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“Imaculada”

Fandom: Imaculada

Created: 5/14/2026

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RomanceDramaAngstPsychologicalDarkHistoricalUnplanned/Unwanted PregnancyMisrepresentation of Religion/Magic/MythologyThrillerSurvival
Contents

O Milagre no Ventre da Pecadora

O ar no convento de Villa Pia era sempre carregado, uma mistura de incenso antigo, mofo e o perfume doce de flores que pareciam murchar antes mesmo de desabrochar. Para Clara, aquele cheiro era o aroma da sua sentença. Ela nunca quisera estar ali. Enquanto as outras noviças caminhavam com a cabeça baixa e mãos postas, Clara sentia o peso do seu próprio corpo como uma âncora de inadequação. Seus pais, devotos ao ponto da crueldade, decidiram que a filha "voluptuosa e tagarela demais" precisava da disciplina do hábito para conter seus impulsos.

Clara era gordinha, de bochechas rosadas que se acendiam ao menor sinal de riso, e possuía uma energia que as paredes de pedra tentavam esmagar. Ela era extrovertida por natureza, mas o silêncio forçado do noviciado a tornara uma sombra insegura de si mesma. Até que ele apareceu.

O Padre Sal Tedeschi não era como os outros clérigos. Ele tinha um olhar que parecia enxergar através das camadas de lã pesada e das inseguranças de Clara. Ele via a mulher, não o pecado. E, em uma noite de tempestade, onde o isolamento do convento pareceu fechar o mundo lá fora, o que deveria ser confissão tornou-se consolo, e o consolo tornou-se um incêndio que nenhum dos dois conseguiu apagar.

Agora, meses depois, o silêncio do confessionário era quebrado pelo som abafado do choro de Clara.

— Por favor, Sal... eu não sei mais o que fazer. O hábito não consegue mais esconder. A Madre Superiora já me olha de um jeito... ela suspeita.

Sal Tedeschi, do outro lado da grade de madeira, fechou os olhos com força. Ele sentia o suor frio escorrer por suas costas. Ele era um homem de fé, ou pelo menos acreditava ser, até que o calor da pele de Clara o lembrou de que ele era, acima de tudo, um homem de carne.

— Clara, acalme-se. Respire — ele sussurrou, a voz falhando. — Ninguém pode saber a verdade. Se souberem que o filho é meu, nós dois seremos destruídos. Você sabe do que eles são capazes aqui.

— Eu estou com medo — disse ela, soluçando, as mãos apertando o tecido da saia sobre o ventre que começava a arredondar de forma inegável. — Meus pais me matariam. E as irmãs... elas dizem que este lugar é sagrado, mas eu sinto o mal nas paredes, Sal. Eu sinto que elas estão esperando um deslize meu para me devorarem.

Sal abriu a portinhola do confessionário e saiu, verificando se o corredor da capela estava vazio. Ele gesticulou para que ela saísse também. Clara emergiu da sombra, a luz das velas vacilantes iluminando seu rosto redondo e banhado de lágrimas. Ela parecia tão frágil, apesar da vivacidade que ele tanto amava.

Ele se aproximou e, quebrando todas as regras, tocou o rosto dela.

— Você não é um deslize, Clara. Mas o que temos aqui... — ele baixou a mão para o ventre dela, sentindo uma conexão elétrica e aterrorizante — ...isso é uma sentença de morte se não jogarmos o jogo deles.

— Que jogo? — perguntou ela, os olhos arregalados. — Não há como esconder um bebê, Sal!

Sal olhou para a estátua da Virgem Maria no altar. Ele pensou na história da Imaculada Conceição, na pureza que aquele convento tanto pregava de forma distorcida. Ele pensou no poder que a Igreja tinha de transformar o impossível em dogma.

— Nós não vamos esconder — disse ele, a voz subitamente firme, embora seus olhos brilhassem com uma determinação perigosa. — Nós vamos dar a eles o que eles mais desejam. Um sinal.

Clara franziu a testa, confusa.

— Do que você está falando?

— Eles querem milagres, não querem? — Sal deu um passo à frente, a mente trabalhando rápido. — Eles querem provar que este lugar é abençoado, que a linhagem de Cristo ainda se manifesta. Se dissermos que você foi tocada pelo divino... se dissermos que não houve homem...

— Mas eles vão saber que é mentira! — exclamou ela em um sussurro desesperado. — Eu sou apenas a Clara, a noviça gorda que não consegue ficar em silêncio. Ninguém vai acreditar que eu fui escolhida para algo assim.

— Eles vão acreditar porque precisam acreditar — insistiu Sal, segurando os ombros dela. — Eu vou preparar o caminho. Vou falar sobre visões, sobre a pureza da sua alma que só eu, como seu confessor, pude ver. Vou dizer que o Senhor me revelou em sonhos que uma nova vida surgiria neste convento para salvar a fé vacilante do mundo.

Clara sentiu um arrepio que não vinha do frio das pedras.

— Isso é sacrilégio, Sal. É pecado mortal.

— O pecado já foi cometido, meu amor — disse ele, com uma tristeza profunda na voz. — Agora, trata-se de sobrevivência. Você quer que tirem esse filho de você? Quer que a joguem em um calabouço ou algo pior?

Clara estremeceu. Ela ouvira histórias sobre o que acontecia com as "irmãs caídas" em conventos tão rigorosos quanto aquele.

— Não — respondeu ela, baixinho. — Eu quero meu filho.

— Então, a partir de hoje, você não é mais a noviça insegura que seus pais mandaram para cá — disse Sal, olhando-a nos olhos com uma intensidade quase febril. — Você é o receptáculo de um milagre. Você é a Imaculada deste século.

— E se eles me examinarem? — perguntou ela, a voz trêmula. — Os médicos, as outras freiras...

— Eu cuidarei de tudo — afirmou Sal. — Eu trarei os médicos. Eu controlarei a narrativa. Mas você precisa ser forte, Clara. Você precisa acreditar na sua própria santidade, mesmo que ela tenha nascido de um momento de paixão humana.

Clara olhou para as próprias mãos. Elas sempre pareceram grandes demais, desajeitadas demais. Mas agora, elas protegiam algo que Sal chamava de milagre.

— Eu não sei se consigo mentir assim para Deus — confessou ela.

— Deus sabe o que está no seu coração, Clara — disse Sal, embora ele mesmo sentisse o peso da mentira esmagando sua alma. — Ele sabe que estamos protegendo uma vida. Se o mundo é cruel demais para a verdade, então a mentira se torna nossa única oração.

Semanas se passaram, e o plano de Sal começou a ganhar raízes. Ele passou a pregar sobre "sinais e prodígios" durante as missas matinais. Ele mencionava, com uma modéstia calculada, que sentia uma presença angélical nos corredores de Villa Pia. E, gradualmente, as atenções se voltaram para Clara.

Ela, seguindo as instruções de Sal, mudou seu comportamento. Tornou-se mais silenciosa, não por medo, mas por uma aura de mistério que ele a ajudou a cultivar. Quando a Madre Superiora finalmente a chamou para questionar as mudanças em seu corpo, Clara não chorou.

— Irmã Clara — disse a Madre, os olhos como fendas de gelo —, há rumores circulando. Há mudanças em sua fisionomia que não podem ser ignoradas. Explique-se.

Clara respirou fundo, sentindo o chute suave em seu ventre. Ela pensou em Sal, esperando atrás da porta, e na vida que dependia daquela performance.

— Eu não tenho explicação, Madre — disse Clara, a voz calma, quase etérea. — Eu apenas acordo com uma luz no meu peito e uma vida crescendo em mim. Eu nunca conheci o toque de um homem.

A Madre Superiora empalideceu.

— Você tem consciência da gravidade do que está dizendo?

— Eu tenho consciência da paz que sinto — mentiu Clara, embora seu coração batesse como um pássaro enjaulado. — O Padre Sal diz que são os desígnios do Senhor.

Sal entrou na sala naquele exato momento, como se tivesse sido convocado pelo destino.

— É verdade, Madre — disse ele, com uma autoridade que não admitia contestação. — Eu testemunhei a angústia de Clara no início, e o conforto que o Espírito Santo trouxe a ela depois. Estamos diante de algo que a ciência não explica, mas que a fé exige que aceitemos.

A Madre olhou de Sal para Clara. A ganância por prestígio para o convento começou a lutar contra o ceticismo em sua mente. Um milagre em Villa Pia significaria peregrinações, doações, poder.

— Se isso for uma farsa... — começou a Madre.

— Se for uma farsa, eu mesmo entregarei minha batina — interrompeu Sal. — Mas olhe para ela. Veja a pureza.

Clara, naquele momento, sentiu uma estranha força. A insegurança que a acompanhara toda a vida parecia ter se transformado em um escudo. Se o mundo a via como gorda e sem valor, ela usaria essa mesma percepção para se tornar algo inalcançável.

— Eu sou apenas a serva do Senhor — disse ela, baixando os olhos, repetindo as palavras que Sal a ensinara.

Naquela noite, Sal encontrou Clara no jardim isolado, sob a sombra das oliveiras.

— Eles acreditaram — sussurrou ele, segurando as mãos dela.

— Por enquanto — respondeu Clara. — Mas Sal, até quando poderemos sustentar isso? Quando a criança nascer...

— Quando a criança nascer, ela será tratada como um santo — disse ele, embora seus olhos mostrassem o medo que ele tentava esconder. — E nós estaremos juntos. De um jeito ou de outro, eu não vou deixar você.

— Você me ama, Sal? — perguntou ela, a pergunta que sempre quisera fazer, mas que a insegurança nunca permitira. — Ou você só ama o milagre que criou para nos salvar?

Sal puxou-a para perto, ignorando o risco de serem vistos. Ele beijou a testa dela, o cheiro de sabão e medo misturando-se no ar da noite.

— Eu amo a mulher que me fez esquecer meus votos porque a beleza dela era mais real do que qualquer promessa feita no altar. Eu amo você, Clara. O milagre é apenas o nome que damos à nossa sobrevivência.

Clara encostou a cabeça no ombro dele. Pela primeira vez, o convento não parecia uma prisão, mas um palco. Ela ainda era a garota gordinha e insegura que os pais rejeitaram, mas agora ela carregava o futuro nos braços e um padre pecador como seu único aliado.

— Então que comecem as orações — disse ela, com um sorriso triste. — Porque nós vamos precisar de todas elas.

O vento soprou pelas oliveiras, levando consigo as palavras dos amantes, enquanto as luzes do convento brilhavam como estrelas distantes e indiferentes. O jogo havia começado, e em Villa Pia, a linha entre a santidade e o pecado nunca fora tão tênue, nem tão perigosa.
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