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Nas sombras de castamar

Fandom: A cozinheira de Castamar

Created: 4/6/2026

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RomanceDramaHistoricalCharacter StudyRomance NovelCanon Setting
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O Retorno da Cotovia e o Lobo de Castamar

O sol de Castamar parecia brilhar com uma intensidade renovada naquela tarde de outono. Diego de Castamar, o Duque, caminhava apressadamente pelos jardins, seus olhos fixos na carruagem que cruzava o portão principal. Ao seu lado, Enrique de Arcona mantinha uma postura relaxada, quase entediada, brincando com o punho de sua bengala. No entanto, a curiosidade de Enrique era um fogo silencioso; ele ouvira muito sobre a irmã mais nova de Diego, Clara, que passara o último ano em uma jornada cultural e espiritual pela Itália e França.

Quando a porta da carruagem se abriu, não foi uma donzela frágil que emergiu, mas uma mulher que exalava uma autoconfiança serena. Clara de Castamar vestia um traje de viagem em tons de azul profundo, os cabelos presos em um penteado prático, mas elegante. O sorriso que ela direcionou ao irmão foi capaz de desarmar qualquer protocolo.

— Diego! — exclamou ela, correndo para os braços do irmão antes mesmo que o lacaio terminasse de baixar o estribo.

O Duque a envolveu em um abraço apertado, rindo como raramente fazia.

— Você demorou uma eternidade, pequena — murmurou Diego, beijando-lhe a testa. — Castamar estava silenciosa demais sem você.

— Eu trouxe música suficiente em meus diários para preencher dez palácios — respondeu ela, afastando-se para olhá-lo.

Foi nesse momento que seus olhos encontraram os de Enrique de Arcona. O Marquês deu um passo à frente, executando uma reverência impecável, embora seus olhos brilhassem com uma malícia que ele raramente se dava ao trabalho de esconder.

— Clara, este é Enrique de Arcona, um grande amigo da família — apresentou Diego. — Enrique, minha irmã, Clara.

— É um prazer que beira a redenção, senhorita — disse Enrique, sua voz um barítono suave que parecia vibrar no ar. — Diego falou muito de sua inteligência, mas esqueceu-se de mencionar que ela competia com sua beleza.

Clara não corou. Ela não desviou o olhar nem deu o risinho nervoso que Enrique estava acostumado a receber das damas da corte. Em vez disso, ela o avaliou de cima a baixo, com uma calma quase desconcertante.

— O senhor deve ser o famoso Marquês que Diego mencionou em suas cartas — disse ela, estendendo a mão. — Ele disse que o senhor era um perigo para as adegas e para as reputações. Vejo que ele foi generoso com as adegas.

Enrique riu, genuinamente surpreso. Ele beijou a mão dela, sentindo a pele macia e o perfume de lavanda e papel velho.

— E vejo que a senhorita não herdou a diplomacia excessiva de seu irmão. Isso será interessante.

Nas semanas que se seguiram, Enrique tornou-se uma sombra elegante nos arredores de Clara. Onde ela estava — fosse na biblioteca, nos jardins ou observando o trabalho na cozinha — ele aparecia. Ele a cercava com um cavalheirismo que beirava a insolência. Ele esperava que ela se encantasse, que se tornasse "emocionada" como tantas outras, buscando sua validação.

Mas Clara era diferente. Ela o tratava com uma amizade franca, discutindo filosofia, política e música como se ele fosse apenas mais um de seus conhecidos de Florença. Ela não buscava seus elogios e, muitas vezes, o deixava falando sozinho para ir conferir o estado das roseiras ou para ajudar a cozinheira, sua xará, com alguma receita nova.

— O senhor está me seguindo novamente, Marquês? — perguntou Clara certa tarde, sem tirar os olhos do livro que lia sob a sombra de um carvalho.

— Castamar é um lugar pequeno demais para dois espíritos tão vastos, senhorita — respondeu Enrique, sentando-se na grama ao lado dela, ignorando a proteção de suas vestes finas. — Estive pensando sobre nossa conversa de ontem. Sobre o livre-arbítrio.

— E chegou à conclusão de que o seu livre-arbítrio o obriga a me interromper a cada meia hora? — Ela fechou o livro, um pequeno sorriso brincando nos lábios.

— Exatamente. É uma força da natureza.

Enrique sentia-se cada vez mais atraído por aquela indiferença educada. Não era um jogo de sedução da parte dela; era uma autonomia real. Ela não precisava dele, e isso o deixava louco. Ele começou a admirá-la não apenas pelo rosto, mas pela mente afiada que não se dobrava aos seus encantos habituais.

A tensão entre eles atingiu o ápice em uma noite de tempestade. O trovão ecoava pelas paredes de pedra de Castamar, e a eletricidade no ar parecia ter se infiltrado no palácio. Clara estava no salão de música, dedilhando algumas notas no cravo, quando Enrique entrou. Ele não estava com seu sorriso de escárnio habitual; seus olhos estavam escuros, focados.

— Diego foi se recolher — disse ele, aproximando-se do instrumento.

— E o senhor deveria fazer o mesmo, Enrique — respondeu ela, usando seu primeiro nome pela primeira vez. — O vinho parece ter sido seu companheiro fiel esta noite.

— O vinho não me dá as respostas que procuro — ele parou ao lado dela, sua mão cobrindo os dedos dela sobre as teclas, silenciando a música. — Por que você me trata como se eu fosse um móvel desta casa? Um adorno sem importância?

Clara levantou-se, ficando a poucos centímetros dele. O calor que emanava de seus corpos era inegável.

— Porque eu sei o que o senhor faz, Enrique. O senhor coleciona corações como se fossem selos. Eu não sou uma peça para sua coleção.

— Você nunca seria uma peça — sussurrou ele, a voz rouca. — Você é o tabuleiro inteiro.

Ele a puxou para si com uma urgência que não aceitava recusas. O beijo foi uma colisão de vontades. Clara, que sempre se mantivera tão controlada, sentiu uma onda de desejo que a pegou de surpresa. Ela não era uma mulher de impulsos românticos, mas era uma mulher de paixões sensoriais. Enrique tinha gosto de xerez e perigo.

Suas mãos subiram pelo pescoço dele, puxando-o para mais perto, enquanto Enrique a pressionava contra o cravo, o som das teclas sendo pressionadas aleatoriamente criando uma trilha sonora caótica para o momento.

— Clara... — ele murmurou contra a pele do pescoço dela, as mãos descendo pelas curvas de seu vestido, desfazendo os laços com uma agilidade pecaminosa.

— Não fale — ordenou ela, a respiração ofegante. — Se você falar, vai tentar me convencer de que isso significa algo que não significa.

Ele a pegou no colo, levando-a para o divã de veludo no canto sombreado da sala. Ali, entre as sombras e os lampejos dos relâmpagos, a máscara de cinismo de Enrique caiu completamente. Ele a tocou com uma reverência que nunca sentira por outra mulher. Cada centímetro da pele de Clara era um território que ele queria descobrir, não para possuir, mas para pertencer.

O ato foi intenso, uma dança de pele contra pele onde o poder oscilava entre os dois. Clara era ativa, exigente, respondendo aos toques dele com uma intensidade que o deixava sem fôlego. Ela não chorou, não declarou amor eterno; ela simplesmente viveu o momento com uma entrega que era, paradoxalmente, sua forma de manter o controle.

Quando o silêncio finalmente retornou, quebrado apenas pela chuva lá fora, Enrique a envolveu em seus braços, o coração ainda batendo forte.

— Você é uma mulher extraordinária — disse ele, beijando-lhe o ombro. — Eu temo que amanhã eu acorde e você me trate como se nada tivesse acontecido.

Clara ajeitou o cabelo, começando a se vestir com uma calma que o assustava.

— E o que aconteceu, Enrique? — perguntou ela, virando-se para ele com um olhar sereno. — Tivemos uma noite de prazer. Foi maravilhoso. Mas o sol vai nascer, e eu ainda tenho meus livros, e você ainda tem sua reputação a manter.

Enrique sentiu uma pontada no peito. Pela primeira vez em sua vida, ele queria ser o "emocionado".

— Não é apenas prazer para mim. Eu... eu gosto de você, Clara. De verdade.

Ela caminhou até ele e tocou-lhe o rosto com carinho, mas sem a urgência que ele esperava.

— Eu também gosto de você, Enrique. Você é divertido e muito mais inteligente do que deixa transparecer. Mas não espere que eu suspire pelos cantos ou que peça ao meu irmão sua mão em casamento. Eu acabei de voltar para o mundo. Quero vê-lo com meus próprios olhos, não através dos olhos de um marido.

Enrique observou-a sair da sala com a cabeça erguida. Ele ficou ali, sentado no divã, sentindo-se como um caçador que, ao tentar capturar uma ave rara, acabou se tornando o prisioneiro de sua canção.

Nos dias seguintes, Enrique não desistiu. Mas sua abordagem mudou. Ele não tentava mais impressioná-la com bravatas. Ele sentava-se ao lado dela e ouvia. Ele trazia livros raros da biblioteca de Madri. Ele começou a gostar do silêncio compartilhado tanto quanto das discussões acaloradas.

Diego, observando de longe, comentou com Clara enquanto caminhavam pelo pátio.

— Parece que Arcona finalmente encontrou alguém que não se impressiona com o título dele.

— Ele é um homem interessante, Diego — respondeu Clara, observando Enrique que, à distância, tentava (sem sucesso) consertar um brinquedo de uma das crianças dos criados. — Mas ele precisa aprender que a afeição não é um cerco militar. É um convite.

— E você pretende aceitar o convite dele?

Clara sorriu, um brilho enigmático nos olhos.

— Talvez. Mas ele terá que aprender a manter o passo. Eu não pretendo diminuir o meu para ninguém.

Enrique, ao ver os irmãos, acenou. Ele não tinha mais o sorriso convencido. Tinha o olhar de um homem que estava começando a entender que o amor não era uma conquista, mas uma descoberta diária. E Clara, com sua alma viajante e seu coração independente, era o mapa mais fascinante que ele já tivera a sorte de tentar ler.

Ele sabia que ela não era "emocionada", e isso era exatamente o que o mantinha preso a ela. Em um mundo de convenções e papéis pré-determinados, Clara de Castamar era a única verdade que ele queria perseguir, mesmo que ela nunca se deixasse capturar totalmente.
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