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Dês de quando amor tem gênero?

Fandom: Forsaken

Creado: 17/4/2026

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RomanceDramaDolor/ConsueloHistoria DomésticaPsicológicoEstudio de PersonajeCelosLenguaje ExplícitoAngustiaUso de DrogasDismorfia Corporal
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O Aroma do Café e o Sangue na Neve

A cozinha da cabana rústica estava mergulhada em um silêncio que só era quebrado pelo som rítmico da água fervendo e o estalar da lenha na lareira da sala. O vapor subia em volutas preguiçosas, carregando o aroma terroso e inebriante do pó recém-moído. Para Tessius, aquele cheiro era mais do que um prazer culinário; era sua âncora, o fio de sanidade que impedia que as vozes em sua mente se tornassem um coro ensurdecedor e que o tremor em suas mãos se transformasse em um colapso completo.

Ele olhou para o relógio de parede. Cinquenta e cinco minutos desde a última xícara. O tempo estava acabando. Seus dedos, finos e pálidos, tamborilavam ansiosamente contra o mármore frio da pia. Tessius vestia seu pijama de flanela mais grosso, um conjunto azul-escuro que escondia as cicatrizes e as curvas que ele tanto odiava lembrar que um dia definiram sua silhueta. Ali, naquela cozinha, ele era apenas Tessius: o homem que trabalhava em três empregos, o sobrevivente de uma infância fragmentada por abusos e negligência, o marido de Lance.

As sombras nos cantos da cozinha pareciam se alongar, dançando conforme a luz da lareira oscilava. Tessius piscou repetidamente, tentando afastar a sensação de que algo — ou alguém — o observava das frestas da madeira. Era apenas a esquizofrenia pregando peças, ele sabia, mas a ansiedade generalizada sussurrava que, desta vez, poderia ser real. Ele precisava do café. Agora.

— Só mais um minuto... — murmurou para si mesmo, sua voz saindo rouca e baixa. — Só mais um minuto e tudo fica calmo.

Ele pensou em Elliot e na pizzaria, no caos das sextas-feiras à noite; pensou em Emma e no aroma familiar da cafeteria que, ironicamente, nunca era suficiente para saciar seu vício. Seus pensamentos saltaram para os irmãos, Magnus e Lunna, e para Alison, o homem que os salvou quando o mundo desmoronou sob o peso das drogas de Elias e da loucura de Mary. A lembrança de Elias colocando substâncias em seu café quando ele ainda era uma criança — o início de sua maldição e de sua dependência — fez seu estômago revirar.

De repente, o silêncio da casa foi quebrado por um rangido suave na porta dos fundos. Tessius não ouviu, totalmente concentrado em despejar a água fervente sobre o filtro. Ele estava no seu limite cronometrado. Se a cafeína não entrasse em seu sistema nos próximos cinco minutos, o choro viria, seguido pela raiva incontrolável e pelo impulso autodestrutivo de arrancar os próprios cabelos.

Ele estava de costas para a entrada, os ombros tensos, quando mãos grandes e calejadas envolveram sua cintura com uma possessividade familiar. Antes que Tessius pudesse processar a presença, sentiu um aperto firme e atrevido em seu traseiro.

O reflexo foi instantâneo. O trauma e a hipervigilância de Tessius não permitiam sutilezas. Ele girou o corpo com a agilidade de um animal encurralado, a mão direita voando em um tapa sonoro que atingiu em cheio o rosto do invasor.

— Porra! — exclamou a voz grossa e divertida, enquanto o homem recuava um passo, levando a mão à bochecha atingida.

Tessius arfava, os olhos arregalados e as pupilas dilatadas. Demorou alguns segundos para que sua visão focasse e ele reconhecesse a figura alta, de um metro e noventa, vestida com roupas de caça pesadas e manchadas de sangue fresco.

— Lance? — Tessius soltou o ar que nem sabia que estava prendendo, o tremor em suas mãos piorando agora que o susto passara. — Você quer morrer, seu idiota? Eu quase tive um infarto!

Lance soltou uma risada curta, seus olhos brilhando com aquela mistura de adoração e travessura que sempre dedicava ao marido. Ele ignorou a ardência no rosto, achando a reação de Tessius perfeitamente condizente com o homem explosivo por quem se apaixonara anos atrás, ainda nos tempos de escola particular.

— Desculpe, tesouro — disse Lance, dando um passo à frente para invadir o espaço pessoal de Tessius novamente, desta vez com mais calma. — Eu achei que você me ouviria chegar. O vento lá fora está uivando, mas eu não resisti à vontade de te surpreender.

Tessius franziu o cenho, o mau humor começando a borbulhar porque o café ainda não estava pronto.

— Você disse que ia demorar. Disse que o cervo era arisco. O que aconteceu? Desistiu porque o frio congelou suas bolas?

Lance sorriu, exibindo dentes brancos contra a pele bronzeada pelo frio. Ele se aproximou o suficiente para que Tessius sentisse o cheiro de pinheiro, neve e o odor metálico de sangue que emanava dele.

— Eu não desisto, Tess. Você sabe disso. Eu peguei ele. Está lá fora, pendurado para sangrar. Foi um tiro limpo, direto no coração. Ele é enorme, vai render carne para o inverno inteiro.

Tessius relaxou minimamente os ombros, mas seus olhos logo se voltaram para a cafeteira.

— Ótimo. Agora sai de perto de mim, você está cheirando a morte e eu preciso do meu café. Faltam dois minutos para eu começar a quebrar as coisas, Lance. Eu não estou brincando.

Lance deu um passo atrás, erguendo as mãos em sinal de rendição, mas sem perder o sorriso ousado. Ele conhecia cada faceta de Tessius: o homem trans que lutara para se encontrar, o sobrevivente que carregava o peso de diagnósticos pesados, e o viciado que precisava de cafeína para não desmoronar. Lance o amava por tudo isso, não apesar disso.

— Tudo bem, tudo bem. O ritual sagrado primeiro. Vou tirar essas botas e lavar as mãos. Mas não pense que eu esqueci aquele tapa. Você tem uma mão pesada para alguém tão baixo, sabia?

— Eu tenho um metro e setenta, Lance. Não sou baixo, você é que é uma aberração genética — retrucou Tessius, finalmente servindo o líquido escuro e fumegante em sua caneca favorita.

O primeiro gole foi como uma descarga elétrica que organizou os fios soltos em seu cérebro. Tessius fechou os olhos, sentindo o calor descer pela garganta, o amargor (que Lance também apreciava, embora Tessius preferisse o dele com um toque de açúcar às vezes para equilibrar o humor) acalmando os tremores. O mundo parou de girar. As sombras nos cantos da sala recuaram para seus devidos lugares.

Lance voltou da área de serviço minutos depois, sem o casaco pesado e com as mãos limpas, vestindo apenas uma camiseta térmica que marcava seus músculos. Ele se encostou no balcão, observando Tessius beber o café como se fosse o elixir da vida.

— Melhor? — perguntou Lance, a voz mais suave agora, perdendo o tom de brincadeira.

— Um pouco — admitiu Tessius, sem olhar para ele, os dedos apertando a cerâmica quente. — Você me assustou de verdade. Minha cabeça não está legal hoje. As vozes... elas estavam sussurrando muito antes de você chegar.

Lance encurtou a distância entre eles, desta vez sem brincadeiras. Ele envolveu Tessius em um abraço por trás, apoiando o queixo no ombro do marido. A diferença de altura era considerável, o que permitia que Tessius se sentisse protegido, quase escondido pelo corpo de Lance.

— Eu sinto muito, Tess. Eu devia ter anunciado minha chegada. É que eu estava animado... queria te ver, queria sentir seu cheiro antes de começar a limpar o animal.

Tessius inclinou a cabeça para trás, encostando-a no peito de Lance. O ciúme e a possessividade que ele sentia por Lance eram constantes, uma chama que ardia sempre que imaginava o marido longe daquela cabana, mas momentos como esse serviam para acalmá-lo.

— Você é um idiota — Tessius murmurou, mas seu tom era carinhoso. — Como está o Chance? Falou com ele recentemente?

Lance deu um beijo no pescoço de Tessius, sentindo o marido estremecer levemente.

— Falei hoje cedo, por rádio. Ele está se divertindo no cassino. Aparentemente, ele expulsou um agiota que tentou cobrar uma dívida antiga enquanto ele estava na mesa de bacará. O garoto nasceu para aquele caos. Eu fico feliz que ele tenha assumido o lugar que seria meu. Eu prefiro mil vezes estar aqui, com o cheiro de café e o seu mau humor, do que lidando com a máfia e as apostas do meu pai... ou melhor, do Victor.

Tessius virou-se nos braços de Lance, ainda segurando a caneca. Ele olhou nos olhos do marido, buscando qualquer sinal de arrependimento. Lance abandonara uma fortuna, uma herança de luxo e poder, para viver em uma cabana isolada com um homem quebrado e instável.

— Você nunca sente falta? — perguntou Tessius, a insegurança típica do borderline aflorando. — Da riqueza? De não ter que caçar sua própria comida no gelo? De não ter que lidar com alguém que surta se o café demora uma hora?

Lance segurou o rosto de Tessius com as duas mãos, os polegares acariciando as maçãs do rosto do marido.

— Tessius, olhe para mim. Eu estudei com você naquela escola particular de elite porque o Alison queria te dar o melhor, e desde o primeiro dia, eu não conseguia tirar os olhos de você. Eu te amava quando você era aquela "garotinha" assustada, e eu te amo dez vezes mais agora, como o homem corajoso que você se tornou. Eu não fugi de casa só pela caça. Eu fugi para ter uma vida que fizesse sentido. E nada faz mais sentido para mim do que você.

Tessius sentiu os olhos arderem. Ele odiava ser sensível, odiava que o passado ainda tivesse garras nele, mas Lance era o único que conseguia desarmá-lo completamente.

— Você fala demais — resmungou Tessius, escondendo o rosto no peito de Lance para que ele não visse a lágrima solitária que escapou. — E sua língua continua afiada. Tem sempre um argumento pronto para tudo.

— É um dos meus muitos talentos — brincou Lance, apertando-o mais forte. — Outro talento é saber que você está com fome. Vou preparar uns bifes de cervo. Carne fresca, do jeito que a gente gosta. O que acha?

Tessius levantou a cabeça, um pequeno sorriso surgindo nos lábios.

— Só se você me deixar fazer mais uma garrafa de café.

Lance soltou uma gargalhada que ecoou pelas vigas de madeira da cabana.

— Mais uma? Você vai acabar tendo uma parada cardíaca antes dos trinta, Tess.

— Se eu morrer, eu volto para te assombrar e puxar seu pé toda vez que você for caçar — Tessius deu um gole final em sua caneca, o humor finalmente estabilizado. — Agora vai cozinhar. Eu vou te observar daqui. E nem pense em tocar no meu café amargo, faça o seu separado.

— Sim senhor, meu capitão — Lance fez uma saudação militar sarcástica antes de se dirigir à geladeira, mas parou no meio do caminho, olhando para Tessius com um brilho travesso nos olhos. — Mas saiba que aquele tapa ainda vai ter troco. Mais tarde. Quando o café tiver feito efeito total.

Tessius sentiu o rosto esquentar, a possessividade e o desejo se misturando em seu peito. Ele observou Lance se movimentar pela cozinha com a confiança de quem possuía o mundo, mesmo vivendo no meio do nada.

A vida deles não era perfeita. Tessius ainda lutava contra seus demônios todos os dias, as sombras de Elias e Mary ainda rondavam seus pesadelos, e a dependência química e psicológica do café era uma batalha constante. Mas ali, naquela cabana, cercado pelo silêncio da floresta e pelo calor do homem que o escolhera acima de toda uma fortuna, Tessius sentia que, pela primeira vez em vinte e quatro anos, ele não precisava fugir de quem era.

Ele era Tessius. Ele era amado. E, enquanto houvesse café quente e Lance ao seu lado, as vozes poderiam gritar o quanto quisessem; elas nunca seriam mais altas do que o som do seu próprio coração batendo em paz.
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