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E se Will nao tivesse sido resgatado do mundo invertido?
Fandom: Stranger Things
Created: 3/11/2026
Tags
Isekai / Portal FantasySurvivalAdventureDramaCharacter StudyAngstRealismAU (Alternate Universe)
A Canção do Náufrago
O tempo, para Will Byers, deixou de ser uma medida linear. No Mundo Invertido, cada segundo era uma eternidade de terror, depois uma quietude opressora, e finalmente, uma solidão que se estendia como as raízes de uma árvore morta. Quando ele atravessou aquele portal improvisado, um rasgo de luz na escuridão, a esperança o impulsionou com a força de mil ventos. A imagem de Mike, Dustin e Lucas, suas risadas, seus jogos de RPG, era a única coisa que o mantinha em movimento.
Mas a luz não o levou para casa. Em vez de uma rua familiar, de rostos conhecidos, de um abraço apertado de sua mãe, ele emergiu em um lugar completamente desconhecido. A densa vegetação, com árvores de troncos grossos e folhas largas que filtravam a luz do sol em manchas dançantes, era exuberante e selvagem. O ar, antes pesado e metálico no Mundo Invertido, agora era fresco e salgado, carregando o cheiro de maresia. E o som... o som do mar. Um rugido constante, hipnotizante, que se misturava ao canto de pássaros que ele nunca havia ouvido antes.
Will caiu de joelhos na areia úmida, a mochila ainda apertada contra o peito. A adrenalina que o impulsionou se dissipou, deixando-o exausto e confuso. Onde ele estava? Não era Hawkins. Não era o Mundo Invertido, felizmente. Mas também não era casa.
Os primeiros dias foram um borrão de desespero e instinto de sobrevivência. Ele encontrou uma pequena caverna na base de um penhasco, que oferecia abrigo das chuvas tropicais que caíam em torrentes. A fome era uma companheira constante. Seus últimos salgadinhos de Dustin haviam sido um pálido consolo, e agora, sua boca estava seca, seu estômago roncava em protesto. Ele começou a procurar por comida, com a cautela de um animal acuado.
Lembrou-se das lições de sobrevivência dos seus livros de aventura, das histórias de exploradores. Frutas. Precisava de frutas. Ele encontrou coqueiros, mas subir era um desafio. Depois de várias tentativas frustradas e alguns arranhões, ele aprendeu a derrubar os cocos com pedras. A água do coco era uma benção. Ele encontrou árvores com frutas de casca grossa e polpa doce, que identificou como mangas e papaias, após um processo cuidadoso de observação e experimentação. A cada nova descoberta, uma pequena chama de esperança se acendia em seu peito. Ele não estava morrendo. Ele estava vivendo.
Os meses se arrastaram, transformando-se em anos. O menino sensível e quieto, que desenhava dragões e jogava RPG, foi forçado a se adaptar. Seu corpo se tornou mais forte, seus músculos mais definidos, seu bronzeado mais profundo. Suas roupas, antes manchadas e rasgadas, foram substituídas por vestimentas improvisadas de folhas e fibras de árvores. Ele aprendeu a caçar, começando com pequenos peixes e caranguejos na beira do mar, e depois, com a ajuda de lanças rústicas que ele mesmo talhava, animais maiores na floresta. Ele aprendeu a fazer fogo, a purificar água, a construir abrigos mais resistentes.
A ilha era sua casa. A floresta, seu quintal. O mar, seu playground. Ele deu nomes aos animais que o rodeavam: o macaco travesso, a ave de penas coloridas, a tartaruga gigante que visitava a praia. Eles eram sua única companhia, e Will, em sua solitude forçada, desenvolveu uma ligação profunda com eles. Ele conversava com eles, contava suas histórias, seus medos e suas esperanças. Eles eram seus ouvintes silenciosos, seus confidentes.
Apesar da paz e da beleza natural que o cercavam, a saudade era uma ferida aberta em seu coração. À noite, enquanto observava as estrelas cintilarem no céu escuro, ele se lembrava de sua família. Sua mãe, Joyce, com seu amor incondicional e seus abraços apertados. Jonathan, seu irmão, com sua câmera e sua calma. E seus amigos. Mike, Dustin, Lucas. As noites de RPG, as piadas, as aventuras.
Mike. O nome de Mike trazia consigo uma onda de emoções complexas. Amizade, lealdade, e algo mais… algo que Will nunca havia conseguido nomear. Um calor que preenchia seu peito, uma sensação de que Mike o entendia de uma forma que ninguém mais entendia. Ele se lembrava do rosto de Mike, de seus olhos castanhos expressivos, de seu cabelo escuro caindo sobre a testa. A promessa de que eles seriam amigos para sempre. A promessa que ele sentia que havia quebrado.
Ele se perguntava se eles ainda se lembravam dele. Se sua mãe ainda o procurava. Se Mike ainda pensava nele. A polícia, ele sabia, deveria tê-lo declarado morto há muito tempo. Era a conclusão lógica. Mas sua mãe... Joyce nunca desistiria. Ele conhecia sua mãe.
Os desenhos, antes uma paixão, se tornaram uma forma de documentar sua vida na ilha. Nas paredes de sua caverna, ele desenhava as criaturas marinhas, as árvores exóticas, os pores do sol deslumbrantes. Mas também desenhava sua casa, seus amigos, sua mãe. Era uma forma de manter viva a memória, de não se perder completamente.
Um dia, enquanto explorava uma parte da ilha que ele raramente visitava, Will encontrou algo incomum. Uma mancha de metal enferrujado, meio enterrada na areia. Curioso, ele começou a cavar com um pedaço de madeira. Era um pedaço de uma embarcação, um casco de metal corroído pelo tempo e pela maresia. Seus olhos se arregalaram. Um naufrágio.
Isso significava que ele não estava sozinho. Ou pelo menos, que outros haviam estado ali antes. A descoberta reacendeu a chama da esperança, mas também a da incerteza. Quem eram essas pessoas? O que aconteceu com elas?
Ele passou semanas vasculhando os destroços, encontrando pequenos objetos que lhe davam pistas sobre seus antigos ocupantes. Um relógio de bolso quebrado, uma bússola sem agulha, um livro com páginas encharcadas e ilegíveis. E então, ele encontrou algo que o fez parar. Um pequeno medalhão de prata, com as iniciais gravadas: “E.H.”
Will nunca havia visto um medalhão como aquele, mas a forma, o estilo… era diferente de tudo que ele havia encontrado na ilha. Era um pedaço de civilização, um lembrete do mundo que ele havia deixado para trás. Ele o segurou na palma da mão, sentindo o peso frio do metal.
A descoberta do naufrágio mudou sua perspectiva. A ilha, antes seu refúgio, tornou-se um lembrete de que havia um mundo além de suas praias. A ideia de que poderia haver outros seres humanos, de que ele poderia não estar tão sozinho quanto pensava, era ao mesmo tempo emocionante e aterrorizante.
Ele começou a passar mais tempo na praia, observando o horizonte. A vastidão azul do oceano, antes um espelho de sua solidão, agora parecia uma promessa. Uma promessa de que talvez, apenas talvez, houvesse uma maneira de voltar.
Os anos se tornaram uma década. Will Byers, o garoto de Hawkins, era agora um jovem homem. Sua voz havia engrossado, sua barba crescia densa, seus cabelos castanhos eram mais longos e desgrenhados, clareados pelo sol. Ele era forte, resiliente, e tinha um conhecimento íntimo da ilha que poucos poderiam igualar. Ele havia dominado a arte da sobrevivência, transformando a ilha em seu próprio paraíso particular.
Mas a solidão ainda o assombrava. As noites eram as mais difíceis. Era quando as memórias vinham com mais força, como ondas que quebravam na praia. Ele se via novamente no Mundo Invertido, fugindo do Demogorgon, sentindo o ar frio e úmido. Depois, ele se via em Hawkins, jogando D&D com seus amigos, as risadas ecoando na garagem de Mike.
Uma noite, enquanto estava sentado na praia, observando a lua cheia, uma estrela cadente cruzou o céu. Will fechou os olhos e fez um pedido. O mesmo pedido que ele fazia todas as noites, desde que se lembrava: "Quero ir para casa."
Ele abriu os olhos e olhou para o mar. As ondas brilhavam sob a luz da lua, e um pensamento, uma ideia maluca, começou a se formar em sua mente. O naufrágio. Se um navio havia chegado à ilha, outros poderiam chegar. Ou, talvez, ele pudesse sair.
A ideia era ousada, quase insana. Ele nunca havia construído nada maior do que um abrigo. Mas a imagem de seus amigos, de sua mãe, era um motor poderoso. Ele começou a inspecionar os destroços do navio com um olhar diferente. Havia madeira, metal, cordas. Poderia ele construir algo? Algo que o levasse para casa?
A tarefa parecia monumental. Ele não tinha ferramentas adequadas, nem conhecimento de navegação. Mas ele tinha tempo. E tinha uma vontade inabalável. Ele começou a recolher pedaços de madeira flutuante, a amarrar galhos com fibras de coqueiro. Ele observava os pássaros, estudava as correntes marítimas.
Os animais da ilha, seus únicos companheiros, pareciam observar seu trabalho com curiosidade. O macaco travesso trazia-lhe frutas, a ave de penas coloridas cantava melodias suaves enquanto ele trabalhava. Era como se eles entendessem sua necessidade de partir, de buscar algo além da ilha.
Um dia, enquanto estava na floresta procurando por madeira, Will encontrou algo que o fez parar no meio do caminho. Era uma clareira, e no centro dela, havia uma árvore gigantesca, com um tronco tão largo que ele não conseguia abraçá-lo. E na base da árvore, havia um pequeno objeto. Um objeto familiar.
Era uma mochila. A mochila dele. A mesma mochila que ele havia levado para o Mundo Invertido, a mesma que ele havia atravessado o portal. Estava suja, desbotada, mas inconfundivelmente a sua. Ele a pegou, sentindo o peso familiar. E ao abri-la, ele encontrou um tesouro.
Lápis de cor. Seus lápis de cor. Secos, alguns quebrados, mas ainda ali. E um caderno de desenhos, com as primeiras páginas preenchidas com seus dragões e magos. Ele folheou as páginas, sentindo uma pontada de nostalgia. E então, ele viu algo que o fez sorrir pela primeira vez em muito tempo.
Um desenho. Um desenho que ele havia feito para Mike, pouco antes de desaparecer. Era um desenho de um mago, com uma espada flamejante e um escudo. E abaixo, a inscrição: "Para o melhor Mestre de RPG do mundo."
As lágrimas escorreram pelo rosto de Will. Eram lágrimas de tristeza, de saudade, mas também de uma nova esperança. A mochila, os lápis, o desenho... eram um lembrete tangível de quem ele era, de onde ele veio. E do que o esperava.
Ele se sentou na clareira, com a mochila no colo, e começou a desenhar. Não dragões, nem monstros. Ele desenhou um barco. Um barco simples, mas forte, com uma vela feita de folhas. Ele desenhou a si mesmo, remando, com o sol se pondo no horizonte. E na proa do barco, ele desenhou quatro figuras pequenas: Mike, Dustin, Lucas e sua mãe.
O desenho era uma promessa. Uma promessa de que ele não desistiria. Uma promessa de que ele voltaria para casa.
Aquele dia marcou um ponto de virada para Will. A solidão, antes um fardo, agora era um catalisador. A ilha, antes seu refúgio, agora era seu ponto de partida. Ele tinha um objetivo, uma missão. Ele iria construir um barco, e iria navegar para casa.
Ele sabia que seria uma jornada perigosa, cheia de incertezas. Mas ele havia sobrevivido ao Mundo Invertido. Ele havia sobrevivido à ilha. Ele era Will Byers, o garoto que havia fugido do Demogorgon, o garoto que havia aprendido a sobreviver em um mundo selvagem. E ele tinha uma razão para lutar.
A cada dia, o barco ia tomando forma. Ele usava as ferramentas rudimentares que havia criado, suas mãos calejadas e sua mente afiada. Ele se lembrava de cada detalhe do desenho que havia feito, cada linha, cada contorno. O barco não era apenas um meio de transporte; era uma extensão de sua vontade, de sua esperança.
Quando o barco estava quase pronto, Will se despediu de seus amigos animais. Ele acariciou o macaco travesso, alimentou a ave de penas coloridas, e observou a tartaruga gigante nadar para longe. Era um adeus doloroso, mas necessário. Eles haviam sido sua família, sua companhia, em sua longa e solitária jornada.
No dia da partida, o sol estava alto no céu, e o mar estava calmo. Will empurrou o barco para a água, sentindo a brisa suave em seu rosto. Ele subiu a bordo, sentindo o balanço suave da embarcação. Ele olhou para a ilha, para as árvores que o haviam abrigado, para as praias que o haviam alimentado. Era um lugar de beleza e de dor, de aprendizado e de solidão.
Ele desfraldou a vela improvisada, e o vento a encheu, impulsionando o barco para longe da costa. Will olhou para o horizonte, onde o azul do mar se encontrava com o azul do céu. Ele não sabia o que o esperava. Mas ele sabia o que ele deixava para trás. E ele sabia o que ele estava buscando.
Com a mochila ao seu lado, os lápis de cor e o desenho de seus amigos dentro dela, Will Byers, o náufrago, o sobrevivente, navegou para o desconhecido, impulsionado pela esperança de encontrar seu caminho de volta para casa, para as pessoas que ele amava. A canção do mar, antes um lamento de solidão, agora era uma melodia de promessa, um hino de retorno. E em seu coração, ele sentia a presença de Mike, Dustin e Lucas, como se eles estivessem ali, remando com ele, em sua longa jornada de volta para Hawkins.
Mas a luz não o levou para casa. Em vez de uma rua familiar, de rostos conhecidos, de um abraço apertado de sua mãe, ele emergiu em um lugar completamente desconhecido. A densa vegetação, com árvores de troncos grossos e folhas largas que filtravam a luz do sol em manchas dançantes, era exuberante e selvagem. O ar, antes pesado e metálico no Mundo Invertido, agora era fresco e salgado, carregando o cheiro de maresia. E o som... o som do mar. Um rugido constante, hipnotizante, que se misturava ao canto de pássaros que ele nunca havia ouvido antes.
Will caiu de joelhos na areia úmida, a mochila ainda apertada contra o peito. A adrenalina que o impulsionou se dissipou, deixando-o exausto e confuso. Onde ele estava? Não era Hawkins. Não era o Mundo Invertido, felizmente. Mas também não era casa.
Os primeiros dias foram um borrão de desespero e instinto de sobrevivência. Ele encontrou uma pequena caverna na base de um penhasco, que oferecia abrigo das chuvas tropicais que caíam em torrentes. A fome era uma companheira constante. Seus últimos salgadinhos de Dustin haviam sido um pálido consolo, e agora, sua boca estava seca, seu estômago roncava em protesto. Ele começou a procurar por comida, com a cautela de um animal acuado.
Lembrou-se das lições de sobrevivência dos seus livros de aventura, das histórias de exploradores. Frutas. Precisava de frutas. Ele encontrou coqueiros, mas subir era um desafio. Depois de várias tentativas frustradas e alguns arranhões, ele aprendeu a derrubar os cocos com pedras. A água do coco era uma benção. Ele encontrou árvores com frutas de casca grossa e polpa doce, que identificou como mangas e papaias, após um processo cuidadoso de observação e experimentação. A cada nova descoberta, uma pequena chama de esperança se acendia em seu peito. Ele não estava morrendo. Ele estava vivendo.
Os meses se arrastaram, transformando-se em anos. O menino sensível e quieto, que desenhava dragões e jogava RPG, foi forçado a se adaptar. Seu corpo se tornou mais forte, seus músculos mais definidos, seu bronzeado mais profundo. Suas roupas, antes manchadas e rasgadas, foram substituídas por vestimentas improvisadas de folhas e fibras de árvores. Ele aprendeu a caçar, começando com pequenos peixes e caranguejos na beira do mar, e depois, com a ajuda de lanças rústicas que ele mesmo talhava, animais maiores na floresta. Ele aprendeu a fazer fogo, a purificar água, a construir abrigos mais resistentes.
A ilha era sua casa. A floresta, seu quintal. O mar, seu playground. Ele deu nomes aos animais que o rodeavam: o macaco travesso, a ave de penas coloridas, a tartaruga gigante que visitava a praia. Eles eram sua única companhia, e Will, em sua solitude forçada, desenvolveu uma ligação profunda com eles. Ele conversava com eles, contava suas histórias, seus medos e suas esperanças. Eles eram seus ouvintes silenciosos, seus confidentes.
Apesar da paz e da beleza natural que o cercavam, a saudade era uma ferida aberta em seu coração. À noite, enquanto observava as estrelas cintilarem no céu escuro, ele se lembrava de sua família. Sua mãe, Joyce, com seu amor incondicional e seus abraços apertados. Jonathan, seu irmão, com sua câmera e sua calma. E seus amigos. Mike, Dustin, Lucas. As noites de RPG, as piadas, as aventuras.
Mike. O nome de Mike trazia consigo uma onda de emoções complexas. Amizade, lealdade, e algo mais… algo que Will nunca havia conseguido nomear. Um calor que preenchia seu peito, uma sensação de que Mike o entendia de uma forma que ninguém mais entendia. Ele se lembrava do rosto de Mike, de seus olhos castanhos expressivos, de seu cabelo escuro caindo sobre a testa. A promessa de que eles seriam amigos para sempre. A promessa que ele sentia que havia quebrado.
Ele se perguntava se eles ainda se lembravam dele. Se sua mãe ainda o procurava. Se Mike ainda pensava nele. A polícia, ele sabia, deveria tê-lo declarado morto há muito tempo. Era a conclusão lógica. Mas sua mãe... Joyce nunca desistiria. Ele conhecia sua mãe.
Os desenhos, antes uma paixão, se tornaram uma forma de documentar sua vida na ilha. Nas paredes de sua caverna, ele desenhava as criaturas marinhas, as árvores exóticas, os pores do sol deslumbrantes. Mas também desenhava sua casa, seus amigos, sua mãe. Era uma forma de manter viva a memória, de não se perder completamente.
Um dia, enquanto explorava uma parte da ilha que ele raramente visitava, Will encontrou algo incomum. Uma mancha de metal enferrujado, meio enterrada na areia. Curioso, ele começou a cavar com um pedaço de madeira. Era um pedaço de uma embarcação, um casco de metal corroído pelo tempo e pela maresia. Seus olhos se arregalaram. Um naufrágio.
Isso significava que ele não estava sozinho. Ou pelo menos, que outros haviam estado ali antes. A descoberta reacendeu a chama da esperança, mas também a da incerteza. Quem eram essas pessoas? O que aconteceu com elas?
Ele passou semanas vasculhando os destroços, encontrando pequenos objetos que lhe davam pistas sobre seus antigos ocupantes. Um relógio de bolso quebrado, uma bússola sem agulha, um livro com páginas encharcadas e ilegíveis. E então, ele encontrou algo que o fez parar. Um pequeno medalhão de prata, com as iniciais gravadas: “E.H.”
Will nunca havia visto um medalhão como aquele, mas a forma, o estilo… era diferente de tudo que ele havia encontrado na ilha. Era um pedaço de civilização, um lembrete do mundo que ele havia deixado para trás. Ele o segurou na palma da mão, sentindo o peso frio do metal.
A descoberta do naufrágio mudou sua perspectiva. A ilha, antes seu refúgio, tornou-se um lembrete de que havia um mundo além de suas praias. A ideia de que poderia haver outros seres humanos, de que ele poderia não estar tão sozinho quanto pensava, era ao mesmo tempo emocionante e aterrorizante.
Ele começou a passar mais tempo na praia, observando o horizonte. A vastidão azul do oceano, antes um espelho de sua solidão, agora parecia uma promessa. Uma promessa de que talvez, apenas talvez, houvesse uma maneira de voltar.
Os anos se tornaram uma década. Will Byers, o garoto de Hawkins, era agora um jovem homem. Sua voz havia engrossado, sua barba crescia densa, seus cabelos castanhos eram mais longos e desgrenhados, clareados pelo sol. Ele era forte, resiliente, e tinha um conhecimento íntimo da ilha que poucos poderiam igualar. Ele havia dominado a arte da sobrevivência, transformando a ilha em seu próprio paraíso particular.
Mas a solidão ainda o assombrava. As noites eram as mais difíceis. Era quando as memórias vinham com mais força, como ondas que quebravam na praia. Ele se via novamente no Mundo Invertido, fugindo do Demogorgon, sentindo o ar frio e úmido. Depois, ele se via em Hawkins, jogando D&D com seus amigos, as risadas ecoando na garagem de Mike.
Uma noite, enquanto estava sentado na praia, observando a lua cheia, uma estrela cadente cruzou o céu. Will fechou os olhos e fez um pedido. O mesmo pedido que ele fazia todas as noites, desde que se lembrava: "Quero ir para casa."
Ele abriu os olhos e olhou para o mar. As ondas brilhavam sob a luz da lua, e um pensamento, uma ideia maluca, começou a se formar em sua mente. O naufrágio. Se um navio havia chegado à ilha, outros poderiam chegar. Ou, talvez, ele pudesse sair.
A ideia era ousada, quase insana. Ele nunca havia construído nada maior do que um abrigo. Mas a imagem de seus amigos, de sua mãe, era um motor poderoso. Ele começou a inspecionar os destroços do navio com um olhar diferente. Havia madeira, metal, cordas. Poderia ele construir algo? Algo que o levasse para casa?
A tarefa parecia monumental. Ele não tinha ferramentas adequadas, nem conhecimento de navegação. Mas ele tinha tempo. E tinha uma vontade inabalável. Ele começou a recolher pedaços de madeira flutuante, a amarrar galhos com fibras de coqueiro. Ele observava os pássaros, estudava as correntes marítimas.
Os animais da ilha, seus únicos companheiros, pareciam observar seu trabalho com curiosidade. O macaco travesso trazia-lhe frutas, a ave de penas coloridas cantava melodias suaves enquanto ele trabalhava. Era como se eles entendessem sua necessidade de partir, de buscar algo além da ilha.
Um dia, enquanto estava na floresta procurando por madeira, Will encontrou algo que o fez parar no meio do caminho. Era uma clareira, e no centro dela, havia uma árvore gigantesca, com um tronco tão largo que ele não conseguia abraçá-lo. E na base da árvore, havia um pequeno objeto. Um objeto familiar.
Era uma mochila. A mochila dele. A mesma mochila que ele havia levado para o Mundo Invertido, a mesma que ele havia atravessado o portal. Estava suja, desbotada, mas inconfundivelmente a sua. Ele a pegou, sentindo o peso familiar. E ao abri-la, ele encontrou um tesouro.
Lápis de cor. Seus lápis de cor. Secos, alguns quebrados, mas ainda ali. E um caderno de desenhos, com as primeiras páginas preenchidas com seus dragões e magos. Ele folheou as páginas, sentindo uma pontada de nostalgia. E então, ele viu algo que o fez sorrir pela primeira vez em muito tempo.
Um desenho. Um desenho que ele havia feito para Mike, pouco antes de desaparecer. Era um desenho de um mago, com uma espada flamejante e um escudo. E abaixo, a inscrição: "Para o melhor Mestre de RPG do mundo."
As lágrimas escorreram pelo rosto de Will. Eram lágrimas de tristeza, de saudade, mas também de uma nova esperança. A mochila, os lápis, o desenho... eram um lembrete tangível de quem ele era, de onde ele veio. E do que o esperava.
Ele se sentou na clareira, com a mochila no colo, e começou a desenhar. Não dragões, nem monstros. Ele desenhou um barco. Um barco simples, mas forte, com uma vela feita de folhas. Ele desenhou a si mesmo, remando, com o sol se pondo no horizonte. E na proa do barco, ele desenhou quatro figuras pequenas: Mike, Dustin, Lucas e sua mãe.
O desenho era uma promessa. Uma promessa de que ele não desistiria. Uma promessa de que ele voltaria para casa.
Aquele dia marcou um ponto de virada para Will. A solidão, antes um fardo, agora era um catalisador. A ilha, antes seu refúgio, agora era seu ponto de partida. Ele tinha um objetivo, uma missão. Ele iria construir um barco, e iria navegar para casa.
Ele sabia que seria uma jornada perigosa, cheia de incertezas. Mas ele havia sobrevivido ao Mundo Invertido. Ele havia sobrevivido à ilha. Ele era Will Byers, o garoto que havia fugido do Demogorgon, o garoto que havia aprendido a sobreviver em um mundo selvagem. E ele tinha uma razão para lutar.
A cada dia, o barco ia tomando forma. Ele usava as ferramentas rudimentares que havia criado, suas mãos calejadas e sua mente afiada. Ele se lembrava de cada detalhe do desenho que havia feito, cada linha, cada contorno. O barco não era apenas um meio de transporte; era uma extensão de sua vontade, de sua esperança.
Quando o barco estava quase pronto, Will se despediu de seus amigos animais. Ele acariciou o macaco travesso, alimentou a ave de penas coloridas, e observou a tartaruga gigante nadar para longe. Era um adeus doloroso, mas necessário. Eles haviam sido sua família, sua companhia, em sua longa e solitária jornada.
No dia da partida, o sol estava alto no céu, e o mar estava calmo. Will empurrou o barco para a água, sentindo a brisa suave em seu rosto. Ele subiu a bordo, sentindo o balanço suave da embarcação. Ele olhou para a ilha, para as árvores que o haviam abrigado, para as praias que o haviam alimentado. Era um lugar de beleza e de dor, de aprendizado e de solidão.
Ele desfraldou a vela improvisada, e o vento a encheu, impulsionando o barco para longe da costa. Will olhou para o horizonte, onde o azul do mar se encontrava com o azul do céu. Ele não sabia o que o esperava. Mas ele sabia o que ele deixava para trás. E ele sabia o que ele estava buscando.
Com a mochila ao seu lado, os lápis de cor e o desenho de seus amigos dentro dela, Will Byers, o náufrago, o sobrevivente, navegou para o desconhecido, impulsionado pela esperança de encontrar seu caminho de volta para casa, para as pessoas que ele amava. A canção do mar, antes um lamento de solidão, agora era uma melodia de promessa, um hino de retorno. E em seu coração, ele sentia a presença de Mike, Dustin e Lucas, como se eles estivessem ali, remando com ele, em sua longa jornada de volta para Hawkins.
