Fanfy
.studio
Cargando...
Imagen de fondo

Quando o ciúme encontra a timidez

Fandom: Não tem

Creado: 14/4/2026

Etiquetas

RomanceDramaRecortes de VidaDolor/ConsueloFluffDiscriminaciónEstudio de PersonajeAmbientación CanonRealismoAngustia
Índice

O Reflexo no Vidro Embaçado

A biblioteca da escola estadual sempre foi o santuário particular de Luke. Era o único lugar onde o cheiro de papel antigo e o silêncio pesado conseguiram abafar o ruído constante das risadas e dos empurrões nos corredores. Luke ajeitou os óculos, que teimavam em escorregar pelo nariz, e puxou uma mecha de seu cabelo castanho que insistia em cair sobre os olhos, bloqueando a visão das fórmulas de física em seu caderno.

Ele era o tipo de garoto que passava despercebido, uma sombra que se movia rente às paredes. Para Luke, a invisibilidade não era um fardo, mas uma armadura. Se ninguém o via, ninguém podia machucá-lo ou rir do seu jeito retraído. Ele estava perfeitamente confortável em seu isolamento, cercado por livros que não faziam perguntas difíceis.

Até aquele momento.

A porta da biblioteca rangeu, um som que raramente acontecia naquela hora da tarde. Luke não levantou a cabeça, esperando que quem quer que fosse passasse direto por sua mesa isolada nos fundos. Mas os passos pararam exatamente à sua frente.

— Com licença, este lugar está ocupado? — A voz era profunda, carregada de uma confiança que Luke nunca possuiria.

Luke piscou, forçando-se a erguer o olhar. Diante dele estava Julian. Não precisava de sobrenomes. Julian era o capitão do time de natação, o garoto cujas fotos decoravam os murais da escola e cujas risadas ecoavam como música nos intervalos. Ele era o sol do ecossistema escolar, e Luke era apenas um planeta distante e gelado.

— N-não — gaguejou Luke, sentindo o rosto esquentar instantaneamente. — Quer dizer, pode sentar.

Julian abriu um sorriso que parecia genuíno, algo que Luke não esperava. O atleta puxou a cadeira de madeira, que rangeu contra o piso de linóleo, e jogou uma mochila de marca sobre a mesa.

— Valeu. A cafeteria está parecendo um zoológico hoje e eu realmente preciso terminar esse trabalho de história antes do treino.

Luke apenas assentiu, voltando rapidamente os olhos para o seu livro. Ele sentia o coração martelar contra as costelas. Por que Julian escolheria sentar logo ali? Havia dezenas de mesas vazias, algumas muito mais próximas da janela ou da saída.

O silêncio que se seguiu não era o silêncio confortável de antes. Era carregado de uma eletricidade estranha. Luke tentava se concentrar na Segunda Lei de Newton, mas sua visão periférica o traía, focando nos dedos longos de Julian folheando um livro didático ou na maneira como ele passava a mão pelo cabelo loiro, frustrado.

— Ei — chamou Julian, depois de alguns minutos de silêncio absoluto.

Luke deu um pequeno salto na cadeira, quase derrubando seu estojo.

— Sim?

— Você é o Luke, certo? Da aula de Química do professor Martins? — Julian inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

Luke ficou surpreso. Ele não achava que Julian soubesse que ele existia, muito menos o seu nome.

— Sou eu. Como você... como você sabe?

— Você é o cara que tirou a nota mais alta no último teste — Julian riu baixo, um som rouco e amigável. — O Martins não parou de falar sobre como a sua resolução do problema de estequiometria foi "elegante". Eu mal consegui passar com um seis.

Luke sentiu o embaraço crescer. Ele odiava quando os professores o destacavam na frente da classe.

— Foi sorte — murmurou Luke, tentando se esconder atrás da franja castanha.

— Duvido muito. — Julian fechou o livro de história com um baque surdo. — Na verdade, eu estava esperando te encontrar. Eu sou um desastre em História, mas sou pior ainda em Química. E, bem, tem esse exame final chegando...

Luke começou a entender onde aquilo ia dar. A história era clássica: o popular precisava da ajuda do nerd para não ser expulso do time por causa das notas. Ele já tinha visto isso em filmes, mas na vida real, era apenas intimidador.

— Você quer que eu faça seus trabalhos? — perguntou Luke, sua voz subindo um tom de puro nervosismo.

Julian franziu a testa, parecendo ofendido por um momento, antes de suavizar a expressão.

— O quê? Não! Eu quero aprender. Se você só fizer por mim, eu vou zerar a prova do mesmo jeito. Eu queria saber se você... sei lá, toparia me dar umas aulas? Eu posso pagar, ou posso te dar carona, ou qualquer coisa que você precise.

Luke ficou em silêncio, processando o pedido. Julian estava sendo... legal? Não havia sarcasmo em seu tom, nem o brilho de uma aposta cruel nos olhos. Havia apenas uma vulnerabilidade inesperada.

— Eu não preciso de dinheiro — disse Luke, finalmente, sua voz soando um pouco mais firme. — E eu moro perto da escola, então não preciso de carona.

Julian murchou visivelmente, começando a recolher suas coisas.

— Entendi. Foi mal incomodar. Eu sei que você gosta de ficar na sua.

— Espera — interrompeu Luke, antes que pudesse se impedir. — Eu não disse que não faria.

Julian parou, com a mochila pendurada em um ombro, um brilho de esperança retornando ao seu rosto.

— Sério?

— É. Eu posso te ajudar. — Luke respirou fundo, sentindo-se corajoso pela primeira vez em meses. — Mas tem que ser aqui. Na biblioteca. É o único lugar onde eu consigo pensar.

Julian abriu um sorriso largo, aquele que costumava derreter metade das garotas do segundo ano, mas que agora parecia direcionado apenas a Luke.

— Fechado! Você é um salva-vidas, Luke. De verdade.

Ele se sentou novamente, desta vez com mais entusiasmo.

— Podemos começar agora? Só por uns vinte minutos? Eu juro que sou um aluno aplicado, só sou um pouco lento com os elementos.

Luke soltou um pequeno riso, o que o surpreendeu.

— Tudo bem. Abra na página quarenta e dois. Vamos começar pela tabela periódica.

As duas horas seguintes passaram de uma forma que Luke nunca imaginou ser possível. Julian não era "lento", ele apenas via as coisas de uma forma diferente. Enquanto Luke focava na lógica matemática, Julian precisava de analogias visuais. Quando Luke explicou as ligações covalentes como uma equipe de revezamento onde os corredores precisavam segurar o bastão juntos, os olhos de Julian brilharam com a compreensão.

— Cara, por que o Martins não explica assim? — exclamou Julian, um pouco alto demais, atraindo um olhar reprovador da bibliotecária ao fundo. — Faz muito mais sentido.

— Acho que ele esquece que nem todo mundo vê números como se fossem uma linguagem — comentou Luke, guardando suas canetas. — Para ele, a fórmula é a explicação.

Julian observou Luke por um momento, um olhar pensativo cruzando seu rosto.

— E para você? O que são os números?

Luke hesitou. Ele nunca tinha compartilhado seus pensamentos internos com ninguém, especialmente com alguém como Julian.

— Para mim... — Luke começou, escolhendo as palavras com cuidado — eles são constantes. O mundo lá fora é confuso, as pessoas mudam de ideia, as coisas quebram. Mas na ciência, se você fizer a conta certa, o resultado sempre será o mesmo. É seguro.

Julian assentiu devagar, a expressão séria.

— Eu entendo isso. Para mim, a piscina é assim. Quando eu mergulho, o resto do mundo desaparece. Não tem barulho, não tem pressão de ser o capitão, não tem expectativas. É só a água e o cronômetro.

Houve um momento de conexão silenciosa entre os dois. Dois mundos opostos encontrando um ponto comum na busca por um refúgio. Luke sentiu uma estranha leveza no peito. Pela primeira vez, ele não se sentiu invisível por medo, mas sim visto de uma forma que não o assustava.

— Eu tenho que ir para o treino agora — disse Julian, levantando-se e pegando a mochila. — Mas, Luke?

— Sim?

— Obrigado. De verdade. A gente se vê amanhã no mesmo horário?

Luke ajeitou os óculos e permitiu-se um pequeno sorriso.

— Amanhã no mesmo horário.

Julian acenou e saiu da biblioteca com passos leves. Luke ficou parado por um momento, olhando para a cadeira vazia à sua frente. O silêncio da biblioteca retornou, mas não parecia mais tão pesado. Parecia, de certa forma, cheio de possibilidades.

No dia seguinte, Luke chegou à biblioteca dez minutos mais cedo, como de costume. Ele escolheu a mesma mesa nos fundos, mas desta vez, não se escondeu tanto atrás dos livros. Ele deixou um espaço livre na mesa, uma nota de boas-vindas silenciosa.

Quando Julian apareceu, ele não estava sozinho. Dois de seus amigos do time o acompanhavam, rindo alto sobre algo que aconteceu no vestiário. O coração de Luke afundou. Ele sabia. Era bom demais para ser verdade. Julian provavelmente ia zombar dele na frente dos amigos ou cancelar as aulas.

— Ei, Julian, onde você vai, cara? A gente ia pro shopping — disse um dos garotos, um tipo alto e musculoso.

Julian parou e olhou para a mesa onde Luke estava. Luke imediatamente baixou a cabeça, o cabelo castanho caindo como uma cortina protetora.

— Eu tenho compromisso — respondeu Julian, sua voz firme. — Vou estudar Química.

— Estudar? Você? — O outro amigo riu. — Com quem?

— Com o Luke — disse Julian, e Luke sentiu um arrepio ao ouvir seu nome ser pronunciado com tanto respeito. — Ele é o melhor da turma. Agora deem o fora, vocês estão fazendo barulho na biblioteca.

Os amigos de Julian trocaram olhares confusos, deram de ombros e saíram, resmungando algo sobre Julian ter "perdido o juízo".

Julian caminhou até a mesa e sentou-se, soltando um suspiro longo.

— Desculpe por isso. Eles não sabem quando calar a boca.

— Tudo bem — disse Luke, sentindo uma onda de alívio tão forte que quase o deixou tonto. — Você... você disse que eu era o melhor da turma.

— E você é — afirmou Julian, abrindo o caderno. — Não deixa ninguém te convencer do contrário, nem mesmo você.

Luke sentiu o rosto queimar, mas desta vez não era de vergonha. Era algo novo. Algo que parecia o início de uma amizade, ou talvez de algo que ele ainda não conseguia nomear.

— Certo — disse Luke, limpando a garganta e tentando manter o tom profissional, embora seus olhos brilhassem. — Hoje vamos falar sobre reações redox.

— Isso soa como algo que pode explodir — brincou Julian, piscando para ele.

— Se não tivermos cuidado, pode sim — respondeu Luke, e pela primeira vez, ele não teve medo de sustentar o olhar de Julian.

Enquanto a tarde caía e a luz dourada do sol atravessava as janelas altas da biblioteca, os dois garotos continuaram ali, debruçados sobre livros e fórmulas. O nerd isolado e o atleta popular, encontrando um equilíbrio improvável entre elétrons, prótons e a descoberta de que, às vezes, as melhores reações químicas acontecem fora dos tubos de ensaio.

Luke percebeu que a invisibilidade era segura, mas ser visto por alguém que realmente olhava para ele... isso era extraordinário. E enquanto Julian ria de uma piada boba sobre o oxigênio, Luke soube que aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história que ele não queria que terminasse tão cedo.

— Sabe, Luke — disse Julian, enquanto guardavam as coisas no final da tarde —, eu acho que este vai ser o meu semestre favorito.

— O meu também, Julian — respondeu Luke, e ele nunca tinha falado nada com tanta certeza. — O meu também.
Índice

¿Quieres crear tu propio fanfic?

Regístrate en Fanfy y crea tus propias historias.

Crear mi fanfic