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Além do roubo
Fandom: Lá casa de papel
Created: 5/14/2026
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RomanceDramaCrimeAU (Alternate Universe)Character StudyJealousyThrillerSurvivalCanon SettingAngstHurt/ComfortActionCharacter DeathUnplanned/Unwanted PregnancyTragedy
Xeque-Mate no Coração
A mesa de madeira maciça na casa de Toledo parecia maior sob a luz fraca dos abajures. O cheiro de café fresco e tabaco impregnava as paredes, enquanto o Professor, com seus óculos perfeitamente ajustados, desenhava diagramas complexos no quadro negro. Paris, ou Clara para os íntimos que ali já não existiam mais, observava-o de longe. Ela não era como Tóquio, uma força da natureza explosiva, nem como Nairóbi, com sua liderança vibrante e foco impecável. Clara era a alegria da casa. Gordinha, de risada fácil e bochechas que coravam por qualquer coisa, ela era o coração que mantinha o grupo unido nos momentos de tensão.
Ela tinha começado a roubar por necessidade. A fome é uma professora cruel, e Clara aprendeu rápido que a moralidade é um luxo para quem tem a barriga cheia. Mas ali, naquele casarão isolado, ela encontrou algo que nunca imaginou: um propósito. E, talvez, algo muito mais perigoso.
— Você está distraída, Paris — a voz de Nairóbi a tirou de seus devaneios. — Se o Professor te pega olhando para o vazio desse jeito, ele vai achar que você esqueceu como operar a fundição.
Clara soltou uma risada anasalada, ajeitando a mecha de cabelo que caía sobre o rosto.
— Eu nunca esqueço nada que envolva fogo e metal, Nairóbi. Só estava pensando no plano. É muita coisa para processar.
— Sei... o plano — Tóquio surgiu atrás delas, com aquele sorriso sarcástico de quem sabia demais. — Ou talvez o arquiteto do plano? Cuidado, guria. O Professor é um gênio, mas é frio como um peixe.
Clara sentiu o rosto queimar.
— Não digam bobagens. Ele é nosso líder. E a regra número um é clara: nada de relacionamentos pessoais.
As três riram, mas o peito de Clara apertou. Ela sabia que a regra já tinha sido estilhaçada em mil pedaços, pelo menos dentro dela.
Naquela noite, o silêncio em Toledo era quase absoluto, quebrado apenas pelo coaxar dos sapos e pelo estalar da madeira velha. Clara não conseguia dormir. Ela desceu as escadas em direção à cozinha para buscar um copo de água, mas parou ao ver a luz do escritório ainda acesa.
Sergio estava lá. Sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos, ele parecia vulnerável pela primeira vez. Ele não era o "Professor" naquele momento; era apenas um homem carregando o peso do mundo nos ombros.
— A insônia é uma doença contagiosa nesta casa? — perguntou ele, sem desviar os olhos dos mapas.
— Eu poderia perguntar o mesmo, Sergio — respondeu Clara, entrando no recinto. Ela era a única que se atrevia a chamá-lo pelo nome quando estavam sozinhos.
Ele finalmente olhou para ela. O olhar dele mudou. A rigidez profissional derreteu, dando lugar a algo mais quente, mais profundo.
— Eu estava revisando os perfis da polícia. De novo. — Ele suspirou, tirando os óculos e massageando a ponte do nariz. — Raquel Murillo. Ela é brilhante. Vai ser um desafio.
Clara aproximou-se da mesa, sentindo o perfume dele, uma mistura de papel antigo e sândalo.
— Você vai conseguir. Você pensou em tudo.
— Eu não pensei em você — confessou ele, a voz baixando um tom. — Quando planejei isso por anos, eu calculei cada variável, cada movimento da polícia, cada grama de ouro. Mas eu não calculei o que sentiria ao ver você rindo com a Nairóbi no jardim. Ou a forma como você me olha quando acha que eu não estou vendo.
O coração de Clara disparou. O ar parecia ter ficado mais denso.
— Sergio... a regra. Você mesmo a ditou. Nada de vínculos. Nada de pontos fracos.
Ele deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância.
— Eu sei. É a regra mais importante. E eu sou o primeiro a quebrá-la. Você é o meu ponto fraco, Clara. E isso me assusta mais do que a Interpol, a Guarda Civil ou o exército espanhol.
Clara tocou o braço dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa.
— Então por que me diz isso agora? Amanhã é o dia. Amanhã entramos na Casa da Moeda.
Sergio segurou a mão dela, levando-a aos lábios. O beijo foi leve, quase um sussurro de pele contra pele.
— Porque amanhã eu me torno o Professor integralmente. E como Professor, eu vou ter que fazer coisas... difíceis.
Clara franziu a testa, sentindo uma pontada de insegurança.
— O que quer dizer?
— Para que o plano funcione, eu preciso estar perto da investigação. Eu preciso controlar a Raquel Murillo de perto. — Ele hesitou, buscando as palavras. — Eu vou ter que me aproximar dela. Seduzi-la, se for necessário. Vou ter que dar em cima da inspetora para ganhar tempo e informação.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Clara sentiu um aperto no estômago, uma mistura de ciúme e compreensão. Ela conhecia o plano, sabia da necessidade de um infiltrado externo, mas ouvir aquilo, logo após ele confessar seus sentimentos, era um golpe baixo.
— Você vai ter que fingir que a ama? — perguntou ela, a voz falhando levemente.
— Vou ter que fingir ser outra pessoa. Um civil qualquer. Mas meu coração... ele vai estar aqui, com você, monitorando cada rádio, cada câmera.
Clara respirou fundo, endireitando a postura. Ela sempre fora uma sobrevivente. A fome a ensinara a ser forte, e o amor não a tornaria fraca agora.
— Se é isso que o plano exige, Sergio... faça. Mas prometa uma coisa.
— Qualquer coisa.
— Isso fica entre nós. Até o fim. Ninguém no grupo pode saber. Se a Tóquio ou o Berlim desconfiarem que o líder deles está comprometido emocionalmente, a estrutura desmorona. Seremos apenas o Professor e a Paris para o resto do mundo.
Sergio assentiu, a expressão solene.
— Um segredo. O nosso xeque-mate pessoal.
Ele a puxou para um abraço apertado. Clara encostou a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas aceleradas do coração do homem mais procurado — e mais brilhante — da Espanha. Ela sabia que, a partir de amanhã, o jogo começaria de verdade. Haveria máscaras de Dalí, armas de assalto e milhões de euros em jogo. Mas ali, naquela penumbra de Toledo, o maior roubo já tinha acontecido: ele tinha roubado a paz dela, e ela, a lógica dele.
— Eu não queria que fosse assim — sussurrou Sergio contra o cabelo dela.
— Eu sei — respondeu Clara, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Mas nós não escolhemos por quem passamos fome, Sergio. E eu estou faminta por esse futuro que você prometeu.
Ele sorriu, um sorriso triste e determinado, e a beijou com uma urgência que selava o pacto. Amanhã, ele seria o mentor frio e ela seria a Paris extrovertida e eficiente. Mas naquela noite, eles eram apenas dois fugitivos do destino, tentando encontrar um porto seguro antes da tempestade.
— Vai dormir, Paris — disse ele, voltando a colocar os óculos, a máscara de Professor retornando ao lugar. — Temos um banco para derrubar amanhã.
— Boa noite, Professor. — Ela caminhou até a porta, parando por um segundo. — E Sergio? Tente não se apaixonar pela inspetora de verdade. Ela não tem o meu bom humor.
Ele soltou uma risada curta, a primeira de muitas que seriam suprimidas nos meses seguintes.
— Impossível. Ela não é você.
Clara subiu as escadas com o coração leve, apesar do peso do segredo. Ela sabia que a estrada seria sangrenta e incerta, mas pela primeira vez na vida, ela não estava apenas roubando para sobreviver. Ela estava roubando para viver. E se o Professor precisava jogar charme para uma inspetora para garantir a liberdade deles, ela aceitaria o sacrifício. Afinal, em um tabuleiro de xadrez, a rainha é quem mais protege o rei. E Paris estava pronta para a guerra.
Ela tinha começado a roubar por necessidade. A fome é uma professora cruel, e Clara aprendeu rápido que a moralidade é um luxo para quem tem a barriga cheia. Mas ali, naquele casarão isolado, ela encontrou algo que nunca imaginou: um propósito. E, talvez, algo muito mais perigoso.
— Você está distraída, Paris — a voz de Nairóbi a tirou de seus devaneios. — Se o Professor te pega olhando para o vazio desse jeito, ele vai achar que você esqueceu como operar a fundição.
Clara soltou uma risada anasalada, ajeitando a mecha de cabelo que caía sobre o rosto.
— Eu nunca esqueço nada que envolva fogo e metal, Nairóbi. Só estava pensando no plano. É muita coisa para processar.
— Sei... o plano — Tóquio surgiu atrás delas, com aquele sorriso sarcástico de quem sabia demais. — Ou talvez o arquiteto do plano? Cuidado, guria. O Professor é um gênio, mas é frio como um peixe.
Clara sentiu o rosto queimar.
— Não digam bobagens. Ele é nosso líder. E a regra número um é clara: nada de relacionamentos pessoais.
As três riram, mas o peito de Clara apertou. Ela sabia que a regra já tinha sido estilhaçada em mil pedaços, pelo menos dentro dela.
Naquela noite, o silêncio em Toledo era quase absoluto, quebrado apenas pelo coaxar dos sapos e pelo estalar da madeira velha. Clara não conseguia dormir. Ela desceu as escadas em direção à cozinha para buscar um copo de água, mas parou ao ver a luz do escritório ainda acesa.
Sergio estava lá. Sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos, ele parecia vulnerável pela primeira vez. Ele não era o "Professor" naquele momento; era apenas um homem carregando o peso do mundo nos ombros.
— A insônia é uma doença contagiosa nesta casa? — perguntou ele, sem desviar os olhos dos mapas.
— Eu poderia perguntar o mesmo, Sergio — respondeu Clara, entrando no recinto. Ela era a única que se atrevia a chamá-lo pelo nome quando estavam sozinhos.
Ele finalmente olhou para ela. O olhar dele mudou. A rigidez profissional derreteu, dando lugar a algo mais quente, mais profundo.
— Eu estava revisando os perfis da polícia. De novo. — Ele suspirou, tirando os óculos e massageando a ponte do nariz. — Raquel Murillo. Ela é brilhante. Vai ser um desafio.
Clara aproximou-se da mesa, sentindo o perfume dele, uma mistura de papel antigo e sândalo.
— Você vai conseguir. Você pensou em tudo.
— Eu não pensei em você — confessou ele, a voz baixando um tom. — Quando planejei isso por anos, eu calculei cada variável, cada movimento da polícia, cada grama de ouro. Mas eu não calculei o que sentiria ao ver você rindo com a Nairóbi no jardim. Ou a forma como você me olha quando acha que eu não estou vendo.
O coração de Clara disparou. O ar parecia ter ficado mais denso.
— Sergio... a regra. Você mesmo a ditou. Nada de vínculos. Nada de pontos fracos.
Ele deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância.
— Eu sei. É a regra mais importante. E eu sou o primeiro a quebrá-la. Você é o meu ponto fraco, Clara. E isso me assusta mais do que a Interpol, a Guarda Civil ou o exército espanhol.
Clara tocou o braço dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa.
— Então por que me diz isso agora? Amanhã é o dia. Amanhã entramos na Casa da Moeda.
Sergio segurou a mão dela, levando-a aos lábios. O beijo foi leve, quase um sussurro de pele contra pele.
— Porque amanhã eu me torno o Professor integralmente. E como Professor, eu vou ter que fazer coisas... difíceis.
Clara franziu a testa, sentindo uma pontada de insegurança.
— O que quer dizer?
— Para que o plano funcione, eu preciso estar perto da investigação. Eu preciso controlar a Raquel Murillo de perto. — Ele hesitou, buscando as palavras. — Eu vou ter que me aproximar dela. Seduzi-la, se for necessário. Vou ter que dar em cima da inspetora para ganhar tempo e informação.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Clara sentiu um aperto no estômago, uma mistura de ciúme e compreensão. Ela conhecia o plano, sabia da necessidade de um infiltrado externo, mas ouvir aquilo, logo após ele confessar seus sentimentos, era um golpe baixo.
— Você vai ter que fingir que a ama? — perguntou ela, a voz falhando levemente.
— Vou ter que fingir ser outra pessoa. Um civil qualquer. Mas meu coração... ele vai estar aqui, com você, monitorando cada rádio, cada câmera.
Clara respirou fundo, endireitando a postura. Ela sempre fora uma sobrevivente. A fome a ensinara a ser forte, e o amor não a tornaria fraca agora.
— Se é isso que o plano exige, Sergio... faça. Mas prometa uma coisa.
— Qualquer coisa.
— Isso fica entre nós. Até o fim. Ninguém no grupo pode saber. Se a Tóquio ou o Berlim desconfiarem que o líder deles está comprometido emocionalmente, a estrutura desmorona. Seremos apenas o Professor e a Paris para o resto do mundo.
Sergio assentiu, a expressão solene.
— Um segredo. O nosso xeque-mate pessoal.
Ele a puxou para um abraço apertado. Clara encostou a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas aceleradas do coração do homem mais procurado — e mais brilhante — da Espanha. Ela sabia que, a partir de amanhã, o jogo começaria de verdade. Haveria máscaras de Dalí, armas de assalto e milhões de euros em jogo. Mas ali, naquela penumbra de Toledo, o maior roubo já tinha acontecido: ele tinha roubado a paz dela, e ela, a lógica dele.
— Eu não queria que fosse assim — sussurrou Sergio contra o cabelo dela.
— Eu sei — respondeu Clara, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Mas nós não escolhemos por quem passamos fome, Sergio. E eu estou faminta por esse futuro que você prometeu.
Ele sorriu, um sorriso triste e determinado, e a beijou com uma urgência que selava o pacto. Amanhã, ele seria o mentor frio e ela seria a Paris extrovertida e eficiente. Mas naquela noite, eles eram apenas dois fugitivos do destino, tentando encontrar um porto seguro antes da tempestade.
— Vai dormir, Paris — disse ele, voltando a colocar os óculos, a máscara de Professor retornando ao lugar. — Temos um banco para derrubar amanhã.
— Boa noite, Professor. — Ela caminhou até a porta, parando por um segundo. — E Sergio? Tente não se apaixonar pela inspetora de verdade. Ela não tem o meu bom humor.
Ele soltou uma risada curta, a primeira de muitas que seriam suprimidas nos meses seguintes.
— Impossível. Ela não é você.
Clara subiu as escadas com o coração leve, apesar do peso do segredo. Ela sabia que a estrada seria sangrenta e incerta, mas pela primeira vez na vida, ela não estava apenas roubando para sobreviver. Ela estava roubando para viver. E se o Professor precisava jogar charme para uma inspetora para garantir a liberdade deles, ela aceitaria o sacrifício. Afinal, em um tabuleiro de xadrez, a rainha é quem mais protege o rei. E Paris estava pronta para a guerra.
