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Duas namoradas

Fandom: Nenhum

Created: 5/21/2026

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DramaAngstSlice of LifeHurt/ComfortPsychologicalCurtainfic / Domestic StoryRealismCharacter StudyJealousyRomanceExplicit LanguageTragedyDark
Contents

Entre o Silêncio e o Grito

O ar dentro do apartamento estava denso, carregado com aquele tipo de eletricidade que precede uma tempestade desastrosa. Emanuel fechou a porta atrás de si, sentindo o peso do dia de trabalho nos ombros, mas o silêncio que encontrou não era de paz. Era o silêncio de um campo minado.

No centro da sala, a tensão tinha nomes e formas distintas. De um lado, Sara. Ela estava em pé, com as mãos nos quadris que o jeans justo enfatizava, o cabelo loiro platinado impecavelmente ondulado e os lábios pintados de um vermelho tão vivo que parecia um aviso de perigo. O decote generoso, realçado pelo silicone que ela exibia com orgulho, subia e descia rapidamente conforme sua respiração acelerava.

Do outro lado, encolhida no canto do sofá de linho, estava Eduarda. Ela parecia pequena, quase fundindo-se às almofadas. Vestia um cardigã de tricô bege que caía levemente pelos ombros, e seus olhos grandes e expressivos já estavam úmidos, refletindo a luz da luminária de forma melancólica.

— Ah, que ótimo! O juiz chegou! — Sara disparou, a voz carregada de um sarcasmo ácido que cortou o ambiente.

Emanuel soltou um suspiro longo, jogando as chaves sobre o aparador. Ele nem sequer teve tempo de tirar o paletó.

— O que foi agora? — perguntou ele, a voz rouca e cansada, tentando manter a racionalidade que o definia.

— O que foi? O de sempre, Emanuel! — Sara deu um passo à frente, os saltos estalando contra o piso de madeira. — Eu cansei dessa encenação de "pobre menina rica". Eu estava tentando decidir o que vamos jantar e essa sonsa começou com aquela vozinha de quem está morrendo, dizendo que "tanto faz", mas fazendo cara de choro porque eu sugeri comida tailandesa. Ela é falsa, Emanuel! Ela usa essa carinha de santa para fazer você achar que eu sou o monstro da história.

Eduarda não respondeu imediatamente. Em vez disso, uma única lágrima rolou pelo seu rosto pálido, seguida por um soluço contido que soou como um pedido de socorro mudo. Ela abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se ainda mais.

— Eu não fiz nada... — sussurrou Eduarda, a voz trêmula, quase inaudível. — Eu só disse que meu estômago estava um pouco sensível hoje... Eu não queria brigar, de verdade.

— Viu? Viu só? — Sara apontou o dedo, rindo de forma amarga. — É sempre assim! Ela joga a isca da fragilidade e você morde todas as vezes. Ela é manipuladora, Emanuel. Ela sabe exatamente como te dobrar com esse teatrinho de vítima.

Emanuel sentiu a têmpora latejar. Ele caminhou até o sofá e sentou-se ao lado de Eduarda. Instintivamente, a mão dela buscou a dele, os dedos frios e delicados entrelaçando-se aos dele em busca de proteção. Eduarda inclinou a cabeça, encostando-a no ombro de Emanuel, deixando o perfume suave de baunilha de seu cabelo flutuar até ele.

— Sara, abaixa o tom de voz — disse Emanuel, tentando manter o controle, embora a irritação estivesse começando a borbulhar sob sua pele. — Não precisa gritar. A Eduarda só está sendo sincera sobre como se sente.

— Sincera? — Sara soltou uma gargalhada genuinamente incrédula, cruzando os braços sobre os seios fartos. — Ela é tão sincera quanto uma nota de três reais. Ela faz isso para me provocar! Ela sabe que eu perco a paciência com gente mole, e ela usa essa "moleza" para se pendurar em você como uma trepadeira. Olha para ela! Parece que foi espancada, quando a única coisa que eu fiz foi falar a verdade na cara dela.

Eduarda apertou a mão de Emanuel, o corpo tremendo levemente contra o dele.

— Eu só queria uma noite tranquila... — murmurou Eduarda, olhando para Emanuel com aqueles olhos que pareciam carregar toda a tristeza do mundo. — Por favor, não deixa ela falar assim comigo... Me dói tanto quando o clima fica assim.

— Oh, coitadinha! Quer um curativo no coração também? — Sara provocou, aproximando-se mais, a presença vibrante e agressiva dominando o espaço. — Você é patética, Eduarda. Vive nessa bolha de sensibilidade para não ter que encarar a vida. E você, Emanuel, é um idiota por cair nessa. Você gosta, não é? De se sentir o cavaleiro de armadura brilhante salvando a princesinha indefesa?

Emanuel levantou-se abruptamente, soltando a mão de Eduarda. O movimento repentino fez a moça mais jovem soltar um pequeno arquejo de surpresa.

— Chega, Sara! — a voz dele subiu um oitavo, firme e autoritária. — Eu chego em casa exausto e a primeira coisa que recebo é um interrogatório e uma disputa de ego. Eu não sou um prêmio para ser disputado e este apartamento não é uma arena.

— Então coloca ordem na casa! — rebateu Sara, sem recuar um centímetro. Ela não tinha medo dele; pelo contrário, o conflito parecia alimentá-la. — Escolha um lado. Ou você fica com quem é real e fala o que pensa, ou fica com essa boneca de porcelana que vai quebrar se você soprar muito forte.

Eduarda levantou-se também, mas seus movimentos eram lentos, quase etéreos. Ela caminhou até Emanuel e parou à sua frente, ignorando Sara completamente, como se a loira fosse apenas um ruído de fundo desagradável. Ela levou as mãos ao peito dele, sentindo a batida acelerada do seu coração através do tecido da camisa.

— Emanuel, eu não quero que você escolha lados... — disse ela, a voz carregada de uma doçura melancólica. — Eu só quero paz. Eu só quero que você saiba que eu te amo e que eu faço tudo para que você se sinta bem aqui. Se a minha presença incomoda tanto a Sara, talvez eu devesse apenas me trancar no quarto...

— Ah, sim! Vá lá se esconder e chorar no travesseiro para ele ir atrás te consolar! — Sara bufou, revirando os olhos. — Esse roteiro é mais velho que a minha avó.

Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, a força bruta e a honestidade ferina de Sara, que o atraía por sua energia e confiança inabalável. Do outro, a delicadeza e a necessidade quase infantil de Eduarda, que despertava nele um instinto protetor tão profundo que beirava o vício. Ele estava sendo puxado em duas direções opostas, e a corda estava prestes a arrebentar.

— Sara, vai para a cozinha. Agora — ordenou Emanuel, com um tom que não admitia réplicas.

— O quê? Você está me expulsando da sala? — ela perguntou, os olhos faiscando.

— Eu estou tentando evitar que eu perca a cabeça. Vá.

Sara soltou um som de escárnio, mas, vendo que Emanuel estava realmente no seu limite, girou nos calcanhares. O movimento fez seu cabelo balançar e o perfume caro e forte que ela usava pairou no ar como um desafio final.

— Aproveite o seu momento de silêncio com a "mártir" — disse ela, antes de sumir pelo corredor, batendo o pé com força.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda não perdeu tempo. Ela se aconchegou nos braços de Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço. Ele sentiu o calor do corpo dela, a maciez de sua pele e a fragilidade de sua estrutura.

— Obrigado por me defender — ela sussurrou, a respiração quente contra a pele dele. — Ela é tão agressiva... Eu sinto que ela me odeia.

Emanuel fechou os olhos, passando as mãos pelas costas de Eduarda.

— Ela não te odeia, Duda. Ela só tem um jeito... difícil de lidar com as coisas.

— Mas ela diz coisas horríveis... — Eduarda se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, a expressão de alguém que havia sido profundamente ferida. — Você não acha que eu sou manipuladora, acha?

Emanuel olhou para o rosto doce à sua frente. Ele via a vulnerabilidade, mas, no fundo de sua mente lógica, uma pequena voz perguntava se Sara não tinha um pouco de razão. No entanto, diante daquele olhar suplicante, a lógica perdia a força.

— Não, eu não acho — mentiu ele suavemente, ou talvez estivesse convencendo a si mesmo. — Eu só acho que vocês duas precisam encontrar um equilíbrio. Eu não aguento mais mediar essas brigas.

— Eu tento, Emanuel. Eu juro que tento. — Ela se inclinou e deu um beijo leve, quase casto, no canto da boca dele. — Você quer que eu prepare um chá? Você parece tão estressado...

Antes que ele pudesse responder, o som de algo quebrando na cozinha ecoou pelo apartamento. Emanuel soltou Eduarda com um suspiro de frustração.

— O que foi isso agora? — ele gritou, já caminhando em direção ao barulho.

Ao chegar na cozinha, encontrou Sara parada diante da geladeira aberta, um pote de vidro de geleia estraçalhado no chão. Ela não parecia arrependida; parecia furiosa.

— Esta porcaria estava mal fechada! — ela exclamou, apontando para o chão. — Provavelmente sua "queridinha" deixou assim de propósito para eu derrubar.

— Sara, por favor, foi um acidente — disse Emanuel, massageando as têmporas.

— Nada com ela é acidente, Emanuel! — Sara caminhou até ele, parando a centímetros de seu rosto. Ela era quase da mesma altura dele com os saltos, e a proximidade era carregada de uma tensão sexual e agressiva. — Você está sendo enganado por uma carinha bonita e um par de olhos tristes. Enquanto isso, eu sou a vilã porque não fico choramingando pelos cantos.

Ela estendeu a mão e puxou Emanuel pela gola da camisa, forçando-o a olhar para ela.

— Eu sou a mulher que te desafia, que te faz sentir vivo. Ela é só um peso morto que você carrega por pena. Quando é que você vai admitir isso?

Emanuel sentiu o cheiro de Sara, uma mistura de batom, perfume importado e pura adrenalina. A mão dele subiu para a cintura dela, apertando o tecido fino do vestido. A raiva e o desejo se misturavam de uma forma confusa em seu peito.

— Você não ajuda, Sara. Você só ataca.

— Eu ataco porque é a única forma de ser ouvida nesta casa! — ela sibilou, os olhos fixos nos dele. — Se eu não gritar, você só ouve os soluços dela.

Nesse momento, Eduarda apareceu na porta da cozinha. Ela parou, observando a cena: Emanuel segurando Sara pela cintura, os dois em um embate que parecia a ponto de se transformar em um beijo ou em uma explosão de fúria.

Eduarda não gritou. Ela não fez um escândalo. Ela simplesmente deixou os ombros caírem e uma expressão de desolação absoluta tomou conta de seu rosto.

— Desculpe... — disse ela, a voz falhando. — Eu não queria interromper.

Ela deu meia-volta e correu em direção ao quarto, o som de seus passos leves sendo seguidos pelo barulho da porta se fechando com suavidade — um contraste gritante com o modo como Sara batia as portas.

Emanuel soltou Sara imediatamente, sentindo uma onda colossal de culpa.

— Viu o que você fez? — ele disse para Sara, a voz transbordando irritação.

— O que eu fiz? — Sara soltou uma risada amarga. — Eu não fiz nada, Emanuel. Ela viu uma oportunidade de fazer você se sentir culpado e ela aproveitou. E olha só... funcionou perfeitamente. Você já está querendo correr atrás dela.

Emanuel ficou parado no meio da cozinha, entre o chão sujo de geleia e a mulher que o olhava com um desafio ardente nos olhos. Ele olhou para o corredor, onde Eduarda provavelmente estava chorando em silêncio, esperando que ele fosse lá resgatá-la da sua própria tristeza.

Ele sentia-se exausto. A racionalidade que ele tanto prezava estava sendo estraçalhada por duas forças da natureza diametralmente opostas. Uma o ancorava na sua necessidade de ser necessário; a outra o incendiava com a sua necessidade de ser dominado.

— Eu vou limpar isso aqui — disse Emanuel, a voz agora fria e distante. — E depois, eu vou sair para caminhar. Sozinho.

— Fugindo de novo? — provocou Sara, embora houvesse uma ponta de mágoa em sua voz que ela tentava esconder.

— Não estou fugindo, Sara. Estou tentando não quebrar o resto do que sobrou deste dia.

Ele se abaixou para começar a catar os cacos de vidro, sentindo o olhar de Sara queimando em suas costas. No quarto, o silêncio de Eduarda era mais alto do que qualquer grito. Ele sabia que, quando voltasse, teria que consolar uma e acalmar a outra. Era o ciclo sem fim de sua vida, um equilíbrio precário entre a doçura que o sufocava e a agressividade que o consumia.

E, no fundo, em um lugar que ele raramente visitava, Emanuel se perguntava quanto tempo mais conseguiria viver naquele campo de batalha disfarçado de lar.
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