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Kay e Naomi

Fandom: História pessoal

Created: 5/12/2026

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RomanceDramaAngstSlice of LifeHurt/ComfortFluffCharacter StudyTragedy
Contents

O Eco da Chuva e o Cheiro de Algodão-Doce

A biblioteca da escola sempre foi o santuário de Kai Clark. O silêncio ali não era apenas a ausência de som, era uma proteção contra o caos do mundo exterior. Ele preferia as páginas amareladas dos livros de história às conversas vazias do intervalo. Kai era uma sombra, um borrão no fundo da sala de aula, alguém que dominava a arte de ser invisível. Pelo menos, até Naomi Miller aparecer.

Naquele dia, a chuva batia ritmicamente contra as janelas altas, um som que Kai costumava achar reconfortante. Ele estava concentrado em um parágrafo sobre a Revolução Industrial quando um vulto cor-de-rosa invadiu seu campo de visão. Antes que pudesse reagir, algo macio foi depositado sobre seu livro aberto.

Era uma pelúcia da Hello Kitty, com um laço vermelho levemente desbotado e um vestido de cetim.

— Ela sentiu saudades do pai — uma voz melodiosa e carregada de deboche soou acima dele.

Kai levantou os olhos, ajustando os óculos no rosto. Naomi Miller estava parada ali, com um sorriso que parecia esconder mil segredos e uma energia que contrastava violentamente com a monotonia da biblioteca. Ela era nova na turma, mas em duas semanas já tinha causado mais tumulto do que Kai em dezessete anos de vida.

— Naomi, eu estou tentando ler — disse Kai, a voz rouca pela falta de uso. — E eu não sou o pai de uma pelúcia.

— Que crueldade, Clark! — Ela se sentou na mesa, ignorando completamente as regras de etiqueta do local, e puxou a cadeira dele para mais perto, forçando-o a recuar. — O nome dela é Pipoca. E ela tem os seus olhos... Meio tristes, mas bonitos.

— Ela nem tem pupilas, Naomi.

— Detalhes técnicos — ela deu de ombros, inclinando-se para frente até que o cheiro de chiclete e chuva que emanava dela preenchesse os pulmões de Kai. — Você é muito tenso. Precisa de uma dose de caos na sua vida.

Antes que ele pudesse protestar, Naomi fez algo que se tornaria rotina: ela contornou a mesa e, sem pedir licença, sentou-se no colo dele. Kai congelou. Ele sentia o calor do corpo dela através do tecido fino do vestido e a pressão leve de suas mãos nos ombros dele.

— O que você está fazendo? — ele sussurrou, o coração martelando contra as costelas como um pássaro engaiolado. — Alguém vai ver.

— Deixa verem — ela riu, um som baixo e rouco que vibrou no peito dele. — Você é tão quentinho, Kai. E seu moletom é enorme. Me empresta?

— Você já está usando o meu moletom azul desde terça-feira — ele lembrou, tentando manter a voz firme apesar do rubor que subia por seu pescoço.

— Exatamente. Agora eu quero esse cinza.

Naomi era imprevisível. Ela era o tipo de garota que corria descalça no gramado molhado e que desafiava os professores com perguntas que ninguém ousava fazer. Ela invadiu a vida de Kai como uma tempestade de verão: repentina, intensa e impossível de ignorar.

As semanas passaram e a resistência de Kai desmoronou. O garoto que antes almoçava sozinho atrás do ginásio agora passava os intervalos sendo o "trono" de Naomi. Ela se aninhava nele, roubando batatas fritas do seu prato e contando histórias absurdas sobre lugares que pretendia visitar. Ela o levava ao parque nos fins de semana, forçando-o a abandonar seus livros para observar o formato das nuvens ou para apostar corrida até a macieira mais próxima.

— Por que eu? — perguntou Kai certa tarde, enquanto estavam deitados na grama do parque municipal. A chuva tinha parado há pouco, deixando o ar úmido e o cheiro de terra molhada impregnado em tudo.

Naomi, que estava abraçada à Pipoca (a Hello Kitty que agora portava um pequeno cachecol feito de um retalho de uma camiseta de Kai), virou a cabeça para olhá-lo.

— Por que você o quê?

— Por que gastar seu tempo comigo? Você é... viva. Você brilha. Eu sou só o cara que se esconde no fundo da sala.

Naomi se apoiou nos cotovelos, o cabelo escuro caindo sobre o rosto como uma cortina. Seus olhos, geralmente cheios de travessura, ficaram subitamente sérios, quase melancólicos.

— Todo mundo brilha de um jeito diferente, Kai. Algumas pessoas são como fogos de artifício, barulhentas e rápidas. Eu prefiro a sua luz. É como uma luminária de leitura... constante, calma, segura.

Ela se inclinou e beijou a ponta do nariz dele.

— Além disso, quem mais aceitaria ser pai solteiro de uma gata de pelúcia comigo?

Kai riu, um som que agora saía com muito mais frequência do que antes. Ele estendeu a mão e puxou Naomi para mais perto, sentindo a familiaridade do corpo dela contra o seu. Naquele momento, o mundo parecia perfeito. O universo que eles criaram — preenchido por piadas internas, moletons roubados e a presença onipresente de Pipoca — era o único lugar onde Kai se sentia verdadeiramente em casa.

No entanto, havia frestas naquela perfeição. Às vezes, Kai pegava Naomi olhando para o horizonte com uma expressão de saudade antecipada. Havia dias em que ela ficava em silêncio, apenas segurando a mão dele com uma força desesperada, como se temesse que, se soltasse, ele desapareceria. Ou talvez, como se ela fosse desaparecer.

— Você está bem? — ele perguntou em uma noite de sexta-feira, enquanto estavam sentados na varanda da casa dele, observando outra tempestade começar.

Naomi estava vestindo o moletom mais pesado de Kai, as mangas cobrindo completamente suas mãos. Ela observava as gotas de chuva escorrerem pelo corrimão de madeira.

— Eu só estava pensando que a chuva é engraçada — ela disse, a voz baixa. — Ela limpa tudo, mas também destrói se for forte demais. E ela nunca fica para sempre. Ela cai, faz o que tem que fazer e vai embora.

Kai sentiu um aperto estranho no peito. Ele se aproximou e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para o seu calor.

— Mas ela sempre volta, Naomi.

— É — ela sussurrou, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas nunca é a mesma água, né?

A intimidade entre eles crescia em silêncio, manifestando-se nos pequenos gestos. No modo como Kai já deixava um espaço reservado para ela em sua cadeira antes mesmo de ela chegar. No modo como Naomi sabia exatamente quando o silêncio dele era de paz e quando era de ansiedade, intervindo com uma provocação boba ou um abraço apertado.

Certa noite, a tensão que sempre pairava sob a superfície das brincadeiras deles finalmente transbordou. Estavam no quarto de Kai, o único som sendo o tique-taque do relógio e o murmúrio distante da chuva lá fora. Naomi estava sentada na cama dele, examinando a estante de livros, quando se virou e o encontrou observando-a com uma intensidade que a fez perder o fôlego.

— O que foi? — ela perguntou, tentando manter o tom leve, mas falhando miseravelmente.

Kai não respondeu com palavras. Ele se aproximou, sentando-se à frente dela. O espaço entre os dois parecia eletrizado, carregado com tudo o que não tinha sido dito nos últimos meses.

— Eu não quero que você seja como a chuva, Naomi — ele disse, a voz trêmula. — Eu não quero que você vá embora.

A máscara de garota caótica e inabalável caiu por um segundo. Naomi desviou o olhar, as mãos apertando o tecido do moletom dele que ela usava.

— Kai... o tempo é uma coisa traiçoeira.

— Eu não ligo para o tempo — ele insistiu, segurando o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhá-lo. — Eu ligo para você. Para nós. Para a nossa "filha" ridícula de pelúcia. Para o jeito que você bagunça a minha vida e me faz sentir que eu finalmente existo.

Naomi sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se inclinou para frente, encostando a testa na dele.

— Então me ame agora, Kai Clark — ela sussurrou contra os lábios dele. — Com toda a força que você tiver. Porque o agora é a única coisa que realmente nos pertence.

O beijo que se seguiu foi uma mistura de desespero e doçura. Tinha gosto de promessas silenciosas e do medo latente do amanhã. Naquele momento, no pequeno universo do quarto de Kai, não havia passado nem futuro. Havia apenas o toque das mãos, o calor da pele e a batida sincronizada de dois corações que se encontraram no meio do caos.

Mas, enquanto Kai a abraçava naquela noite, sentindo o cheiro de algodão-doce do cabelo dela, ele não conseguia ignorar a sensação melancólica que se instalava em seu estômago. Naomi Miller era um presente que ele nunca esperou receber, mas ela também parecia uma estrela cadente: brilhante, magnífica e destinada a cruzar o céu rápido demais.

Os dias que se seguiram foram os mais felizes e, paradoxalmente, os mais dolorosos da vida de Kai. Cada risada de Naomi soava como uma nota musical em uma canção de despedida que ele ainda não queria ouvir. Eles iam ao cinema e ela chorava em comédias e ria em dramas. Eles caminhavam sob o mesmo guarda-chuva, os ombros colados, criando uma bolha de isolamento contra o resto do mundo.

— Olha só — Naomi disse certa manhã, apontando para uma flor que brotava em uma fresta do asfalto perto da escola. — Ela é teimosa, igual a você.

— Eu não sou teimoso — Kai protestou, embora estivesse sorrindo.

— É sim. Você se recusou a me notar por três dias inteiros quando eu cheguei. Mas eu sabia que ia te ganhar. Eu vi você lendo aquele livro grosso sobre batalhas perdidas e pensei: "Esse garoto precisa de alguém que ganhe uma guerra por ele".

— E você ganhou? — ele perguntou, puxando-a para um abraço por trás, escondendo o rosto na curva do pescoço dela.

Naomi ficou tensa por um momento antes de relaxar contra ele. Ela pegou as mãos de Kai e as entrelaçou nas suas.

— Eu ganhei o prêmio mais bonito de todos, Kai. Eu ganhei você.

A chuva começou a cair novamente, primeiro como uma garoa fina, depois ganhando força. Naomi se virou nos braços dele, o rosto molhado, os olhos brilhando com uma mistura de alegria e uma tristeza profunda que Kai ainda não conseguia decifrar completamente.

— Promete uma coisa? — ela pediu, a voz quase sumindo sob o som do temporal.

— Qualquer coisa.

— Se um dia a chuva ficar forte demais e você não conseguir me ver... lembre-se de que eu deixei meus moletons com você. E lembre-se da Pipoca. Ela vai precisar que o pai cuide dela.

— Naomi, do que você está falando? Você está me assustando.

Ela apenas sorriu, aquele sorriso enigmático que o enfeitiçou desde o primeiro dia, e o puxou para uma dança desajeitada no meio da calçada vazia.

— Nada de tristeza hoje, Clark! — ela gritou para o céu cinzento. — Hoje o mundo é nosso!

Eles dançaram até ficarem ensopados, até que os lábios estivessem azuis de frio e os pulmões ardessem de tanto rir. Naquela tarde, Kai Clark, o garoto que temia o mundo, sentiu-se invencível.

Mas, ao fundo, o som da chuva continuava. Era um lembrete constante de que, por mais intensa que fosse a tempestade, o céu sempre acabava por clarear. E Kai começava a entender, com o coração apertado, que o brilho de Naomi Miller era tão intenso que talvez o mundo não fosse capaz de contê-lo por muito tempo.

Ele a apertou mais forte, enterrando o rosto no moletom encharcado que ela usava — o seu favorito, o cinza. Ele fechou os olhos e tentou gravar cada detalhe: o som da risada dela, a textura da pele fria, o peso da Hello Kitty esquecida no banco do parque.

Naquele universo particular, cercado por águas que caíam do céu, Kai Clark amava Naomi Miller com a consciência de que cada segundo era um tesouro roubado do destino. E, enquanto o eco da chuva preenchia o silêncio, ele soube que, não importa o que acontecesse depois, ele nunca mais seria a mesma pessoa. Ela o tinha transformado em algo vivo, e essa era uma marca que nem a maior das tempestades poderia apagar.
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