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Unlucky
Fandom: One piece
Created: 3/16/2026
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RomanceSlice of LifeHurt/ComfortFluffCanon SettingAdventureCharacter StudySteampunkDramaFix-itCurtainfic / Domestic Story
O Fragmento de Âmbar e o Peso do Arrependimento
O convés do Going Merry costumava ser o palco de risadas, brigas infantis e o som constante das ondas batendo contra o casco. Mas, no canto sombreado próximo ao mastro principal, o silêncio era a regra há exatos dois meses. Usopp, com seus longos cabelos pretos cacheados presos em um coque alto e o icônico nariz comprido que, nela, parecia apenas uma característica exótica e charmosa, estava debruçada sobre uma bancada improvisada. Ela não estava inventando uma nova munição explosiva ou consertando o corrimão. Ela estava criando arte.
Era um sextante mecânico fundido com pedras de âmbar das ilhas do céu, um projeto que prometia não apenas medir a posição das estrelas, mas prever correntes de ar através da refração da luz. Era delicado, complexo e, acima de tudo, a sua maior conquista técnica até agora.
— Só mais um ajuste no eixo de rotação... — sussurrou Usopp para si mesma, a língua levemente para fora entre os lábios, a testa suada brilhando sob o sol da tarde. Suas mãos, embora calejadas, moviam-se com a precisão de uma cirurgiã.
A poucos metros dali, Zoro estava em seu próprio mundo. O espadachim, com o torso nu e coberto de suor, levantava um peso colossal que faria um homem comum ser esmagado instantaneamente. Ele estava na sua milésima repetição, os músculos das costas saltando a cada movimento.
— Novecentos e noventa e nove... mil... — Zoro resmungou, soltando o peso com um estrondo que fez o convés vibrar.
Normalmente, ele teria parado ali. Mas o suor escorreu por seus olhos, causando uma ardência momentânea. Ao tentar limpar o rosto com o antebraço, ele tropeçou em uma corda solta. O equilíbrio de um mestre espadachim é impecável, exceto quando o cansaço extremo encontra a distração. Zoro cambaleou, o peso de ferro deslizou de sua mão e, em um efeito dominó desastroso, ele colidiu contra a bancada de Usopp.
O som de madeira estalando e vidro triturado ecoou pelo navio como um tiro de canhão.
Usopp ficou estática. Suas mãos ainda estavam na posição de segurar a pinça, mas o objeto de seu trabalho de dois meses agora era uma massa disforme de metal retorcido e pó de âmbar sob o ombro largo de Zoro.
— Ei, cuidado por onde... — Zoro começou a dizer, levantando-se e limpando a poeira da calça, mas a frase morreu em sua garganta quando ele viu a expressão dela.
Usopp não gritou. Ela não começou a contar uma de suas mentiras heróicas sobre como um monstro marinho havia atacado a bancada. Seus olhos grandes e escuros estavam fixos nos destroços. Seus lábios tremeram levemente, e ela apenas se abaixou, pegando um pequeno fragmento de âmbar que agora estava partido ao meio.
— Usopp, eu... — Zoro tentou formular algo, sentindo um nó estranho no estômago.
Ela não olhou para ele. Usopp apenas recolheu os pedaços maiores em seu avental, levantou-se com uma dignidade silenciosa que Zoro nunca tinha visto nela, e caminhou em direção à oficina abaixo do convés.
— Usopp? — chamou Nami, que observava a cena da cadeira de sol, boquiaberta. — Você está bem? Quer que eu bata nele por você?
A atiradora parou na escotilha, mas não se virou.
— Não precisa, Nami. Foi só um erro. — A voz dela estava fria, desprovida de sua energia habitual. — Só... não falem comigo por um tempo.
A porta da oficina bateu. O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Você é um idiota completo, sabia? — Sanji apareceu na porta da cozinha, segurando um cigarro apagado, o rosto transbordando um desprezo genuíno. — Ela passou noites em claro por causa daquilo. Ela nem jantou direito na semana passada para terminar o polimento das lentes.
— Eu não fiz de propósito, cozinheiro de merda! — rosnou Zoro, embora sua voz carecesse da agressividade usual. Ele olhou para o chão, onde uma pequena gota de óleo de engrenagem brilhava. — Eu só... perdi o equilíbrio.
— Pois dê um jeito de recuperar o equilíbrio e o bom senso — disse Luffy, sentado na cabeça do Going Merry. O capitão não estava sorrindo. — Usopp estava muito feliz com aquilo. Ela disse que ia ajudar a gente a chegar em Laugh Tale mais rápido.
Zoro sentiu o peso da culpa. Ele era um homem de ação, não de palavras, e certamente não de delicadezas. Mas ver Usopp daquele jeito, tão murcha e silenciosa, era pior do que qualquer corte de espada que já tivesse recebido.
As horas passaram. O jantar foi uma celebração sombria. Usopp não apareceu. Chopper tentou levar um prato de comida para ela, mas voltou com o rosto triste, dizendo que ela agradeceu, mas que não tinha fome.
Zoro não conseguiu dormir. Ele ficou sentado no ninho de corvo, olhando para as estrelas, mas tudo o que via era a imagem de Usopp recolhendo os cacos de seu trabalho. Ele desceu as cordas silenciosamente e caminhou até a oficina. A luz por baixo da porta ainda estava acesa.
Ele hesitou. O que ele diria? "Desculpe" parecia vazio. Ele precisava consertar as coisas. Literalmente.
Zoro entrou na oficina sem bater. Usopp estava sentada em um banco alto, os cabelos cacheados caindo sobre o rosto enquanto ela tentava, com as mãos trêmulas, endireitar uma haste de metal com um pequeno alicate.
— Sai daqui, Zoro — disse ela, sem olhar para trás. — Eu não quero lutar agora.
— Eu não vim lutar — ele disse, a voz rouca. Ele se aproximou e viu que ela estava chorando silenciosamente. As lágrimas molhavam os desenhos técnicos sobre a mesa.
— Então veio rir? — Ela finalmente se virou, os olhos vermelhos e inchados, o que partiu o coração do espadachim. — Foram dois meses. Eu pesquisei, eu calculei, eu... eu queria ser útil, Zoro. Eu não tenho a força de vocês, eu não tenho frutas do diabo. Aquilo era o meu jeito de proteger o navio. E você destruiu como se não fosse nada.
— Não foi como se não fosse nada — Zoro deu um passo à frente, fechando a distância entre eles. — Eu sou um bruto, Usopp. Eu só sei destruir coisas. Mas eu sei o quanto você se esforçou. Eu via a luz da oficina acesa toda noite enquanto eu treinava.
Usopp soltou um riso amargo, limpando o rosto com a manga da camisa.
— E de que adianta agora? O âmbar era de uma ilha que já deixamos para trás. Não se encontra mais esse tipo de resina cristalizada em lugar nenhum. O projeto morreu.
Zoro olhou para as mãos dela. Elas eram pequenas e delicadas comparadas às dele, mas eram as mãos que mantinham o Going Merry flutuando. Ele tomou uma decisão.
— O que você precisa para refazer? — perguntou ele.
— O quê?
— O material. O que você precisa? Se for o âmbar, eu dou um jeito. Se for o metal, eu vou até o fundo do mar buscar.
— Zoro, estamos no meio do oceano...
— Eu não me importo — ele a interrompeu, segurando os ombros dela com firmeza. — Eu vou consertar isso. Mas você tem que parar de chorar. Eu não aguento ver você assim.
Usopp piscou, surpresa com a intensidade no olhar dele. O rosto de Zoro estava a poucos centímetros do dela, e por um momento, a tensão de raiva se transformou em algo diferente, algo mais quente que fazia seu coração acelerar.
— Eu preciso de resina de árvore milenar e pó de diamante para polir as novas lentes — ela disse em um sussurro. — E de alguém que segure as peças pesadas enquanto eu soldo, porque a estrutura ficou empenada.
— Eu sou o seu ajudante a partir de agora — declarou Zoro.
Nos dias seguintes, a rotina do navio mudou. Zoro, o homem que mal conseguia ficar parado sem treinar, tornou-se a sombra de Usopp na oficina. Ele passava horas segurando placas de metal quente com tenazes, seguindo as instruções precisas — e muitas vezes mandonas — da atiradora.
— Mais para a esquerda, Zoro! Não, a sua outra esquerda! — Usopp exclamava, batendo levemente no braço dele com uma régua. — Você é um espadachim incrível, mas como ajudante de mecânica, você é um desastre!
— Eu estou tentando! — ele resmungava, mas havia um meio sorriso em seus lábios.
A tripulação observava pela fresta da porta com curiosidade.
— Eles parecem um casal de velhos casados — sussurrou Nami, sorrindo.
— O marimo finalmente encontrou alguém que o coloca nos eixos — Sanji comentou, servindo café para a navegadora. — Embora me doa admitir que ele está sendo útil para a senhorita Usopp.
Certa noite, enquanto o navio navegava por águas calmas sob o luar, Usopp e Zoro estavam terminando a base do novo sextante. O calor da oficina era abafado, e ambos estavam cobertos de graxa e fuligem. Usopp estava concentrada, ajustando a lente central que Zoro havia passado a tarde inteira polindo sob sua supervisão rigorosa.
— Pronto — ela disse, a voz cheia de admiração. — Está... está melhor do que o original. As lentes que você poliu... o brilho é mais puro.
Zoro limpou as mãos em um pano velho.
— É o mínimo que eu podia fazer.
Usopp olhou para ele. A luz das lamparinas refletia nos cachos pretos dela, e Zoro percebeu, talvez pela primeira vez, como ela era bonita quando estava orgulhosa de si mesma. Sem pensar muito, ele estendeu a mão e limpou uma mancha de graxa da bochecha dela com o polegar.
O toque foi lento, quase uma carícia. Usopp congelou, sua respiração falhando.
— Zoro? — ela chamou, sua voz pouco mais que um sopro.
— Me desculpa, Usopp — ele disse, mas desta vez não era sobre o projeto quebrado. Era algo mais profundo. — Por ser tão cabeça dura. Por não notar as coisas.
Usopp sorriu, um sorriso genuíno que iluminou todo o rosto dela. Ela se inclinou para frente e, para a surpresa absoluta de Zoro, depositou um beijo rápido e suave no canto dos lábios dele.
— O projeto está perdoado — ela disse, as bochechas corando furiosamente. — Mas você ainda vai ter que me ajudar a montar a parte elétrica amanhã.
Zoro ficou parado por um momento, processando o toque suave. Ele deu um sorriso de lado, aquele sorriso desafiador que ele usava antes de uma luta importante.
— Amanhã, às seis da manhã. Não se atrase, capitã.
Usopp riu, jogando uma ferramenta leve nele.
— Eu sou a atiradora, seu idiota! E saia daqui antes que eu mude de ideia e faça você polir as balas de canhão também!
Zoro saiu da oficina com passos leves, algo raro para ele. O peso em seu peito havia sumido, substituído por uma expectativa nova. No dia seguinte, o sextante estaria pronto, mas ele tinha a sensação de que aquele era apenas o começo de um projeto muito mais longo e interessante entre o espadachim e a atiradora de cabelos cacheados.
Lá fora, o mar continuava seu rastro infinito, mas dentro do Going Merry, o silêncio havia sido substituído por algo muito mais harmonioso: a promessa de que, mesmo quando algo se quebra, as mãos certas podem reconstruir algo ainda mais forte.
Era um sextante mecânico fundido com pedras de âmbar das ilhas do céu, um projeto que prometia não apenas medir a posição das estrelas, mas prever correntes de ar através da refração da luz. Era delicado, complexo e, acima de tudo, a sua maior conquista técnica até agora.
— Só mais um ajuste no eixo de rotação... — sussurrou Usopp para si mesma, a língua levemente para fora entre os lábios, a testa suada brilhando sob o sol da tarde. Suas mãos, embora calejadas, moviam-se com a precisão de uma cirurgiã.
A poucos metros dali, Zoro estava em seu próprio mundo. O espadachim, com o torso nu e coberto de suor, levantava um peso colossal que faria um homem comum ser esmagado instantaneamente. Ele estava na sua milésima repetição, os músculos das costas saltando a cada movimento.
— Novecentos e noventa e nove... mil... — Zoro resmungou, soltando o peso com um estrondo que fez o convés vibrar.
Normalmente, ele teria parado ali. Mas o suor escorreu por seus olhos, causando uma ardência momentânea. Ao tentar limpar o rosto com o antebraço, ele tropeçou em uma corda solta. O equilíbrio de um mestre espadachim é impecável, exceto quando o cansaço extremo encontra a distração. Zoro cambaleou, o peso de ferro deslizou de sua mão e, em um efeito dominó desastroso, ele colidiu contra a bancada de Usopp.
O som de madeira estalando e vidro triturado ecoou pelo navio como um tiro de canhão.
Usopp ficou estática. Suas mãos ainda estavam na posição de segurar a pinça, mas o objeto de seu trabalho de dois meses agora era uma massa disforme de metal retorcido e pó de âmbar sob o ombro largo de Zoro.
— Ei, cuidado por onde... — Zoro começou a dizer, levantando-se e limpando a poeira da calça, mas a frase morreu em sua garganta quando ele viu a expressão dela.
Usopp não gritou. Ela não começou a contar uma de suas mentiras heróicas sobre como um monstro marinho havia atacado a bancada. Seus olhos grandes e escuros estavam fixos nos destroços. Seus lábios tremeram levemente, e ela apenas se abaixou, pegando um pequeno fragmento de âmbar que agora estava partido ao meio.
— Usopp, eu... — Zoro tentou formular algo, sentindo um nó estranho no estômago.
Ela não olhou para ele. Usopp apenas recolheu os pedaços maiores em seu avental, levantou-se com uma dignidade silenciosa que Zoro nunca tinha visto nela, e caminhou em direção à oficina abaixo do convés.
— Usopp? — chamou Nami, que observava a cena da cadeira de sol, boquiaberta. — Você está bem? Quer que eu bata nele por você?
A atiradora parou na escotilha, mas não se virou.
— Não precisa, Nami. Foi só um erro. — A voz dela estava fria, desprovida de sua energia habitual. — Só... não falem comigo por um tempo.
A porta da oficina bateu. O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Você é um idiota completo, sabia? — Sanji apareceu na porta da cozinha, segurando um cigarro apagado, o rosto transbordando um desprezo genuíno. — Ela passou noites em claro por causa daquilo. Ela nem jantou direito na semana passada para terminar o polimento das lentes.
— Eu não fiz de propósito, cozinheiro de merda! — rosnou Zoro, embora sua voz carecesse da agressividade usual. Ele olhou para o chão, onde uma pequena gota de óleo de engrenagem brilhava. — Eu só... perdi o equilíbrio.
— Pois dê um jeito de recuperar o equilíbrio e o bom senso — disse Luffy, sentado na cabeça do Going Merry. O capitão não estava sorrindo. — Usopp estava muito feliz com aquilo. Ela disse que ia ajudar a gente a chegar em Laugh Tale mais rápido.
Zoro sentiu o peso da culpa. Ele era um homem de ação, não de palavras, e certamente não de delicadezas. Mas ver Usopp daquele jeito, tão murcha e silenciosa, era pior do que qualquer corte de espada que já tivesse recebido.
As horas passaram. O jantar foi uma celebração sombria. Usopp não apareceu. Chopper tentou levar um prato de comida para ela, mas voltou com o rosto triste, dizendo que ela agradeceu, mas que não tinha fome.
Zoro não conseguiu dormir. Ele ficou sentado no ninho de corvo, olhando para as estrelas, mas tudo o que via era a imagem de Usopp recolhendo os cacos de seu trabalho. Ele desceu as cordas silenciosamente e caminhou até a oficina. A luz por baixo da porta ainda estava acesa.
Ele hesitou. O que ele diria? "Desculpe" parecia vazio. Ele precisava consertar as coisas. Literalmente.
Zoro entrou na oficina sem bater. Usopp estava sentada em um banco alto, os cabelos cacheados caindo sobre o rosto enquanto ela tentava, com as mãos trêmulas, endireitar uma haste de metal com um pequeno alicate.
— Sai daqui, Zoro — disse ela, sem olhar para trás. — Eu não quero lutar agora.
— Eu não vim lutar — ele disse, a voz rouca. Ele se aproximou e viu que ela estava chorando silenciosamente. As lágrimas molhavam os desenhos técnicos sobre a mesa.
— Então veio rir? — Ela finalmente se virou, os olhos vermelhos e inchados, o que partiu o coração do espadachim. — Foram dois meses. Eu pesquisei, eu calculei, eu... eu queria ser útil, Zoro. Eu não tenho a força de vocês, eu não tenho frutas do diabo. Aquilo era o meu jeito de proteger o navio. E você destruiu como se não fosse nada.
— Não foi como se não fosse nada — Zoro deu um passo à frente, fechando a distância entre eles. — Eu sou um bruto, Usopp. Eu só sei destruir coisas. Mas eu sei o quanto você se esforçou. Eu via a luz da oficina acesa toda noite enquanto eu treinava.
Usopp soltou um riso amargo, limpando o rosto com a manga da camisa.
— E de que adianta agora? O âmbar era de uma ilha que já deixamos para trás. Não se encontra mais esse tipo de resina cristalizada em lugar nenhum. O projeto morreu.
Zoro olhou para as mãos dela. Elas eram pequenas e delicadas comparadas às dele, mas eram as mãos que mantinham o Going Merry flutuando. Ele tomou uma decisão.
— O que você precisa para refazer? — perguntou ele.
— O quê?
— O material. O que você precisa? Se for o âmbar, eu dou um jeito. Se for o metal, eu vou até o fundo do mar buscar.
— Zoro, estamos no meio do oceano...
— Eu não me importo — ele a interrompeu, segurando os ombros dela com firmeza. — Eu vou consertar isso. Mas você tem que parar de chorar. Eu não aguento ver você assim.
Usopp piscou, surpresa com a intensidade no olhar dele. O rosto de Zoro estava a poucos centímetros do dela, e por um momento, a tensão de raiva se transformou em algo diferente, algo mais quente que fazia seu coração acelerar.
— Eu preciso de resina de árvore milenar e pó de diamante para polir as novas lentes — ela disse em um sussurro. — E de alguém que segure as peças pesadas enquanto eu soldo, porque a estrutura ficou empenada.
— Eu sou o seu ajudante a partir de agora — declarou Zoro.
Nos dias seguintes, a rotina do navio mudou. Zoro, o homem que mal conseguia ficar parado sem treinar, tornou-se a sombra de Usopp na oficina. Ele passava horas segurando placas de metal quente com tenazes, seguindo as instruções precisas — e muitas vezes mandonas — da atiradora.
— Mais para a esquerda, Zoro! Não, a sua outra esquerda! — Usopp exclamava, batendo levemente no braço dele com uma régua. — Você é um espadachim incrível, mas como ajudante de mecânica, você é um desastre!
— Eu estou tentando! — ele resmungava, mas havia um meio sorriso em seus lábios.
A tripulação observava pela fresta da porta com curiosidade.
— Eles parecem um casal de velhos casados — sussurrou Nami, sorrindo.
— O marimo finalmente encontrou alguém que o coloca nos eixos — Sanji comentou, servindo café para a navegadora. — Embora me doa admitir que ele está sendo útil para a senhorita Usopp.
Certa noite, enquanto o navio navegava por águas calmas sob o luar, Usopp e Zoro estavam terminando a base do novo sextante. O calor da oficina era abafado, e ambos estavam cobertos de graxa e fuligem. Usopp estava concentrada, ajustando a lente central que Zoro havia passado a tarde inteira polindo sob sua supervisão rigorosa.
— Pronto — ela disse, a voz cheia de admiração. — Está... está melhor do que o original. As lentes que você poliu... o brilho é mais puro.
Zoro limpou as mãos em um pano velho.
— É o mínimo que eu podia fazer.
Usopp olhou para ele. A luz das lamparinas refletia nos cachos pretos dela, e Zoro percebeu, talvez pela primeira vez, como ela era bonita quando estava orgulhosa de si mesma. Sem pensar muito, ele estendeu a mão e limpou uma mancha de graxa da bochecha dela com o polegar.
O toque foi lento, quase uma carícia. Usopp congelou, sua respiração falhando.
— Zoro? — ela chamou, sua voz pouco mais que um sopro.
— Me desculpa, Usopp — ele disse, mas desta vez não era sobre o projeto quebrado. Era algo mais profundo. — Por ser tão cabeça dura. Por não notar as coisas.
Usopp sorriu, um sorriso genuíno que iluminou todo o rosto dela. Ela se inclinou para frente e, para a surpresa absoluta de Zoro, depositou um beijo rápido e suave no canto dos lábios dele.
— O projeto está perdoado — ela disse, as bochechas corando furiosamente. — Mas você ainda vai ter que me ajudar a montar a parte elétrica amanhã.
Zoro ficou parado por um momento, processando o toque suave. Ele deu um sorriso de lado, aquele sorriso desafiador que ele usava antes de uma luta importante.
— Amanhã, às seis da manhã. Não se atrase, capitã.
Usopp riu, jogando uma ferramenta leve nele.
— Eu sou a atiradora, seu idiota! E saia daqui antes que eu mude de ideia e faça você polir as balas de canhão também!
Zoro saiu da oficina com passos leves, algo raro para ele. O peso em seu peito havia sumido, substituído por uma expectativa nova. No dia seguinte, o sextante estaria pronto, mas ele tinha a sensação de que aquele era apenas o começo de um projeto muito mais longo e interessante entre o espadachim e a atiradora de cabelos cacheados.
Lá fora, o mar continuava seu rastro infinito, mas dentro do Going Merry, o silêncio havia sido substituído por algo muito mais harmonioso: a promessa de que, mesmo quando algo se quebra, as mãos certas podem reconstruir algo ainda mais forte.
