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Gatinho carente

Fandom: História original

Creado: 26/4/2026

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Fitas, Brownies e Outras Provocações

A casa estava em um silêncio raro, quase sagrado. Isaque aproveitava cada segundo daquela paz. Sua mãe, Agatha, tinha levado a pequena Amber para a escola antes de arrastar Kalia para o shopping — uma missão que provavelmente terminaria com Agatha sem paciência e Kalia com cinco sacolas novas. Seu pai, Breno, estava no trabalho, o que significava que o videogame da sala era todo dele.

Isaque estava jogado no sofá, os dreads longos espalhados pela almofada, concentrado em uma partida intensa de vôlei no PC. Ele usava apenas uma regata preta larga, que deixava à mostra as tatuagens nos braços e o brilho metálico dos seus vários piercings. O piercing na sobrancelha reluzia sob a luz da sala, e ele mordia levemente o lábio inferior, fazendo o *snake bites* tilintar contra os dentes.

O silêncio, porém, durou pouco.

Batidas rítmicas e exageradas ecoaram na porta da frente. Isaque nem precisou olhar pelo olho mágico. Ele conhecia aquele ritmo. Era a "batida oficial" de quem não pedia licença para entrar na sua vida.

— Já vai, já vai! — resmungou Isaque, largando o controle e se levantando com sua habitual pose de durão, embora o coração já tivesse começado a dar saltos descompassados no peito.

Ao abrir a porta, ele deu de cara com um turbilhão de cores e energia. Kaio estava parado ali, com aquele sorriso largo que fazia seus olhos esverdeados quase sumirem. A pele bronzeada contrastava com o cabelo loiro de raiz escura, e as sardas no rosto pareciam mais vibrantes sob o sol da tarde. Ele usava uma camisa de botão aberta, estampada com personagens da Marvel, por cima de uma regata branca tão fina que era quase transparente.

— Adivinha quem não aguentou de saudade e veio te ver? — Kaio entrou sem esperar convite, jogando a mochila no chão.

— Você veio aqui ontem, Kaio. — Isaque fechou a porta, tentando manter a voz firme, apesar de sentir o rosto esquentar. — E mora aqui metade da semana.

— Ontem faz muito tempo, Zake — Kaio se virou, caminhando de costas em direção à cozinha. — Além disso, meu pai resolveu começar um sermão sobre "responsabilidades" e eu achei que a sua geladeira seria um lugar muito mais acolhedor para a minha saúde mental.

Isaque suspirou, mas havia um canto de boca que insistia em subir. Ele odiava o calor, odiava barulho, mas nunca conseguia odiar a presença de Kaio. Na verdade, Kaio era a única exceção para quase todas as suas regras.

— Minha mãe foi pro shopping com a Kalia — Isaque comentou, seguindo-o. — A casa está vazia.

Kaio parou de repente e se virou para Isaque, arqueando uma sobrancelha de forma sugestiva.

— Casa vazia, é? — Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Isaque. — Isso soa como um convite perigoso, Zake. O que você pretende fazer comigo sem ninguém por perto para te impedir?

Isaque travou. O piercing na língua de Kaio brilhou quando ele sorriu de lado. Isaque sentiu o suor frio na nuca. Ele era maior, mais forte e cheio de piercings que lhe davam um ar de "poucos amigos", mas perto de Kaio, ele se sentia como um filhote de cachorro acuado.

— Eu... eu ia fazer brownies — Isaque gaguejou, desviando o olhar para o balcão da cozinha.

Kaio soltou uma gargalhada alta e gostosa, jogando a cabeça para trás.

— Brownies! Você é um fofo, sabia? Todo metaleiro, cheio de ferro na cara, mas no fundo é uma dona de casa que gosta de assar bolinhos.

— Eu gosto de cozinhar, não enche — Isaque resmungou, sentindo as bochechas queimarem. — E você gosta de comer, então cala a boca e me ajuda.

— Só se você me deixar escolher a música — Kaio disse, já puxando o celular e conectando na caixa de som da cozinha.

Em poucos segundos, o som pesado de Nu Metal que Isaque preferia foi substituído por um MPB clássico e animado. Kaio começou a balançar o corpo no ritmo da música enquanto pegava os ingredientes no armário. Ele sabia exatamente onde tudo ficava; afinal, aquela casa era mais dele do que a sua própria.

Enquanto Isaque quebrava os ovos e derretia o chocolate (amargo não, porque Kaio detestava), ele observava o amigo pelo canto do olho. Kaio estava vibrante. Ele falava sem parar sobre a nova HQ que tinha lido e sobre como o Homem de Ferro era superior ao Capitão América, gesticulando tanto que quase derrubou o pote de farinha.

— Zake, está muito calor aqui, né? — Kaio perguntou, puxando a gola da camisa.

Isaque deu de ombros.

— Para mim está normal. Você que não aguenta um solzinho.

— Ah, para. Você ama o frio porque pode usar essas roupas pretas e se esconder — Kaio disse, e sem nenhum aviso, começou a desabotoar a camisa de personagens. — Vou tirar isso, senão vou derreter na sua cozinha.

Isaque sentiu o ar escapar dos pulmões. Ele sabia, desde aquela conversa séria que tiveram meses atrás, que Kaio era um garoto trans. Ele lembrava da vulnerabilidade nos olhos de Kaio naquele dia, e de como sua única reação foi abraçá-lo e dizer que nada mudaria. E nada mudou, exceto o fato de Isaque se sentir ainda mais protetor e perdidamente apaixonado.

Kaio tirou a camisa, ficando apenas com a regata branca por baixo. Por ser muito cavada e clara, as fitas que ele usava para comprimir o peito ficavam levemente visíveis nas laterais e sob o tecido. Era algo íntimo, algo que Kaio só fazia ali, na segurança da casa de Isaque, longe dos olhos julgadores do próprio pai ou da disforia que o perseguia em lugares públicos.

— Melhorou — Kaio suspirou, voltando a mexer na massa do brownie. — O que foi? Tá me olhando com essa cara de quem viu um fantasma.

— Nada — Isaque disse rápido demais, focando intensamente em misturar o açúcar. — Só... cuidado para não sujar a fita de chocolate.

Kaio parou o que estava fazendo e olhou para o próprio corpo, depois para Isaque. Um sorriso travesso cruzou seu rosto.

— Oh, então você estava reparando? — Ele se aproximou de Isaque, apoiando o quadril no balcão. — Se você queria me ver sem camisa, era só pedir, Zake. Não precisa ficar secando o seu melhor amigo em silêncio.

— Eu não estava secando ninguém! — Isaque exclamou, a voz saindo um oitava mais aguda.

— Estava sim. Seus olhos estavam quase saindo da órbita. Se eu soubesse que você gostava tanto de ver um pouco de pele, eu teria vindo mais cedo.

Kaio esticou a mão e, com o dedo sujo de massa de chocolate, tocou a ponta do nariz de Isaque.

— Você fica tão bonitinho quando está nervoso. Os piercings até balançam.

Isaque sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele queria dizer algo inteligente, algo que mostrasse que ele não era tão afetado assim, mas o toque de Kaio, mesmo que fosse apenas um pingo de chocolate no nariz, o desarmava completamente.

— Você é um idiota — Isaque murmurou, limpando o nariz com a mão.

— Um idiota que você adora — rebateu Kaio, piscando um olho. — Agora anda logo com esse brownie, eu quero comer antes que a Kalia chegue e tente roubar tudo.

Eles terminaram de preparar a massa entre piadas de duplo sentido de Kaio e silêncios carregados de tensão por parte de Isaque. Enquanto o doce assava no forno, espalhando um cheiro maravilhoso pela casa, os dois se sentaram no chão da cozinha, encostados nos armários.

— Sabe, Zake... — Kaio começou, o tom de voz subitamente mais baixo e sério. — Obrigado por me deixar ficar aqui. De verdade.

Isaque olhou para ele. Kaio estava abraçando os joelhos, os olhos perdidos em algum ponto da parede.

— Você sabe que não precisa agradecer. Meus pais te adoram. A Amber acha que você é um super-herói da Marvel disfarçado.

Kaio riu baixo.

— É, eu sei. Mas é que aqui... aqui eu não preciso ser o "filho problemático". Eu posso só ser eu. Posso usar minhas fitas sem ninguém me olhar como se eu fosse um erro.

Isaque sentiu uma onda de carinho tão forte que, por um momento, a timidez foi deixada de lado. Ele estendeu a mão e a colocou sobre o ombro de Kaio, apertando levemente.

— Você nunca vai ser um erro, Kaio. Para ninguém nesta casa. E especialmente não para mim.

Kaio virou o rosto para ele. A proximidade era perigosa. Isaque conseguia ver cada pequena sarda no nariz de Kaio, conseguia sentir o calor que emanava dele. Por um segundo, o tempo pareceu parar. Kaio olhou para os lábios de Isaque, para os *snake bites* que ele tanto gostava de provocar.

— Zake... — Kaio sussurrou, a animação habitual dando lugar a algo muito mais profundo.

O "bipe" do forno soou, cortando o momento como uma lâmina afiada.

Isaque deu um pulo, levantando-se rapidamente.

— O brownie! Tá pronto!

Kaio soltou um suspiro frustrado, mas logo recuperou o sorriso brincalhão, embora houvesse um brilho diferente em seus olhos agora.

— Salvo pelo gongo, hein, Isaque? Mas não se preocupa, a gente ainda tem muito tempo antes da sua mãe chegar.

Isaque tirou a assadeira do forno com as mãos trêmulas. Ele sabia que Kaio estava jogando com ele, mas, pela primeira vez, começou a se perguntar se aquelas provocações eram apenas brincadeiras de um amigo extrovertido ou se Kaio estava tentando dizer algo que Isaque tinha medo de acreditar.

— Ei — Kaio chamou, já pegando uma faca para cortar o doce quente. — Depois que a gente comer, quer ver aquele desenho novo que saiu?

— Quero — Isaque respondeu, sentindo o ambiente voltar ao normal, mas com uma nova eletricidade no ar.

— Ótimo. Mas eu escolho o lugar no sofá. E já vou avisando: se você chegar muito perto, eu não me responsabilizo pelos meus atos.

Kaio piscou, pegando um pedaço de brownie e levando à boca, sujando o canto dos lábios propositalmente.

— Limpa aqui para mim, Zake?

Isaque suspirou, pegando um guardanapo e entregando ao amigo com uma expressão de falsa irritação. No fundo, ele sabia que, enquanto Kaio estivesse ali, provocando-o e enchendo sua casa de vida, ele seria o cara mais sortudo do mundo — mesmo que seu coração não estivesse preparado para o próximo round.

Longe dali, no shopping, Agatha sorriu para o celular ao ver uma notificação de transação na padaria perto de casa. Ela olhou para Kalia, que reclamava de um sapato.

— Dez reais que eles estão fazendo doce de novo e o Isaque está vermelho como um pimentão — Agatha murmurou para si mesma.

— O que disse, mãe? — Kalia perguntou.

— Nada, querida. Só pensando que o seu irmão finalmente está aprendendo a cozinhar para quem ele gosta.
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