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Entre a morte e ódio
Fandom: The waking dead
Created: 5/13/2026
Tags
Post-ApocalypticDramaAngstRomanceHurt/ComfortPsychologicalCharacter StudyCanon SettingSurvivalActionGraphic Violence
O Silêncio entre os Destroços
A chuva fina que caía sobre Alexandria trazia consigo o cheiro de terra molhada e metal oxidado, um aroma que, para S/N, se tornara o perfume oficial do fim do mundo. Ela estava sentada nos degraus da varanda de uma das casas abandonadas, as mãos ocupadas em limpar meticulosamente uma de suas facas de combate. Seus dedos se moviam com a precisão de quem outrora sonhara em segurar um bisturi, mas que agora só conhecia a lâmina como ferramenta de morte ou de remendo.
O mundo havia mudado, e ela com ele. A S/N que estudava anatomia em livros de capa dura fora substituída por uma mulher que sabia exatamente onde enfiar o aço para que um caminhante não desse um segundo passo, ou como estancar uma hemorragia arterial usando apenas tiras de uma camisa suja.
— Você vai acabar gastando o metal se continuar esfregando assim — uma voz rouca e arrastada ecoou das sombras.
S/N não precisou levantar o olhar para saber quem era. O tom de deboche, temperado com uma autoconfiança que beirava o insuportável, era inconfundível. Negan saiu da escuridão, parando a poucos metros dela, encostado em um poste de varanda com aquela postura relaxada que sempre a fazia querer socá-lo.
— O metal é meu, Negan. Eu faço o que eu quiser com ele — respondeu ela, a voz fria como o gelo. — E o que você está fazendo fora da sua cela? Achei que o conselho tivesse rédeas mais curtas com você.
Negan soltou uma risada curta, um som seco que não chegava aos olhos.
— Digamos que eu ganhei alguns pontos de bom comportamento depois de entregar a cabeça da Alpha em uma bandeja de prata. Até o Daryl me deu um aceno de cabeça hoje. Foi quase um abraço, vindo dele.
S/N parou o movimento da flanela sobre a lâmina. A menção a Alpha trouxe de volta o peso no seu peito. A guerra contra os Sussurradores tinha acabado, mas as cicatrizes — as visíveis e as invisíveis — ainda estavam abertas. Ela sentia cada perda como uma falha pessoal. Cada pessoa que ela não conseguiu costurar, cada febre que não conseguiu baixar.
— Daryl tolera você porque você foi útil — disse S/N, finalmente olhando para ele. — Mas não se engane. Ninguém esqueceu quem você era antes daquela máscara de redenção.
Negan deu um passo à frente, entrando na luz fraca que vinha da janela. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão ilegível.
— Eu não uso máscaras, S/N. Eu sou exatamente o que você vê. Um homem que fez o necessário para sobreviver e que, talvez, tenha gostado um pouco demais do poder no processo. Mas você... — Ele inclinou a cabeça, os olhos escuros analisando-a com uma intensidade desconfortável. — Você está usando uma máscara agora mesmo. A "Enfermeira de Ferro". A mulher que não quebra, que não chora e que salva todo mundo.
— Vá para o inferno — sibilou ela, levantando-se.
— O inferno está cheio, docinho. Por isso estamos todos aqui.
S/N tentou passar por ele, mas Negan se moveu com uma agilidade surpreendente, bloqueando seu caminho. Ele não a tocou, mas sua presença era opressiva.
— Você está tremendo — observou ele, em um tom quase suave.
— É o frio.
— Não é o frio. É a exaustão. Faz quanto tempo que você não dorme mais do que duas horas seguidas? Desde que o Hilltop caiu? Ou desde que você teve que fechar aquele rasgo na barriga do Scott sem anestesia?
S/N sentiu a raiva borbulhar, mas sob a raiva, havia uma rachadura perigosa em sua armadura. Como ele sabia? Ela escondia isso de Maggie para não sobrecarregá-la com mais luto. Escondia de Carol, porque Carol já carregava o mundo nas costas. Escondia de Daryl, porque ele era seu porto seguro e ela não queria ser o fardo que o faria afundar.
— Não é da sua conta — disse ela, a voz falhando minimamente.
— É aí que você se engana. Eu reconheço o olhar de quem está prestes a desmoronar, S/N. Eu vi no espelho por anos, antes de decidir me tornar o monstro que todo mundo temia. É mais fácil ser odiado do que ser o salvador que falha.
S/N apertou o cabo da faca com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Eu não sou como você.
— Não — concordou ele, dando um passo para trás, dando-lhe espaço. — Você é muito melhor. E é por isso que dói mais em você.
Ele se afastou, desaparecendo na escuridão da rua tão silenciosamente quanto surgira. S/N ficou parada na varanda, o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado. Ela odiava o fato de que ele tinha razão. Odiava que o homem que personificava seus piores pesadelos fosse o único capaz de ler o que ela tentava tão desesperadamente enterrar.
Nos dias seguintes, S/N tentou manter sua rotina. Ela ajudou Maggie a organizar os suprimentos médicos que restaram. Maggie, com seu olhar de irmã mais velha, percebeu que algo estava errado.
— S/N, você precisa descansar — disse Maggie, colocando uma mão em seu ombro enquanto organizavam gazes em uma prateleira improvisada. — Você parece um fantasma.
— Estou bem, Maggie. Só há muito o que fazer. Se não catalogarmos isso agora, não saberemos o que temos se houver outra emergência.
— A emergência é você se esgotar — insistiu Maggie. — Vá para casa. Coma algo de verdade. Isso é uma ordem, não um pedido.
S/N sorriu fraco, um gesto que não alcançou seus olhos cansados.
— Tudo bem. Eu vou.
Mas ela não foi para casa. Ela caminhou até os limites de Alexandria, onde a floresta começava a engolir as cercas. Ela precisava de silêncio. Precisava de um lugar onde não fosse a "salvadora", onde não houvesse vidas dependendo de suas mãos ágeis.
Ela encontrou um tronco caído e se sentou, deixando a cabeça cair entre os joelhos. O silêncio da floresta era interrompido apenas pelo estalar ocasional de galhos.
— Se você está esperando um cervo para o jantar, está no lugar errado.
S/N não se assustou desta vez. Ela apenas soltou um suspiro pesado.
— Você está me seguindo agora, Negan? Isso é um novo hobby?
Ele saiu de trás de uma árvore, carregando um pequeno cantil de metal. Ele se sentou no chão, a poucos metros dela, sem pedir permissão.
— Eu estava apenas garantindo que você não fosse devorada por um errante enquanto tirava um cochilo no meio do nada. Seria um desperdício de talento médico.
— Por que você se importa? — perguntou ela, finalmente encarando-o. — De verdade. Sem o sarcasmo, sem as piadinhas. Por que você se importa se eu estou bem ou não?
Negan olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr, pintando o céu de um laranja sangrento.
— Porque você é a única pessoa aqui que olha para mim e não vê apenas o bastão de beisebol ou o trono de Alexandria. Você vê o que eu sou agora. E, estranhamente, você ainda não me matou, mesmo tendo tido mil oportunidades com aquelas suas facas.
— Eu sou enfermeira, Negan. Eu salvo vidas.
— Você é uma guerreira que sabe curar — corrigiu ele. — E guerreiros precisam de um lugar para baixar a guarda.
Ele estendeu o cantil para ela.
— O que é isso? — perguntou S/N, desconfiada.
— Um pouco de cidra que eu "peguei emprestada". Vai ajudar a silenciar os gritos na sua cabeça por uma hora ou duas.
S/N hesitou, mas a exaustão falou mais alto. Ela pegou o cantil e tomou um gole longo. O líquido queimou sua garganta, mas trouxe um calor imediato ao seu peito. Ela devolveu o cantil, e seus dedos se roçaram nos dele. Foi um toque breve, mas eletrizante. S/N sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o clima.
— Você não precisa ser perfeita o tempo todo, S/N — disse Negan, a voz agora baixa e grave. — Às vezes, o mundo pode quebrar. E você pode quebrar junto com ele.
— Se eu quebrar, quem vai sobrar para consertar os outros? — perguntou ela, a primeira lágrima finalmente escapando e rolando pelo seu rosto.
Negan se aproximou. Ele não a abraçou — ele sabia que ela recusaria —, mas ele se sentou perto o suficiente para que ela pudesse sentir o calor do seu corpo.
— Eu fico aqui — disse ele, com uma sinceridade que a assustou. — Eu fico de guarda enquanto você se reconstrói.
S/N cobriu o rosto com as mãos e, pela primeira vez em meses, chorou. Não foi um choro contido, mas um soluço profundo que sacudiu todo o seu corpo. Ela chorou por Glenn, chorou pelos amigos que perdeu no massacre das estacas, chorou pelo peso de cada vida que passou por suas mãos.
E Negan não disse uma palavra. Ele não ofereceu clichês de esperança. Ele apenas ficou ali, uma presença sólida e sombria na penumbra, sendo o único que não exigia nada dela.
Quando o choro finalmente cessou, S/N sentiu-se vazia, mas leve. Ela limpou o rosto com as costas das mãos e olhou para o homem ao seu lado. A luz da lua agora iluminava o rosto dele, suavizando as linhas de sua expressão.
— Eu ainda odeio você — sussurrou ela, embora a palavra "ódio" já não tivesse o mesmo peso de antes.
Negan deu aquele sorriso torto, mas desta vez, havia algo de terno nele.
— Eu sei. É o que torna tudo isso tão divertido.
Eles voltaram para Alexandria caminhando lado a lado em um silêncio confortável. Quando chegaram à porta da casa de S/N, ela parou e se virou para ele.
— Negan?
— Sim, docinho?
— Obrigada.
Ele apenas acenou com a cabeça, um gesto de respeito mútuo, e se afastou.
S/N entrou em casa e, pela primeira vez em semanas, dormiu sem sonhar com sangue.
No dia seguinte, ela estava de volta ao trabalho. Daryl a encontrou perto do arsenal, observando-a com seu olhar clínico.
— Você parece melhor — disse ele, a voz rouca. — Dormiu?
— Um pouco — respondeu S/N, ajustando o coldre na cintura. — Daryl, você acha que as pessoas podem realmente mudar? Ou elas apenas se adaptam para sobreviver?
Daryl cuspiu no chão, pensativo.
— Acho que neste mundo, a gente faz os dois. Mas o que importa é quem está lá quando as coisas ficam feias. Por que a pergunta?
— Curiosidade — mentiu ela.
Mais tarde, ela viu Negan trabalhando na horta comunitária. Ele estava sem camisa, o suor brilhando em suas costas enquanto ele cavava a terra. Carol estava por perto, observando-o com aquela desconfiança vigilante que lhe era característica. S/N aproximou-se de Carol.
— Ele está sendo útil — comentou Carol, sem desviar os olhos de Negan. — Mas ainda é uma cobra.
— Talvez — disse S/N, sentindo um conflito interno que a rasgava ao meio. — Mas até as cobras podem ajudar a manter as pragas longe.
Carol olhou para S/N, seus olhos azuis penetrantes parecendo ler a alma da amiga.
— Tome cuidado, S/N. Homens como ele... eles sabem onde estão as nossas feridas. E eles sabem como usá-las.
— Eu sei — respondeu S/N, e era verdade.
O que ela não disse a Carol, nem a Maggie, nem a Daryl, era que Negan não estava usando as feridas dela contra ela. Ele estava apenas... reconhecendo-as.
Semanas se passaram, e a dinâmica entre os dois tornou-se uma dança coreografada de provocações e momentos de silêncio compartilhado. S/N começou a notar detalhes que a irritavam por serem atraentes: o jeito como ele protegia as crianças do grupo sem ser óbvio, a maneira como ele nunca recuava diante de um trabalho pesado, e a inteligência estratégica que ele oferecia nas reuniões do conselho, sempre com um toque de arrogância que escondia um pragmatismo necessário.
Uma noite, Alexandria foi atacada por um pequeno grupo de saqueadores remanescentes. Não foi uma batalha grande, mas foi intensa o suficiente para causar caos. S/N estava no meio da luta, suas facas movendo-se com a agilidade instintiva que a mantivera viva.
Ela viu um saqueador se aproximar de Negan por trás enquanto ele lutava com outro. Sem pensar, S/N lançou sua faca menor. A lâmina girou no ar e atingiu o ombro do atacante, fazendo-o errar o golpe. Negan aproveitou a oportunidade para finalizar o homem com um pé de cabra que encontrara.
Ele se virou para ela, ofegante, o rosto sujo de sangue.
— Belo arremesso! — gritou ele por cima do barulho.
— Fique atento! — retrucou ela, já se movendo para o próximo alvo.
Quando a luta acabou e os feridos começaram a ser levados para a enfermaria improvisada, S/N entrou em modo profissional. Ela limpou ferimentos, fez pontos e distribuiu antibióticos com a eficiência de sempre. Negan apareceu na porta, com um corte profundo no braço.
— Acho que preciso de um pouco de atenção da doutora — disse ele, tentando manter o tom leve, embora estivesse visivelmente pálido.
— Sente-se — ordenou ela, apontando para uma maca.
Ela começou a limpar o ferimento dele. O corte era limpo, mas profundo. Ela precisaria dar pontos.
— Isso vai doer — avisou ela, preparando a agulha e o fio.
— Eu já aguentei pior — respondeu ele, os olhos fixos nela. — Você salvou minha pele lá fora.
— Eu salvei um recurso de Alexandria — corrigiu ela, embora suas mãos estivessem menos firmes do que o habitual.
— Mentirosa — sussurrou ele.
S/N parou o que estava fazendo e olhou para ele. A proximidade era perigosa. Ela podia sentir o cheiro de pólvora e suor vindo dele, mas também algo mais... humano.
— Por que você não me deixa em paz, Negan? Por que tem que tornar tudo tão difícil?
— Porque nada neste mundo é fácil, S/N. Especialmente a verdade.
Ele estendeu a mão livre e tocou o rosto dela, o polegar limpando uma mancha de sangue em sua bochecha. S/N deveria ter se afastado. Deveria ter pegado a faca e ameaçado cortá-lo. Mas ela não se moveu.
— A verdade é que você me vê — continuou ele, a voz baixa e intensa. — E a verdade é que eu vejo você. Dois seres quebrados tentando fingir que ainda são inteiros.
— Nós não somos iguais — disse ela, mas a frase soou como uma súplica, não uma afirmação.
— Não somos. Você é a luz que tenta curar. Eu sou a sombra que protege. Mas a luz e a sombra... elas sempre andam juntas.
S/N sentiu o mundo ao seu redor desaparecer. Não havia mais zumbis, nem guerras, nem perdas. Havia apenas aquele homem, o monstro que ela odiava e o sobrevivente que ela começava a... entender.
Ela inclinou a cabeça, fechando os olhos por um segundo contra a mão dele.
— Se eu fizer isso... se eu deixar você entrar... eu vou estar traindo todo mundo que eu amei.
— Ou você vai estar finalmente se permitindo sentir algo que não seja dor — respondeu ele.
S/N abriu os olhos e terminou o último ponto no braço dele com firmeza. Ela cortou o fio e guardou os instrumentos.
— Vá descansar, Negan.
Ele se levantou, mas antes de sair, ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela:
— Você sabe onde me encontrar quando parar de lutar contra si mesma.
Ele saiu, deixando-a sozinha na enfermaria silenciosa. S/N olhou para suas mãos — as mãos que curavam, as mãos que matavam. Elas estavam tremendo de novo.
Ela sabia que Maggie e Carol nunca entenderiam. Sabia que Daryl ficaria desapontado. Mas ela também sabia que, naquele mundo de mortos, Negan era a única coisa que a fazia se sentir violentamente viva.
A guerra silenciosa dentro dela continuava, mas pela primeira vez, S/N não tinha certeza se queria vencer. Porque, no fundo, ela já sabia: ele tinha encontrado o caminho através de suas defesas. E não havia ferida que ela pudesse costurar para impedir que ele fizesse parte dela.
O mundo havia mudado, e ela com ele. A S/N que estudava anatomia em livros de capa dura fora substituída por uma mulher que sabia exatamente onde enfiar o aço para que um caminhante não desse um segundo passo, ou como estancar uma hemorragia arterial usando apenas tiras de uma camisa suja.
— Você vai acabar gastando o metal se continuar esfregando assim — uma voz rouca e arrastada ecoou das sombras.
S/N não precisou levantar o olhar para saber quem era. O tom de deboche, temperado com uma autoconfiança que beirava o insuportável, era inconfundível. Negan saiu da escuridão, parando a poucos metros dela, encostado em um poste de varanda com aquela postura relaxada que sempre a fazia querer socá-lo.
— O metal é meu, Negan. Eu faço o que eu quiser com ele — respondeu ela, a voz fria como o gelo. — E o que você está fazendo fora da sua cela? Achei que o conselho tivesse rédeas mais curtas com você.
Negan soltou uma risada curta, um som seco que não chegava aos olhos.
— Digamos que eu ganhei alguns pontos de bom comportamento depois de entregar a cabeça da Alpha em uma bandeja de prata. Até o Daryl me deu um aceno de cabeça hoje. Foi quase um abraço, vindo dele.
S/N parou o movimento da flanela sobre a lâmina. A menção a Alpha trouxe de volta o peso no seu peito. A guerra contra os Sussurradores tinha acabado, mas as cicatrizes — as visíveis e as invisíveis — ainda estavam abertas. Ela sentia cada perda como uma falha pessoal. Cada pessoa que ela não conseguiu costurar, cada febre que não conseguiu baixar.
— Daryl tolera você porque você foi útil — disse S/N, finalmente olhando para ele. — Mas não se engane. Ninguém esqueceu quem você era antes daquela máscara de redenção.
Negan deu um passo à frente, entrando na luz fraca que vinha da janela. O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão ilegível.
— Eu não uso máscaras, S/N. Eu sou exatamente o que você vê. Um homem que fez o necessário para sobreviver e que, talvez, tenha gostado um pouco demais do poder no processo. Mas você... — Ele inclinou a cabeça, os olhos escuros analisando-a com uma intensidade desconfortável. — Você está usando uma máscara agora mesmo. A "Enfermeira de Ferro". A mulher que não quebra, que não chora e que salva todo mundo.
— Vá para o inferno — sibilou ela, levantando-se.
— O inferno está cheio, docinho. Por isso estamos todos aqui.
S/N tentou passar por ele, mas Negan se moveu com uma agilidade surpreendente, bloqueando seu caminho. Ele não a tocou, mas sua presença era opressiva.
— Você está tremendo — observou ele, em um tom quase suave.
— É o frio.
— Não é o frio. É a exaustão. Faz quanto tempo que você não dorme mais do que duas horas seguidas? Desde que o Hilltop caiu? Ou desde que você teve que fechar aquele rasgo na barriga do Scott sem anestesia?
S/N sentiu a raiva borbulhar, mas sob a raiva, havia uma rachadura perigosa em sua armadura. Como ele sabia? Ela escondia isso de Maggie para não sobrecarregá-la com mais luto. Escondia de Carol, porque Carol já carregava o mundo nas costas. Escondia de Daryl, porque ele era seu porto seguro e ela não queria ser o fardo que o faria afundar.
— Não é da sua conta — disse ela, a voz falhando minimamente.
— É aí que você se engana. Eu reconheço o olhar de quem está prestes a desmoronar, S/N. Eu vi no espelho por anos, antes de decidir me tornar o monstro que todo mundo temia. É mais fácil ser odiado do que ser o salvador que falha.
S/N apertou o cabo da faca com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Eu não sou como você.
— Não — concordou ele, dando um passo para trás, dando-lhe espaço. — Você é muito melhor. E é por isso que dói mais em você.
Ele se afastou, desaparecendo na escuridão da rua tão silenciosamente quanto surgira. S/N ficou parada na varanda, o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado. Ela odiava o fato de que ele tinha razão. Odiava que o homem que personificava seus piores pesadelos fosse o único capaz de ler o que ela tentava tão desesperadamente enterrar.
Nos dias seguintes, S/N tentou manter sua rotina. Ela ajudou Maggie a organizar os suprimentos médicos que restaram. Maggie, com seu olhar de irmã mais velha, percebeu que algo estava errado.
— S/N, você precisa descansar — disse Maggie, colocando uma mão em seu ombro enquanto organizavam gazes em uma prateleira improvisada. — Você parece um fantasma.
— Estou bem, Maggie. Só há muito o que fazer. Se não catalogarmos isso agora, não saberemos o que temos se houver outra emergência.
— A emergência é você se esgotar — insistiu Maggie. — Vá para casa. Coma algo de verdade. Isso é uma ordem, não um pedido.
S/N sorriu fraco, um gesto que não alcançou seus olhos cansados.
— Tudo bem. Eu vou.
Mas ela não foi para casa. Ela caminhou até os limites de Alexandria, onde a floresta começava a engolir as cercas. Ela precisava de silêncio. Precisava de um lugar onde não fosse a "salvadora", onde não houvesse vidas dependendo de suas mãos ágeis.
Ela encontrou um tronco caído e se sentou, deixando a cabeça cair entre os joelhos. O silêncio da floresta era interrompido apenas pelo estalar ocasional de galhos.
— Se você está esperando um cervo para o jantar, está no lugar errado.
S/N não se assustou desta vez. Ela apenas soltou um suspiro pesado.
— Você está me seguindo agora, Negan? Isso é um novo hobby?
Ele saiu de trás de uma árvore, carregando um pequeno cantil de metal. Ele se sentou no chão, a poucos metros dela, sem pedir permissão.
— Eu estava apenas garantindo que você não fosse devorada por um errante enquanto tirava um cochilo no meio do nada. Seria um desperdício de talento médico.
— Por que você se importa? — perguntou ela, finalmente encarando-o. — De verdade. Sem o sarcasmo, sem as piadinhas. Por que você se importa se eu estou bem ou não?
Negan olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr, pintando o céu de um laranja sangrento.
— Porque você é a única pessoa aqui que olha para mim e não vê apenas o bastão de beisebol ou o trono de Alexandria. Você vê o que eu sou agora. E, estranhamente, você ainda não me matou, mesmo tendo tido mil oportunidades com aquelas suas facas.
— Eu sou enfermeira, Negan. Eu salvo vidas.
— Você é uma guerreira que sabe curar — corrigiu ele. — E guerreiros precisam de um lugar para baixar a guarda.
Ele estendeu o cantil para ela.
— O que é isso? — perguntou S/N, desconfiada.
— Um pouco de cidra que eu "peguei emprestada". Vai ajudar a silenciar os gritos na sua cabeça por uma hora ou duas.
S/N hesitou, mas a exaustão falou mais alto. Ela pegou o cantil e tomou um gole longo. O líquido queimou sua garganta, mas trouxe um calor imediato ao seu peito. Ela devolveu o cantil, e seus dedos se roçaram nos dele. Foi um toque breve, mas eletrizante. S/N sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o clima.
— Você não precisa ser perfeita o tempo todo, S/N — disse Negan, a voz agora baixa e grave. — Às vezes, o mundo pode quebrar. E você pode quebrar junto com ele.
— Se eu quebrar, quem vai sobrar para consertar os outros? — perguntou ela, a primeira lágrima finalmente escapando e rolando pelo seu rosto.
Negan se aproximou. Ele não a abraçou — ele sabia que ela recusaria —, mas ele se sentou perto o suficiente para que ela pudesse sentir o calor do seu corpo.
— Eu fico aqui — disse ele, com uma sinceridade que a assustou. — Eu fico de guarda enquanto você se reconstrói.
S/N cobriu o rosto com as mãos e, pela primeira vez em meses, chorou. Não foi um choro contido, mas um soluço profundo que sacudiu todo o seu corpo. Ela chorou por Glenn, chorou pelos amigos que perdeu no massacre das estacas, chorou pelo peso de cada vida que passou por suas mãos.
E Negan não disse uma palavra. Ele não ofereceu clichês de esperança. Ele apenas ficou ali, uma presença sólida e sombria na penumbra, sendo o único que não exigia nada dela.
Quando o choro finalmente cessou, S/N sentiu-se vazia, mas leve. Ela limpou o rosto com as costas das mãos e olhou para o homem ao seu lado. A luz da lua agora iluminava o rosto dele, suavizando as linhas de sua expressão.
— Eu ainda odeio você — sussurrou ela, embora a palavra "ódio" já não tivesse o mesmo peso de antes.
Negan deu aquele sorriso torto, mas desta vez, havia algo de terno nele.
— Eu sei. É o que torna tudo isso tão divertido.
Eles voltaram para Alexandria caminhando lado a lado em um silêncio confortável. Quando chegaram à porta da casa de S/N, ela parou e se virou para ele.
— Negan?
— Sim, docinho?
— Obrigada.
Ele apenas acenou com a cabeça, um gesto de respeito mútuo, e se afastou.
S/N entrou em casa e, pela primeira vez em semanas, dormiu sem sonhar com sangue.
No dia seguinte, ela estava de volta ao trabalho. Daryl a encontrou perto do arsenal, observando-a com seu olhar clínico.
— Você parece melhor — disse ele, a voz rouca. — Dormiu?
— Um pouco — respondeu S/N, ajustando o coldre na cintura. — Daryl, você acha que as pessoas podem realmente mudar? Ou elas apenas se adaptam para sobreviver?
Daryl cuspiu no chão, pensativo.
— Acho que neste mundo, a gente faz os dois. Mas o que importa é quem está lá quando as coisas ficam feias. Por que a pergunta?
— Curiosidade — mentiu ela.
Mais tarde, ela viu Negan trabalhando na horta comunitária. Ele estava sem camisa, o suor brilhando em suas costas enquanto ele cavava a terra. Carol estava por perto, observando-o com aquela desconfiança vigilante que lhe era característica. S/N aproximou-se de Carol.
— Ele está sendo útil — comentou Carol, sem desviar os olhos de Negan. — Mas ainda é uma cobra.
— Talvez — disse S/N, sentindo um conflito interno que a rasgava ao meio. — Mas até as cobras podem ajudar a manter as pragas longe.
Carol olhou para S/N, seus olhos azuis penetrantes parecendo ler a alma da amiga.
— Tome cuidado, S/N. Homens como ele... eles sabem onde estão as nossas feridas. E eles sabem como usá-las.
— Eu sei — respondeu S/N, e era verdade.
O que ela não disse a Carol, nem a Maggie, nem a Daryl, era que Negan não estava usando as feridas dela contra ela. Ele estava apenas... reconhecendo-as.
Semanas se passaram, e a dinâmica entre os dois tornou-se uma dança coreografada de provocações e momentos de silêncio compartilhado. S/N começou a notar detalhes que a irritavam por serem atraentes: o jeito como ele protegia as crianças do grupo sem ser óbvio, a maneira como ele nunca recuava diante de um trabalho pesado, e a inteligência estratégica que ele oferecia nas reuniões do conselho, sempre com um toque de arrogância que escondia um pragmatismo necessário.
Uma noite, Alexandria foi atacada por um pequeno grupo de saqueadores remanescentes. Não foi uma batalha grande, mas foi intensa o suficiente para causar caos. S/N estava no meio da luta, suas facas movendo-se com a agilidade instintiva que a mantivera viva.
Ela viu um saqueador se aproximar de Negan por trás enquanto ele lutava com outro. Sem pensar, S/N lançou sua faca menor. A lâmina girou no ar e atingiu o ombro do atacante, fazendo-o errar o golpe. Negan aproveitou a oportunidade para finalizar o homem com um pé de cabra que encontrara.
Ele se virou para ela, ofegante, o rosto sujo de sangue.
— Belo arremesso! — gritou ele por cima do barulho.
— Fique atento! — retrucou ela, já se movendo para o próximo alvo.
Quando a luta acabou e os feridos começaram a ser levados para a enfermaria improvisada, S/N entrou em modo profissional. Ela limpou ferimentos, fez pontos e distribuiu antibióticos com a eficiência de sempre. Negan apareceu na porta, com um corte profundo no braço.
— Acho que preciso de um pouco de atenção da doutora — disse ele, tentando manter o tom leve, embora estivesse visivelmente pálido.
— Sente-se — ordenou ela, apontando para uma maca.
Ela começou a limpar o ferimento dele. O corte era limpo, mas profundo. Ela precisaria dar pontos.
— Isso vai doer — avisou ela, preparando a agulha e o fio.
— Eu já aguentei pior — respondeu ele, os olhos fixos nela. — Você salvou minha pele lá fora.
— Eu salvei um recurso de Alexandria — corrigiu ela, embora suas mãos estivessem menos firmes do que o habitual.
— Mentirosa — sussurrou ele.
S/N parou o que estava fazendo e olhou para ele. A proximidade era perigosa. Ela podia sentir o cheiro de pólvora e suor vindo dele, mas também algo mais... humano.
— Por que você não me deixa em paz, Negan? Por que tem que tornar tudo tão difícil?
— Porque nada neste mundo é fácil, S/N. Especialmente a verdade.
Ele estendeu a mão livre e tocou o rosto dela, o polegar limpando uma mancha de sangue em sua bochecha. S/N deveria ter se afastado. Deveria ter pegado a faca e ameaçado cortá-lo. Mas ela não se moveu.
— A verdade é que você me vê — continuou ele, a voz baixa e intensa. — E a verdade é que eu vejo você. Dois seres quebrados tentando fingir que ainda são inteiros.
— Nós não somos iguais — disse ela, mas a frase soou como uma súplica, não uma afirmação.
— Não somos. Você é a luz que tenta curar. Eu sou a sombra que protege. Mas a luz e a sombra... elas sempre andam juntas.
S/N sentiu o mundo ao seu redor desaparecer. Não havia mais zumbis, nem guerras, nem perdas. Havia apenas aquele homem, o monstro que ela odiava e o sobrevivente que ela começava a... entender.
Ela inclinou a cabeça, fechando os olhos por um segundo contra a mão dele.
— Se eu fizer isso... se eu deixar você entrar... eu vou estar traindo todo mundo que eu amei.
— Ou você vai estar finalmente se permitindo sentir algo que não seja dor — respondeu ele.
S/N abriu os olhos e terminou o último ponto no braço dele com firmeza. Ela cortou o fio e guardou os instrumentos.
— Vá descansar, Negan.
Ele se levantou, mas antes de sair, ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela:
— Você sabe onde me encontrar quando parar de lutar contra si mesma.
Ele saiu, deixando-a sozinha na enfermaria silenciosa. S/N olhou para suas mãos — as mãos que curavam, as mãos que matavam. Elas estavam tremendo de novo.
Ela sabia que Maggie e Carol nunca entenderiam. Sabia que Daryl ficaria desapontado. Mas ela também sabia que, naquele mundo de mortos, Negan era a única coisa que a fazia se sentir violentamente viva.
A guerra silenciosa dentro dela continuava, mas pela primeira vez, S/N não tinha certeza se queria vencer. Porque, no fundo, ela já sabia: ele tinha encontrado o caminho através de suas defesas. E não havia ferida que ela pudesse costurar para impedir que ele fizesse parte dela.
