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conhecimentos abstratos

Fandom: Mundo torajo

Created: 5/11/2026

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RomanceSlice of LifeFluffCharacter StudyPsychologicalMagical RealismCanon SettingCurtainfic / Domestic StoryDramaHumor
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Entre Teorias e Confissões

O ar na biblioteca da escola estava pesado, saturado com o cheiro de papel antigo e o som rítmico da chuva batendo contra as janelas altas. Para a maioria dos alunos, aquele era um refúgio de silêncio, mas para Zulmi e Pessy, era o campo de batalha de uma guerra intelectual que já durava semanas.

Zulmi batia a ponta de sua caneta amarela freneticamente contra a mesa de carvalho. Seus cabelos azuis, com aquelas mechas vibrantes que pareciam brilhar mesmo sob a luz fraca, estavam presos em um coque bagunçado. Ela era a personificação da energia, mas naquele momento, essa energia estava canalizada em pura frustração.

— Eu já disse, Pessy! — Zulmi exclamou, esquecendo-se por um momento das regras de silêncio. — A análise sociológica do comportamento dos grupos é baseada na interação espontânea, não em fórmulas matemáticas e observações frias de laboratório!

Pessy nem sequer levantou os olhos de seu caderno de couro. Ela ajustou o chapéu marrom, a fita clara balançando levemente, e continuou a escrever com uma caligrafia impecável. Sua pele laranja parecia mais pálida sob as luzes fluorescentes, e seu longo cabelo, que caía como uma cascata de pêssegos maduros até o chão, estava perfeitamente alinhado.

— Espontaneidade é apenas um padrão que você ainda não se deu ao trabalho de decifrar, Zulmi — respondeu Pessy, com a voz calma e analítica. — Se você observar as microexpressões e os padrões de movimento, verá que o "caos" que você tanto defende é, na verdade, uma sequência lógica de causa e efeito.

Zulmi soltou um suspiro dramático, jogando o corpo para trás na cadeira.

— Você tira a magia de tudo. Como você consegue viver assim? Anotando a vida em vez de vivê-la? Você olha para as pessoas como se fossem insetos em uma lâmina de microscópio.

Pessy finalmente parou de escrever. Ela ergueu os olhos índigo, profundos e insondáveis, encontrando o olhar amarelo e ardente de Zulmi. Houve um silêncio tenso, onde apenas o som da chuva preenchia o espaço entre elas.

— Eu não os vejo como insetos — disse Pessy, sua voz baixando um tom, tornando-se mais suave. — Eu os vejo como mistérios. E mistérios merecem ser compreendidos. Eu anoto porque não quero esquecer nenhum detalhe. Detalhes importam.

— Detalhes não são sentimentos, Pessy — rebateu Zulmi, inclinando-se para frente, a distância entre elas diminuindo perigosamente. — Você sabe tudo sobre "como" as pessoas agem, mas não faz ideia do "porquê" elas sentem. Você tem todas essas teorias no seu caderno, mas aposto que não tem uma única página sobre o que é perder o fôlego por causa de alguém.

O rosto de Pessy não mudou, mas seus dedos apertaram a lateral do caderno com força. Ela era uma observadora, uma teórica, alguém que preferia a segurança das hipóteses ao risco da vulnerabilidade. No entanto, Zulmi tinha esse dom — ou maldição — de cutucar exatamente onde doía, de trazer à tona o que Pessy tentava esconder sob camadas de lógica.

— E você? — Pessy perguntou, desafiadora. — Você se doa tanto para que todos ao seu redor sejam felizes, Zulmi. É a "fofoqueira" animada, a alma da festa. Mas quem observa você? Quem anota quando o seu sorriso vacila porque você está colocando a felicidade de outra pessoa acima da sua?

Zulmi estancou. O brilho amarelo em seus olhos vacilou por um segundo. Aquilo foi um golpe baixo, um que ela não esperava da garota que parecia viver apenas no mundo das ideias.

— Isso não tem nada a ver com o trabalho de história — murmurou Zulmi, tentando recuperar sua postura confiante.

— Tem tudo a ver com a nossa divergência — Pessy insistiu, fechando o caderno com um estalo seco. — Você foca no exterior, no brilho, no barulho. Eu foco no que está escondido. E o que eu vejo em você, Zulmi, é alguém que tem medo do silêncio tanto quanto eu tenho medo do caos.

Zulmi sentiu um nó na garganta. Ela sempre foi a pessoa que resolvia os problemas dos outros, que trazia a fofoca engraçada para quebrar o gelo, que garantia que ninguém ficasse triste. Mas ali, sob o olhar analítico de Pessy, ela se sentia exposta. Despida de suas cores vibrantes.

— Por que você se importa? — perguntou Zulmi, a voz agora apenas um sussurro. — Você não deveria estar mais preocupada em resolver o mistério da dinastia Ming ou algo assim?

Pessy levantou-se lentamente. Seu vestido marrom roçou na cadeira enquanto ela contornava a mesa. Ela parou ao lado de Zulmi, o aroma suave de pêssego e papel velho envolvendo a garota azul.

— Porque você é o mistério mais difícil que já tentei resolver — confessou Pessy, sem desviar o olhar. — Eu tenho páginas e páginas sobre você, Zulmi. Sobre como suas mechas amarelas parecem brilhar mais quando você está genuinamente feliz, e como você morde o lábio inferior quando está tentando esconder que está magoada.

Zulmi sentiu o coração disparar. Ela, que sempre tinha uma resposta pronta, uma piada na ponta da língua, estava subitamente sem palavras.

— Você... você tem teorias sobre mim? — Zulmi perguntou, um sorriso tímido e incerto começando a surgir.

— Muitas — Pessy admitiu, sentindo suas próprias bochechas esquentarem, um contraste suave com sua pele laranja. — Mas nenhuma delas parece chegar a uma conclusão. Porque sentimentos não seguem a lógica das minhas anotações.

Zulmi levantou-se também, ficando cara a cara com a garota mais baixa. A tensão acadêmica que as separava havia se transformado em algo muito mais denso e eletrizante. A chuva lá fora parecia ter criado um mundo onde apenas as duas existiam.

— Talvez — disse Zulmi, estendendo a mão para tocar suavemente a ponta do cabelo de Pessy, onde o formato de pêssego se curvava — você devesse parar de teorizar e começar a experienciar.

Pessy engoliu em seco, seus olhos índigo fixos nos lábios de Zulmi.

— Isso seria... cientificamente imprudente.

— A ciência que se dane por cinco minutos — Zulmi riu, uma risada curta e nervosa, mas cheia de carinho.

Zulmi aproximou-se, eliminando o último espaço entre elas. O beijo foi hesitante no início, um encontro de opostos: a energia vibrante de Zulmi contra a cautela observadora de Pessy. Mas logo se tornou algo profundo. Foi como se todas as discussões, todas as alfinetadas e todas as horas de observação silenciosa tivessem convergido para aquele momento.

Para Zulmi, o beijo tinha gosto de descoberta. Era calmo, sólido, algo que ela não precisava "performar" para manter. Para Pessy, era a peça que faltava em seu quebra-cabeça. Não era algo que pudesse ser anotado em um caderno; era algo que precisava ser sentido na pele, no calor que subia por seu pescoço, no modo como suas mãos encontraram a cintura de Zulmi quase por instinto.

Quando se separaram, ambas estavam um pouco ofegantes. Zulmi tinha um brilho nos olhos que nenhuma de suas mechas amarelas poderia igualar.

— E então? — Zulmi perguntou, passando o polegar pela bochecha de Pessy. — Qual é a conclusão da sua nova hipótese?

Pessy deu um pequeno sorriso, um daqueles raros que ela guardava apenas para si mesma, mas que agora pertencia a Zulmi. Ela pegou seu caderno de teorias da mesa, abriu em uma página em branco e, com a caneta de Zulmi, escreveu apenas uma frase em letras grandes.

— Qual? — Zulmi tentou espiar.

Pessy virou o caderno para ela.

— "Alguns mistérios não devem ser resolvidos, apenas vividos" — leu Zulmi em voz alta.

Zulmi abraçou Pessy com força, enterrando o rosto na curva de seu pescoço, sentindo a maciez do chapéu marrom contra sua testa. Pessy retribuiu o abraço, fechando os olhos e permitindo-se, pela primeira vez, não observar o mundo, mas simplesmente fazer parte dele.

— Sabe de uma coisa? — Zulmi murmurou contra a pele de Pessy. — Eu ainda acho que o seu método de pesquisa é péssimo.

Pessy riu, um som doce e cristalino que Zulmi decidiu, naquele instante, que seria seu som favorito no mundo.

— E eu ainda acho que sua falta de objetividade é alarmante.

— Ótimo — concluiu Zulmi, separando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos índigo de Pessy novamente. — Então acho que vamos precisar de muitas "sessões de estudo" extras para resolver nossas diferenças.

— Teoricamente — disse Pessy, puxando Zulmi para outro beijo —, eu concordo plenamente.

Lá fora, a chuva continuava a cair, lavando o mundo e deixando para trás apenas a promessa de algo novo. Na biblioteca silenciosa, entre livros de história e cadernos de hipóteses, a fofoqueira mais animada e a teórica mais reservada haviam finalmente encontrado a única resposta que realmente importava. E, pela primeira vez na vida, Pessy não sentiu a necessidade de anotar nada. Algumas memórias eram gravadas melhor no coração do que no papel.
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