou os olhos, derrotada pela própria verdade.
— Eu me sinto tão sozinha — confessou, a voz quebrada.
— Você não está sozinha agora — sussurrou Gabriel.
Ele diminuiu o espaço final. Liana sentiu a respiração dele contra seus lábios, um convite e uma promessa. Ela deveria recuar, deveria voltar para o salão e encontrar o marido que a ignorava, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo e seu coração clamava por um momento de atenção, de calor, de ser vista.
Quando os lábios de Gabriel tocaram os dela, foi como se uma represa se rompesse. O beijo não foi suave; foi carregado de anos de frustração, de desejo reprimido e de uma conexão que nunca deveria ter sido interrompida. Liana passou as mãos pelos ombros de Gabriel, puxando-o para mais perto, perdendo-se no gosto de uísque e na urgência dos movimentos dele.
O mundo ao redor desapareceu. Não havia festa, não havia Arthur, não havia as expectativas da sociedade. Havia apenas o toque firme das mãos de Gabriel em sua cintura e a maneira como ele a segurava, como se ela fosse a coisa mais valiosa do mundo.
Gabriel se afastou apenas alguns milímetros, a testa encostada na dela, ambos respirando com dificuldade.
— Eu não vou deixar ele te quebrar, Liana — murmurou ele contra a pele dela. — Não mais.
Liana abriu os olhos, a realidade começando a se infiltrar novamente pelas bordas de sua consciência embriagada. O que eles tinham acabado de fazer era imperdoável aos olhos do mundo, mas, pela primeira vez em anos, ela não se sentia invisível.
— O que a gente faz agora? — perguntou ela, a voz trêmula.
Gabriel olhou para a porta de vidro que levava de volta ao salão, onde Arthur provavelmente ainda falava sobre contratos e poder, sem notar a ausência da esposa. Depois, voltou a olhar para Liana com uma determinação que a assustou e a encantou ao mesmo tempo.
— Agora — disse ele, segurando a mão dela com força —, nós paramos de fingir.
Liana olhou para a mão dele entrelaçada na sua. O champanhe ainda corria em suas veias, mas a névoa estava começando a se dissipar, revelando um caminho perigoso e incerto. No entanto, ao sentir o aperto protetor de Gabriel, ela percebeu que o silêncio da sua vida anterior era muito mais assustador do que o caos que estava prestes a começar.
