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Será isso mesmo?
Fandom: Stranger things
Created: 5/16/2026
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RomanceDramaAngstHurt/ComfortCharacter StudyDivergenceCanon SettingJealousy
Xeque-Mate no Tabuleiro de Vidro
A atmosfera no refeitório da Hawkins High nunca esteve tão carregada. De um lado, a mesa do Hellfire Club, liderada por um Mike Wheeler visivelmente tenso, cercado por Dustin e Lucas, que trocavam olhares de puro desconforto. Do outro, uma mesa nova, organizada, onde Will Byers se sentava ao lado de Leo, o garoto novo de cabelos cacheados e sorriso calmo que parecia ter lido a alma de Will desde o primeiro dia.
Will não era mais o garoto que se encolhia nos cantos, esperando uma migalha de atenção de Mike. Ele segurava seu conjunto de dados com firmeza. Ao seu lado, Leo colocou a mão em seu ombro, um gesto simples de apoio que fez o estômago de Mike revirar de ódio e algo que ele se recusava a admitir como ciúme.
— Estão prontos para perder, Byers? — Mike provocou, a voz falhando levemente, tentando manter a fachada de mestre arrogante. — O Hellfire não costuma ser gentil com amadores.
Will levantou o olhar. Não havia mágoa ali, apenas uma clareza gelada que Mike nunca tinha visto.
— Não somos amadores, Mike — respondeu Will, sua voz soando mais madura. — Nós apenas jogamos por motivos diferentes de vocês.
Eddie Munson, que observava a disputa como um juiz caótico, bateu o martelo na mesa.
— Que comece a Batalha das Vertentes! Hellfire contra os Renegados de Mirkwood! O objetivo é simples: o primeiro grupo a atravessar o Labirinto de Vidro e derrotar o Cavaleiro do Arrependimento vence o torneio de inverno.
O jogo começou frenético. Mike jogava com agressividade, focado em ataques diretos, tentando mostrar superioridade. Ele mal consultava Dustin ou Lucas, tomando decisões unilaterais que deixavam seus amigos frustrados.
— Mike, se você atacar agora, vai expor nosso flanco! — alertou Dustin, nervoso.
— Eu sei o que estou fazendo, Dustin! — rebateu Mike, os olhos fixos em Will.
Enquanto isso, na mesa dos Renegados, o clima era de absoluta harmonia. Will, agindo como o estrategista principal, ouvia as sugestões de Leo e dos outros dois integrantes.
— O labirinto reflete nossas fraquezas — sussurrou Will, movendo sua peça de clérigo. — Se tentarmos quebrar as paredes, elas se reconstroem. Precisamos de um feitiço de transparência. Leo, você tem o pergaminho?
— Sempre, Will — Leo sorriu, lançando os dados. Um 18 natural. — O caminho está aberto.
A eficiência de Will era um soco no estômago de Mike. Ele se lembrava de quando Will era o "Will, o Sábio", e como ele mesmo, Mike, costumava ser o "Paladino" que o protegia. Mas agora, Will não precisava de proteção. Ele estava liderando. Ele estava brilhando. E o pior: ele estava feliz longe de Mike.
As horas passaram e o cansaço começou a abater o Hellfire. Lucas e Dustin cometiam erros bobos porque estavam distraídos, olhando para Will com uma saudade que não conseguiam esconder. Eles sentiam falta das risadas leves, da sensibilidade de Will que equilibrava o grupo. Sem ele, o Hellfire parecia apenas um bando de garotos gritando uns com os outros.
— Vocês estão jogando como idiotas! — Mike explodiu quando Lucas falhou em um teste de percepção.
— Talvez a gente esteja cansado de você mandar na gente como se fosse o dono da verdade, Mike! — Lucas rebateu, levantando-se da cadeira. — O Will nunca fez isso.
O silêncio que se seguiu foi mortal. O nome de Will pairou no ar como uma acusação. Mike olhou para o lado e viu Will e Leo rindo de uma piada interna, as cabeças próximas enquanto planejavam o movimento final. O peito de Mike ardeu. Ele queria gritar que Will era o *seu* melhor amigo, que aquele lugar ao lado de Will pertencia a ele. Mas a verdade é que ele tinha jogado aquele lugar fora no momento em que escolheu ignorar Will por meses.
— O Cavaleiro do Arrependimento apareceu — anunciou Eddie, com um sorriso sinistro. — Mesa do Mike, vocês estão encurralados. Mesa do Will, vocês têm a iniciativa.
Era o momento decisivo. O personagem de Will estava cara a cara com o monstro, que no tabuleiro representava um guerreiro de armadura espelhada.
— Para derrotar o Cavaleiro — disse Will, olhando diretamente nos olhos de Mike —, você não pode usar força bruta. Você tem que baixar a guarda. Você tem que admitir que errou.
Mike sentiu que Will não estava mais falando do jogo. Era uma metáfora dolorosa sobre tudo o que aconteceu entre eles. O orgulho de Mike o impedia de falar, de se desculpar por ter sido um idiota, por ter colocado Eleven acima de tudo e deixado Will no escuro.
— Eu ataco com a espada longa! — gritou Mike, desesperado para encerrar o jogo.
Ele jogou o dado. Um 1. Erro crítico.
A mesa do Hellfire soltou um suspiro de derrota coletiva.
— Sua espada quebra contra o escudo de espelhos — narrou Eddie, quase com pena. — Agora, Will... é sua vez.
Will pegou o dado de vinte faces. Ele sentiu o peso de todos os anos de amizade, de todas as vezes que chorou escondido, de todas as vezes que Mike o chamou de "estranho" ou disse que D&D era coisa de criança. Ele olhou para Leo, que assentiu com confiança.
— Eu não ataco — disse Will, calmamente. — Eu estendo a mão para o Cavaleiro. Eu ofereço paz.
O refeitório inteiro prendeu a respiração. Will rolou o dado.
O 20 girou e parou, brilhando sob as luzes fluorescentes.
— Sucesso crítico — anunciou Eddie, levantando os braços. — O Cavaleiro se desfaz em luz. Os Renegados de Mirkwood vencem o torneio!
A mesa de Will explodiu em comemoração. Leo abraçou Will com força, tirando-o do chão, e os outros amigos se juntaram a eles. Will estava radiante, com as bochechas coradas e um sorriso que Mike não via há anos.
Mike, por outro lado, sentia-se um fantasma. Ele viu Dustin e Lucas se aproximarem de Will para parabenizá-lo, a barreira do Hellfire finalmente quebrando diante da saudade. Eles estavam rindo juntos, e Mike estava do lado de fora.
Incapaz de suportar a visão de Leo tão perto de Will, Mike se levantou bruscamente e saiu correndo em direção aos corredores vazios da escola. O ar parecia faltar em seus pulmões. O orgulho, aquela armadura pesada que ele vestiu para não admitir que sentia falta de Will, estava finalmente rachando.
Ele parou perto dos armários, tentando controlar a respiração, quando ouviu passos.
— Mike?
Era Will. Ele estava sozinho, tendo deixado a festa de seu novo grupo para trás.
— O que você quer, Will? Veio zombar da minha derrota? — Mike perguntou, a voz embargada, as costas voltadas para o amigo.
— Eu nunca faria isso — respondeu Will, aproximando-se lentamente. — Eu só queria saber se você está bem.
— Por que você se importa? Você tem o Leo agora. Você tem o seu novo grupo perfeito. Você nem precisa mais de mim.
Will soltou um suspiro cansado.
— Eu nunca disse que não precisava de você, Mike. Mas eu precisei aprender a não *depender* de você para ser feliz. Você me deixou de lado. Você me fez sentir como se eu fosse um fardo por ainda querer ser seu amigo.
Mike finalmente se virou. Seus olhos estavam vermelhos.
— Eu fui um idiota, tá legal? — as palavras saíram como um tiro. — Eu achei que se eu focasse na El, tudo ficaria normal. Eu achei que você estaria sempre lá, esperando por mim, não importa o quanto eu te ignorasse. E quando eu vi você com aquele cara... eu senti como se estivesse perdendo a única coisa que realmente me entende.
Will deu um passo à frente, a expressão suavizando.
— Você não me perdeu, Mike. Mas as coisas não podem ser como eram antes. Eu mudei. Eu cresci.
— Eu sei — Mike sussurrou, dando um passo hesitante na direção de Will. — E eu odeio que eu não fiz parte desse crescimento. Eu sinto sua falta, Will. De verdade. O Hellfire é um lixo sem você. Eu sou um lixo sem você.
Will sentiu o coração acelerar. Aquele era o Mike que ele amava, o Mike que se importava, despido de toda a arrogância de Hawkins.
— Você ainda é meu paladino? — Will perguntou, com um meio sorriso triste.
Mike sentiu uma lágrima escorrer. Ele encurtou a distância entre eles, segurando as mãos de Will. As mãos de Will eram quentes e reais, tão diferentes do vazio que Mike sentia nos últimos meses.
— Se você me deixar voltar... eu prometo que nunca mais vou te deixar no escuro. Eu vou ser o que você precisar que eu seja.
Will olhou para as mãos unidas. Ele sabia que o caminho para reconstruir a confiança seria longo. Ele ainda gostava de Leo, e Leo ainda era uma parte importante de sua vida, mas o que ele tinha com Mike... era algo que transcendia jogos, dimensões ou o tempo.
— Mike... — Will começou, levantando o olhar.
Antes que ele pudesse terminar, Mike tomou a iniciativa. Não foi um movimento planejado ou estratégico como no RPG. Foi um impulso de puro desespero e amor. Ele se inclinou e pressionou seus lábios contra os de Will.
Foi um beijo desajeitado, salgado pelas lágrimas de Mike, mas carregado de todas as palavras que eles não disseram durante anos. Will congelou por um segundo, o choque percorrendo sua espinha, antes de relaxar e retribuir. Ele soltou os dados que ainda carregava no bolso, o som do plástico batendo no chão ecoando pelo corredor silencioso.
Quando se separaram, Mike encostou a testa na de Will, fechando os olhos.
— Me desculpa, Will. Por favor, me desculpa.
Will passou a mão pelo rosto de Mike, limpando uma lágrima com o polegar.
— O jogo acabou, Mike. A gente ganhou.
Mike riu baixo, uma risada aliviada que dissipou a tensão que o sufocava.
— É, a gente ganhou.
Longe dali, no refeitório, Dustin e Lucas celebravam com os Renegados, mas todos sabiam que a verdadeira vitória não tinha acontecido no tabuleiro de D&D. A amizade que tinha sido a âncora de Hawkins estava sendo forjada novamente, não mais sobre a dependência da infância, mas sobre a verdade da adolescência.
Will Byers não era mais o garoto desaparecido ou o "garoto zumbi". Ele era o mestre de seu próprio destino. E, pela primeira vez em muito tempo, Mike Wheeler estava exatamente onde deveria estar: ao seu lado, não como um líder, mas como um igual.
— Vamos voltar? — sugeriu Will, entrelaçando seus dedos aos de Mike. — O Leo provavelmente está preocupado.
Mike sentiu uma pontada de ciúme ao ouvir o nome, mas ele respirou fundo. Ele teria que conquistar seu espaço de novo, e ele estava disposto a fazer isso.
— Vamos. Mas só se você prometer me ensinar aquele feitiço de transparência depois.
Will sorriu, um sorriso que iluminou o corredor escuro da escola.
— Talvez, Wheeler. Se você se comportar.
Eles caminharam juntos de volta para a luz, deixando para trás as ruínas de seu orgulho e as peças quebradas de um passado que não precisavam mais carregar. O jogo da vida era muito mais difícil que D&D, mas, contanto que estivessem no mesmo grupo, eles sabiam que poderiam enfrentar qualquer monstro que Hawkins decidisse cuspir neles.
Will não era mais o garoto que se encolhia nos cantos, esperando uma migalha de atenção de Mike. Ele segurava seu conjunto de dados com firmeza. Ao seu lado, Leo colocou a mão em seu ombro, um gesto simples de apoio que fez o estômago de Mike revirar de ódio e algo que ele se recusava a admitir como ciúme.
— Estão prontos para perder, Byers? — Mike provocou, a voz falhando levemente, tentando manter a fachada de mestre arrogante. — O Hellfire não costuma ser gentil com amadores.
Will levantou o olhar. Não havia mágoa ali, apenas uma clareza gelada que Mike nunca tinha visto.
— Não somos amadores, Mike — respondeu Will, sua voz soando mais madura. — Nós apenas jogamos por motivos diferentes de vocês.
Eddie Munson, que observava a disputa como um juiz caótico, bateu o martelo na mesa.
— Que comece a Batalha das Vertentes! Hellfire contra os Renegados de Mirkwood! O objetivo é simples: o primeiro grupo a atravessar o Labirinto de Vidro e derrotar o Cavaleiro do Arrependimento vence o torneio de inverno.
O jogo começou frenético. Mike jogava com agressividade, focado em ataques diretos, tentando mostrar superioridade. Ele mal consultava Dustin ou Lucas, tomando decisões unilaterais que deixavam seus amigos frustrados.
— Mike, se você atacar agora, vai expor nosso flanco! — alertou Dustin, nervoso.
— Eu sei o que estou fazendo, Dustin! — rebateu Mike, os olhos fixos em Will.
Enquanto isso, na mesa dos Renegados, o clima era de absoluta harmonia. Will, agindo como o estrategista principal, ouvia as sugestões de Leo e dos outros dois integrantes.
— O labirinto reflete nossas fraquezas — sussurrou Will, movendo sua peça de clérigo. — Se tentarmos quebrar as paredes, elas se reconstroem. Precisamos de um feitiço de transparência. Leo, você tem o pergaminho?
— Sempre, Will — Leo sorriu, lançando os dados. Um 18 natural. — O caminho está aberto.
A eficiência de Will era um soco no estômago de Mike. Ele se lembrava de quando Will era o "Will, o Sábio", e como ele mesmo, Mike, costumava ser o "Paladino" que o protegia. Mas agora, Will não precisava de proteção. Ele estava liderando. Ele estava brilhando. E o pior: ele estava feliz longe de Mike.
As horas passaram e o cansaço começou a abater o Hellfire. Lucas e Dustin cometiam erros bobos porque estavam distraídos, olhando para Will com uma saudade que não conseguiam esconder. Eles sentiam falta das risadas leves, da sensibilidade de Will que equilibrava o grupo. Sem ele, o Hellfire parecia apenas um bando de garotos gritando uns com os outros.
— Vocês estão jogando como idiotas! — Mike explodiu quando Lucas falhou em um teste de percepção.
— Talvez a gente esteja cansado de você mandar na gente como se fosse o dono da verdade, Mike! — Lucas rebateu, levantando-se da cadeira. — O Will nunca fez isso.
O silêncio que se seguiu foi mortal. O nome de Will pairou no ar como uma acusação. Mike olhou para o lado e viu Will e Leo rindo de uma piada interna, as cabeças próximas enquanto planejavam o movimento final. O peito de Mike ardeu. Ele queria gritar que Will era o *seu* melhor amigo, que aquele lugar ao lado de Will pertencia a ele. Mas a verdade é que ele tinha jogado aquele lugar fora no momento em que escolheu ignorar Will por meses.
— O Cavaleiro do Arrependimento apareceu — anunciou Eddie, com um sorriso sinistro. — Mesa do Mike, vocês estão encurralados. Mesa do Will, vocês têm a iniciativa.
Era o momento decisivo. O personagem de Will estava cara a cara com o monstro, que no tabuleiro representava um guerreiro de armadura espelhada.
— Para derrotar o Cavaleiro — disse Will, olhando diretamente nos olhos de Mike —, você não pode usar força bruta. Você tem que baixar a guarda. Você tem que admitir que errou.
Mike sentiu que Will não estava mais falando do jogo. Era uma metáfora dolorosa sobre tudo o que aconteceu entre eles. O orgulho de Mike o impedia de falar, de se desculpar por ter sido um idiota, por ter colocado Eleven acima de tudo e deixado Will no escuro.
— Eu ataco com a espada longa! — gritou Mike, desesperado para encerrar o jogo.
Ele jogou o dado. Um 1. Erro crítico.
A mesa do Hellfire soltou um suspiro de derrota coletiva.
— Sua espada quebra contra o escudo de espelhos — narrou Eddie, quase com pena. — Agora, Will... é sua vez.
Will pegou o dado de vinte faces. Ele sentiu o peso de todos os anos de amizade, de todas as vezes que chorou escondido, de todas as vezes que Mike o chamou de "estranho" ou disse que D&D era coisa de criança. Ele olhou para Leo, que assentiu com confiança.
— Eu não ataco — disse Will, calmamente. — Eu estendo a mão para o Cavaleiro. Eu ofereço paz.
O refeitório inteiro prendeu a respiração. Will rolou o dado.
O 20 girou e parou, brilhando sob as luzes fluorescentes.
— Sucesso crítico — anunciou Eddie, levantando os braços. — O Cavaleiro se desfaz em luz. Os Renegados de Mirkwood vencem o torneio!
A mesa de Will explodiu em comemoração. Leo abraçou Will com força, tirando-o do chão, e os outros amigos se juntaram a eles. Will estava radiante, com as bochechas coradas e um sorriso que Mike não via há anos.
Mike, por outro lado, sentia-se um fantasma. Ele viu Dustin e Lucas se aproximarem de Will para parabenizá-lo, a barreira do Hellfire finalmente quebrando diante da saudade. Eles estavam rindo juntos, e Mike estava do lado de fora.
Incapaz de suportar a visão de Leo tão perto de Will, Mike se levantou bruscamente e saiu correndo em direção aos corredores vazios da escola. O ar parecia faltar em seus pulmões. O orgulho, aquela armadura pesada que ele vestiu para não admitir que sentia falta de Will, estava finalmente rachando.
Ele parou perto dos armários, tentando controlar a respiração, quando ouviu passos.
— Mike?
Era Will. Ele estava sozinho, tendo deixado a festa de seu novo grupo para trás.
— O que você quer, Will? Veio zombar da minha derrota? — Mike perguntou, a voz embargada, as costas voltadas para o amigo.
— Eu nunca faria isso — respondeu Will, aproximando-se lentamente. — Eu só queria saber se você está bem.
— Por que você se importa? Você tem o Leo agora. Você tem o seu novo grupo perfeito. Você nem precisa mais de mim.
Will soltou um suspiro cansado.
— Eu nunca disse que não precisava de você, Mike. Mas eu precisei aprender a não *depender* de você para ser feliz. Você me deixou de lado. Você me fez sentir como se eu fosse um fardo por ainda querer ser seu amigo.
Mike finalmente se virou. Seus olhos estavam vermelhos.
— Eu fui um idiota, tá legal? — as palavras saíram como um tiro. — Eu achei que se eu focasse na El, tudo ficaria normal. Eu achei que você estaria sempre lá, esperando por mim, não importa o quanto eu te ignorasse. E quando eu vi você com aquele cara... eu senti como se estivesse perdendo a única coisa que realmente me entende.
Will deu um passo à frente, a expressão suavizando.
— Você não me perdeu, Mike. Mas as coisas não podem ser como eram antes. Eu mudei. Eu cresci.
— Eu sei — Mike sussurrou, dando um passo hesitante na direção de Will. — E eu odeio que eu não fiz parte desse crescimento. Eu sinto sua falta, Will. De verdade. O Hellfire é um lixo sem você. Eu sou um lixo sem você.
Will sentiu o coração acelerar. Aquele era o Mike que ele amava, o Mike que se importava, despido de toda a arrogância de Hawkins.
— Você ainda é meu paladino? — Will perguntou, com um meio sorriso triste.
Mike sentiu uma lágrima escorrer. Ele encurtou a distância entre eles, segurando as mãos de Will. As mãos de Will eram quentes e reais, tão diferentes do vazio que Mike sentia nos últimos meses.
— Se você me deixar voltar... eu prometo que nunca mais vou te deixar no escuro. Eu vou ser o que você precisar que eu seja.
Will olhou para as mãos unidas. Ele sabia que o caminho para reconstruir a confiança seria longo. Ele ainda gostava de Leo, e Leo ainda era uma parte importante de sua vida, mas o que ele tinha com Mike... era algo que transcendia jogos, dimensões ou o tempo.
— Mike... — Will começou, levantando o olhar.
Antes que ele pudesse terminar, Mike tomou a iniciativa. Não foi um movimento planejado ou estratégico como no RPG. Foi um impulso de puro desespero e amor. Ele se inclinou e pressionou seus lábios contra os de Will.
Foi um beijo desajeitado, salgado pelas lágrimas de Mike, mas carregado de todas as palavras que eles não disseram durante anos. Will congelou por um segundo, o choque percorrendo sua espinha, antes de relaxar e retribuir. Ele soltou os dados que ainda carregava no bolso, o som do plástico batendo no chão ecoando pelo corredor silencioso.
Quando se separaram, Mike encostou a testa na de Will, fechando os olhos.
— Me desculpa, Will. Por favor, me desculpa.
Will passou a mão pelo rosto de Mike, limpando uma lágrima com o polegar.
— O jogo acabou, Mike. A gente ganhou.
Mike riu baixo, uma risada aliviada que dissipou a tensão que o sufocava.
— É, a gente ganhou.
Longe dali, no refeitório, Dustin e Lucas celebravam com os Renegados, mas todos sabiam que a verdadeira vitória não tinha acontecido no tabuleiro de D&D. A amizade que tinha sido a âncora de Hawkins estava sendo forjada novamente, não mais sobre a dependência da infância, mas sobre a verdade da adolescência.
Will Byers não era mais o garoto desaparecido ou o "garoto zumbi". Ele era o mestre de seu próprio destino. E, pela primeira vez em muito tempo, Mike Wheeler estava exatamente onde deveria estar: ao seu lado, não como um líder, mas como um igual.
— Vamos voltar? — sugeriu Will, entrelaçando seus dedos aos de Mike. — O Leo provavelmente está preocupado.
Mike sentiu uma pontada de ciúme ao ouvir o nome, mas ele respirou fundo. Ele teria que conquistar seu espaço de novo, e ele estava disposto a fazer isso.
— Vamos. Mas só se você prometer me ensinar aquele feitiço de transparência depois.
Will sorriu, um sorriso que iluminou o corredor escuro da escola.
— Talvez, Wheeler. Se você se comportar.
Eles caminharam juntos de volta para a luz, deixando para trás as ruínas de seu orgulho e as peças quebradas de um passado que não precisavam mais carregar. O jogo da vida era muito mais difícil que D&D, mas, contanto que estivessem no mesmo grupo, eles sabiam que poderiam enfrentar qualquer monstro que Hawkins decidisse cuspir neles.
