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o impacto
Fandom: Vida real
Created: 5/19/2026
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RomanceDramaSlice of LifeJealousyCharacter StudyCanon SettingPsychologicalRealismAngstHurt/Comfort
O Echo do Silêncio e o Ruído do Olhar
O pátio da escola durante o intervalo era um ecossistema caótico, mas Ana Clara tinha o dom de se tornar invisível mesmo quando estava no centro de tudo. Sentada em um dos bancos de cimento perto da cantina, ela mantinha os olhos fixos no livro de farmacologia, tentando ignorar o burburinho ao seu redor.
Ao seu lado, Madu e Giovanna Rayssa discutiam sobre o treino de futsal da tarde. Gi, com seu jeito despachado e o boné virado para trás, gesticulava com entusiasmo, enquanto Madu, que conhecia Ana desde o jardim de infância, apenas sorria, sabendo que a amiga estava em seu próprio mundo.
— Você viu que o Guilherme não para de olhar pra cá? — Madu sussurrou, dando uma cotovelada leve em Ana.
Ana Clara nem sequer levantou a cabeça.
— Ele sempre olha, Madu. Deixa ele.
— O problema não é o Gui — Gi interveio, cruzando os braços. — O problema é que metade do terceiro ano parece ter um imã apontado pra você, Ana. O Pietro do 3A já passou por aqui três vezes só pra dar "oi".
— Eu só quero terminar esse capítulo antes da aula de laboratório — murmurou Ana, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Ela odiava a atenção. Não entendia por que, sendo a pessoa mais silenciosa da turma de Farmácia, ainda atraía tantos olhares. Era como se o seu silêncio fosse um desafio que todos queriam decifrar.
Do outro lado do pátio, o clima era diferente. Gustavo Ferreira caminhava como se fosse dono do asfalto. Ele não olhava para os lados, não sorria para as meninas que quase torciam o pescoço para acompanhar sua passagem, e mantinha aquela expressão de tédio que era sua marca registrada. Ao seu lado, Ruan e Luiz riam de alguma piada interna.
— Cara, você viu a nota de física? — perguntou Ruan, dando um tapa no ombro de Gustavo.
— Vi. O de sempre — respondeu Gustavo, a voz rouca e desinteressada.
— "O de sempre" pra ele é dez, Ruan. Não gasta seu latim — Luiz zombou, mas logo parou de rir quando seus olhos encontraram o grupo das meninas da Farmácia. — Aliás, vamos ali falar com a Ana Clara? Preciso perguntar uma coisa sobre o trabalho de química.
Gustavo parou por um segundo. Ele conhecia o nome. Quem não conhecia? Ana Clara era o enigma da escola. Mas ele nunca tinha se dado ao trabalho de realmente olhá-la. Para ele, o interesse excessivo dos outros garotos nela — incluindo o de Pietro e até do ex dela, Cauã — era apenas ruído.
— Vamos logo — disse Gustavo, embora seu tom indicasse que ele preferia estar em qualquer outro lugar.
O trio se aproximou do banco. Luiz, que era muito amigo de Ana, foi o primeiro a falar.
— E aí, pequena? Estudando até no intervalo?
Ana Clara finalmente fechou o livro, um pequeno sorriso surgindo nos lábios ao ver Luiz.
— Alguém tem que levar esse curso a sério, Luiz. O que você quer?
— Nossa, que agressividade! — Luiz riu. — Só queria saber se você tem as anotações da aula passada. Eu me perdi completamente na parte de estequiometria.
— Eu te passo depois por mensagem — ela respondeu, mas seus olhos acabaram desviando para a figura parada logo atrás de Luiz.
Gustavo estava lá, com as mãos nos bolsos da calça jeans, olhando para o horizonte como se a conversa fosse a coisa mais irrelevante do mundo. Por um breve momento, os olhos dele baixaram e encontraram os dela.
Diferente de todos os outros garotos que sorriam ou tentavam impressioná-la, Gustavo apenas sustentou o olhar por dois segundos. Havia um desafio ali, uma arrogância que fez o estômago de Ana dar um nó estranho. Ela foi a primeira a desviar.
— Valeu, Ana! Você é um anjo — disse Luiz, sem perceber a tensão silenciosa. — Vamos, Gustavo? O Ruan já tá lá na quadra.
— Vamos — Gustavo respondeu. Antes de sair, ele soltou um comentário baixo, quase inaudível para os outros, mas perfeitamente claro para Ana: — Cuidado para não entrar dentro do livro. O mundo real é um pouco mais barulhento que isso.
Ana Clara sentiu o rosto esquentar. Ela abriu a boca para responder, mas ele já estava de costas, caminhando com aquela postura marrenta que irritava e fascinava ao mesmo tempo.
— Que garoto idiota — resmungou Giovanna, que tinha ouvido.
— Ele é o Gustavo, do 3B Exatas — explicou Madu. — O "bad boy" oficial. Ele não fala com ninguém que não seja do círculo dele.
— Pois ele deveria aprender a ter educação — Ana disse, tentando focar novamente nas letras impressas, mas as palavras pareciam embaralhadas agora.
Ao longe, Izadora observava a cena com os olhos semicerrados. Ela estava com Thamires e o resto do grupo da Farmácia. A inveja que sentia de Ana Clara era quase palpável.
— Viu isso, Thamires? Até o Gustavo Ferreira, que não olha pra ninguém, parou ali — Izadora comentou, mordendo o lábio com raiva.
— Ah, Iza, para com isso. O Luiz é amigo dela, ele só estava acompanhando — Thamires tentou amenizar, embora soubesse que a amiga não aceitaria qualquer explicação lógica que não envolvesse diminuir Ana.
Enquanto isso, no corredor do 2A ADM, Cauã Castro e seu irmão gêmeo Enzo conversavam perto dos armários. Cauã, que ainda guardava um carinho imenso por Ana — e talvez algo mais —, viu o movimento no pátio.
— Você ainda olha pra ela com essa cara de cachorro abandonado, Cauã — Enzo brincou, ajeitando a mochila. — Ela é nossa melhor amiga agora. Aceita.
— Eu sei, Enzo. Eu só... eu me preocupo. A Ana é muito na dela, e tem muita gente em cima.
— Incluindo o Jhoujhou e o Samuel Coelho? — Enzo riu. — A fila de ex e futuros pretendentes da Ana Clara dá a volta no quarteirão.
— O problema não são eles — disse Cauã, observando Gustavo Ferreira se afastar. — O problema é quem ela não está acostumada a lidar.
A tarde passou arrastada. Na aula de laboratório da Farmácia, Ana Clara dividia a bancada com Bárbara e Bella. Elas conversavam sobre a festa que aconteceria no final de semana, mas Ana mal participava. Sua mente voltava, contra sua vontade, para o comentário sarcástico de Gustavo.
Por que aquilo a tinha incomodado tanto? Outros garotos diziam coisas muito piores ou eram invasivos, mas ela sempre conseguia ignorar. Gustavo, porém, parecia ter lido algo nela que ninguém mais via: o fato de que ela usava os livros como um escudo.
Na saída, o céu estava nublado, prometendo uma chuva típica de final de tarde. Ana caminhava em direção ao portão quando viu Luiz e Ruan conversando perto de uma moto preta. Gustavo estava sentado nela, com o capacete apoiado no tanque.
— Ana! — Luiz acenou. — Vem cá!
Ela hesitou, mas Luiz era um de seus melhores amigos. Ela caminhou até eles.
— Oi, Luiz. Oi, Ruan.
— Oi, Ana. Tá indo pra casa agora? — Ruan perguntou, simpático.
— Vou esperar o ônibus. Meu irmão, o João, ficou pra aula de reforço.
Gustavo, que até então parecia ignorar a presença dela, chutou o descanso da moto e se endireitou.
— O ônibus da linha 402 vai atrasar. Teve um acidente na avenida principal — disse ele, sem olhar diretamente para ela.
Ana piscou, surpresa pela informação voluntária.
— Como você sabe?
— Aplicativo de trânsito. Coisa de gente que vive no mundo real, lembra? — Ele deu um meio sorriso, que não era de todo gentil, mas também não era cruel. Era apenas... provocador.
— Eu sei usar um celular, Ferreira — rebateu Ana, cruzando os braços. — Só prefiro não viver dependente dele.
— Justo — ele deu de ombros. — Mas se quiser chegar seca em casa, é melhor aceitar a carona que o Luiz ia te oferecer no carro do pai dele. A chuva vai cair em cinco minutos.
Luiz olhou para o céu e depois para Ana.
— É verdade, Ana. Vamos, eu te deixo em casa. O Gustavo só é grosso assim porque nasceu virado do avesso, não liga não.
Ana olhou para Gustavo. Ele já estava colocando o capacete, a viseira escura escondendo seus olhos, mas ela sentia que ele a observava.
— Obrigada, Luiz. Eu aceito.
Enquanto caminhava em direção ao carro de Luiz, Ana ouviu o ronco do motor da moto de Gustavo. Ele arrancou, passando por ela como um borrão preto e prata, deixando apenas o cheiro de asfalto e uma sensação de que aquele ano letivo seria muito mais barulhento do que ela havia planejado.
No banco de trás do carro, enquanto a chuva começava a fustigar o vidro, Ana Clara olhou para fora. Ela viu a moto de Gustavo desaparecer na neblina da chuva.
— Ele é sempre assim? — ela perguntou, tentando soar casual.
— O Gustavo? — Luiz riu, trocando a marcha. — Ele é o cara mais fechado que eu conheço. Mas é gente boa, no fundo. Ele só não tem paciência pra futilidade. Acho que é por isso que ele não fala com quase ninguém.
— E por que ele falou comigo? — a pergunta escapou antes que ela pudesse evitar.
Ruan, que estava no banco do carona, virou-se para trás com um sorriso malicioso.
— Talvez porque você seja a única pessoa nesta escola que não olha pra ele como se ele fosse um deus, Ana. O Gustavo gosta de desafios. E você, pelo que eu sei, é o maior desafio de todos.
Ana Clara voltou a olhar para a janela, o reflexo de seu rosto sério misturando-se com as gotas de chuva. Ela não queria ser um desafio. Ela só queria silêncio. Mas, pela primeira vez, o barulho que Gustavo Ferreira causava em sua mente não era totalmente indesejado.
Enquanto isso, em sua casa, Gustavo tirava a jaqueta de couro molhada. Ele se olhou no espelho do quarto, lembrando-se da expressão de Ana Clara quando ele a provocou. Ela tinha olhos inteligentes, olhos que pareciam ver além da fachada de "bad boy" que ele mantinha.
— Ana Clara... — ele murmurou para o quarto vazio.
Ele não era de se interessar, não era de correr atrás. Mas havia algo naquela menina quieta da Farmácia que o fazia querer acelerar a moto só para ver se ela se assustava ou se, finalmente, sorria para ele.
O jogo estava apenas começando, e nenhum dos dois sabia que, entre fórmulas químicas e cálculos de exatas, a equação mais difícil de resolver seria a que estava prestes a unir seus caminhos.
Ao seu lado, Madu e Giovanna Rayssa discutiam sobre o treino de futsal da tarde. Gi, com seu jeito despachado e o boné virado para trás, gesticulava com entusiasmo, enquanto Madu, que conhecia Ana desde o jardim de infância, apenas sorria, sabendo que a amiga estava em seu próprio mundo.
— Você viu que o Guilherme não para de olhar pra cá? — Madu sussurrou, dando uma cotovelada leve em Ana.
Ana Clara nem sequer levantou a cabeça.
— Ele sempre olha, Madu. Deixa ele.
— O problema não é o Gui — Gi interveio, cruzando os braços. — O problema é que metade do terceiro ano parece ter um imã apontado pra você, Ana. O Pietro do 3A já passou por aqui três vezes só pra dar "oi".
— Eu só quero terminar esse capítulo antes da aula de laboratório — murmurou Ana, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Ela odiava a atenção. Não entendia por que, sendo a pessoa mais silenciosa da turma de Farmácia, ainda atraía tantos olhares. Era como se o seu silêncio fosse um desafio que todos queriam decifrar.
Do outro lado do pátio, o clima era diferente. Gustavo Ferreira caminhava como se fosse dono do asfalto. Ele não olhava para os lados, não sorria para as meninas que quase torciam o pescoço para acompanhar sua passagem, e mantinha aquela expressão de tédio que era sua marca registrada. Ao seu lado, Ruan e Luiz riam de alguma piada interna.
— Cara, você viu a nota de física? — perguntou Ruan, dando um tapa no ombro de Gustavo.
— Vi. O de sempre — respondeu Gustavo, a voz rouca e desinteressada.
— "O de sempre" pra ele é dez, Ruan. Não gasta seu latim — Luiz zombou, mas logo parou de rir quando seus olhos encontraram o grupo das meninas da Farmácia. — Aliás, vamos ali falar com a Ana Clara? Preciso perguntar uma coisa sobre o trabalho de química.
Gustavo parou por um segundo. Ele conhecia o nome. Quem não conhecia? Ana Clara era o enigma da escola. Mas ele nunca tinha se dado ao trabalho de realmente olhá-la. Para ele, o interesse excessivo dos outros garotos nela — incluindo o de Pietro e até do ex dela, Cauã — era apenas ruído.
— Vamos logo — disse Gustavo, embora seu tom indicasse que ele preferia estar em qualquer outro lugar.
O trio se aproximou do banco. Luiz, que era muito amigo de Ana, foi o primeiro a falar.
— E aí, pequena? Estudando até no intervalo?
Ana Clara finalmente fechou o livro, um pequeno sorriso surgindo nos lábios ao ver Luiz.
— Alguém tem que levar esse curso a sério, Luiz. O que você quer?
— Nossa, que agressividade! — Luiz riu. — Só queria saber se você tem as anotações da aula passada. Eu me perdi completamente na parte de estequiometria.
— Eu te passo depois por mensagem — ela respondeu, mas seus olhos acabaram desviando para a figura parada logo atrás de Luiz.
Gustavo estava lá, com as mãos nos bolsos da calça jeans, olhando para o horizonte como se a conversa fosse a coisa mais irrelevante do mundo. Por um breve momento, os olhos dele baixaram e encontraram os dela.
Diferente de todos os outros garotos que sorriam ou tentavam impressioná-la, Gustavo apenas sustentou o olhar por dois segundos. Havia um desafio ali, uma arrogância que fez o estômago de Ana dar um nó estranho. Ela foi a primeira a desviar.
— Valeu, Ana! Você é um anjo — disse Luiz, sem perceber a tensão silenciosa. — Vamos, Gustavo? O Ruan já tá lá na quadra.
— Vamos — Gustavo respondeu. Antes de sair, ele soltou um comentário baixo, quase inaudível para os outros, mas perfeitamente claro para Ana: — Cuidado para não entrar dentro do livro. O mundo real é um pouco mais barulhento que isso.
Ana Clara sentiu o rosto esquentar. Ela abriu a boca para responder, mas ele já estava de costas, caminhando com aquela postura marrenta que irritava e fascinava ao mesmo tempo.
— Que garoto idiota — resmungou Giovanna, que tinha ouvido.
— Ele é o Gustavo, do 3B Exatas — explicou Madu. — O "bad boy" oficial. Ele não fala com ninguém que não seja do círculo dele.
— Pois ele deveria aprender a ter educação — Ana disse, tentando focar novamente nas letras impressas, mas as palavras pareciam embaralhadas agora.
Ao longe, Izadora observava a cena com os olhos semicerrados. Ela estava com Thamires e o resto do grupo da Farmácia. A inveja que sentia de Ana Clara era quase palpável.
— Viu isso, Thamires? Até o Gustavo Ferreira, que não olha pra ninguém, parou ali — Izadora comentou, mordendo o lábio com raiva.
— Ah, Iza, para com isso. O Luiz é amigo dela, ele só estava acompanhando — Thamires tentou amenizar, embora soubesse que a amiga não aceitaria qualquer explicação lógica que não envolvesse diminuir Ana.
Enquanto isso, no corredor do 2A ADM, Cauã Castro e seu irmão gêmeo Enzo conversavam perto dos armários. Cauã, que ainda guardava um carinho imenso por Ana — e talvez algo mais —, viu o movimento no pátio.
— Você ainda olha pra ela com essa cara de cachorro abandonado, Cauã — Enzo brincou, ajeitando a mochila. — Ela é nossa melhor amiga agora. Aceita.
— Eu sei, Enzo. Eu só... eu me preocupo. A Ana é muito na dela, e tem muita gente em cima.
— Incluindo o Jhoujhou e o Samuel Coelho? — Enzo riu. — A fila de ex e futuros pretendentes da Ana Clara dá a volta no quarteirão.
— O problema não são eles — disse Cauã, observando Gustavo Ferreira se afastar. — O problema é quem ela não está acostumada a lidar.
A tarde passou arrastada. Na aula de laboratório da Farmácia, Ana Clara dividia a bancada com Bárbara e Bella. Elas conversavam sobre a festa que aconteceria no final de semana, mas Ana mal participava. Sua mente voltava, contra sua vontade, para o comentário sarcástico de Gustavo.
Por que aquilo a tinha incomodado tanto? Outros garotos diziam coisas muito piores ou eram invasivos, mas ela sempre conseguia ignorar. Gustavo, porém, parecia ter lido algo nela que ninguém mais via: o fato de que ela usava os livros como um escudo.
Na saída, o céu estava nublado, prometendo uma chuva típica de final de tarde. Ana caminhava em direção ao portão quando viu Luiz e Ruan conversando perto de uma moto preta. Gustavo estava sentado nela, com o capacete apoiado no tanque.
— Ana! — Luiz acenou. — Vem cá!
Ela hesitou, mas Luiz era um de seus melhores amigos. Ela caminhou até eles.
— Oi, Luiz. Oi, Ruan.
— Oi, Ana. Tá indo pra casa agora? — Ruan perguntou, simpático.
— Vou esperar o ônibus. Meu irmão, o João, ficou pra aula de reforço.
Gustavo, que até então parecia ignorar a presença dela, chutou o descanso da moto e se endireitou.
— O ônibus da linha 402 vai atrasar. Teve um acidente na avenida principal — disse ele, sem olhar diretamente para ela.
Ana piscou, surpresa pela informação voluntária.
— Como você sabe?
— Aplicativo de trânsito. Coisa de gente que vive no mundo real, lembra? — Ele deu um meio sorriso, que não era de todo gentil, mas também não era cruel. Era apenas... provocador.
— Eu sei usar um celular, Ferreira — rebateu Ana, cruzando os braços. — Só prefiro não viver dependente dele.
— Justo — ele deu de ombros. — Mas se quiser chegar seca em casa, é melhor aceitar a carona que o Luiz ia te oferecer no carro do pai dele. A chuva vai cair em cinco minutos.
Luiz olhou para o céu e depois para Ana.
— É verdade, Ana. Vamos, eu te deixo em casa. O Gustavo só é grosso assim porque nasceu virado do avesso, não liga não.
Ana olhou para Gustavo. Ele já estava colocando o capacete, a viseira escura escondendo seus olhos, mas ela sentia que ele a observava.
— Obrigada, Luiz. Eu aceito.
Enquanto caminhava em direção ao carro de Luiz, Ana ouviu o ronco do motor da moto de Gustavo. Ele arrancou, passando por ela como um borrão preto e prata, deixando apenas o cheiro de asfalto e uma sensação de que aquele ano letivo seria muito mais barulhento do que ela havia planejado.
No banco de trás do carro, enquanto a chuva começava a fustigar o vidro, Ana Clara olhou para fora. Ela viu a moto de Gustavo desaparecer na neblina da chuva.
— Ele é sempre assim? — ela perguntou, tentando soar casual.
— O Gustavo? — Luiz riu, trocando a marcha. — Ele é o cara mais fechado que eu conheço. Mas é gente boa, no fundo. Ele só não tem paciência pra futilidade. Acho que é por isso que ele não fala com quase ninguém.
— E por que ele falou comigo? — a pergunta escapou antes que ela pudesse evitar.
Ruan, que estava no banco do carona, virou-se para trás com um sorriso malicioso.
— Talvez porque você seja a única pessoa nesta escola que não olha pra ele como se ele fosse um deus, Ana. O Gustavo gosta de desafios. E você, pelo que eu sei, é o maior desafio de todos.
Ana Clara voltou a olhar para a janela, o reflexo de seu rosto sério misturando-se com as gotas de chuva. Ela não queria ser um desafio. Ela só queria silêncio. Mas, pela primeira vez, o barulho que Gustavo Ferreira causava em sua mente não era totalmente indesejado.
Enquanto isso, em sua casa, Gustavo tirava a jaqueta de couro molhada. Ele se olhou no espelho do quarto, lembrando-se da expressão de Ana Clara quando ele a provocou. Ela tinha olhos inteligentes, olhos que pareciam ver além da fachada de "bad boy" que ele mantinha.
— Ana Clara... — ele murmurou para o quarto vazio.
Ele não era de se interessar, não era de correr atrás. Mas havia algo naquela menina quieta da Farmácia que o fazia querer acelerar a moto só para ver se ela se assustava ou se, finalmente, sorria para ele.
O jogo estava apenas começando, e nenhum dos dois sabia que, entre fórmulas químicas e cálculos de exatas, a equação mais difícil de resolver seria a que estava prestes a unir seus caminhos.
