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Amores
Fandom: Michael Jackson
Created: 5/16/2026
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RomanceDramaAngstHurt/ComfortPsychologicalEating DisordersBody DysmorphiaJealousyRealismCharacter StudyFix-it
O Reflexo do que Restou de Mim
A luz alaranjada do entardecer atravessava as cortinas de linho da sala de estar, desenhando sombras longas que pareciam zombar da minha imobilidade. Eu estava sentada no canto do sofá, encolhida, tentando fazer com que meu corpo — que eu tanto detestava — ocupasse o menor espaço possível. As sardas no meu rosto pareciam saltar mais sob aquela luz, pequenos pontos que eu tentava esconder com camadas de base que nunca pareciam suficientes.
Minha mãe passou pela sala, terminando de prender os brincos de pérola, o rosto iluminado por uma animação que me causava náuseas.
— Rebeca, querida, vá se trocar. Os Jackson chegam em meia hora. Jermaine e Halima estão ansiosos para nos ver, e Jaafar perguntou de você na última vez.
O nome dele atingiu meu peito como um soco físico. Jaafar. O filho dos melhores amigos dos meus pais. O rapaz que parecia ter sido esculpido pelos deuses, com sua pele morena impecável, a altura elegante e aquele sorriso que tinha o poder de iluminar um estádio inteiro. Ele era a personificação da perfeição, enquanto eu... eu era apenas a ruiva silenciosa, a menina gordinha que preferia se esconder atrás de livros a enfrentar o mundo.
— Eu não estou me sentindo bem, mãe — menti, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia. — Minha cabeça está latejando. Acho que vou ficar no quarto.
Minha mãe parou, o olhar suavizando para uma mistura de pena e frustração.
— Beca, você não aparece nesses jantares há meses. Sempre tem uma dor de cabeça, um trabalho de faculdade, uma gripe. Eles vão achar que você está nos evitando.
— Eu não estou evitando ninguém — murmurei, desviando o olhar para minhas mãos nervosas que cutucavam a cutícula do polegar.
A verdade era muito mais sombria. Eu não os evitava por falta de carinho; eu os evitava porque ver Jaafar era um lembrete constante de tudo o que eu nunca seria. E, pior ainda, era um lembrete da dor que se instalou no meu peito desde que ele começou a namorar aquela modelo de Los Angeles, uma garota que parecia ter saído de uma capa de revista, com pernas intermináveis e nenhuma imperfeição visível.
Quando a notícia do namoro dele chegou aos meus ouvidos, algo dentro de mim quebrou. Foi o gatilho para a ansiedade que já me rondava se transformar em um monstro devorador. Começou com a perda de apetite, depois com o controle obsessivo de cada caloria, e logo eu estava presa em um ciclo de privação e culpa que me deixava exausta, tanto física quanto mentalmente.
— Por favor, faça um esforço — pediu minha mãe, aproximando-se e tocando meu ombro. — Só por uma hora.
Eu não tive forças para lutar. Subi as escadas com as pernas pesadas, sentindo o vazio no estômago que eu agora considerava um troféu de guerra. No espelho do banheiro, encarei meu reflexo. Meus olhos pareciam maiores em um rosto que estava começando a perder o viço. As sardas ainda estavam lá, mas a alegria que costumava brilhar por trás delas havia sumido.
Coloquei um suéter largo, cinza, e uma calça preta que escondia qualquer curva. Eu queria ser invisível.
Quando desci, ouvi o som de risadas vindo da sala de jantar. A voz dele. Aquela voz aveludada, calma, que eu costumava ouvir em meus sonhos. Respirei fundo, tentando controlar o tremor nas mãos, e entrei no cômodo.
— Olha só quem apareceu! — exclamou Jermaine, levantando-se para me dar um abraço caloroso. — Rebeca, você está cada vez mais parecida com sua avó. Uma verdadeira beleza ruiva.
Sorri amarelo, sentindo o suor frio na nuca. Meus olhos, contra minha vontade, buscaram Jaafar.
Ele estava sentado ao lado do pai, vestindo uma camisa social azul-escura com as mangas dobradas até o cotovelo. Quando ele me viu, seu rosto se iluminou. Aquele sorriso... o mesmo que me fazia perder o chão desde os doze anos de idade.
— Oi, Beca — disse ele, levantando-se. Ele veio em minha direção e me envolveu em um abraço breve, mas que cheirava a sândalo e algo puramente dele. — Faz tanto tempo. Você está sumida.
— Tenho estado ocupada — respondi, tentando manter a voz firme. — Faculdade, você sabe como é.
— Eu sei, mas sinto falta das nossas conversas sobre música — ele disse, com uma gentileza que me machucava. — Como vai o piano?
— Está pegando poeira — confessei, sentindo um aperto no peito.
Nos sentamos à mesa. O jantar foi servido: um risoto de cogumelos que exalava um aroma maravilhoso, mas que para mim parecia um prato de veneno. Eu mexia na comida com o garfo, empurrando os grãos de arroz de um lado para o outro, fingindo que estava comendo enquanto a conversa fluía ao meu redor.
— E a Savannah, Jaafar? — perguntou minha mãe, com uma curiosidade casual que me fez querer desaparecer. — Ela não pôde vir?
Jaafar hesitou por um segundo, e notei uma sombra passar por seus olhos escuros.
— Nós terminamos, tia — disse ele, com uma calma estudada. — Há cerca de duas semanas. Percebemos que nossos caminhos eram muito diferentes. Ela viaja muito, e eu... eu quero algo mais real, eu acho.
O mundo pareceu parar por um segundo. Eles haviam terminado? O peso que eu carregava não diminuiu; pelo contrário, a culpa por sentir um lampejo de esperança me esmagou. Eu não tinha o direito de ficar feliz com a tristeza dele.
— Sinto muito por ouvir isso — disse meu pai, genuinamente.
— Está tudo bem — Jaafar sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos desta vez. — Às vezes a gente busca a perfeição em lugares onde ela não existe, e acaba esquecendo o que realmente importa.
Senti o olhar dele sobre mim enquanto ele dizia aquilo. Desviei os olhos imediatamente para o meu prato intacto. A ansiedade começou a subir pela minha garganta, uma onda de calor que me deixou tonta. O barulho dos talheres, as vozes, o cheiro da comida... tudo começou a se fechar sobre mim.
— Com licença — eu disse, levantando-me bruscamente. — Eu preciso de um pouco de ar.
Saí da sala de jantar antes que alguém pudesse protestar. Atravessei a cozinha e saí para o jardim dos fundos, onde o ar da noite estava fresco e silencioso. Apoiei as mãos nos joelhos e respirei fundo, tentando acalmar meu coração que batia como um tambor descompassado.
— Beca?
A voz dele veio da porta dos fundos. Eu não me virei. Não queria que ele visse as lágrimas que agora teimavam em cair.
— Vá embora, Jaafar. Volte para o jantar.
Ouvi seus passos lentos sobre a grama. Ele parou a poucos metros de mim.
— Você não comeu nada — ele disse, a voz cheia de uma preocupação que eu não merecia. — E você está tão pálida. O que está acontecendo com você?
— Nada. Eu só não estou com fome.
— Você está mentindo — ele deu um passo à frente. — Eu conheço você desde que éramos crianças. Você sempre foi a pessoa mais vibrante que eu conheci. Onde está aquela garota que me obrigava a ouvir os discos do seu tio Michael até tarde da noite?
— Aquela garota morreu — disparei, virando-me para ele com o rosto banhado de lágrimas. — Ela percebeu que não era boa o suficiente. Que não era bonita o suficiente. Que era gorda demais, estranha demais... invisível demais!
Jaafar pareceu chocado. Ele deu mais um passo, reduzindo a distância entre nós. A luz da varanda iluminava seu rosto, mostrando uma expressão de dor.
— Quem disse essas coisas para você? — perguntou ele, a voz baixa e intensa.
— Ninguém precisou dizer! — solucei, abraçando meu próprio corpo. — Eu vejo as fotos, Jaafar. Eu vejo as garotas com quem você sai. Eu vejo como o mundo olha para pessoas como você e como ignora pessoas como eu. Eu tentei mudar... eu tentei parar de sentir... mas dói tanto.
Eu estava tremendo agora, uma crise de ansiedade em pleno curso. Minha visão começou a embaçar e minhas pernas fraquejaram. Antes que eu pudesse cair, senti braços fortes e quentes me segurarem. Jaafar me puxou para o seu peito, ignorando meus protestos fracos.
— Shhh... calma. Eu estou aqui — ele sussurrou contra meu cabelo ruivo. — Respire comigo, Beca. Devagar.
Ficamos ali por alguns minutos. O calor do corpo dele era a única coisa que me mantinha ancorada na realidade. Aos poucos, meu choro diminuiu para soluços baixos. Eu me sentia humilhada, exposta, mas, ao mesmo tempo, estranhamente segura.
Ele me afastou apenas o suficiente para olhar no meu rosto. Com o polegar, ele limpou uma lágrima que escorria por cima das minhas sardas.
— Você acha que eu namorei a Savannah porque ela era "perfeita"? — ele perguntou, com um toque de amargura. — Eu namorei uma imagem. E foi a coisa mais vazia que já fiz. Eu passava o tempo todo sentindo falta de alguém com quem eu pudesse realmente conversar. Alguém que entendesse minha alma, não apenas minha aparência.
Eu pisquei, confusa.
— Do que você está falando?
Jaafar sorriu, um sorriso triste e autêntico.
— Eu sempre achei você a garota mais incrível que eu já conheci, Rebeca. Suas sardas parecem constelações. Sua risada é o meu som favorito. Mas você sempre se escondia de mim. Você sempre parecia estar fugindo, e eu achei que era porque você não gostava de mim.
— Eu não gosto de você? — soltei uma risada nervosa, quase histérica. — Jaafar, eu sou apaixonada por você desde que aprendi o que era o amor. Por isso eu fugia. Porque ver você com aquelas mulheres perfeitas me destruía.
Ele ficou em silêncio por um longo momento, os olhos escuros fixos nos meus, processando minha confissão. Meu coração parou de bater por um segundo, temendo a rejeição.
— Então fomos dois idiotas — disse ele, finalmente. — Porque eu passei os últimos anos tentando encontrar em outras garotas o brilho que eu só via em você.
Ele se aproximou mais, a mão subindo para acariciar minha bochecha.
— Beca, você precisa de ajuda. Você está se machucando, e eu não posso suportar ver você desaparecer assim. Mas eu quero que você saiba... eu não quero uma modelo de revista. Eu quero a garota ruiva que entende de música, que tem o coração mais puro do mundo e que, para mim, é a mulher mais linda deste jardim.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Parecia um sonho, um daqueles delírios causados pela fome e pelo cansaço. Mas o toque dele era real. O calor da sua pele era real.
— Você... você está falando sério? — gaguejei.
— Nunca falei tão sério em toda a minha vida — ele respondeu. — Mas primeiro, você precisa se cuidar. Por você. Não por mim, nem por ninguém. Eu vou estar aqui, do seu lado, em cada passo. Mas eu quero a Rebeca de volta. A Rebeca inteira.
Ele inclinou a cabeça e, com uma lentidão que me permitiu recuar se eu quisesse, encostou seus lábios nos meus. Foi um beijo suave, com gosto de promessa e de um recomeço que eu nunca julguei possível.
Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha.
— Vamos entrar? — ele perguntou. — Eu vou sentar do seu lado, e não vou deixar ninguém te pressionar. Mas amanhã, nós vamos conversar com seus pais sobre como te ajudar a ficar bem de verdade. Tudo bem?
Eu olhei para ele, para o homem que eu amava, e pela primeira vez em muito tempo, senti uma fagulha de esperança. O caminho seria difícil, eu sabia. A ansiedade e os problemas alimentares não sumiriam da noite para o dia como em um passe de mágica. Mas, pela primeira vez, eu não estava sozinha no escuro.
— Tudo bem — eu sussurrei, segurando a mão dele com força.
Caminhamos de volta para a luz da casa, e embora eu ainda me sentisse pequena e cheia de falhas, a mão de Jaafar entrelaçada na minha me dava a coragem que eu achei que tivesse perdido para sempre. Eu era Rebeca Vale, ruiva, gordinha, cheia de sardas e cicatrizes invisíveis. E, pela primeira vez, eu comecei a pensar que, talvez, isso pudesse ser o suficiente.
Minha mãe passou pela sala, terminando de prender os brincos de pérola, o rosto iluminado por uma animação que me causava náuseas.
— Rebeca, querida, vá se trocar. Os Jackson chegam em meia hora. Jermaine e Halima estão ansiosos para nos ver, e Jaafar perguntou de você na última vez.
O nome dele atingiu meu peito como um soco físico. Jaafar. O filho dos melhores amigos dos meus pais. O rapaz que parecia ter sido esculpido pelos deuses, com sua pele morena impecável, a altura elegante e aquele sorriso que tinha o poder de iluminar um estádio inteiro. Ele era a personificação da perfeição, enquanto eu... eu era apenas a ruiva silenciosa, a menina gordinha que preferia se esconder atrás de livros a enfrentar o mundo.
— Eu não estou me sentindo bem, mãe — menti, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia. — Minha cabeça está latejando. Acho que vou ficar no quarto.
Minha mãe parou, o olhar suavizando para uma mistura de pena e frustração.
— Beca, você não aparece nesses jantares há meses. Sempre tem uma dor de cabeça, um trabalho de faculdade, uma gripe. Eles vão achar que você está nos evitando.
— Eu não estou evitando ninguém — murmurei, desviando o olhar para minhas mãos nervosas que cutucavam a cutícula do polegar.
A verdade era muito mais sombria. Eu não os evitava por falta de carinho; eu os evitava porque ver Jaafar era um lembrete constante de tudo o que eu nunca seria. E, pior ainda, era um lembrete da dor que se instalou no meu peito desde que ele começou a namorar aquela modelo de Los Angeles, uma garota que parecia ter saído de uma capa de revista, com pernas intermináveis e nenhuma imperfeição visível.
Quando a notícia do namoro dele chegou aos meus ouvidos, algo dentro de mim quebrou. Foi o gatilho para a ansiedade que já me rondava se transformar em um monstro devorador. Começou com a perda de apetite, depois com o controle obsessivo de cada caloria, e logo eu estava presa em um ciclo de privação e culpa que me deixava exausta, tanto física quanto mentalmente.
— Por favor, faça um esforço — pediu minha mãe, aproximando-se e tocando meu ombro. — Só por uma hora.
Eu não tive forças para lutar. Subi as escadas com as pernas pesadas, sentindo o vazio no estômago que eu agora considerava um troféu de guerra. No espelho do banheiro, encarei meu reflexo. Meus olhos pareciam maiores em um rosto que estava começando a perder o viço. As sardas ainda estavam lá, mas a alegria que costumava brilhar por trás delas havia sumido.
Coloquei um suéter largo, cinza, e uma calça preta que escondia qualquer curva. Eu queria ser invisível.
Quando desci, ouvi o som de risadas vindo da sala de jantar. A voz dele. Aquela voz aveludada, calma, que eu costumava ouvir em meus sonhos. Respirei fundo, tentando controlar o tremor nas mãos, e entrei no cômodo.
— Olha só quem apareceu! — exclamou Jermaine, levantando-se para me dar um abraço caloroso. — Rebeca, você está cada vez mais parecida com sua avó. Uma verdadeira beleza ruiva.
Sorri amarelo, sentindo o suor frio na nuca. Meus olhos, contra minha vontade, buscaram Jaafar.
Ele estava sentado ao lado do pai, vestindo uma camisa social azul-escura com as mangas dobradas até o cotovelo. Quando ele me viu, seu rosto se iluminou. Aquele sorriso... o mesmo que me fazia perder o chão desde os doze anos de idade.
— Oi, Beca — disse ele, levantando-se. Ele veio em minha direção e me envolveu em um abraço breve, mas que cheirava a sândalo e algo puramente dele. — Faz tanto tempo. Você está sumida.
— Tenho estado ocupada — respondi, tentando manter a voz firme. — Faculdade, você sabe como é.
— Eu sei, mas sinto falta das nossas conversas sobre música — ele disse, com uma gentileza que me machucava. — Como vai o piano?
— Está pegando poeira — confessei, sentindo um aperto no peito.
Nos sentamos à mesa. O jantar foi servido: um risoto de cogumelos que exalava um aroma maravilhoso, mas que para mim parecia um prato de veneno. Eu mexia na comida com o garfo, empurrando os grãos de arroz de um lado para o outro, fingindo que estava comendo enquanto a conversa fluía ao meu redor.
— E a Savannah, Jaafar? — perguntou minha mãe, com uma curiosidade casual que me fez querer desaparecer. — Ela não pôde vir?
Jaafar hesitou por um segundo, e notei uma sombra passar por seus olhos escuros.
— Nós terminamos, tia — disse ele, com uma calma estudada. — Há cerca de duas semanas. Percebemos que nossos caminhos eram muito diferentes. Ela viaja muito, e eu... eu quero algo mais real, eu acho.
O mundo pareceu parar por um segundo. Eles haviam terminado? O peso que eu carregava não diminuiu; pelo contrário, a culpa por sentir um lampejo de esperança me esmagou. Eu não tinha o direito de ficar feliz com a tristeza dele.
— Sinto muito por ouvir isso — disse meu pai, genuinamente.
— Está tudo bem — Jaafar sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos desta vez. — Às vezes a gente busca a perfeição em lugares onde ela não existe, e acaba esquecendo o que realmente importa.
Senti o olhar dele sobre mim enquanto ele dizia aquilo. Desviei os olhos imediatamente para o meu prato intacto. A ansiedade começou a subir pela minha garganta, uma onda de calor que me deixou tonta. O barulho dos talheres, as vozes, o cheiro da comida... tudo começou a se fechar sobre mim.
— Com licença — eu disse, levantando-me bruscamente. — Eu preciso de um pouco de ar.
Saí da sala de jantar antes que alguém pudesse protestar. Atravessei a cozinha e saí para o jardim dos fundos, onde o ar da noite estava fresco e silencioso. Apoiei as mãos nos joelhos e respirei fundo, tentando acalmar meu coração que batia como um tambor descompassado.
— Beca?
A voz dele veio da porta dos fundos. Eu não me virei. Não queria que ele visse as lágrimas que agora teimavam em cair.
— Vá embora, Jaafar. Volte para o jantar.
Ouvi seus passos lentos sobre a grama. Ele parou a poucos metros de mim.
— Você não comeu nada — ele disse, a voz cheia de uma preocupação que eu não merecia. — E você está tão pálida. O que está acontecendo com você?
— Nada. Eu só não estou com fome.
— Você está mentindo — ele deu um passo à frente. — Eu conheço você desde que éramos crianças. Você sempre foi a pessoa mais vibrante que eu conheci. Onde está aquela garota que me obrigava a ouvir os discos do seu tio Michael até tarde da noite?
— Aquela garota morreu — disparei, virando-me para ele com o rosto banhado de lágrimas. — Ela percebeu que não era boa o suficiente. Que não era bonita o suficiente. Que era gorda demais, estranha demais... invisível demais!
Jaafar pareceu chocado. Ele deu mais um passo, reduzindo a distância entre nós. A luz da varanda iluminava seu rosto, mostrando uma expressão de dor.
— Quem disse essas coisas para você? — perguntou ele, a voz baixa e intensa.
— Ninguém precisou dizer! — solucei, abraçando meu próprio corpo. — Eu vejo as fotos, Jaafar. Eu vejo as garotas com quem você sai. Eu vejo como o mundo olha para pessoas como você e como ignora pessoas como eu. Eu tentei mudar... eu tentei parar de sentir... mas dói tanto.
Eu estava tremendo agora, uma crise de ansiedade em pleno curso. Minha visão começou a embaçar e minhas pernas fraquejaram. Antes que eu pudesse cair, senti braços fortes e quentes me segurarem. Jaafar me puxou para o seu peito, ignorando meus protestos fracos.
— Shhh... calma. Eu estou aqui — ele sussurrou contra meu cabelo ruivo. — Respire comigo, Beca. Devagar.
Ficamos ali por alguns minutos. O calor do corpo dele era a única coisa que me mantinha ancorada na realidade. Aos poucos, meu choro diminuiu para soluços baixos. Eu me sentia humilhada, exposta, mas, ao mesmo tempo, estranhamente segura.
Ele me afastou apenas o suficiente para olhar no meu rosto. Com o polegar, ele limpou uma lágrima que escorria por cima das minhas sardas.
— Você acha que eu namorei a Savannah porque ela era "perfeita"? — ele perguntou, com um toque de amargura. — Eu namorei uma imagem. E foi a coisa mais vazia que já fiz. Eu passava o tempo todo sentindo falta de alguém com quem eu pudesse realmente conversar. Alguém que entendesse minha alma, não apenas minha aparência.
Eu pisquei, confusa.
— Do que você está falando?
Jaafar sorriu, um sorriso triste e autêntico.
— Eu sempre achei você a garota mais incrível que eu já conheci, Rebeca. Suas sardas parecem constelações. Sua risada é o meu som favorito. Mas você sempre se escondia de mim. Você sempre parecia estar fugindo, e eu achei que era porque você não gostava de mim.
— Eu não gosto de você? — soltei uma risada nervosa, quase histérica. — Jaafar, eu sou apaixonada por você desde que aprendi o que era o amor. Por isso eu fugia. Porque ver você com aquelas mulheres perfeitas me destruía.
Ele ficou em silêncio por um longo momento, os olhos escuros fixos nos meus, processando minha confissão. Meu coração parou de bater por um segundo, temendo a rejeição.
— Então fomos dois idiotas — disse ele, finalmente. — Porque eu passei os últimos anos tentando encontrar em outras garotas o brilho que eu só via em você.
Ele se aproximou mais, a mão subindo para acariciar minha bochecha.
— Beca, você precisa de ajuda. Você está se machucando, e eu não posso suportar ver você desaparecer assim. Mas eu quero que você saiba... eu não quero uma modelo de revista. Eu quero a garota ruiva que entende de música, que tem o coração mais puro do mundo e que, para mim, é a mulher mais linda deste jardim.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Parecia um sonho, um daqueles delírios causados pela fome e pelo cansaço. Mas o toque dele era real. O calor da sua pele era real.
— Você... você está falando sério? — gaguejei.
— Nunca falei tão sério em toda a minha vida — ele respondeu. — Mas primeiro, você precisa se cuidar. Por você. Não por mim, nem por ninguém. Eu vou estar aqui, do seu lado, em cada passo. Mas eu quero a Rebeca de volta. A Rebeca inteira.
Ele inclinou a cabeça e, com uma lentidão que me permitiu recuar se eu quisesse, encostou seus lábios nos meus. Foi um beijo suave, com gosto de promessa e de um recomeço que eu nunca julguei possível.
Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha.
— Vamos entrar? — ele perguntou. — Eu vou sentar do seu lado, e não vou deixar ninguém te pressionar. Mas amanhã, nós vamos conversar com seus pais sobre como te ajudar a ficar bem de verdade. Tudo bem?
Eu olhei para ele, para o homem que eu amava, e pela primeira vez em muito tempo, senti uma fagulha de esperança. O caminho seria difícil, eu sabia. A ansiedade e os problemas alimentares não sumiriam da noite para o dia como em um passe de mágica. Mas, pela primeira vez, eu não estava sozinha no escuro.
— Tudo bem — eu sussurrei, segurando a mão dele com força.
Caminhamos de volta para a luz da casa, e embora eu ainda me sentisse pequena e cheia de falhas, a mão de Jaafar entrelaçada na minha me dava a coragem que eu achei que tivesse perdido para sempre. Eu era Rebeca Vale, ruiva, gordinha, cheia de sardas e cicatrizes invisíveis. E, pela primeira vez, eu comecei a pensar que, talvez, isso pudesse ser o suficiente.
