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Segredos
Fandom: Misana
Creado: 20/4/2026
Etiquetas
RomanceRecortes de VidaFluffHumorAngustiaEstudio de PersonajeAmbientación Canon
O Desafio do Cubo de Gelo
O corredor principal da Universidade de Artes de Seul estava, como de costume, uma completa zona. O cheiro de café barato se misturava ao aroma de tinta fresca e ao som de instrumentos sendo afinados ao longe. Mas, para o quarteto sentado na mesa mais barulhenta do refeitório, o mundo girava em torno de um único tópico: o tédio absoluto de uma terça-feira.
— Eu estou dizendo, Sana, você é carente demais. Se ficar cinco minutos sem receber um elogio, você começa a murchar como uma planta sem água — zombou Nayeon, ajeitando o arco de cabelo enquanto olhava o próprio reflexo na tela do celular.
— Eu não sou carente! — Sana protestou, fazendo um bico exagerado que só provava o ponto da amiga. — Eu sou apenas... comunicativa. O ser humano é um animal social, sabia?
— Comunicativa é apelido — Jeongyeon interveio, roubando uma batata frita da bandeja de Sana. — Você é um imã de pessoas. É irritante. Você consegue fazer amizade até com a estátua do fundador da faculdade se bobear.
Sana cruzou os braços, jogando seus cabelos rosados para trás com um ar de superioridade fingida.
— É um dom. Eu consigo conquistar qualquer um. Literalmente qualquer pessoa nesta instituição me adora.
Jihyo, que até então estava concentrada em organizar seu cronograma de estudos, levantou o olhar, um brilho travesso surgindo em seus olhos. Ela fechou o caderno com um estalo seco.
— Qualquer um, Sana? Tem certeza do que está dizendo?
Sana hesitou por meio segundo, mas o orgulho falou mais alto.
— Absoluta. Por quê?
Jihyo apontou discretamente com o queixo para a mesa mais isolada do refeitório, perto da janela. Lá, sentada sozinha com um par de fones de ouvido enormes e um livro de capa preta, estava Myoui Mina.
Mina era uma lenda urbana viva. Estudante de dança contemporânea, ela era dona de uma beleza que parecia esculpida em mármore, mas também de uma expressão tão gélida que diziam ser capaz de baixar a temperatura do ambiente em dez graus. Ela não falava com ninguém. Não sorria para ninguém. Era o "Cubo de Gelo" da universidade.
— Ela — disse Jihyo, com um sorriso desafiador. — Se você é tão irresistível assim, conquiste a Myoui Mina.
Nayeon e Jeongyeon pararam o que estavam fazendo instantaneamente, os olhos brilhando com a possibilidade de caos.
— Ah, não. Isso é golpe baixo — riu Nayeon. — A Myoui não é humana. Eu tentei pedir um apontador emprestado para ela no semestre passado e ela apenas me entregou o objeto sem desviar os olhos do livro. Quando eu devolvi e disse "obrigada", ela apenas acenou com a cabeça como se eu fosse um fantasma incômodo.
— Trinta dias — propôs Jeongyeon, batendo na mesa. — Se você conseguir fazer a Mina se apaixonar por você, ou pelo menos sair em um encontro real, a gente paga a sua conta naquele restaurante de sushi caro que você ama por um mês inteiro.
Sana olhou para Mina. A garota parecia tão distante que poderia estar em outro planeta. O desafio era absurdo. Era suicídio social. Mas o olhar de deboche de suas amigas era o combustível que Sana precisava.
— Trinta dias? — Sana perguntou, um sorriso astuto crescendo em seus lábios. — É tempo demais. Eu consigo em quinze.
— Não seja arrogante, Minatozaki — Jihyo riu. — Estamos falando da Mina. Ela é o chefe final desse videogame chamado vida social. Trinta dias. Valendo a partir de... agora.
Sana se levantou, ajeitando a saia e respirando fundo.
— Preparem os cartões de crédito, meninas. O sushi vai ser por conta de vocês.
Ela caminhou pelo refeitório com a confiança de uma modelo de passarela. Seus amigos observavam, prendendo o riso. Sana parou em frente à mesa de Mina. O silêncio ao redor da japonesa era quase palpável, uma bolha de isolamento que ninguém ousava romper.
Sana puxou a cadeira oposta e sentou-se com um impacto deliberado.
Mina não se mexeu. Seus olhos continuaram fixos nas páginas do livro.
— Oi! — Sana exclamou, com seu tom mais vibrante, acenando como se estivesse vendo uma amiga de infância. — Esse lugar está vago? Bom, agora está ocupado por mim. Eu sou a Sana!
Mina lentamente levantou o olhar. Seus olhos eram escuros, profundos e absolutamente desprovidos de qualquer emoção calorosa. Ela retirou apenas um dos lados do fone de ouvido, o suficiente para ouvir, mas deixando claro que a interrupção era indesejada.
— Você está sentada — disse Mina. Sua voz era baixa, calma e tão fria quanto Sana esperava. — Claramente não está vago.
— Você é engraçada! — Sana riu, ignorando o tom cortante. — Eu vi que você está sempre sozinha e pensei: "Nossa, aquela menina deve ter conversas incríveis consigo mesma, mas talvez ela queira compartilhar um pouco dessa sabedoria com o mundo". O que você está lendo?
Mina olhou para a capa do livro, depois para Sana.
— Um livro.
— Ah, jura? Eu achei que fosse um tijolo muito bem decorado — Sana brincou, apoiando o queixo nas mãos. — De que assunto? Romance? Suspense? Instruções de como construir um iglu?
Mina fechou o livro com calma, marcando a página com um marcador de seda.
— É um tratado sobre anatomia aplicada à dança. E eu gostaria de lê-lo em silêncio.
— Entendi, entendi. Você é do tipo focada — Sana não se deu por vencida. — Eu também sou muito focada. Sabia que eu consigo comer um pacote inteiro de salgadinho em menos de dois minutos? É um talento que exige muita concentração.
Mina piscou, parecendo genuinamente confusa por um milésimo de segundo, como se estivesse tentando processar se Sana era real ou uma alucinação causada pelo cansaço.
— Parabéns — disse Mina, secamente. Ela recolocou o fone de ouvido, abriu o livro e voltou a ignorar a existência de Sana.
Sana permaneceu ali por mais alguns minutos, sorrindo para o topo da cabeça de Mina, antes de se levantar e voltar para a mesa dos amigos. Jihyo, Nayeon e Jeongyeon estavam tendo crises de riso contidas.
— E aí, "conquistadora"? — Jeongyeon provocou. — Já marcaram o casamento ou vai ser só um noivado rápido?
— Ela me disse "parabéns" — Sana anunciou, vitoriosa, sentando-se novamente. — É o começo de uma conexão profunda.
— Ela disse "parabéns" porque você falou de salgadinhos, sua tonta! — Nayeon gargalhou. — Você está perdendo, Sana. O placar está: Cubo de Gelo 1, Furacão Rosa 0.
— Isso foi só o aquecimento — Sana pegou um canudo e apontou para as amigas. — Amanhã eu vou usar a artilharia pesada. Ninguém resiste ao meu charme por trinta dias. Nem mesmo a Rainha da Neve.
No dia seguinte, Sana decidiu que a abordagem direta precisava de um toque de "gentileza casual". Ela descobriu, através de uma investigação não muito discreta (perguntando para meio mundo no departamento de dança), que Mina gostava de café americano gelado, sem açúcar.
Sana esperou perto da sala de ensaio. Quando as portas se abriram e os alunos começaram a sair, exaustos e suados, ela avistou a silhueta elegante de Mina. Mesmo após horas de treino, ela parecia impecável, o cabelo preso em um coque firme, a postura ereta.
— Ei, Mina! — Sana saltou em sua direção, estendendo um copo de café. — Eu estava passando pela cafeteria e lembrei que você tem cara de quem precisa de cafeína.
Mina parou, olhando para o copo e depois para Sana. Ela não parecia surpresa, apenas... cansada.
— Por que você faria isso? — perguntou Mina.
— Porque eu sou legal? — Sana inclinou a cabeça para o lado. — E porque café é o abraço que a gente toma por dentro.
Mina hesitou. Por um momento, Sana achou que ela fosse recusar e talvez jogar o café no chão, mas a bailarina apenas pegou o copo, seus dedos roçando levemente nos de Sana. O toque foi breve, mas Sana sentiu um estalo de eletricidade que não esperava.
— Obrigada — disse Mina. Ela deu um gole, sua expressão não mudando nem um milímetro. — Mas eu não vou te dar as respostas da prova de história da arte, se é isso que você quer.
Sana soltou uma gargalhada genuína.
— Eu nem estou nessa aula! Eu só queria ser gentil. É proibido ser gentil no seu planeta?
Mina a observou por um tempo que pareceu longo demais. Havia algo de analítico em seu olhar, como se ela estivesse tentando decifrar um código complexo.
— No meu planeta, as pessoas geralmente querem algo em troca — Mina respondeu, começando a caminhar. — O café está bom. Adeus, Sana.
— É um progresso! — Sana gritou para as costas dela. — Ela lembrou meu nome! Vocês ouviram isso?
Escondidas atrás de um pilar, Jihyo e Nayeon observavam a cena.
— Ela lembrou o nome dela — comentou Jihyo, anotando algo em um caderninho. — Mas ainda parece que quer distância.
— A Sana é persistente — disse Nayeon, mastigando um chiclete. — Mas a Mina é uma fortaleza. Eu dou mais três dias para a Sana desistir e começar a chorar porque não recebeu atenção.
O que as amigas não sabiam era que Sana estava começando a achar o desafio mais interessante do que o prêmio. Havia algo no silêncio de Mina que a intrigava. Não parecia apenas grosseria; parecia uma proteção. Uma barreira construída com cuidado.
Na semana seguinte, Sana tentou de tudo. Ela apareceu na biblioteca com "lanches silenciosos" (que acabaram fazendo barulho e rendendo uma bronca da bibliotecária), deixou bilhetes com piadas ruins no armário de Mina e até tentou aprender alguns passos de balé no corredor, o que resultou em ela quase derrubando um vaso de plantas e Mina apenas passando por ela com um suspiro pesado.
— Você não desiste, não é? — Mina perguntou no décimo dia, quando Sana se sentou ao lado dela nos degraus da entrada da faculdade durante uma chuva torrencial.
— Desistir é uma palavra que não existe no meu dicionário — Sana respondeu, abrindo um guarda-chuva enorme e rosa, cobrindo as duas. — Além disso, está chovendo. Você ia se molhar.
Mina olhou para a chuva, depois para o guarda-chuva rosa que tinha orelhas de gatinho.
— Você é muito estranha.
— E você é muito quieta. A gente se equilibra — Sana sorriu, o rosto iluminado pela luz cinzenta da tarde. — Sabe, o pessoal diz que você é fria. Mas eu acho que você só é seletiva.
Mina virou o rosto para ela. Pela primeira vez, não havia apenas indiferença em seus olhos. Havia uma ponta de curiosidade.
— E por que você me selecionou para ser o alvo da sua... alegria incessante?
Sana sentiu o coração dar um pulinho. Ela não podia dizer que era por causa de uma aposta de sushi. Não agora.
— Porque eu achei que você parecia alguém que tem um mundo inteiro dentro da cabeça, mas ninguém para visitar — Sana disse, sua voz perdendo um pouco do tom brincalhão e soando mais sincera. — Eu gosto de visitar mundos novos.
Mina desviou o olhar, um leve tom rosado surgindo em suas bochechas, quase imperceptível.
— Meu mundo é entediante. Não tem nada além de música clássica e dor muscular.
— Eu duvido — Sana se aproximou um pouco mais, o ombro encostando no de Mina. — Aposto que você gosta de coisas bobas também. Tipo... vídeos de lontras de mãos dadas. Todo mundo gosta de lontras.
Houve um silêncio. Sana achou que tinha passado do ponto, mas então, ouviu um som que parecia um milagre.
Mina soltou um risinho. Foi curto, quase um sopro, mas foi um riso.
— Eu prefiro pinguins — confessou Mina, com a voz bem baixa.
Sana sentiu como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Ela olhou para o refeitório, onde suas amigas provavelmente estavam observando de longe, e sentiu uma ponta de culpa. A aposta tinha começado como uma brincadeira, mas aquele pequeno riso de Mina... aquilo parecia real demais para ser parte de um jogo.
— Pinguins são ótimos — Sana disse, sorrindo de orelha a orelha. — Eles também andam de mãos dadas. Bem, de nadadeiras dadas.
Mina olhou para Sana, e por um breve momento, a barreira de gelo pareceu ter uma rachadura.
— Você tem algo no cabelo — disse Mina. Ela estendeu a mão e removeu uma pequena pétala de flor que tinha caído da árvore próxima.
O gesto foi tão delicado que Sana esqueceu como se respirava por três segundos.
— Obrigada — sussurrou Sana.
— De nada — Mina se levantou, ajeitando a mochila. — A chuva parou. Vejo você por aí, Sana.
Sana ficou sentada nos degraus, segurando o guarda-chuva rosa, observando Mina se afastar. Ela não era mais apenas o "Cubo de Gelo". Ela era a garota que gostava de pinguins e que tinha mãos suaves.
De volta ao QG das amigas, a recepção foi barulhenta.
— Nós vimos! — Nayeon gritou. — Ela tocou no seu cabelo! O que foi aquilo? Ela estava tentando te estrangular e mudou de ideia?
— Ela sorriu — disse Jihyo, impressionada. — Eu nunca vi a Mina sorrir. Sana, você é uma bruxa. Qual é o seu segredo?
Sana se sentou, mas não tinha o mesmo entusiasmo de antes.
— Eu não sei — ela murmurou. — Acho que ela só precisava de alguém que não tivesse medo do silêncio dela.
— Bem, faltam vinte dias — Jeongyeon lembrou, animada. — O sushi está quase chegando. Continue assim e você vai conseguir o encontro antes do prazo.
Sana olhou para as amigas, sentindo um peso no estômago.
— É... o sushi.
Pela primeira vez em sua vida, Sana não estava com fome. Ela estava pensando na rachadura no gelo e no fato de que, se Mina descobrisse sobre a aposta, aquela rachadura se transformaria em um abismo que nenhuma quantidade de café gelado ou piadas sobre lontras conseguiria fechar.
O jogo tinha começado, mas Sana estava começando a perceber que, naquela aposta, quem corria o risco de perder o coração era ela mesma.
— Eu estou dizendo, Sana, você é carente demais. Se ficar cinco minutos sem receber um elogio, você começa a murchar como uma planta sem água — zombou Nayeon, ajeitando o arco de cabelo enquanto olhava o próprio reflexo na tela do celular.
— Eu não sou carente! — Sana protestou, fazendo um bico exagerado que só provava o ponto da amiga. — Eu sou apenas... comunicativa. O ser humano é um animal social, sabia?
— Comunicativa é apelido — Jeongyeon interveio, roubando uma batata frita da bandeja de Sana. — Você é um imã de pessoas. É irritante. Você consegue fazer amizade até com a estátua do fundador da faculdade se bobear.
Sana cruzou os braços, jogando seus cabelos rosados para trás com um ar de superioridade fingida.
— É um dom. Eu consigo conquistar qualquer um. Literalmente qualquer pessoa nesta instituição me adora.
Jihyo, que até então estava concentrada em organizar seu cronograma de estudos, levantou o olhar, um brilho travesso surgindo em seus olhos. Ela fechou o caderno com um estalo seco.
— Qualquer um, Sana? Tem certeza do que está dizendo?
Sana hesitou por meio segundo, mas o orgulho falou mais alto.
— Absoluta. Por quê?
Jihyo apontou discretamente com o queixo para a mesa mais isolada do refeitório, perto da janela. Lá, sentada sozinha com um par de fones de ouvido enormes e um livro de capa preta, estava Myoui Mina.
Mina era uma lenda urbana viva. Estudante de dança contemporânea, ela era dona de uma beleza que parecia esculpida em mármore, mas também de uma expressão tão gélida que diziam ser capaz de baixar a temperatura do ambiente em dez graus. Ela não falava com ninguém. Não sorria para ninguém. Era o "Cubo de Gelo" da universidade.
— Ela — disse Jihyo, com um sorriso desafiador. — Se você é tão irresistível assim, conquiste a Myoui Mina.
Nayeon e Jeongyeon pararam o que estavam fazendo instantaneamente, os olhos brilhando com a possibilidade de caos.
— Ah, não. Isso é golpe baixo — riu Nayeon. — A Myoui não é humana. Eu tentei pedir um apontador emprestado para ela no semestre passado e ela apenas me entregou o objeto sem desviar os olhos do livro. Quando eu devolvi e disse "obrigada", ela apenas acenou com a cabeça como se eu fosse um fantasma incômodo.
— Trinta dias — propôs Jeongyeon, batendo na mesa. — Se você conseguir fazer a Mina se apaixonar por você, ou pelo menos sair em um encontro real, a gente paga a sua conta naquele restaurante de sushi caro que você ama por um mês inteiro.
Sana olhou para Mina. A garota parecia tão distante que poderia estar em outro planeta. O desafio era absurdo. Era suicídio social. Mas o olhar de deboche de suas amigas era o combustível que Sana precisava.
— Trinta dias? — Sana perguntou, um sorriso astuto crescendo em seus lábios. — É tempo demais. Eu consigo em quinze.
— Não seja arrogante, Minatozaki — Jihyo riu. — Estamos falando da Mina. Ela é o chefe final desse videogame chamado vida social. Trinta dias. Valendo a partir de... agora.
Sana se levantou, ajeitando a saia e respirando fundo.
— Preparem os cartões de crédito, meninas. O sushi vai ser por conta de vocês.
Ela caminhou pelo refeitório com a confiança de uma modelo de passarela. Seus amigos observavam, prendendo o riso. Sana parou em frente à mesa de Mina. O silêncio ao redor da japonesa era quase palpável, uma bolha de isolamento que ninguém ousava romper.
Sana puxou a cadeira oposta e sentou-se com um impacto deliberado.
Mina não se mexeu. Seus olhos continuaram fixos nas páginas do livro.
— Oi! — Sana exclamou, com seu tom mais vibrante, acenando como se estivesse vendo uma amiga de infância. — Esse lugar está vago? Bom, agora está ocupado por mim. Eu sou a Sana!
Mina lentamente levantou o olhar. Seus olhos eram escuros, profundos e absolutamente desprovidos de qualquer emoção calorosa. Ela retirou apenas um dos lados do fone de ouvido, o suficiente para ouvir, mas deixando claro que a interrupção era indesejada.
— Você está sentada — disse Mina. Sua voz era baixa, calma e tão fria quanto Sana esperava. — Claramente não está vago.
— Você é engraçada! — Sana riu, ignorando o tom cortante. — Eu vi que você está sempre sozinha e pensei: "Nossa, aquela menina deve ter conversas incríveis consigo mesma, mas talvez ela queira compartilhar um pouco dessa sabedoria com o mundo". O que você está lendo?
Mina olhou para a capa do livro, depois para Sana.
— Um livro.
— Ah, jura? Eu achei que fosse um tijolo muito bem decorado — Sana brincou, apoiando o queixo nas mãos. — De que assunto? Romance? Suspense? Instruções de como construir um iglu?
Mina fechou o livro com calma, marcando a página com um marcador de seda.
— É um tratado sobre anatomia aplicada à dança. E eu gostaria de lê-lo em silêncio.
— Entendi, entendi. Você é do tipo focada — Sana não se deu por vencida. — Eu também sou muito focada. Sabia que eu consigo comer um pacote inteiro de salgadinho em menos de dois minutos? É um talento que exige muita concentração.
Mina piscou, parecendo genuinamente confusa por um milésimo de segundo, como se estivesse tentando processar se Sana era real ou uma alucinação causada pelo cansaço.
— Parabéns — disse Mina, secamente. Ela recolocou o fone de ouvido, abriu o livro e voltou a ignorar a existência de Sana.
Sana permaneceu ali por mais alguns minutos, sorrindo para o topo da cabeça de Mina, antes de se levantar e voltar para a mesa dos amigos. Jihyo, Nayeon e Jeongyeon estavam tendo crises de riso contidas.
— E aí, "conquistadora"? — Jeongyeon provocou. — Já marcaram o casamento ou vai ser só um noivado rápido?
— Ela me disse "parabéns" — Sana anunciou, vitoriosa, sentando-se novamente. — É o começo de uma conexão profunda.
— Ela disse "parabéns" porque você falou de salgadinhos, sua tonta! — Nayeon gargalhou. — Você está perdendo, Sana. O placar está: Cubo de Gelo 1, Furacão Rosa 0.
— Isso foi só o aquecimento — Sana pegou um canudo e apontou para as amigas. — Amanhã eu vou usar a artilharia pesada. Ninguém resiste ao meu charme por trinta dias. Nem mesmo a Rainha da Neve.
No dia seguinte, Sana decidiu que a abordagem direta precisava de um toque de "gentileza casual". Ela descobriu, através de uma investigação não muito discreta (perguntando para meio mundo no departamento de dança), que Mina gostava de café americano gelado, sem açúcar.
Sana esperou perto da sala de ensaio. Quando as portas se abriram e os alunos começaram a sair, exaustos e suados, ela avistou a silhueta elegante de Mina. Mesmo após horas de treino, ela parecia impecável, o cabelo preso em um coque firme, a postura ereta.
— Ei, Mina! — Sana saltou em sua direção, estendendo um copo de café. — Eu estava passando pela cafeteria e lembrei que você tem cara de quem precisa de cafeína.
Mina parou, olhando para o copo e depois para Sana. Ela não parecia surpresa, apenas... cansada.
— Por que você faria isso? — perguntou Mina.
— Porque eu sou legal? — Sana inclinou a cabeça para o lado. — E porque café é o abraço que a gente toma por dentro.
Mina hesitou. Por um momento, Sana achou que ela fosse recusar e talvez jogar o café no chão, mas a bailarina apenas pegou o copo, seus dedos roçando levemente nos de Sana. O toque foi breve, mas Sana sentiu um estalo de eletricidade que não esperava.
— Obrigada — disse Mina. Ela deu um gole, sua expressão não mudando nem um milímetro. — Mas eu não vou te dar as respostas da prova de história da arte, se é isso que você quer.
Sana soltou uma gargalhada genuína.
— Eu nem estou nessa aula! Eu só queria ser gentil. É proibido ser gentil no seu planeta?
Mina a observou por um tempo que pareceu longo demais. Havia algo de analítico em seu olhar, como se ela estivesse tentando decifrar um código complexo.
— No meu planeta, as pessoas geralmente querem algo em troca — Mina respondeu, começando a caminhar. — O café está bom. Adeus, Sana.
— É um progresso! — Sana gritou para as costas dela. — Ela lembrou meu nome! Vocês ouviram isso?
Escondidas atrás de um pilar, Jihyo e Nayeon observavam a cena.
— Ela lembrou o nome dela — comentou Jihyo, anotando algo em um caderninho. — Mas ainda parece que quer distância.
— A Sana é persistente — disse Nayeon, mastigando um chiclete. — Mas a Mina é uma fortaleza. Eu dou mais três dias para a Sana desistir e começar a chorar porque não recebeu atenção.
O que as amigas não sabiam era que Sana estava começando a achar o desafio mais interessante do que o prêmio. Havia algo no silêncio de Mina que a intrigava. Não parecia apenas grosseria; parecia uma proteção. Uma barreira construída com cuidado.
Na semana seguinte, Sana tentou de tudo. Ela apareceu na biblioteca com "lanches silenciosos" (que acabaram fazendo barulho e rendendo uma bronca da bibliotecária), deixou bilhetes com piadas ruins no armário de Mina e até tentou aprender alguns passos de balé no corredor, o que resultou em ela quase derrubando um vaso de plantas e Mina apenas passando por ela com um suspiro pesado.
— Você não desiste, não é? — Mina perguntou no décimo dia, quando Sana se sentou ao lado dela nos degraus da entrada da faculdade durante uma chuva torrencial.
— Desistir é uma palavra que não existe no meu dicionário — Sana respondeu, abrindo um guarda-chuva enorme e rosa, cobrindo as duas. — Além disso, está chovendo. Você ia se molhar.
Mina olhou para a chuva, depois para o guarda-chuva rosa que tinha orelhas de gatinho.
— Você é muito estranha.
— E você é muito quieta. A gente se equilibra — Sana sorriu, o rosto iluminado pela luz cinzenta da tarde. — Sabe, o pessoal diz que você é fria. Mas eu acho que você só é seletiva.
Mina virou o rosto para ela. Pela primeira vez, não havia apenas indiferença em seus olhos. Havia uma ponta de curiosidade.
— E por que você me selecionou para ser o alvo da sua... alegria incessante?
Sana sentiu o coração dar um pulinho. Ela não podia dizer que era por causa de uma aposta de sushi. Não agora.
— Porque eu achei que você parecia alguém que tem um mundo inteiro dentro da cabeça, mas ninguém para visitar — Sana disse, sua voz perdendo um pouco do tom brincalhão e soando mais sincera. — Eu gosto de visitar mundos novos.
Mina desviou o olhar, um leve tom rosado surgindo em suas bochechas, quase imperceptível.
— Meu mundo é entediante. Não tem nada além de música clássica e dor muscular.
— Eu duvido — Sana se aproximou um pouco mais, o ombro encostando no de Mina. — Aposto que você gosta de coisas bobas também. Tipo... vídeos de lontras de mãos dadas. Todo mundo gosta de lontras.
Houve um silêncio. Sana achou que tinha passado do ponto, mas então, ouviu um som que parecia um milagre.
Mina soltou um risinho. Foi curto, quase um sopro, mas foi um riso.
— Eu prefiro pinguins — confessou Mina, com a voz bem baixa.
Sana sentiu como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Ela olhou para o refeitório, onde suas amigas provavelmente estavam observando de longe, e sentiu uma ponta de culpa. A aposta tinha começado como uma brincadeira, mas aquele pequeno riso de Mina... aquilo parecia real demais para ser parte de um jogo.
— Pinguins são ótimos — Sana disse, sorrindo de orelha a orelha. — Eles também andam de mãos dadas. Bem, de nadadeiras dadas.
Mina olhou para Sana, e por um breve momento, a barreira de gelo pareceu ter uma rachadura.
— Você tem algo no cabelo — disse Mina. Ela estendeu a mão e removeu uma pequena pétala de flor que tinha caído da árvore próxima.
O gesto foi tão delicado que Sana esqueceu como se respirava por três segundos.
— Obrigada — sussurrou Sana.
— De nada — Mina se levantou, ajeitando a mochila. — A chuva parou. Vejo você por aí, Sana.
Sana ficou sentada nos degraus, segurando o guarda-chuva rosa, observando Mina se afastar. Ela não era mais apenas o "Cubo de Gelo". Ela era a garota que gostava de pinguins e que tinha mãos suaves.
De volta ao QG das amigas, a recepção foi barulhenta.
— Nós vimos! — Nayeon gritou. — Ela tocou no seu cabelo! O que foi aquilo? Ela estava tentando te estrangular e mudou de ideia?
— Ela sorriu — disse Jihyo, impressionada. — Eu nunca vi a Mina sorrir. Sana, você é uma bruxa. Qual é o seu segredo?
Sana se sentou, mas não tinha o mesmo entusiasmo de antes.
— Eu não sei — ela murmurou. — Acho que ela só precisava de alguém que não tivesse medo do silêncio dela.
— Bem, faltam vinte dias — Jeongyeon lembrou, animada. — O sushi está quase chegando. Continue assim e você vai conseguir o encontro antes do prazo.
Sana olhou para as amigas, sentindo um peso no estômago.
— É... o sushi.
Pela primeira vez em sua vida, Sana não estava com fome. Ela estava pensando na rachadura no gelo e no fato de que, se Mina descobrisse sobre a aposta, aquela rachadura se transformaria em um abismo que nenhuma quantidade de café gelado ou piadas sobre lontras conseguiria fechar.
O jogo tinha começado, mas Sana estava começando a perceber que, naquela aposta, quem corria o risco de perder o coração era ela mesma.
