
← Back
0 likes
A Herege e a Ovelhinha
Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character
Created: 5/10/2026
Tags
RomanceDramaCharacter StudyCurtainfic / Domestic StoryRealismExplicit LanguageAlcohol AbuseHurt/Comfort
O Rosário de Fumaça e a Estrada Sem Fim
O silêncio dentro do Volvo antigo de Hylda era denso, quase sólido, quebrado apenas pelo estalo rítmico do sinalizador de direção e pelo som do vento fustigando as janelas. Gabriele mantinha as mãos cruzadas sobre o colo, as unhas curtas e impecáveis cravando-se levemente na palma da mão. Ela usava um vestido de linho azul-marinho, fechado até o último botão, e o cabelo castanho, que agora caía um pouco abaixo dos ombros, estava preso em um coque tão firme que parecia doloroso.
— Você sabe que se continuar apertando os lábios desse jeito, eles vão acabar sumindo da sua cara, não sabe? — Hylda comentou, a voz rouca pelo tabaco e pelos anos de excessos, sem tirar os olhos da estrada.
Gabriele não se deu ao trabalho de olhar para o lado. Ela conhecia bem o perfil de Hylda: a mandíbula forte, os cabelos grisalhos cortados bem curtos, quase em um estilo militar, e aquela jaqueta de couro desgastada que cheirava a asfalto e pecado.
— Eu estou perfeitamente bem, Hylda. Apenas focada no caminho.
— Focada no caminho? — Hylda soltou uma risada curta e seca, esticando um braço tatuado para pegar o maço de cigarros no painel. — Nós estamos em uma linha reta há quarenta minutos. O único perigo aqui é você morrer de tédio ou eu morrer de inanição espiritual por causa da sua companhia vibrante.
Com uma agilidade irritante, Hylda acendeu um cigarro com um isqueiro Zippo que fez um clique metálico ecoar na cabine. Em segundos, a fumaça cinzenta começou a serpentear pelo carro.
— Por favor, Hylda! — Gabriele finalmente explodiu, abanando o ar com a mão. — Nós já discutimos isso. O cheiro é insuportável e impregna no tecido. Você não pode esperar até a próxima parada?
— Tecnicamente, este carro é minha paróquia, Gabriele. E na minha igreja, o incenso é de nicotina — Hylda deu uma tragada profunda, segurando o volante com apenas uma mão, a postura relaxada e quase insolente. — Além disso, você precisa relaxar. Deus não vai te mandar de volta para o convento só porque você respirou um pouco de fumaça de segunda mão. Ou vai?
Gabriele sentiu o rosto esquentar. A menção ao convento era sempre um golpe baixo, uma ferida aberta que Hylda adorava cutucar com o dedo sujo de cinzas. Ninguém sabia o real motivo de sua saída — a paixão avassaladora e silenciosa pela Madre Mestra, o desejo que a consumia nos bancos da capela até que ela não pudesse mais sustentar a mentira do hábito. Para o mundo, ela era apenas uma ex-noviça austera. Para Hylda, ela era um desafio.
— Você se diz "Padre", mas não tem um pingo de reverência pelas coisas sagradas — Gabriele retrucou, a voz tremendo levemente de irritação. — É uma farsa.
— Oh, eu sou muito reverente, querida. Só mudei o objeto de adoração — Hylda deu uma piscadela lenta, seus olhos pequenos e astutos brilhando com uma malícia que fez o estômago de Gabriele dar um nó estranho. — E vamos ser honestas: essa sua carinha de santa é o que há de mais falso por aqui. Você está morrendo de vontade de gritar, ou de me dar um tapa, ou de pular do carro. Qualquer coisa que prove que você ainda está viva por baixo desse linho todo.
— Mude a música — Gabriele desviou o assunto, incapaz de sustentar o olhar. — Essa... essa cacofonia é torturante.
— É punk rock dos anos 70, sua bárbara. É cultura.
— É barulho.
Hylda bufou, mas, para a surpresa de Gabriele, esticou a mão e desligou o rádio. O silêncio que se seguiu foi ainda mais desconfortável. Elas tinham uma missão simples: entregar os documentos de posse de uma propriedade comunitária na cidade vizinha, um favor para os amigos em comum que achavam que "as duas precisavam sair um pouco de casa". Uma ideia desastrosa.
A viagem, que deveria durar quatro horas, estendeu-se conforme o céu escurecia e uma chuva torrencial começou a cair, transformando a estrada em um borrão de luzes e sombras. O limpador de para-brisa lutava contra a água, e Hylda, apesar da postura desleixada, parecia agora mais atenta.
— Ótimo — resmungou Hylda, reduzindo a velocidade. — Com essa chuva, não chegamos lá nem se Jesus Cristo descesse e empurrasse o carro. Vamos ter que parar.
— Parar onde? Não tem nada por quilômetros — Gabriele olhou pela janela, sentindo uma pontada de ansiedade.
— Tem um hotel de beira de estrada que passei na vinda. Não é o Ritz, mas tem teto.
Meia hora depois, elas estavam paradas sob um letreiro de neon piscante que dizia "The Sleepy Hollow – Vacancy". O lugar parecia o cenário de um filme de terror barato, mas a chuva estava tão forte que Gabriele não protestou quando Hylda estacionou o Volvo.
Dentro da recepção, o cheiro de mofo e desinfetante barato era quase tão ruim quanto o cigarro de Hylda. Um homem idoso, que parecia não ter visto a luz do sol desde a queda do muro de Berlim, olhou para elas por cima dos óculos.
— Pois não? — perguntou ele, a voz arrastada.
— Precisamos de dois quartos — Gabriele adiantou-se, tirando a carteira da bolsa elegante. — Para uma noite.
O homem consultou um livro de registros que parecia ter sido escrito à mão por monges medievais. Ele franziu o cenho e balançou a cabeça.
— Só tenho um quarto disponível. Houve um vazamento no andar de cima, metade das unidades está interditada.
Gabriele sentiu o sangue fugir do rosto.
— Um quarto? Mas... deve haver algum erro. Nós precisamos de dois.
— Só tem um, moça. Com uma cama de casal. Quer ou vai preferir dormir no carro? — O homem nem se deu ao trabalho de olhar para ela novamente.
Hylda soltou uma risada abafada atrás de Gabriele, encostando-se no balcão com uma naturalidade irritante.
— Viu só, Gabi? O destino tem um senso de humor peculiar.
— Não me chame de Gabi — ela sibilou, voltando-se para a outra. — Nós não podemos ficar no mesmo quarto. É... é impróprio.
— Impróprio para quem? Para os fantasmas do convento? — Hylda pegou a chave de metal das mãos do recepcionista antes que Gabriele pudesse protestar. — Vamos logo. Minhas pernas estão matando e eu preciso de um uísque, ou de um banho, ou dos dois.
O quarto era pequeno, com paredes revestidas de papel de parede floral descascado e uma única cama de casal que ocupava quase todo o espaço. Gabriele ficou parada na porta, segurando sua mala pequena como se fosse um escudo.
Hylda, por outro lado, jogou sua mochila de lona em um canto e começou a tirar a jaqueta de couro, revelando os braços cobertos de tatuagens — algumas eram símbolos religiosos distorcidos, outras eram apenas borrões de tinta de sua época de vício. Ela parecia tão à vontade naquela decadência que Gabriele sentiu uma onda de inveja misturada com pavor.
— Você pode ficar com o lado direito — Hylda disse, sentando-se na beira da cama para desamarrar as botas pesadas. — Eu não costumo chutar ninguém durante o sono, a menos que tentem me converter.
— Eu vou dormir vestida — Gabriele anunciou, a voz rígida.
— Como preferir, princesa. Mas vai acordar parecendo um maracujá mofado com esse vestido de linho.
Gabriele ignorou o comentário e foi para o banheiro minúsculo. Quando saiu, dez minutos depois, com o rosto lavado e o cabelo solto — as ondas castanhas caindo sobre os ombros —, encontrou Hylda deitada sobre as cobertas, apenas de regata e calça de moletom, lendo um livro de bolso amassado.
Hylda parou de ler no momento em que Gabriele apareceu. Seus olhos, geralmente cheios de escárnio, suavizaram-se por um segundo. Ela percorreu Gabriele de cima a baixo, detendo-se no pescoço exposto e na vulnerabilidade que o cabelo solto trazia àquela mulher tão controlada.
— Você fica melhor assim — Hylda disse, a voz mais baixa, sem o tom de piada habitual. — Menos... blindada.
— Não comece, Hylda — Gabriele caminhou até a cama e sentou-se na extremidade oposta, mantendo o máximo de distância possível. — Só vamos dormir. Amanhã entregamos os papéis e eu nunca mais terei que dividir um espaço de três metros quadrados com você.
— É isso que te assusta? O espaço? — Hylda fechou o livro e rolou para o lado, apoiando a cabeça na mão, encarando Gabriele. — Ou é o fato de que, aqui dentro, não tem ninguém para te dizer o que é certo ou errado? Não tem madre, não tem regra, não tem voto de silêncio.
— Eu sei o que é certo, independentemente de onde estou — Gabriele rebateu, mas sua voz falhou.
— Sabe mesmo? — Hylda se aproximou, arrastando-se pelo colchão. O cheiro de tabaco agora estava misturado com algo mais quente, algo humano. — Porque eu vejo o jeito que você olha para as coisas. Você olha para o mundo como se estivesse com fome, Gabriele. Como se estivesse morrendo de sede e tivesse medo de que a água fosse veneno.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Eu sei como é querer algo que te disseram que era pecado — Hylda sussurrou, agora perigosamente perto. — Eu passei a vida toda sendo o "pecado" de alguém. Eu reconheço o olhar de quem está em guerra consigo mesma.
Gabriele sentiu a respiração acelerar. A presença de Hylda era avassaladora; ela era o oposto de tudo o que Gabriele buscara na vida — era caos, era ruído, era imperfeição. E, no entanto, havia uma honestidade brutal naquela mulher de sessenta anos que Gabriele nunca encontrara nos corredores silenciosos do convento.
— Por que você faz isso? — Gabriele perguntou, a voz mal saindo da garganta. — Por que me provoca o tempo todo?
— Porque eu quero ver o que tem por baixo dessa casca de gelo — Hylda esticou a mão, e por um momento Gabriele achou que ela a tocaria, mas Hylda apenas retirou um fio de cabelo que estava preso nos cílios de Gabriele. O toque dos dedos calejados contra a pele do rosto de Gabriele foi como um choque elétrico. — E porque você é bonita demais para ser tão infeliz.
Gabriele não se afastou. Pela primeira vez, ela permitiu que o olhar de Hylda a despisse de suas defesas. A tensão sexual entre elas, que vinha sendo cozinhada em fogo brando durante semanas de discussões e viagens de carro, agora fervia, ameaçando transbordar.
— Eu não sou infeliz — Gabriele mentiu, mas seus olhos estavam fixos nos lábios de Hylda.
— Mentir também é pecado, sabia? — Hylda sorriu, um sorriso pequeno e quase terno. — Mas não se preocupe. Eu sou o "Padre" aqui. Eu posso te dar a absolvição.
Hylda inclinou-se para frente, eliminando o pouco espaço que restava. Gabriele fechou os olhos, esperando o impacto, esperando a queda. Quando os lábios de Hylda finalmente tocaram os seus, não foi o beijo celestial que ela imaginara com a Madre Mestra, nem a pureza que ela buscara na oração. Era gosto de fumaça, de uísque barato e de uma liberdade terrivelmente perigosa.
E, pela primeira vez em vinte e sete anos, Gabriele não se importou se Deus estava olhando.
Ela retribuiu o beijo com uma urgência que surpreendeu a ambas, as mãos subindo para os ombros de Hylda, agarrando a regata de algodão como se fosse sua única âncora em uma tempestade. Hylda soltou um grunhido baixo, uma mistura de surpresa e triunfo, puxando Gabriele para mais perto, até que não houvesse mais linho, nem regras, nem passado.
Lá fora, a chuva continuava a fustigar a janela do hotel de beira de estrada, mas dentro daquele quarto pequeno e mofado, a guerra fria havia acabado. E nas cinzas do que Gabriele achava que era, algo novo e selvagem começava a queimar.
— Você reclama demais da minha playlist — Hylda murmurou entre beijos, a voz vibrando contra o pescoço de Gabriele —, mas acho que você gosta do meu ritmo.
Gabriele soltou uma risada curta, a primeira risada verdadeira em meses, e puxou Hylda para baixo dela.
— Cale a boca, Hylda. E não ouse acender um cigarro agora.
— Sim, senhora — Hylda obedeceu, mas seu olhar dizia que, naquela noite, as únicas regras que seriam seguidas eram as que elas escrevessem juntas.
— Você sabe que se continuar apertando os lábios desse jeito, eles vão acabar sumindo da sua cara, não sabe? — Hylda comentou, a voz rouca pelo tabaco e pelos anos de excessos, sem tirar os olhos da estrada.
Gabriele não se deu ao trabalho de olhar para o lado. Ela conhecia bem o perfil de Hylda: a mandíbula forte, os cabelos grisalhos cortados bem curtos, quase em um estilo militar, e aquela jaqueta de couro desgastada que cheirava a asfalto e pecado.
— Eu estou perfeitamente bem, Hylda. Apenas focada no caminho.
— Focada no caminho? — Hylda soltou uma risada curta e seca, esticando um braço tatuado para pegar o maço de cigarros no painel. — Nós estamos em uma linha reta há quarenta minutos. O único perigo aqui é você morrer de tédio ou eu morrer de inanição espiritual por causa da sua companhia vibrante.
Com uma agilidade irritante, Hylda acendeu um cigarro com um isqueiro Zippo que fez um clique metálico ecoar na cabine. Em segundos, a fumaça cinzenta começou a serpentear pelo carro.
— Por favor, Hylda! — Gabriele finalmente explodiu, abanando o ar com a mão. — Nós já discutimos isso. O cheiro é insuportável e impregna no tecido. Você não pode esperar até a próxima parada?
— Tecnicamente, este carro é minha paróquia, Gabriele. E na minha igreja, o incenso é de nicotina — Hylda deu uma tragada profunda, segurando o volante com apenas uma mão, a postura relaxada e quase insolente. — Além disso, você precisa relaxar. Deus não vai te mandar de volta para o convento só porque você respirou um pouco de fumaça de segunda mão. Ou vai?
Gabriele sentiu o rosto esquentar. A menção ao convento era sempre um golpe baixo, uma ferida aberta que Hylda adorava cutucar com o dedo sujo de cinzas. Ninguém sabia o real motivo de sua saída — a paixão avassaladora e silenciosa pela Madre Mestra, o desejo que a consumia nos bancos da capela até que ela não pudesse mais sustentar a mentira do hábito. Para o mundo, ela era apenas uma ex-noviça austera. Para Hylda, ela era um desafio.
— Você se diz "Padre", mas não tem um pingo de reverência pelas coisas sagradas — Gabriele retrucou, a voz tremendo levemente de irritação. — É uma farsa.
— Oh, eu sou muito reverente, querida. Só mudei o objeto de adoração — Hylda deu uma piscadela lenta, seus olhos pequenos e astutos brilhando com uma malícia que fez o estômago de Gabriele dar um nó estranho. — E vamos ser honestas: essa sua carinha de santa é o que há de mais falso por aqui. Você está morrendo de vontade de gritar, ou de me dar um tapa, ou de pular do carro. Qualquer coisa que prove que você ainda está viva por baixo desse linho todo.
— Mude a música — Gabriele desviou o assunto, incapaz de sustentar o olhar. — Essa... essa cacofonia é torturante.
— É punk rock dos anos 70, sua bárbara. É cultura.
— É barulho.
Hylda bufou, mas, para a surpresa de Gabriele, esticou a mão e desligou o rádio. O silêncio que se seguiu foi ainda mais desconfortável. Elas tinham uma missão simples: entregar os documentos de posse de uma propriedade comunitária na cidade vizinha, um favor para os amigos em comum que achavam que "as duas precisavam sair um pouco de casa". Uma ideia desastrosa.
A viagem, que deveria durar quatro horas, estendeu-se conforme o céu escurecia e uma chuva torrencial começou a cair, transformando a estrada em um borrão de luzes e sombras. O limpador de para-brisa lutava contra a água, e Hylda, apesar da postura desleixada, parecia agora mais atenta.
— Ótimo — resmungou Hylda, reduzindo a velocidade. — Com essa chuva, não chegamos lá nem se Jesus Cristo descesse e empurrasse o carro. Vamos ter que parar.
— Parar onde? Não tem nada por quilômetros — Gabriele olhou pela janela, sentindo uma pontada de ansiedade.
— Tem um hotel de beira de estrada que passei na vinda. Não é o Ritz, mas tem teto.
Meia hora depois, elas estavam paradas sob um letreiro de neon piscante que dizia "The Sleepy Hollow – Vacancy". O lugar parecia o cenário de um filme de terror barato, mas a chuva estava tão forte que Gabriele não protestou quando Hylda estacionou o Volvo.
Dentro da recepção, o cheiro de mofo e desinfetante barato era quase tão ruim quanto o cigarro de Hylda. Um homem idoso, que parecia não ter visto a luz do sol desde a queda do muro de Berlim, olhou para elas por cima dos óculos.
— Pois não? — perguntou ele, a voz arrastada.
— Precisamos de dois quartos — Gabriele adiantou-se, tirando a carteira da bolsa elegante. — Para uma noite.
O homem consultou um livro de registros que parecia ter sido escrito à mão por monges medievais. Ele franziu o cenho e balançou a cabeça.
— Só tenho um quarto disponível. Houve um vazamento no andar de cima, metade das unidades está interditada.
Gabriele sentiu o sangue fugir do rosto.
— Um quarto? Mas... deve haver algum erro. Nós precisamos de dois.
— Só tem um, moça. Com uma cama de casal. Quer ou vai preferir dormir no carro? — O homem nem se deu ao trabalho de olhar para ela novamente.
Hylda soltou uma risada abafada atrás de Gabriele, encostando-se no balcão com uma naturalidade irritante.
— Viu só, Gabi? O destino tem um senso de humor peculiar.
— Não me chame de Gabi — ela sibilou, voltando-se para a outra. — Nós não podemos ficar no mesmo quarto. É... é impróprio.
— Impróprio para quem? Para os fantasmas do convento? — Hylda pegou a chave de metal das mãos do recepcionista antes que Gabriele pudesse protestar. — Vamos logo. Minhas pernas estão matando e eu preciso de um uísque, ou de um banho, ou dos dois.
O quarto era pequeno, com paredes revestidas de papel de parede floral descascado e uma única cama de casal que ocupava quase todo o espaço. Gabriele ficou parada na porta, segurando sua mala pequena como se fosse um escudo.
Hylda, por outro lado, jogou sua mochila de lona em um canto e começou a tirar a jaqueta de couro, revelando os braços cobertos de tatuagens — algumas eram símbolos religiosos distorcidos, outras eram apenas borrões de tinta de sua época de vício. Ela parecia tão à vontade naquela decadência que Gabriele sentiu uma onda de inveja misturada com pavor.
— Você pode ficar com o lado direito — Hylda disse, sentando-se na beira da cama para desamarrar as botas pesadas. — Eu não costumo chutar ninguém durante o sono, a menos que tentem me converter.
— Eu vou dormir vestida — Gabriele anunciou, a voz rígida.
— Como preferir, princesa. Mas vai acordar parecendo um maracujá mofado com esse vestido de linho.
Gabriele ignorou o comentário e foi para o banheiro minúsculo. Quando saiu, dez minutos depois, com o rosto lavado e o cabelo solto — as ondas castanhas caindo sobre os ombros —, encontrou Hylda deitada sobre as cobertas, apenas de regata e calça de moletom, lendo um livro de bolso amassado.
Hylda parou de ler no momento em que Gabriele apareceu. Seus olhos, geralmente cheios de escárnio, suavizaram-se por um segundo. Ela percorreu Gabriele de cima a baixo, detendo-se no pescoço exposto e na vulnerabilidade que o cabelo solto trazia àquela mulher tão controlada.
— Você fica melhor assim — Hylda disse, a voz mais baixa, sem o tom de piada habitual. — Menos... blindada.
— Não comece, Hylda — Gabriele caminhou até a cama e sentou-se na extremidade oposta, mantendo o máximo de distância possível. — Só vamos dormir. Amanhã entregamos os papéis e eu nunca mais terei que dividir um espaço de três metros quadrados com você.
— É isso que te assusta? O espaço? — Hylda fechou o livro e rolou para o lado, apoiando a cabeça na mão, encarando Gabriele. — Ou é o fato de que, aqui dentro, não tem ninguém para te dizer o que é certo ou errado? Não tem madre, não tem regra, não tem voto de silêncio.
— Eu sei o que é certo, independentemente de onde estou — Gabriele rebateu, mas sua voz falhou.
— Sabe mesmo? — Hylda se aproximou, arrastando-se pelo colchão. O cheiro de tabaco agora estava misturado com algo mais quente, algo humano. — Porque eu vejo o jeito que você olha para as coisas. Você olha para o mundo como se estivesse com fome, Gabriele. Como se estivesse morrendo de sede e tivesse medo de que a água fosse veneno.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Eu sei como é querer algo que te disseram que era pecado — Hylda sussurrou, agora perigosamente perto. — Eu passei a vida toda sendo o "pecado" de alguém. Eu reconheço o olhar de quem está em guerra consigo mesma.
Gabriele sentiu a respiração acelerar. A presença de Hylda era avassaladora; ela era o oposto de tudo o que Gabriele buscara na vida — era caos, era ruído, era imperfeição. E, no entanto, havia uma honestidade brutal naquela mulher de sessenta anos que Gabriele nunca encontrara nos corredores silenciosos do convento.
— Por que você faz isso? — Gabriele perguntou, a voz mal saindo da garganta. — Por que me provoca o tempo todo?
— Porque eu quero ver o que tem por baixo dessa casca de gelo — Hylda esticou a mão, e por um momento Gabriele achou que ela a tocaria, mas Hylda apenas retirou um fio de cabelo que estava preso nos cílios de Gabriele. O toque dos dedos calejados contra a pele do rosto de Gabriele foi como um choque elétrico. — E porque você é bonita demais para ser tão infeliz.
Gabriele não se afastou. Pela primeira vez, ela permitiu que o olhar de Hylda a despisse de suas defesas. A tensão sexual entre elas, que vinha sendo cozinhada em fogo brando durante semanas de discussões e viagens de carro, agora fervia, ameaçando transbordar.
— Eu não sou infeliz — Gabriele mentiu, mas seus olhos estavam fixos nos lábios de Hylda.
— Mentir também é pecado, sabia? — Hylda sorriu, um sorriso pequeno e quase terno. — Mas não se preocupe. Eu sou o "Padre" aqui. Eu posso te dar a absolvição.
Hylda inclinou-se para frente, eliminando o pouco espaço que restava. Gabriele fechou os olhos, esperando o impacto, esperando a queda. Quando os lábios de Hylda finalmente tocaram os seus, não foi o beijo celestial que ela imaginara com a Madre Mestra, nem a pureza que ela buscara na oração. Era gosto de fumaça, de uísque barato e de uma liberdade terrivelmente perigosa.
E, pela primeira vez em vinte e sete anos, Gabriele não se importou se Deus estava olhando.
Ela retribuiu o beijo com uma urgência que surpreendeu a ambas, as mãos subindo para os ombros de Hylda, agarrando a regata de algodão como se fosse sua única âncora em uma tempestade. Hylda soltou um grunhido baixo, uma mistura de surpresa e triunfo, puxando Gabriele para mais perto, até que não houvesse mais linho, nem regras, nem passado.
Lá fora, a chuva continuava a fustigar a janela do hotel de beira de estrada, mas dentro daquele quarto pequeno e mofado, a guerra fria havia acabado. E nas cinzas do que Gabriele achava que era, algo novo e selvagem começava a queimar.
— Você reclama demais da minha playlist — Hylda murmurou entre beijos, a voz vibrando contra o pescoço de Gabriele —, mas acho que você gosta do meu ritmo.
Gabriele soltou uma risada curta, a primeira risada verdadeira em meses, e puxou Hylda para baixo dela.
— Cale a boca, Hylda. E não ouse acender um cigarro agora.
— Sim, senhora — Hylda obedeceu, mas seu olhar dizia que, naquela noite, as únicas regras que seriam seguidas eram as que elas escrevessem juntas.
