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Teen Wolf
Fandom: teen wolf
Created: 5/11/2026
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FantasyCrossoverDramaAdventureMysteryHurt/ComfortMagical RealismCharacter StudyDivergenceCanon SettingAction
O Rugido do Sol Noturno
O ar de Beacon Hills tem um cheiro diferente de tudo que senti nos meus dezesseis anos cruzando o Brasil. Não é o calor úmido da Amazônia que faz o cabelo grudar na nuca, nem o vento seco do cerrado que parece carregar poeira e segredos ancestrais. Aqui, o cheiro é de pinho, terra molhada e... algo mais. Algo que faz os pelos do meu braço se arrepiarem e as manchas de onça sob a minha pele pulsarem em um dourado tímido, como se a própria cidade estivesse me reconhecendo através de uma frequência que só a minha linhagem consegue sintonizar.
Meus pais dizem que estamos voltando para casa, mas para mim e Matt, "casa" sempre foi uma mala pronta e um tanque cheio. Mattheo Conan Lockwood Alves é minha metade. Somos gêmeos bivitelinos, mas o destino brincou de nos dividir entre os dois mundos dos nossos pais. Enquanto eu puxei a natureza mística da minha mãe — a herança das Onças Celestes, os Naguais do Pantanal —, Matty é um lobisomem, um herdeiro direto da força bruta e do uivo do nosso pai. Crescemos tão unidos que às vezes sinto que compartilhamos o mesmo sistema nervoso; eu sinto a adrenalina dele antes mesmo de ele rosnar, e ele sente a minha ansiedade quando minhas pupilas começam a se tornar fendas esmeraldas.
Nascemos no Brasil e, desde que me entendo por gente, pulamos de estado em estado. Já vi o sol se pôr no Rio de Janeiro e as chuvas de verão alagarem as ruas de São Paulo. Mas meu pai, um lobisomem que nunca esqueceu suas raízes em Beacon Hills, sempre falava deste lugar com uma nostalgia que beirava a dor. Foi aqui que ele conheceu minha mãe, uma onça-pintada mística que cruzou o continente em uma jornada espiritual. Eles foram embora quando ela estava grávida de oito meses, fugindo de preconceitos e de uma alcateia que não aceitava o "diferente". Agora, voltamos como os Alves — o sobrenome da linhagem dela, que escolhemos para honrar quem nos acolheu quando a família do meu pai nos deu as costas.
Assim que estacionamos o carro na frente da nossa nova casa, o clima mudou. Eu senti antes de ver. O "sentido de vibração", meus bigodes invisíveis, captaram o deslocamento de ar. Um Camaro preto encostou logo atrás de nós. O homem que saiu dele exalava poder, uma autoridade que fazia a floresta ao redor parecer prender a respiração.
— Derek Hale — meu pai disse, a voz saindo em um rosnado amigável enquanto descia do carro.
O tal Derek não sorriu, mas o jeito que ele apertou o ombro do meu pai mostrava que a história entre os Alves e os Hale era profunda. Derek agora era um Alfa, e seus olhos analisaram Matty e eu com uma precisão cirúrgica. Ele sentiu que eu não era uma loba. Ele sentiu o cheiro de selva, de magia elemental e de obsidiana.
— Igual à sua mãe, não é? — Derek comentou, a voz rouca como o atrito de pedras.
— Ela é uma Alves, Derek. O que você esperava? — minha mãe respondeu, saindo do carro com aquela postura de rainha que possui, os olhos brilhando com uma sabedoria que intimidaria até o mais feroz dos lobos.
Eu apenas acenei, sentindo o peso daquela cidade cair sobre meus ombros. Amanhã seria meu primeiro dia na escola de Beacon Hills. Eu teria que fingir ser uma adolescente normal enquanto tentava não transformar minhas unhas em lâminas de vidro vulcânico toda vez que ficasse irritada.
A manhã seguinte foi um teste de contenção sensorial. O Beacon Hills High School era um formigueiro de estímulos. O som dos armários batendo ecoava nos meus ouvidos como tiros, e o cheiro de hormônios adolescentes era quase sufocante. Eu usava uma calça jeans flare de cintura baixa, uma blusa de tule com estampa de oncinha discreta e minhas botas de plataforma pretas. O cabelo ondulado castanho claro estava volumoso, servindo como uma cortina para o mundo. Eu era a "garota nova do Brasil", e sabia que brilhava como uma pepita de ouro no meio do cascalho.
— Relaxa, Ana — Mattheo sussurrou ao meu lado enquanto caminhávamos pelo corredor. — Seus olhinhos castanhos estão ficando muiiito verdes. Respira.
— É difícil respirar com o cheiro de desodorante vencido de metade desse time de lacrosse, Matty — retruquei, ajustando a alça da mochila.
— Aposto cinquenta dólares que alguém se apaixona por você até o almoço — ele murmurou com aquela confiança irritante de quem adora ser o centro das atenções.
— Aposto cem que alguém tenta te matar antes da terceira aula — respondi, tentando disfarçar o tremor nas mãos.
— Quanto amor, Nia. — Ele usou meu apelido de infância, um toque de carinho no meio do caos. — Só tente não se meter em confusão como sempre.
Entramos na sala de história e o ar mudou instantaneamente. O cheiro de lobisomem estava por toda parte. Scott McCall e Stiles Stilinski estavam sentados a poucas fileiras de distância. Eu podia sentir o batimento cardíaco acelerado deles. Stiles me encarava como se eu fosse um enigma de álgebra impossível de resolver.
— O cheiro deles é diferente, Stiles — ouvi Scott sussurrar, sua audição de lobo captando nossa entrada, mas a minha era tão refinada quanto.
— Aposto que o dela é tipo uma coisa meio divindade — Stiles respondeu, sem desviar os olhos de mim. — Olha para ela, Scott, ela é... uau.
Mattheo se inclinou para mim enquanto nos sentávamos.
— Ana?
— Que foi? — perguntei, abrindo o caderno.
— Cadê os meus cinquentinha? — Ele disse rindo baixo. — E foi antes do almoço. — Ele indicou Stiles com a cabeça, que ainda me olhava meio bobo.
— Deixa de ser idiota, Matty. — Ri, balançando a cabeça, sentindo pela primeira vez que talvez eu pudesse sobreviver àquele lugar.
O restante do dia foi um borrão de sussurros e olhares curiosos. "Brasil fica onde mesmo?", "Eles falam espanhol lá?". Eu mantive a fachada de garota inabalável, mas por dentro, o "sentido de vibração" estava em alerta máximo. O eclipse estava chegando, e eu sentia a fome de energia começando a cutucar o fundo da minha mente.
Quando finalmente voltamos para casa, Mattheo demorou um pouco para sair do carro. A música ainda tocava baixinho e a luz da cozinha iluminava o jardim.
— Você parece se encaixar bem aqui — falei, quebrando o silêncio. — Eu não.
Mattheo encostou a cabeça no banco, me observando.
— Ana…
— Sério. Parece que para você é fácil. Você conversa, entra no time, faz amizade rápido… e eu fico tentando não parecer estranha toda vez que as minhas marcas começam a querer brilhar.
— Cansa, Nia. Cansa pra caramba — ele admitiu, a voz perdendo a arrogância e assumindo um tom de vulnerabilidade que ele só mostrava para mim. — Às vezes eu sinto que a nossa vida é escrita a lápis, sabe? Que a qualquer momento alguém vai vir com uma borracha e apagar tudo o que a gente construiu para começar do zero em outro estado.
— Eu estou ansiosa o tempo todo — confessei, girando o anel de ouro no meu dedo. — Como se estivesse esperando o momento em que a gente vai ter que arrumar as malas e fugir de novo.
Mattheo suspirou e se virou para mim, segurando minha mão.
— Talvez dessa vez seja diferente. O pai não teria voltado sem motivo. E a mãe parece… tranquila. Faz tempo que eu não a vejo assim, sem conferir as saídas de emergência de cada lugar que entra.
— Ainda assim é difícil acreditar que as coisas podem simplesmente… ficar bem.
— Talvez você não precise decidir agora se vai confiar nisso ou não — ele disse, com a sabedoria que vinha daqueles quinze minutos a mais de vida. — A onça não foge da chuva, ela aprende a caçar no meio dela. A gente não vai embora amanhã, Nia. Eu prometo que vou fazer de tudo para que, dessa vez, a mala fique no fundo do armário por muito tempo.
— Ai meu Deus, você já está falando igual aos nossos pais — brinquei, sentindo um peso sair do meu peito.
— Ei! Estou tentando ser um bom irmão mais velho.
— Você é só quinze minutos mais velho que eu, bobo.
— Ainda assim, sou o sênior aqui. — Ele riu, abrindo a porta do carro.
Antes de entrar em casa, parei por um momento e olhei para a floresta escura que cercava nossa propriedade. Eu podia sentir a vida pulsando lá dentro — pequenos roedores, cervos e, em algum lugar, a alcateia de Scott McCall. Estendi minha percepção, sentindo as vibrações do solo.
— Matty? — chamei.
— Oi?
— Obrigada.
Ele apenas piscou para mim e me puxou para o calor da cozinha, onde o cheiro de arroz com feijão e a segurança da nossa linhagem nos esperavam. Eu sabia que Beacon Hills guardava perigos que eu ainda não podia imaginar, e que meu rugido ainda seria testado pelas sombras daquela cidade. Mas, por enquanto, sob o teto dos Alves, o ronrono de cura no meu peito era o único som que importava.
Mais tarde, naquela mesma noite, sentei-me na varanda do meu quarto com minha adaga de obsidiana no colo. A lâmina era negra como o abismo, refletindo a lua crescente. Toquei a superfície polida e fechei os olhos, concentrando-me.
— Mostre-me — sussurrei.
A superfície da pedra esfriou drasticamente. Uma visão breve passou pela minha mente: o reflexo de um espelho negro mostrando o colégio de Beacon Hills sob um céu avermelhado. O eclipse. Eu vi Scott McCall caído e uma silhueta escura se aproximando.
Abri os olhos bruscamente, minhas pupilas em fenda e minhas marcas de onça brilhando em um âmbar intenso nas minhas têmporas. O "sentido de vibração" não estava me avisando para fugir. Ele estava me avisando que eu era a peça que faltava naquele tabuleiro.
— Nia? Está tudo bem? — A voz de minha mãe veio do corredor.
— Sim, mãe — respondi, guardando a adaga. — Só estou conhecendo a vizinhança.
Eu não era apenas uma estudante nova. Eu era a Onça Celeste, a guardiã do sol noturno. E se algo estava vindo para perturbar o equilíbrio daquela cidade, teria que passar pelas minhas garras de vidro vulcânico primeiro.
Caminhei até o espelho do quarto e observei minhas rosetas desaparecerem lentamente sob a pele. Eu ainda era a garota insegura de dezesseis anos, mas agora eu tinha uma âncora. Eu tinha o Matt, tinha meus pais e, estranhamente, sentia que tinha uma missão.
— Que venha o eclipse — murmurei para o meu próprio reflexo.
O silêncio da floresta lá fora foi a única resposta, um silêncio que eu sabia que poderia quebrar com um único rugido de autoridade quando a hora chegasse. Beacon Hills não sabia, mas o Pantanal tinha enviado sua protetora mais feroz. E eu não pretendia decepcionar meus ancestrais.
Meus pais dizem que estamos voltando para casa, mas para mim e Matt, "casa" sempre foi uma mala pronta e um tanque cheio. Mattheo Conan Lockwood Alves é minha metade. Somos gêmeos bivitelinos, mas o destino brincou de nos dividir entre os dois mundos dos nossos pais. Enquanto eu puxei a natureza mística da minha mãe — a herança das Onças Celestes, os Naguais do Pantanal —, Matty é um lobisomem, um herdeiro direto da força bruta e do uivo do nosso pai. Crescemos tão unidos que às vezes sinto que compartilhamos o mesmo sistema nervoso; eu sinto a adrenalina dele antes mesmo de ele rosnar, e ele sente a minha ansiedade quando minhas pupilas começam a se tornar fendas esmeraldas.
Nascemos no Brasil e, desde que me entendo por gente, pulamos de estado em estado. Já vi o sol se pôr no Rio de Janeiro e as chuvas de verão alagarem as ruas de São Paulo. Mas meu pai, um lobisomem que nunca esqueceu suas raízes em Beacon Hills, sempre falava deste lugar com uma nostalgia que beirava a dor. Foi aqui que ele conheceu minha mãe, uma onça-pintada mística que cruzou o continente em uma jornada espiritual. Eles foram embora quando ela estava grávida de oito meses, fugindo de preconceitos e de uma alcateia que não aceitava o "diferente". Agora, voltamos como os Alves — o sobrenome da linhagem dela, que escolhemos para honrar quem nos acolheu quando a família do meu pai nos deu as costas.
Assim que estacionamos o carro na frente da nossa nova casa, o clima mudou. Eu senti antes de ver. O "sentido de vibração", meus bigodes invisíveis, captaram o deslocamento de ar. Um Camaro preto encostou logo atrás de nós. O homem que saiu dele exalava poder, uma autoridade que fazia a floresta ao redor parecer prender a respiração.
— Derek Hale — meu pai disse, a voz saindo em um rosnado amigável enquanto descia do carro.
O tal Derek não sorriu, mas o jeito que ele apertou o ombro do meu pai mostrava que a história entre os Alves e os Hale era profunda. Derek agora era um Alfa, e seus olhos analisaram Matty e eu com uma precisão cirúrgica. Ele sentiu que eu não era uma loba. Ele sentiu o cheiro de selva, de magia elemental e de obsidiana.
— Igual à sua mãe, não é? — Derek comentou, a voz rouca como o atrito de pedras.
— Ela é uma Alves, Derek. O que você esperava? — minha mãe respondeu, saindo do carro com aquela postura de rainha que possui, os olhos brilhando com uma sabedoria que intimidaria até o mais feroz dos lobos.
Eu apenas acenei, sentindo o peso daquela cidade cair sobre meus ombros. Amanhã seria meu primeiro dia na escola de Beacon Hills. Eu teria que fingir ser uma adolescente normal enquanto tentava não transformar minhas unhas em lâminas de vidro vulcânico toda vez que ficasse irritada.
A manhã seguinte foi um teste de contenção sensorial. O Beacon Hills High School era um formigueiro de estímulos. O som dos armários batendo ecoava nos meus ouvidos como tiros, e o cheiro de hormônios adolescentes era quase sufocante. Eu usava uma calça jeans flare de cintura baixa, uma blusa de tule com estampa de oncinha discreta e minhas botas de plataforma pretas. O cabelo ondulado castanho claro estava volumoso, servindo como uma cortina para o mundo. Eu era a "garota nova do Brasil", e sabia que brilhava como uma pepita de ouro no meio do cascalho.
— Relaxa, Ana — Mattheo sussurrou ao meu lado enquanto caminhávamos pelo corredor. — Seus olhinhos castanhos estão ficando muiiito verdes. Respira.
— É difícil respirar com o cheiro de desodorante vencido de metade desse time de lacrosse, Matty — retruquei, ajustando a alça da mochila.
— Aposto cinquenta dólares que alguém se apaixona por você até o almoço — ele murmurou com aquela confiança irritante de quem adora ser o centro das atenções.
— Aposto cem que alguém tenta te matar antes da terceira aula — respondi, tentando disfarçar o tremor nas mãos.
— Quanto amor, Nia. — Ele usou meu apelido de infância, um toque de carinho no meio do caos. — Só tente não se meter em confusão como sempre.
Entramos na sala de história e o ar mudou instantaneamente. O cheiro de lobisomem estava por toda parte. Scott McCall e Stiles Stilinski estavam sentados a poucas fileiras de distância. Eu podia sentir o batimento cardíaco acelerado deles. Stiles me encarava como se eu fosse um enigma de álgebra impossível de resolver.
— O cheiro deles é diferente, Stiles — ouvi Scott sussurrar, sua audição de lobo captando nossa entrada, mas a minha era tão refinada quanto.
— Aposto que o dela é tipo uma coisa meio divindade — Stiles respondeu, sem desviar os olhos de mim. — Olha para ela, Scott, ela é... uau.
Mattheo se inclinou para mim enquanto nos sentávamos.
— Ana?
— Que foi? — perguntei, abrindo o caderno.
— Cadê os meus cinquentinha? — Ele disse rindo baixo. — E foi antes do almoço. — Ele indicou Stiles com a cabeça, que ainda me olhava meio bobo.
— Deixa de ser idiota, Matty. — Ri, balançando a cabeça, sentindo pela primeira vez que talvez eu pudesse sobreviver àquele lugar.
O restante do dia foi um borrão de sussurros e olhares curiosos. "Brasil fica onde mesmo?", "Eles falam espanhol lá?". Eu mantive a fachada de garota inabalável, mas por dentro, o "sentido de vibração" estava em alerta máximo. O eclipse estava chegando, e eu sentia a fome de energia começando a cutucar o fundo da minha mente.
Quando finalmente voltamos para casa, Mattheo demorou um pouco para sair do carro. A música ainda tocava baixinho e a luz da cozinha iluminava o jardim.
— Você parece se encaixar bem aqui — falei, quebrando o silêncio. — Eu não.
Mattheo encostou a cabeça no banco, me observando.
— Ana…
— Sério. Parece que para você é fácil. Você conversa, entra no time, faz amizade rápido… e eu fico tentando não parecer estranha toda vez que as minhas marcas começam a querer brilhar.
— Cansa, Nia. Cansa pra caramba — ele admitiu, a voz perdendo a arrogância e assumindo um tom de vulnerabilidade que ele só mostrava para mim. — Às vezes eu sinto que a nossa vida é escrita a lápis, sabe? Que a qualquer momento alguém vai vir com uma borracha e apagar tudo o que a gente construiu para começar do zero em outro estado.
— Eu estou ansiosa o tempo todo — confessei, girando o anel de ouro no meu dedo. — Como se estivesse esperando o momento em que a gente vai ter que arrumar as malas e fugir de novo.
Mattheo suspirou e se virou para mim, segurando minha mão.
— Talvez dessa vez seja diferente. O pai não teria voltado sem motivo. E a mãe parece… tranquila. Faz tempo que eu não a vejo assim, sem conferir as saídas de emergência de cada lugar que entra.
— Ainda assim é difícil acreditar que as coisas podem simplesmente… ficar bem.
— Talvez você não precise decidir agora se vai confiar nisso ou não — ele disse, com a sabedoria que vinha daqueles quinze minutos a mais de vida. — A onça não foge da chuva, ela aprende a caçar no meio dela. A gente não vai embora amanhã, Nia. Eu prometo que vou fazer de tudo para que, dessa vez, a mala fique no fundo do armário por muito tempo.
— Ai meu Deus, você já está falando igual aos nossos pais — brinquei, sentindo um peso sair do meu peito.
— Ei! Estou tentando ser um bom irmão mais velho.
— Você é só quinze minutos mais velho que eu, bobo.
— Ainda assim, sou o sênior aqui. — Ele riu, abrindo a porta do carro.
Antes de entrar em casa, parei por um momento e olhei para a floresta escura que cercava nossa propriedade. Eu podia sentir a vida pulsando lá dentro — pequenos roedores, cervos e, em algum lugar, a alcateia de Scott McCall. Estendi minha percepção, sentindo as vibrações do solo.
— Matty? — chamei.
— Oi?
— Obrigada.
Ele apenas piscou para mim e me puxou para o calor da cozinha, onde o cheiro de arroz com feijão e a segurança da nossa linhagem nos esperavam. Eu sabia que Beacon Hills guardava perigos que eu ainda não podia imaginar, e que meu rugido ainda seria testado pelas sombras daquela cidade. Mas, por enquanto, sob o teto dos Alves, o ronrono de cura no meu peito era o único som que importava.
Mais tarde, naquela mesma noite, sentei-me na varanda do meu quarto com minha adaga de obsidiana no colo. A lâmina era negra como o abismo, refletindo a lua crescente. Toquei a superfície polida e fechei os olhos, concentrando-me.
— Mostre-me — sussurrei.
A superfície da pedra esfriou drasticamente. Uma visão breve passou pela minha mente: o reflexo de um espelho negro mostrando o colégio de Beacon Hills sob um céu avermelhado. O eclipse. Eu vi Scott McCall caído e uma silhueta escura se aproximando.
Abri os olhos bruscamente, minhas pupilas em fenda e minhas marcas de onça brilhando em um âmbar intenso nas minhas têmporas. O "sentido de vibração" não estava me avisando para fugir. Ele estava me avisando que eu era a peça que faltava naquele tabuleiro.
— Nia? Está tudo bem? — A voz de minha mãe veio do corredor.
— Sim, mãe — respondi, guardando a adaga. — Só estou conhecendo a vizinhança.
Eu não era apenas uma estudante nova. Eu era a Onça Celeste, a guardiã do sol noturno. E se algo estava vindo para perturbar o equilíbrio daquela cidade, teria que passar pelas minhas garras de vidro vulcânico primeiro.
Caminhei até o espelho do quarto e observei minhas rosetas desaparecerem lentamente sob a pele. Eu ainda era a garota insegura de dezesseis anos, mas agora eu tinha uma âncora. Eu tinha o Matt, tinha meus pais e, estranhamente, sentia que tinha uma missão.
— Que venha o eclipse — murmurei para o meu próprio reflexo.
O silêncio da floresta lá fora foi a única resposta, um silêncio que eu sabia que poderia quebrar com um único rugido de autoridade quando a hora chegasse. Beacon Hills não sabia, mas o Pantanal tinha enviado sua protetora mais feroz. E eu não pretendia decepcionar meus ancestrais.
