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Sei la
Fandom: Romance Escolar
Created: 5/15/2026
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RomanceSlice of LifeFluffCharacter StudyCanon Setting
Traços de Grafite e o Saque Final
O ginásio do Colégio Garriga de Menezes pulsava com o som ensurdecedor de tênis derrapando no polimento da quadra e o eco rítmico da bola de vôlei sendo espalmada. Para a maioria dos alunos nas arquibancadas, aquele era apenas mais um amistoso intercolegial. Para Maria Clara, no entanto, o mundo havia se reduzido a um retângulo de dezoito por nove metros, onde uma figura específica se movia com a graça de uma predadora.
Maria Luiza.
Sentada no degrau mais alto e afastado da arquibancada, Maria Clara mantinha o caderno de desenho apoiado nos joelhos. Seus dedos, levemente sujos de grafite, moviam-se com uma urgência quase febril. Ela não olhava para o placar, nem para a torcida que gritava o nome da escola. Seus olhos estavam fixos na capitã do time, na forma como o suor fazia as mechas rebeldes do cabelo de Luiza grudarem em sua testa e na determinação feroz que emanava de cada movimento seu.
Luiza era o que muitos chamariam de "boneca de porcelana" à primeira vista. Pequena, de traços delicados e um sorriso que parecia doce demais para ser real. Mas Clara sabia a verdade. Por trás daquela fachada angelical, existia uma força da natureza. Luiza era a jogadora principal, a alma do time, e possuía uma personalidade que poderia incendiar o ginásio se ela assim desejasse.
— Só mais um detalhe na sombra do ombro... — sussurrou Clara para si mesma, ignorando o barulho ao redor.
No desenho, Luiza estava no ar, prestes a executar um saque viagem. O braço direito estava tensionado, os músculos definidos transparecendo a força que ela escondia sob o uniforme. Clara capturou o momento exato em que o foco de Luiza se tornava absoluto.
Lá embaixo, na quadra, o jogo estava empatado no set decisivo. Luiza caminhou até a linha de fundo para sacar. Ela girou a bola nas mãos, respirando fundo. Antes de lançá-la para o alto, seus olhos vagaram instintivamente pela arquibancada, buscando um ponto de fuga, um momento de silêncio mental. Foi quando ela a viu.
Lá no alto, isolada, Maria Clara a encarava, mas não da forma que os outros faziam. Clara não estava torcendo; ela estava observando. E, nas mãos dela, um caderno aberto revelava traços que Luiza reconheceria em qualquer lugar.
Os olhos das duas se cruzaram por um milésimo de segundo. Luiza deu um sorriso de canto, quase imperceptível para qualquer um que não fosse Clara. A jogadora sentiu uma onda de adrenalina que não vinha do esporte, mas daquela conexão silenciosa. Ela lançou a bola, saltou com uma potência avassaladora e golpeou-a.
A bola cruzou a rede como um meteoro, atingindo o chão do campo adversário antes que qualquer um pudesse reagir. Ponto final. Vitória do Garriga de Menezes.
O ginásio explodiu em comemoração, mas Luiza mal ouviu. Ela foi cercada pelas colegas de time, recebeu tapinhas nas costas e abraços, mas seus olhos voltaram para o topo da arquibancada. O lugar estava vazio. Maria Clara havia desaparecido.
Minutos depois, no corredor silencioso que levava aos vestiários e às salas de artes, o som dos passos de Luiza ecoava. Ela ainda usava o uniforme, com uma toalha pendurada no pescoço e a respiração levemente ofegante. Ela sabia exatamente onde encontrar a garota dos desenhos.
A sala de artes estava com a porta entreaberta. Luiza empurrou-a suavemente, encontrando Clara sentada em um dos balcões altos, de costas para a porta, guardando seus lápis com as mãos trêmulas.
— Você perdeu a comemoração — disse Luiza, sua voz soando clara e firme no silêncio da sala.
Clara deu um sobressalto, quase derrubando o estojo no chão. Ela se virou lentamente, o rosto ganhando um tom de rubi que contrastava com a palidez de sua pele.
— Eu... eu não gosto muito de barulho — respondeu Clara, tentando fechar o caderno de desenho discretamente. — Parabéns pela vitória. Aquele último saque foi incrível.
Luiza caminhou calmamente em direção a ela. A cada passo, a aura de autoridade que ela exibia na quadra parecia se intensificar, preenchendo o espaço entre as duas.
— Foi um bom saque porque eu tive uma inspiração de última hora — Luiza parou a poucos centímetros de Clara, apoiando as mãos no balcão, uma de cada lado do corpo da desenhista, prendendo-a gentilmente. — Posso ver?
— Ver o quê? — Clara engoliu em seco, sentindo o perfume de suor limpo e desodorante cítrico que emanava de Luiza.
— O que você estava desenhando. Eu vi você lá em cima, Clara. Você não tirava os olhos de mim.
— Eu estava apenas... praticando anatomia em movimento — mentiu Clara, embora soubesse que era inútil.
Luiza soltou uma risada baixa, um som rico e profundo que fez o estômago de Clara dar voltas. Sem pedir licença, ela esticou a mão e puxou o caderno que estava sob o braço da outra.
— Ei! — protestou Clara, mas sem força real para impedi-la.
Luiza abriu o caderno. Passou as páginas devagar. Não eram apenas desenhos de vôlei. Havia Luiza lendo na biblioteca. Luiza rindo com as amigas no pátio. Luiza distraída, olhando pela janela durante a aula de história. Cada traço transbordava um carinho e uma atenção que apenas alguém apaixonado poderia dedicar.
O silêncio na sala tornou-se denso. Clara sentia que ia desmaiar a qualquer momento. Ela esperava uma risada, um comentário sarcástico ou, pior, a indiferença.
— Você me vê assim? — perguntou Luiza, a voz agora suave, quase um sussurro. Ela apontou para o desenho do saque final. — Tão... poderosa?
— Você é poderosa — respondeu Clara, encontrando uma coragem que não sabia que tinha. — Você é a pessoa mais intensa que eu já conheci, Luiza. Às vezes parece que o mundo é pequeno demais para você.
Luiza fechou o caderno e o colocou de lado. Ela deu um passo à frente, eliminando o restante da distância entre elas. Agora, Clara conseguia ver as pequenas gotas de suor que ainda restavam no pescoço da jogadora e o brilho desafiador em seus olhos escuros.
— E você é a pessoa mais observadora que eu já conheci — disse Luiza, levando a mão ao rosto de Clara, o polegar acariciando suavemente a maçã de sua bosta. — Mas você cometeu um erro no desenho.
— Um erro? — Clara franziu o cenho, profissionalmente ofendida por um momento. — Qual?
— Você desenhou meus olhos focados na bola — Luiza aproximou o rosto, seus lábios quase roçando os de Clara. — Mas no momento em que você me olhou, eu não estava nem aí para a bola. Eu só conseguia pensar em como eu queria que você estivesse aqui embaixo, comigo, depois do jogo.
O coração de Clara martelava contra as costelas.
— Eu achei que você nem sabia que eu existia, Luiza. Você é a estrela da escola, e eu sou só a garota que fica escondida atrás de um caderno.
— Então você é uma péssima observadora de si mesma — rebateu Luiza com um sorriso audacioso. — Eu passo metade dos treinos procurando você nas arquibancadas. Por que você acha que eu sempre treino até mais tarde? Eu sei que é o horário que você fica aqui na sala de artes.
Clara arregalou os olhos.
— Você... você me seguiu?
— Digamos que eu gosto de saber onde as coisas belas se escondem — Luiza deslizou a mão do rosto para a nuca de Clara, puxando-a levemente para mais perto. — E eu estou cansada de ser desenhada de longe, Maria Clara. Eu quero algo real.
Antes que Clara pudesse processar a informação, Luiza selou o espaço entre elas. O beijo não foi nada como a aparência delicada de Luiza sugeria; foi firme, urgente e carregado de toda a intensidade que ela demonstrava na quadra. Clara soltou um suspiro de surpresa contra os lábios dela, mas logo se entregou, suas mãos encontrando o caminho até os ombros definidos da jogadora, agarrando o tecido do uniforme.
Era como se o grafite e o papel finalmente ganhassem vida. O calor de Luiza era real, a força de seus braços era real, e o sentimento que Clara guardava em segredo por meses estava sendo correspondido com uma voracidade que a deixava sem fôlego.
Quando se separaram para buscar ar, Luiza manteve suas testas encostadas. Ela parecia vitoriosa, mas de uma forma muito mais pessoal do que qualquer troféu de vôlei poderia proporcionar.
— Então — começou Luiza, com a respiração ainda curta —, o que o seu caderno diz sobre isso?
Clara sorriu, sentindo-se finalmente segura.
— Ele diz que eu vou precisar de uma página inteira nova. E de cores. Muitas cores.
Luiza riu e deu um selinho rápido nela.
— Ótimo. Mas antes de você começar a pintar, você me deve um encontro. Sem cadernos, sem arquibancadas. Só você e eu.
— Acho que posso abrir uma exceção na minha agenda de artista — brincou Clara.
— Você não tem escolha — afirmou Luiza, recuperando sua postura de capitã, mas com um brilho de ternura nos olhos. — Eu sou muito persistente quando quero marcar um ponto.
— Eu percebi — disse Clara, observando Luiza pegar o caderno de novo e guardá-lo na mochila de Clara com cuidado.
— Vem — Luiza estendeu a mão para ela. — O time vai sair para comemorar em uma pizzaria. Eu quero que você vá comigo.
— Luiza, eu não sei se estou pronta para... você sabe, aparecer com você na frente de todo mundo.
Luiza parou na porta e olhou para trás. A luz do entardecer entrava pelas janelas da sala de artes, criando uma moldura dourada ao redor dela.
— Clara, eu acabei de ganhar o campeonato — disse ela com uma piscadela. — Ninguém vai ousar dizer nada para a capitã. E, além disso, eu quero que todos saibam quem é a dona da inspiração do meu melhor saque.
Clara olhou para a mão estendida de Luiza. O medo ainda estava lá, mas a vontade de estar ao lado daquela garota era infinitamente maior. Ela caminhou até Luiza e entrelaçou seus dedos nos dela.
— Tudo bem — aceitou Clara. — Mas eu ainda vou te desenhar mais vezes.
— Pode desenhar — Luiza puxou-a para o corredor, o sorriso mais radiante do que nunca. — Desde que o modelo original seja só meu.
Enquanto caminhavam pelo corredor agora vazio, o som de suas risadas e o toque de suas mãos unidas selavam o início de algo que nenhum esboço poderia planejar. Maria Clara sempre fora mestre em capturar momentos no papel, mas ali, ao lado de Maria Luiza, ela estava finalmente aprendendo a vivê-los.
E Luiza, a garota que todos achavam ser apenas uma atleta de elite com rosto de anjo, sentia que tinha acabado de conquistar a vitória mais importante de sua vida. Não no chão de madeira da quadra, mas no coração da garota que a via de verdade, traço por traço.
Maria Luiza.
Sentada no degrau mais alto e afastado da arquibancada, Maria Clara mantinha o caderno de desenho apoiado nos joelhos. Seus dedos, levemente sujos de grafite, moviam-se com uma urgência quase febril. Ela não olhava para o placar, nem para a torcida que gritava o nome da escola. Seus olhos estavam fixos na capitã do time, na forma como o suor fazia as mechas rebeldes do cabelo de Luiza grudarem em sua testa e na determinação feroz que emanava de cada movimento seu.
Luiza era o que muitos chamariam de "boneca de porcelana" à primeira vista. Pequena, de traços delicados e um sorriso que parecia doce demais para ser real. Mas Clara sabia a verdade. Por trás daquela fachada angelical, existia uma força da natureza. Luiza era a jogadora principal, a alma do time, e possuía uma personalidade que poderia incendiar o ginásio se ela assim desejasse.
— Só mais um detalhe na sombra do ombro... — sussurrou Clara para si mesma, ignorando o barulho ao redor.
No desenho, Luiza estava no ar, prestes a executar um saque viagem. O braço direito estava tensionado, os músculos definidos transparecendo a força que ela escondia sob o uniforme. Clara capturou o momento exato em que o foco de Luiza se tornava absoluto.
Lá embaixo, na quadra, o jogo estava empatado no set decisivo. Luiza caminhou até a linha de fundo para sacar. Ela girou a bola nas mãos, respirando fundo. Antes de lançá-la para o alto, seus olhos vagaram instintivamente pela arquibancada, buscando um ponto de fuga, um momento de silêncio mental. Foi quando ela a viu.
Lá no alto, isolada, Maria Clara a encarava, mas não da forma que os outros faziam. Clara não estava torcendo; ela estava observando. E, nas mãos dela, um caderno aberto revelava traços que Luiza reconheceria em qualquer lugar.
Os olhos das duas se cruzaram por um milésimo de segundo. Luiza deu um sorriso de canto, quase imperceptível para qualquer um que não fosse Clara. A jogadora sentiu uma onda de adrenalina que não vinha do esporte, mas daquela conexão silenciosa. Ela lançou a bola, saltou com uma potência avassaladora e golpeou-a.
A bola cruzou a rede como um meteoro, atingindo o chão do campo adversário antes que qualquer um pudesse reagir. Ponto final. Vitória do Garriga de Menezes.
O ginásio explodiu em comemoração, mas Luiza mal ouviu. Ela foi cercada pelas colegas de time, recebeu tapinhas nas costas e abraços, mas seus olhos voltaram para o topo da arquibancada. O lugar estava vazio. Maria Clara havia desaparecido.
Minutos depois, no corredor silencioso que levava aos vestiários e às salas de artes, o som dos passos de Luiza ecoava. Ela ainda usava o uniforme, com uma toalha pendurada no pescoço e a respiração levemente ofegante. Ela sabia exatamente onde encontrar a garota dos desenhos.
A sala de artes estava com a porta entreaberta. Luiza empurrou-a suavemente, encontrando Clara sentada em um dos balcões altos, de costas para a porta, guardando seus lápis com as mãos trêmulas.
— Você perdeu a comemoração — disse Luiza, sua voz soando clara e firme no silêncio da sala.
Clara deu um sobressalto, quase derrubando o estojo no chão. Ela se virou lentamente, o rosto ganhando um tom de rubi que contrastava com a palidez de sua pele.
— Eu... eu não gosto muito de barulho — respondeu Clara, tentando fechar o caderno de desenho discretamente. — Parabéns pela vitória. Aquele último saque foi incrível.
Luiza caminhou calmamente em direção a ela. A cada passo, a aura de autoridade que ela exibia na quadra parecia se intensificar, preenchendo o espaço entre as duas.
— Foi um bom saque porque eu tive uma inspiração de última hora — Luiza parou a poucos centímetros de Clara, apoiando as mãos no balcão, uma de cada lado do corpo da desenhista, prendendo-a gentilmente. — Posso ver?
— Ver o quê? — Clara engoliu em seco, sentindo o perfume de suor limpo e desodorante cítrico que emanava de Luiza.
— O que você estava desenhando. Eu vi você lá em cima, Clara. Você não tirava os olhos de mim.
— Eu estava apenas... praticando anatomia em movimento — mentiu Clara, embora soubesse que era inútil.
Luiza soltou uma risada baixa, um som rico e profundo que fez o estômago de Clara dar voltas. Sem pedir licença, ela esticou a mão e puxou o caderno que estava sob o braço da outra.
— Ei! — protestou Clara, mas sem força real para impedi-la.
Luiza abriu o caderno. Passou as páginas devagar. Não eram apenas desenhos de vôlei. Havia Luiza lendo na biblioteca. Luiza rindo com as amigas no pátio. Luiza distraída, olhando pela janela durante a aula de história. Cada traço transbordava um carinho e uma atenção que apenas alguém apaixonado poderia dedicar.
O silêncio na sala tornou-se denso. Clara sentia que ia desmaiar a qualquer momento. Ela esperava uma risada, um comentário sarcástico ou, pior, a indiferença.
— Você me vê assim? — perguntou Luiza, a voz agora suave, quase um sussurro. Ela apontou para o desenho do saque final. — Tão... poderosa?
— Você é poderosa — respondeu Clara, encontrando uma coragem que não sabia que tinha. — Você é a pessoa mais intensa que eu já conheci, Luiza. Às vezes parece que o mundo é pequeno demais para você.
Luiza fechou o caderno e o colocou de lado. Ela deu um passo à frente, eliminando o restante da distância entre elas. Agora, Clara conseguia ver as pequenas gotas de suor que ainda restavam no pescoço da jogadora e o brilho desafiador em seus olhos escuros.
— E você é a pessoa mais observadora que eu já conheci — disse Luiza, levando a mão ao rosto de Clara, o polegar acariciando suavemente a maçã de sua bosta. — Mas você cometeu um erro no desenho.
— Um erro? — Clara franziu o cenho, profissionalmente ofendida por um momento. — Qual?
— Você desenhou meus olhos focados na bola — Luiza aproximou o rosto, seus lábios quase roçando os de Clara. — Mas no momento em que você me olhou, eu não estava nem aí para a bola. Eu só conseguia pensar em como eu queria que você estivesse aqui embaixo, comigo, depois do jogo.
O coração de Clara martelava contra as costelas.
— Eu achei que você nem sabia que eu existia, Luiza. Você é a estrela da escola, e eu sou só a garota que fica escondida atrás de um caderno.
— Então você é uma péssima observadora de si mesma — rebateu Luiza com um sorriso audacioso. — Eu passo metade dos treinos procurando você nas arquibancadas. Por que você acha que eu sempre treino até mais tarde? Eu sei que é o horário que você fica aqui na sala de artes.
Clara arregalou os olhos.
— Você... você me seguiu?
— Digamos que eu gosto de saber onde as coisas belas se escondem — Luiza deslizou a mão do rosto para a nuca de Clara, puxando-a levemente para mais perto. — E eu estou cansada de ser desenhada de longe, Maria Clara. Eu quero algo real.
Antes que Clara pudesse processar a informação, Luiza selou o espaço entre elas. O beijo não foi nada como a aparência delicada de Luiza sugeria; foi firme, urgente e carregado de toda a intensidade que ela demonstrava na quadra. Clara soltou um suspiro de surpresa contra os lábios dela, mas logo se entregou, suas mãos encontrando o caminho até os ombros definidos da jogadora, agarrando o tecido do uniforme.
Era como se o grafite e o papel finalmente ganhassem vida. O calor de Luiza era real, a força de seus braços era real, e o sentimento que Clara guardava em segredo por meses estava sendo correspondido com uma voracidade que a deixava sem fôlego.
Quando se separaram para buscar ar, Luiza manteve suas testas encostadas. Ela parecia vitoriosa, mas de uma forma muito mais pessoal do que qualquer troféu de vôlei poderia proporcionar.
— Então — começou Luiza, com a respiração ainda curta —, o que o seu caderno diz sobre isso?
Clara sorriu, sentindo-se finalmente segura.
— Ele diz que eu vou precisar de uma página inteira nova. E de cores. Muitas cores.
Luiza riu e deu um selinho rápido nela.
— Ótimo. Mas antes de você começar a pintar, você me deve um encontro. Sem cadernos, sem arquibancadas. Só você e eu.
— Acho que posso abrir uma exceção na minha agenda de artista — brincou Clara.
— Você não tem escolha — afirmou Luiza, recuperando sua postura de capitã, mas com um brilho de ternura nos olhos. — Eu sou muito persistente quando quero marcar um ponto.
— Eu percebi — disse Clara, observando Luiza pegar o caderno de novo e guardá-lo na mochila de Clara com cuidado.
— Vem — Luiza estendeu a mão para ela. — O time vai sair para comemorar em uma pizzaria. Eu quero que você vá comigo.
— Luiza, eu não sei se estou pronta para... você sabe, aparecer com você na frente de todo mundo.
Luiza parou na porta e olhou para trás. A luz do entardecer entrava pelas janelas da sala de artes, criando uma moldura dourada ao redor dela.
— Clara, eu acabei de ganhar o campeonato — disse ela com uma piscadela. — Ninguém vai ousar dizer nada para a capitã. E, além disso, eu quero que todos saibam quem é a dona da inspiração do meu melhor saque.
Clara olhou para a mão estendida de Luiza. O medo ainda estava lá, mas a vontade de estar ao lado daquela garota era infinitamente maior. Ela caminhou até Luiza e entrelaçou seus dedos nos dela.
— Tudo bem — aceitou Clara. — Mas eu ainda vou te desenhar mais vezes.
— Pode desenhar — Luiza puxou-a para o corredor, o sorriso mais radiante do que nunca. — Desde que o modelo original seja só meu.
Enquanto caminhavam pelo corredor agora vazio, o som de suas risadas e o toque de suas mãos unidas selavam o início de algo que nenhum esboço poderia planejar. Maria Clara sempre fora mestre em capturar momentos no papel, mas ali, ao lado de Maria Luiza, ela estava finalmente aprendendo a vivê-los.
E Luiza, a garota que todos achavam ser apenas uma atleta de elite com rosto de anjo, sentia que tinha acabado de conquistar a vitória mais importante de sua vida. Não no chão de madeira da quadra, mas no coração da garota que a via de verdade, traço por traço.
