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The cat under my bed
Fandom: Trevor Henderson
Creado: 19/4/2026
Etiquetas
TerrorHorror PsicológicoOscuroViolencia GráficaMuerte de PersonajeHorror CorporalEstudio de PersonajeNoir GóticoPWP (¿Trama? ¿Qué trama?)Lenguaje ExplícitoFantasíaThriller
O Manuscrito de Sangue e mirtilo
O sol poente tingia o céu de um laranja doentio, quase da cor de uma ferida aberta, enquanto Sally Sheldon caminhava em direção ao shopping abandonado nos arredores da cidade. Seus longos cabelos preto-azulados balançavam ritmicamente, batendo contra a parte de trás de seus joelhos a cada passo. Ela parecia uma boneca de porcelana perdida em um cenário de guerra; o vestido preto com laços azul-anil contrastava com o concreto cinzento e pichado do prédio em ruínas.
Sally não era uma garota comum. Enquanto outras adolescentes de sua idade suspiravam por ídolos pop ou heróis de ação, ela sentia um desprezo profundo por qualquer coisa que cheirasse a "bondade" ou "heroísmo". Para ela, os heróis eram chatos, previsíveis e irritantes. Ela preferia o caos. Ela preferia a escuridão. E, acima de tudo, ela preferia *ele*.
Ao entrar no átrio vasto e silencioso do shopping, o som de suas sapatilhas azuis ecoou como batidas de coração. Ela se sentou em um banco de madeira descascada, perto de uma antiga fonte seca, e abriu sua bolsa. Tirou sua Polaroid Now+ branca e tirou uma foto de uma pequena flor azul que crescia entre as rachaduras do piso. O flash iluminou a penumbra por um milésimo de segundo.
— Perfeito — sussurrou ela, sua voz suave escondida atrás da franja longa que cobria um de seus olhos.
Ela guardou a foto e pegou seu caderno de couro. Sally começou a escrever com uma urgência febril. Suas fantasias não eram para os fracos de coração. Eram contos de adoração sombria dedicados ao Cartoon Cat, o ser que ela carinhosamente chamava de "Caramel". Em sua mente, ele não era apenas um monstro maníaco que devorava humanos; ele era uma divindade de borracha e dentes afiados. Ela escreveu sobre canibalismo sexual, sobre ser consumida por ele, sobre o prazer de ver aqueles dentes de piano se fecharem em sua carne.
No entanto, o momento de inspiração foi interrompido por um odor insuportável. Um cheiro de carniça tão denso que parecia ter peso, preenchendo o ar viciado do shopping.
— Que nojo... — murmurou, cobrindo o nariz com a mão delicada. — Algum bicho deve ter morrido por aqui.
Incomodada, ela guardou as coisas às pressas. Ao se levantar, algumas folhas soltas de seu caderno, repletas de descrições gráficas e poemas de amor erótico, deslizaram e caíram no chão empoeirado. Sally, distraída pela náusea, não percebeu. Ela saiu do prédio rapidamente, desejando apenas chegar em casa, comer uma fatia de torta de mirtilo e esquecer aquele fedor.
Minutos depois que o som de seus passos desapareceu, uma sombra se desprendeu do teto.
Ele não desceu pelas escadas; ele simplesmente se esticou. O Cartoon Cat desceu como uma gota de piche vivo, seus membros longos e finos se alongando de forma impossível. Seus olhos grandes e redondos brilhavam na escuridão, e o sorriso permanente, cheio de dentes pontiagudos, parecia mais largo do que o normal.
Ele estava no meio de uma refeição. No canto da praça de alimentação, o corpo de um adolescente emo, vestido com correntes e roupas pretas, jazia desfigurado. O gato estava prestes a voltar para sua presa quando algo no chão chamou sua atenção. Papéis brancos.
Com luvas brancas que pareciam de desenho animado, mas que estavam sujas de sangue fresco, ele pegou as folhas.
O monstro leu. Seus olhos se arregalaram. Ele nunca tinha lido nada parecido. Os humanos geralmente gritavam, rezavam ou imploravam. Mas aquela garota... ela o desejava. Ela descrevia seus dentes com uma admiração poética. Ela queria ser devorada.
Um som gutural, algo entre um ronronar e uma interferência de rádio, saiu da garganta do Cartoon Cat. Ele levou o papel ao focinho e inalou profundamente. O cheiro de perfume barato de mirtilo e o aroma doce da pele de Sally ficaram gravados em seus sentidos sobrenaturais. Ele sabia exatamente para onde ela tinha ido.
Ele olhou para o cadáver do adolescente aos seus pés. Um plano se formou em sua mente distorcida. O Cartoon Cat começou a mudar. Sua anatomia se contorceu, os ossos estalando como galhos secos. Ele envolveu o corpo do garoto, fundindo-se a ele, imitando a textura da pele, a roupa, o cabelo. Em segundos, o monstro não era mais um gato de borracha de três metros de altura, mas um jovem pálido e de aparência triste.
Ele limpou o sangue do canto da boca e testou a voz, imitando perfeitamente o tom melancólico da vítima que acabara de digerir.
— Sally... — disse ele, a voz saindo em um tom humano impecável, embora seus olhos ainda tivessem um brilho predatório por trás da franja falsa. — Eu acho que você deixou cair algo.
***
Sally estava em seu quarto, a luz baixa criando sombras longas nas paredes cobertas de fitas VHS e fotos Polaroid. Ela estava irritada. Tinha acabado de perceber que faltavam páginas em seu caderno.
— Que ódio — reclamou ela, mordendo um pedaço de sua torta de mirtilo. — Aquelas eram as melhores partes. Eu descrevi o Caramel de um jeito tão... visceral.
Ela odiava perder seu trabalho. O pensamento de que algum estranho, ou pior, algum "herói" puritano pudesse encontrar aquilo a deixava enojada. Ela terminou sua torta e se deitou, olhando para o teto, imaginando como seria se o Cartoon Cat realmente aparecesse em sua janela.
De repente, um som de batidas suaves veio da porta da frente. Sally estranhou. Seus pais estavam viajando e ela não esperava ninguém. Ela se levantou, ajeitou o vestido e caminhou até a entrada.
Ao abrir a porta, ela encontrou um garoto. Ele parecia ter a idade dela, vestindo um moletom preto e jeans rasgados. Ele parecia um pouco pálido demais, e havia algo de estranho na maneira como seus braços pareciam longos demais para as mangas do casaco.
— Oi? — perguntou Sally, desconfiada, mas curiosa.
— Oi... você é a Sally, né? — O garoto sorriu. Era um sorriso largo, um pouco largo demais. — Eu estava no shopping abandonado. Você deixou cair isso.
Ele estendeu a mão, segurando as folhas de papel de Sally.
O coração da garota deu um salto. Ela pegou os papéis rapidamente, sentindo o rosto esquentar.
— Você... você leu? — perguntou ela, a timidez lutando com o medo de ser julgada.
O garoto deu um passo à frente, entrando no círculo de luz da varanda.
— Eu li cada palavra — disse ele, e sua voz falhou por um segundo, soando como um disco arranhado antes de voltar ao normal. — Você tem uma imaginação incrível, Sally. Especialmente sobre o... Caramel.
Sally sentiu um arrepio que não era de medo, mas de uma excitação sombria. Ela nunca tinha conhecido alguém que não se horrorizasse com seus gostos.
— A maioria das pessoas acha que eu sou louca — disse ela, puxando a franja para cobrir o olho. — Elas não entendem a beleza do caos. Elas preferem os heróis chatos.
— Heróis são patéticos — concordou o garoto. Ele inclinou a cabeça de uma forma não natural, quase encostando o ouvido no ombro. — Eles são cheios de regras. Monstros... monstros são livres.
Sally sorriu, encantada.
— Quer entrar? — convidou ela. — Eu tenho torta de mirtilo. E posso te mostrar minhas fotos.
O disfarce do Cartoon Cat quase vacilou sob o tecido do moletom. Ele podia sentir o cheiro do sangue dela vibrando sob a pele parda. Era tão doce. Mas ele queria brincar primeiro. Ele queria ver até onde aquela obsessão ia.
— Eu adoraria — respondeu ele.
Eles se sentaram na sala. Sally mostrou sua coleção de fitas VHS de filmes de terror antigos e suas fotos favoritas. O garoto observava tudo com uma intensidade perturbadora.
— Por que você gosta tanto dele? — perguntou o disfarce, apontando para um desenho que Sally tinha feito do Cartoon Cat na parede. — Ele é um assassino. Ele come pessoas como você.
Sally se aproximou dele, seus olhos pretos brilhando.
— É por isso que ele é perfeito — sussurrou ela. — Ele não finge ser nada além do que é. Ele é a fome pura. Ele é a distorção da realidade. Eu daria qualquer coisa para ver o mundo como ele vê. Para sentir aqueles dentes.
O Cartoon Cat sentiu uma onda de satisfação que nenhum humano jamais lhe proporcionara. Ele decidiu que não a comeria... pelo menos não ainda. Ela era valiosa demais. Uma devota.
— E se eu te dissesse — começou o garoto, sua voz tornando-se mais profunda, mais rouca — que o Caramel adorou os seus poemas?
Sally riu, uma risada curta e nervosa.
— Eu diria que você está brincando comigo.
— Eu nunca brinco com comida — disse ele.
Antes que Sally pudesse reagir, a figura do garoto começou a se desfazer. O moletom rasgou-se quando os membros pretos e emborrachados se expandiram. O rosto humano derreteu como cera, revelando os olhos imensos e o sorriso branco e infinito.
Em segundos, a sala de estar de Sally estava ocupada por uma criatura que desafiava a física. O Cartoon Cat ocupava quase todo o espaço, seu pescoço se dobrando para não bater no teto, seus braços longos enrolando-se pelos móveis como serpentes.
Sally não gritou. Ela não correu.
Ela ficou paralisada, a respiração ofegante, os olhos fixos na monstruosidade à sua frente. Suas bochechas coraram intensamente.
— Caramel... — suspirou ela, deixando cair a câmera Polaroid no tapete.
O monstro soltou uma risada que parecia o som de mil desenhos animados antigos tocando ao mesmo tempo em uma frequência distorcida. Ele estendeu uma mão enluvada e tocou o rosto de Sally. O couro frio e sujo de sangue seco de sua luva acariciou a pele delicada da garota.
— Você é uma criaturinha estranha, Sally Sheldon — a voz dele agora era uma mistura de todas as suas vítimas, um coro macabro. — Suas palavras têm um gosto melhor do que a carne daquele garoto.
— Você me achou — disse ela, as lágrimas de emoção começando a descer. — Você realmente veio por mim.
— Eu vim ver se a autora era tão deliciosa quanto a obra — o Cartoon Cat inclinou-se, abrindo a mandíbula. Sally podia ver as fileiras de dentes afiados, o abismo escuro de sua garganta.
— Pode me levar — disse ela, fechando os olhos e inclinando o pescoço, oferecendo-se em um ato de adoração absoluta. — Me consome. Me faz parte de você.
O monstro parou. Ele nunca tinha encontrado tal submissão. Geralmente, o sabor do medo era o tempero principal de suas refeições. Mas o sabor da adoração... isso era novo. Isso era viciante.
Ele fechou a boca e, em vez de mordê-la, envolveu-a em seus braços longos, puxando-a para perto de seu corpo frio e maleável.
— Não — disse o Cartoon Cat. — Você vai escrever mais. Você vai ser minha voz neste mundo de heróis patéticos. E em troca...
Ele se inclinou e lambeu a bochecha dela com uma língua áspera e negra.
— ... eu deixarei você assistir enquanto eu janto.
Sally sorriu, um sorriso que rivalizava com a insanidade do próprio gato. Ela pegou seu caderno e sua caneta, sentindo-se mais viva do que nunca.
— Eu odeio heróis — disse ela.
— E eu adoro mirtilos — respondeu o monstro, apontando para o resto da torta na mesa.
Naquela noite, na casa nos subúrbios, uma nova e terrível parceria nasceu. Entre fotos de Polaroid e manuscritos manchados de sangue, a garota e o gato começaram a planejar como transformar o mundo em um desenho animado de pesadelo. E Sally sabia que, enquanto tivesse seu Caramel ao seu lado, o final feliz nunca viria — e era exatamente assim que ela queria.
Sally não era uma garota comum. Enquanto outras adolescentes de sua idade suspiravam por ídolos pop ou heróis de ação, ela sentia um desprezo profundo por qualquer coisa que cheirasse a "bondade" ou "heroísmo". Para ela, os heróis eram chatos, previsíveis e irritantes. Ela preferia o caos. Ela preferia a escuridão. E, acima de tudo, ela preferia *ele*.
Ao entrar no átrio vasto e silencioso do shopping, o som de suas sapatilhas azuis ecoou como batidas de coração. Ela se sentou em um banco de madeira descascada, perto de uma antiga fonte seca, e abriu sua bolsa. Tirou sua Polaroid Now+ branca e tirou uma foto de uma pequena flor azul que crescia entre as rachaduras do piso. O flash iluminou a penumbra por um milésimo de segundo.
— Perfeito — sussurrou ela, sua voz suave escondida atrás da franja longa que cobria um de seus olhos.
Ela guardou a foto e pegou seu caderno de couro. Sally começou a escrever com uma urgência febril. Suas fantasias não eram para os fracos de coração. Eram contos de adoração sombria dedicados ao Cartoon Cat, o ser que ela carinhosamente chamava de "Caramel". Em sua mente, ele não era apenas um monstro maníaco que devorava humanos; ele era uma divindade de borracha e dentes afiados. Ela escreveu sobre canibalismo sexual, sobre ser consumida por ele, sobre o prazer de ver aqueles dentes de piano se fecharem em sua carne.
No entanto, o momento de inspiração foi interrompido por um odor insuportável. Um cheiro de carniça tão denso que parecia ter peso, preenchendo o ar viciado do shopping.
— Que nojo... — murmurou, cobrindo o nariz com a mão delicada. — Algum bicho deve ter morrido por aqui.
Incomodada, ela guardou as coisas às pressas. Ao se levantar, algumas folhas soltas de seu caderno, repletas de descrições gráficas e poemas de amor erótico, deslizaram e caíram no chão empoeirado. Sally, distraída pela náusea, não percebeu. Ela saiu do prédio rapidamente, desejando apenas chegar em casa, comer uma fatia de torta de mirtilo e esquecer aquele fedor.
Minutos depois que o som de seus passos desapareceu, uma sombra se desprendeu do teto.
Ele não desceu pelas escadas; ele simplesmente se esticou. O Cartoon Cat desceu como uma gota de piche vivo, seus membros longos e finos se alongando de forma impossível. Seus olhos grandes e redondos brilhavam na escuridão, e o sorriso permanente, cheio de dentes pontiagudos, parecia mais largo do que o normal.
Ele estava no meio de uma refeição. No canto da praça de alimentação, o corpo de um adolescente emo, vestido com correntes e roupas pretas, jazia desfigurado. O gato estava prestes a voltar para sua presa quando algo no chão chamou sua atenção. Papéis brancos.
Com luvas brancas que pareciam de desenho animado, mas que estavam sujas de sangue fresco, ele pegou as folhas.
O monstro leu. Seus olhos se arregalaram. Ele nunca tinha lido nada parecido. Os humanos geralmente gritavam, rezavam ou imploravam. Mas aquela garota... ela o desejava. Ela descrevia seus dentes com uma admiração poética. Ela queria ser devorada.
Um som gutural, algo entre um ronronar e uma interferência de rádio, saiu da garganta do Cartoon Cat. Ele levou o papel ao focinho e inalou profundamente. O cheiro de perfume barato de mirtilo e o aroma doce da pele de Sally ficaram gravados em seus sentidos sobrenaturais. Ele sabia exatamente para onde ela tinha ido.
Ele olhou para o cadáver do adolescente aos seus pés. Um plano se formou em sua mente distorcida. O Cartoon Cat começou a mudar. Sua anatomia se contorceu, os ossos estalando como galhos secos. Ele envolveu o corpo do garoto, fundindo-se a ele, imitando a textura da pele, a roupa, o cabelo. Em segundos, o monstro não era mais um gato de borracha de três metros de altura, mas um jovem pálido e de aparência triste.
Ele limpou o sangue do canto da boca e testou a voz, imitando perfeitamente o tom melancólico da vítima que acabara de digerir.
— Sally... — disse ele, a voz saindo em um tom humano impecável, embora seus olhos ainda tivessem um brilho predatório por trás da franja falsa. — Eu acho que você deixou cair algo.
***
Sally estava em seu quarto, a luz baixa criando sombras longas nas paredes cobertas de fitas VHS e fotos Polaroid. Ela estava irritada. Tinha acabado de perceber que faltavam páginas em seu caderno.
— Que ódio — reclamou ela, mordendo um pedaço de sua torta de mirtilo. — Aquelas eram as melhores partes. Eu descrevi o Caramel de um jeito tão... visceral.
Ela odiava perder seu trabalho. O pensamento de que algum estranho, ou pior, algum "herói" puritano pudesse encontrar aquilo a deixava enojada. Ela terminou sua torta e se deitou, olhando para o teto, imaginando como seria se o Cartoon Cat realmente aparecesse em sua janela.
De repente, um som de batidas suaves veio da porta da frente. Sally estranhou. Seus pais estavam viajando e ela não esperava ninguém. Ela se levantou, ajeitou o vestido e caminhou até a entrada.
Ao abrir a porta, ela encontrou um garoto. Ele parecia ter a idade dela, vestindo um moletom preto e jeans rasgados. Ele parecia um pouco pálido demais, e havia algo de estranho na maneira como seus braços pareciam longos demais para as mangas do casaco.
— Oi? — perguntou Sally, desconfiada, mas curiosa.
— Oi... você é a Sally, né? — O garoto sorriu. Era um sorriso largo, um pouco largo demais. — Eu estava no shopping abandonado. Você deixou cair isso.
Ele estendeu a mão, segurando as folhas de papel de Sally.
O coração da garota deu um salto. Ela pegou os papéis rapidamente, sentindo o rosto esquentar.
— Você... você leu? — perguntou ela, a timidez lutando com o medo de ser julgada.
O garoto deu um passo à frente, entrando no círculo de luz da varanda.
— Eu li cada palavra — disse ele, e sua voz falhou por um segundo, soando como um disco arranhado antes de voltar ao normal. — Você tem uma imaginação incrível, Sally. Especialmente sobre o... Caramel.
Sally sentiu um arrepio que não era de medo, mas de uma excitação sombria. Ela nunca tinha conhecido alguém que não se horrorizasse com seus gostos.
— A maioria das pessoas acha que eu sou louca — disse ela, puxando a franja para cobrir o olho. — Elas não entendem a beleza do caos. Elas preferem os heróis chatos.
— Heróis são patéticos — concordou o garoto. Ele inclinou a cabeça de uma forma não natural, quase encostando o ouvido no ombro. — Eles são cheios de regras. Monstros... monstros são livres.
Sally sorriu, encantada.
— Quer entrar? — convidou ela. — Eu tenho torta de mirtilo. E posso te mostrar minhas fotos.
O disfarce do Cartoon Cat quase vacilou sob o tecido do moletom. Ele podia sentir o cheiro do sangue dela vibrando sob a pele parda. Era tão doce. Mas ele queria brincar primeiro. Ele queria ver até onde aquela obsessão ia.
— Eu adoraria — respondeu ele.
Eles se sentaram na sala. Sally mostrou sua coleção de fitas VHS de filmes de terror antigos e suas fotos favoritas. O garoto observava tudo com uma intensidade perturbadora.
— Por que você gosta tanto dele? — perguntou o disfarce, apontando para um desenho que Sally tinha feito do Cartoon Cat na parede. — Ele é um assassino. Ele come pessoas como você.
Sally se aproximou dele, seus olhos pretos brilhando.
— É por isso que ele é perfeito — sussurrou ela. — Ele não finge ser nada além do que é. Ele é a fome pura. Ele é a distorção da realidade. Eu daria qualquer coisa para ver o mundo como ele vê. Para sentir aqueles dentes.
O Cartoon Cat sentiu uma onda de satisfação que nenhum humano jamais lhe proporcionara. Ele decidiu que não a comeria... pelo menos não ainda. Ela era valiosa demais. Uma devota.
— E se eu te dissesse — começou o garoto, sua voz tornando-se mais profunda, mais rouca — que o Caramel adorou os seus poemas?
Sally riu, uma risada curta e nervosa.
— Eu diria que você está brincando comigo.
— Eu nunca brinco com comida — disse ele.
Antes que Sally pudesse reagir, a figura do garoto começou a se desfazer. O moletom rasgou-se quando os membros pretos e emborrachados se expandiram. O rosto humano derreteu como cera, revelando os olhos imensos e o sorriso branco e infinito.
Em segundos, a sala de estar de Sally estava ocupada por uma criatura que desafiava a física. O Cartoon Cat ocupava quase todo o espaço, seu pescoço se dobrando para não bater no teto, seus braços longos enrolando-se pelos móveis como serpentes.
Sally não gritou. Ela não correu.
Ela ficou paralisada, a respiração ofegante, os olhos fixos na monstruosidade à sua frente. Suas bochechas coraram intensamente.
— Caramel... — suspirou ela, deixando cair a câmera Polaroid no tapete.
O monstro soltou uma risada que parecia o som de mil desenhos animados antigos tocando ao mesmo tempo em uma frequência distorcida. Ele estendeu uma mão enluvada e tocou o rosto de Sally. O couro frio e sujo de sangue seco de sua luva acariciou a pele delicada da garota.
— Você é uma criaturinha estranha, Sally Sheldon — a voz dele agora era uma mistura de todas as suas vítimas, um coro macabro. — Suas palavras têm um gosto melhor do que a carne daquele garoto.
— Você me achou — disse ela, as lágrimas de emoção começando a descer. — Você realmente veio por mim.
— Eu vim ver se a autora era tão deliciosa quanto a obra — o Cartoon Cat inclinou-se, abrindo a mandíbula. Sally podia ver as fileiras de dentes afiados, o abismo escuro de sua garganta.
— Pode me levar — disse ela, fechando os olhos e inclinando o pescoço, oferecendo-se em um ato de adoração absoluta. — Me consome. Me faz parte de você.
O monstro parou. Ele nunca tinha encontrado tal submissão. Geralmente, o sabor do medo era o tempero principal de suas refeições. Mas o sabor da adoração... isso era novo. Isso era viciante.
Ele fechou a boca e, em vez de mordê-la, envolveu-a em seus braços longos, puxando-a para perto de seu corpo frio e maleável.
— Não — disse o Cartoon Cat. — Você vai escrever mais. Você vai ser minha voz neste mundo de heróis patéticos. E em troca...
Ele se inclinou e lambeu a bochecha dela com uma língua áspera e negra.
— ... eu deixarei você assistir enquanto eu janto.
Sally sorriu, um sorriso que rivalizava com a insanidade do próprio gato. Ela pegou seu caderno e sua caneta, sentindo-se mais viva do que nunca.
— Eu odeio heróis — disse ela.
— E eu adoro mirtilos — respondeu o monstro, apontando para o resto da torta na mesa.
Naquela noite, na casa nos subúrbios, uma nova e terrível parceria nasceu. Entre fotos de Polaroid e manuscritos manchados de sangue, a garota e o gato começaram a planejar como transformar o mundo em um desenho animado de pesadelo. E Sally sabia que, enquanto tivesse seu Caramel ao seu lado, o final feliz nunca viria — e era exatamente assim que ela queria.
