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Oceano

Fandom: Parmiga

Creado: 17/4/2026

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Sinfonia de Batimentos e Sirenes

A semana que se seguiu ao incidente no estacionamento foi, para dizer o mínimo, atípica. O lírio branco que Patrick me dera resistiu bravamente sobre a minha mesa por cinco dias, um lembrete silencioso de que o mundo exterior ao hospital podia ser tão complexo quanto as válvulas de um coração humano. Eu me pegava olhando para a flor nos momentos de pausa, sentindo um formigamento residual nos dedos toda vez que lembrava do toque firme de sua mão na minha.

Na delegacia, as coisas também não pareciam calmas. Jack passava pelo hospital ocasionalmente para tomar café com Taissa e me atualizava sobre o "furacão Wilson". Segundo ele, Patrick estava limpando a casa. Miller fora afastado e outros dois oficiais estavam sob investigação por conduta imprópria. O novo delegado era implacável, mas justo. Um homem que não aceitava nada menos que a excelência — algo que eu, em minha própria busca pela perfeição cirúrgica, respeitava profundamente.

Na sexta-feira à tarde, Jack entrou na minha sala sem bater, carregando o habitual cheiro de café barato e entusiasmo.

— Vera, sem desculpas hoje — anunciou ele, sentando-se na beirada da minha mesa. — Vamos ao *The Blue Note* hoje à noite. Uma pequena recepção para o Wilson. O homem está trabalhando dezesseis horas por dia, ele vai acabar tendo um colapso se não beber uma cerveja.

— Jack, eu tenho plantão de sobreaviso... — comecei, mas ele me interrompeu com um gesto de mão.

— Eu já falei com o Dr. Aris. Ele disse que, se houver uma emergência real, ele mesmo assume. Você precisa sair dessa bolha de antisséptico, Vera. A Taissa já confirmou. Se você não for, ela vai vir aqui e te arrastar pelos cabelos loiros.

Eu ri, sabendo que ele não estava brincando. Taissa era perfeitamente capaz de tal proeza.

— Tudo bem, Jack. Eu vou. Mas não prometo ficar até tarde.

Enquanto isso, do outro lado da rua, a batalha de Jack era outra. Patrick Wilson estava debruçado sobre uma pilha de relatórios de criminalidade quando o detetive entrou em sua sala.

— Nem pense nisso, Jack — disse Patrick, sem levantar os olhos do papel. — Eu tenho que terminar de revisar as diretrizes de patrulha noturna.

— As diretrizes podem esperar até segunda, chefe — Jack insistiu, encostando-se na porta. — O pessoal quer te dar as boas-vindas oficialmente. Um brinde rápido. Nada de discursos, eu prometo.

— Eu não sou muito fã de comemorações, você sabe disso.

— É uma ordem do seu subordinado mais insistente — Jack sorriu. — Além disso, chamei a minha irmã e a Dra. Farmiga. Elas precisam de um descanso tanto quanto você.

Patrick parou a caneta no ar. O nome de Vera pareceu ecoar na sala de forma diferente de qualquer outro nome. Ele lembrou-se da imagem dela sob a luz amarelada do estacionamento, a mistura de vulnerabilidade e força que emanava de seus olhos azuis.

— A Dra. Farmiga vai? — perguntou ele, tentando manter o tom de voz casual, embora tenha falhado miseravelmente aos ouvidos treinados de Jack.

— Vai. E ela raramente sai. Se você não for, vai ser uma desfeita com a mulher que você salvou de um assédio na segunda-feira.

Patrick suspirou, fechando a pasta com um estalo seco.

— Você é um manipulador barato, Jack.

— Eu prefiro o termo "facilitador social". Vejo você às nove.

Quando as portas do *The Blue Note* se abriram para mim e Taissa naquela noite, o ar estava impregnado com o som de jazz suave e o burburinho de conversas descontraídas. O bar era aconchegante, com paredes de tijolos aparentes e uma iluminação âmbar que suavizava as arestas do cansaço em nossos rostos.

Eu tinha escolhido um vestido de seda azul-marinho que chegava até os joelhos, com um decote discreto e mangas longas. Meus cabelos estavam soltos, caindo em ondas suaves sobre os ombros. Eu me sentia estranha sem o jaleco, como se tivesse deixado minha armadura para trás.

— Ali estão eles — Taissa apontou para uma mesa grande ao fundo.

Jack estava rindo de algo que um dos policiais dizia, mas meu olhar foi imediatamente atraído para o homem sentado ao lado dele. Patrick Wilson estava de costas para a entrada, mas sua presença era impossível de ignorar. Ele vestia uma malha cinza escura com as mangas puxadas para cima e jeans escuros. Quando nos aproximamos, ele se virou.

Eu vi o momento exato em que os olhos dele me encontraram. Houve uma pausa imperceptível no ambiente, ou talvez tenha sido apenas o meu próprio coração saltando uma batida. Patrick se levantou imediatamente, um gesto de cavalheirismo que parecia intrínseco a ele.

— Boa noite — disse ele, e sua voz, naquele ambiente menos estéril, soava como um veludo profundo.

— Boa noite, Patrick — respondi, e senti o olhar malicioso de Taissa queimar minha nuca.

— Doutora... Vera — ele se corrigiu, abrindo um espaço para que nos sentássemos. — Você está... o azul realmente combina com você.

— Obrigada. É bom ver você sem uma arma na mão — brinquei, tentando aliviar a tensão que parecia vibrar entre nós.

Patrick soltou uma risada curta, e pela primeira vez, vi o brilho de uma covinha em sua bochecha.

— Eu tento deixar o trabalho na porta, embora o Jack torne isso difícil.

A noite fluiu de uma maneira que eu não esperava. Entre rodadas de cerveja para os policiais e vinho para mim e Taissa, as histórias começaram a surgir. Jack contava as gafes de Taissa na infância, enquanto ela revidava expondo o medo que o irmão tinha de palhaços até os quinze anos.

Patrick, no entanto, falava pouco. Ele observava. Eu sentia o peso de seu olhar em mim enquanto eu conversava com os outros, uma atenção silenciosa e protetora que não era invasiva, mas sim envolvente.

— Você parece estar em outro lugar, Vera — ele comentou em voz baixa, aproximando sua cadeira da minha para que pudéssemos conversar sem que os outros ouvissem.

— Estava apenas pensando em como é estranho — confessei, girando a taça de vinho entre os dedos. — Passamos o dia todo lidando com a vida e a morte, com o caos e o crime. E aqui estamos, fingindo que somos pessoas normais com preocupações normais.

— E quem disse que estamos fingindo? — ele perguntou, inclinando-se um pouco mais. — Talvez este seja o único momento em que somos realmente nós mesmos. O distintivo e o jaleco são apenas as peles que vestimos para sobreviver ao que vemos lá fora.

Olhei para ele, surpresa com a profundidade da observação.

— Você é muito filosófico para um delegado de polícia, Patrick.

— E você é muito observadora para alguém que afirma estar exausta. Eu notei como você analisa o ritmo da respiração de todos nesta mesa. É um vício profissional?

Eu corei, percebendo que ele tinha razão.

— É difícil desligar. O coração é um motor barulhento, Patrick. Ele sempre nos diz quando algo está errado, mesmo quando tentamos esconder.

— E o que o seu coração está dizendo agora? — a pergunta dele foi direta, carregada de uma intensidade que me fez perder o fôlego por um segundo.

Antes que eu pudesse responder, Jack bateu com a palma da mão na mesa, chamando a atenção de todos.

— Um brinde! — gritou ele, levantando sua caneca. — Ao Delegado Wilson, por não ter nos prendido ainda, e à Dra. Farmiga, por manter nossos corações batendo para que possamos continuar cometendo erros!

Todos riram e brindaram. Patrick e eu batemos nossas taças, o cristal tilintando suavemente. Seus olhos nunca deixaram os meus.

— Ao que está por vir — sussurrou ele, quase inaudível sob o barulho do bar.

A música mudou para um blues mais lento e sensual. Alguns casais começaram a se mover em direção à pequena pista de dança improvisada perto do palco. Taissa, sempre a impulsionadora, puxou Jack para dançar, deixando Patrick e eu sozinhos na mesa por um momento.

— Eu não sou um bom dançarino — ele disse, antecipando qualquer convite, embora houvesse um brilho desafiador em seus olhos.

— Eu sou cirurgiã, Patrick. Tenho mãos firmes, mas meus pés são outra história — respondi, sorrindo.

— Então estamos em vantagem mútua. Se eu pisar no seu pé, você pode me dar um diagnóstico imediato de fratura.

Ele estendeu a mão para mim. Eu a aceitei, sentindo novamente aquela eletricidade familiar. Ele me conduziu até a pista. Quando Patrick colocou a mão na minha cintura, uma onda de calor se espalhou por meu corpo. Eu descansei minha mão em seu ombro, sentindo os músculos firmes sob a malha.

Dançamos lentamente, nossos corpos se movendo em um ritmo instintivo. O perfume dele — sândalo, couro e algo puramente masculino — era inebriante.

— Você está tensa — ele murmurou perto do meu ouvido, sua respiração enviando arrepios pela minha espinha.

— É o hábito de estar sempre alerta — respondi, fechando os olhos por um momento e permitindo-me relaxar contra ele.

— Aqui não há emergências, Vera. Ninguém vai morrer nos próximos três minutos. Apenas... respire.

Eu respirei. O cheiro dele encheu meus pulmões e, pela primeira vez em anos, senti que não precisava ser a salvadora de ninguém. Por aqueles poucos minutos, eu era apenas Vera.

— Patrick? — chamei baixinho.

— Sim?

— Por que você me contou aquilo no estacionamento? Sobre o seu pai.

Ele ficou rígido por um segundo, o movimento da dança quase parando. Eu me arrependi imediatamente de ter perguntado, mas ele relaxou novamente, apertando minha mão com um pouco mais de força.

— Eu não costumo falar sobre isso — admitiu ele. — Mas quando vi aquele sujeito segurando seu braço... algo em mim quebrou. Eu vi a história se repetindo e eu não podia permitir. Acho que, de alguma forma, eu queria que você soubesse que eu entendo o medo. E que, enquanto eu estiver por perto, você não precisa senti-lo.

Eu levantei o rosto para olhá-lo. A vulnerabilidade em sua expressão era desarmante. Patrick Wilson era um homem construído de cicatrizes e dever, mas sob aquela superfície gélida, havia um fogo de proteção que me aquecia de uma maneira que eu não sabia ser possível.

— Obrigada por me contar — eu disse, minha voz pouco mais que um sussurro.

A música terminou, mas não nos separamos de imediato. Ficamos ali, no meio da pista, cercados por estranhos, mas em nosso próprio universo particular de azul e sombras.

— Acho que eu deveria te levar para casa — disse ele finalmente, sua voz rouca. — Você tem um turno cedo amanhã, não tem?

— Às seis — suspirei, a realidade do hospital voltando a bater à porta.

Nos despedimos de Jack e Taissa, que nos lançaram olhares que prometiam interrogatórios detalhados no dia seguinte. Patrick me conduziu até seu carro, um SUV preto impecável que cheirava a carro novo e ao mesmo tempo ao seu perfume pessoal.

O trajeto até meu apartamento foi silencioso, mas não era um silêncio desconfortável. Era o tipo de silêncio que compartilham as pessoas que já disseram muito sem precisar de palavras. Quando ele estacionou em frente ao meu prédio, desligou o motor, mas não se moveu para abrir a porta.

— Vera — ele começou, olhando para o volante. — Minha vida é... complicada. O tipo de trabalho que eu faço, as coisas que eu carrego... eu não sou um homem fácil.

— Patrick, eu abro peitos de pessoas e conserto corações com fios de nylon — respondi, o que o fez olhar para mim e sorrir. — Eu lido com "complicado" todos os dias. Complicações são a minha especialidade.

Ele estendeu a mão e tocou meu rosto, o polegar acariciando minha bochecha com uma ternura que contrastava com a força que eu sabia que ele possuía.

— Então talvez possamos lidar com isso juntos.

— Eu gostaria disso.

Ele se inclinou, e por um momento achei que ele fosse me beijar. Meu coração disparou, o monitor imaginário na minha cabeça apitando em um ritmo frenético. Mas ele apenas beijou minha testa, um gesto de respeito e promessa que foi, de certa forma, muito mais íntimo.

— Durma bem, Doutora. Vou pedir para o Jack me avisar quando você chegar ao hospital amanhã.

— Boa noite, Patrick.

Subi para o meu apartamento sentindo-me leve. Quando entrei no meu quarto, o lírio que eu trouxera do hospital — agora um pouco murcho, mas ainda belo — estava no vaso sobre a cômoda.

Deitei-me na cama e, pela primeira vez em meses, não precisei do frasco de pílulas no criado-mudo. O som do meu próprio coração, calmo e rítmico, foi a única melodia de que precisei para adormecer. Eu sabia que o caos do hospital voltaria em poucas horas, que as sirenes continuariam a tocar e que a dor do mundo não cessaria. Mas agora, havia uma nova frequência vibrando no ar. Uma frequência azul, gélida e ao mesmo tempo quente, que me prometia que, no meio da tempestade, eu finalmente tinha encontrado um porto seguro.
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