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Atirei pedras na cruz

Fandom: Ravena.(/fic q Ravena era dona do morro e eu a menina da igreja certinha Eu tinha crush nela mas finjo q n)

Creado: 2/5/2026

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Entre o Altar e o Abismo

O sol estava se pondo atrás do Morro de Azarath, tingindo o céu com tons de violeta e carmesim que pareciam sangrar sobre os barracos amontoados. Eu estava sentada no último degrau da escadaria da igrejinha de Santa Bárbara, com a Bíblia descansando sobre o colo e as mãos entrelaçadas sobre o vestido floral que batia abaixo dos joelhos. O sino da paróquia havia acabado de tocar, mas eu não tinha pressa de descer.

Eu sabia que ela apareceria. Ela sempre aparecia quando a luz começava a sumir.

Ravena não era apenas a dona do morro; ela era a própria sombra que o governava. Diziam que ela tinha pactos, que seus olhos brilhavam em um roxo sobrenatural quando estava com raiva e que ninguém que cruzasse seu caminho saía ileso. Para o resto da comunidade, ela era o perigo. Para mim, ela era o segredo que eu guardava entre as páginas dos meus salmos.

O som das botas pesadas contra o cimento rachado ecoou. Eu não precisei olhar para saber que ela estava vindo. O ar ao meu redor pareceu ficar mais denso, carregado de uma eletricidade que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem.

— Rezando pela minha alma de novo, santinha? — A voz dela era rouca, profunda, como o som de um trovão distante.

Eu levantei o olhar devagar. Ravena usava sua habitual capa escura com capuz, embora o calor do Rio de Janeiro fosse sufocante para qualquer outro mortal. Por baixo, uma regata preta revelava as tatuagens rúnicas que subiam por seus braços pálidos. Ela parou a dois degraus de distância, a altura ideal para que seus olhos ficassem no nível dos meus.

— A oração nunca é demais, Ravena — respondi, mantendo a voz mansa, o tom que eu usava no coro da igreja. — Principalmente para quem carrega o peso que você carrega.

Ela soltou um riso seco, um som que não chegava aos olhos, mas que vibrava no meu peito. Ela se aproximou mais um passo, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dela era uma mistura inebriante de incenso de sândalo e algo metálico, como chuva antes de cair.

— Você fala de peso como se soubesse o que é viver aqui fora — ela disse, inclinando o corpo para frente. — Mas você fica aí dentro, protegida pelo seu Deus e por essas paredes brancas. Por que não desce para o asfalto comigo hoje?

— Sabe que não posso. Tenho o ensaio do ministério — menti, sentindo meu coração martelar contra as costelas.

A verdade é que eu queria. Eu queria largar o livro, segurar a mão dela e deixar que ela me levasse para onde quer que fosse o seu reino de sombras. Mas eu tinha um papel a cumprir. Eu era a "menina da igreja", a pureza em meio ao caos. Se eu cedesse, o que restaria de nós duas?

Ravena esticou a mão. Seus dedos, longos e de unhas pintadas de preto, roçaram a lateral do meu rosto. O toque era frio, mas queimava como brasa. Eu fechei os olhos por um segundo, traindo minha própria fachada.

— Você mente mal para uma serva do Senhor — sussurrou ela, a boca tão próxima do meu ouvido que eu podia sentir o calor de sua respiração. — Eu vejo como você olha para mim quando acha que ninguém está vendo. Não é piedade o que eu vejo nos seus olhos.

— É amor, Ravena — eu disse, abrindo os olhos e encontrando os dela, que agora brilhavam com uma intensidade perigosa. — Eu amo a sua alma. Eu rezo para que você encontre a paz.

— Amor de alma? — Ela soltou uma risada amarga e se afastou apenas o suficiente para me encarar de cima a baixo. — Não me venha com essa conversa espiritual. Suas mãos estão tremendo. O seu pulso está acelerado. Você me deseja tanto quanto deseja o paraíso, e isso te apavora.

— Você está enganada — eu disse, embora minha voz tenha saído um oitavo mais aguda do que o normal. — O que sentimos é uma conexão... espiritual. Uma prova de que até no lugar mais escuro, a luz tenta entrar.

Ravena deu um passo súbito, subindo o degrau e ficando entre minhas pernas, as mãos apoiadas no encosto do degrau acima de mim, me cercando. Eu estava encurralada entre o concreto e a dona do morro.

— Então prova — desafiou ela. — Se é só a minha alma que você ama, por que não consegue me encarar sem desviar o olhar para a minha boca? Por que seu corpo se inclina para o meu toda vez que o vento sopra?

Eu engoli em seco. A tensão entre nós era um fio de aço prestes a arrebentar. Eu podia ver o brilho de suor no pescoço dela, a pulsação forte na base de sua garganta. O desejo era uma entidade física ali, sentada entre nós, rindo da minha hipocrisia.

— Eu não me deixo levar pelas tentações da carne — recitei, a frase saindo automática, quase mecânica.

— A carne é a única coisa real que temos aqui, pequena — disse ela, baixando o tom de voz até virar um murmúrio pecaminoso. — Eu mando nesse morro. Eu decido quem vive e quem morre. Mas quando eu chego perto de você, eu perco o controle. E eu sei que você sente o mesmo. Eu sinto o seu calor através desse vestido cafona.

Ela levou a mão à minha nuca, puxando levemente os fios de cabelo que escapavam do meu coque. A dorzinha boa me fez soltar um suspiro trêmulo.

— Ravena, por favor... — eu pedi, mas nem eu sabia se estava pedindo para ela parar ou para ela continuar.

— Por favor, o quê? — Ela roçou o nariz no meu, um gesto de uma intimidade devastadora. — Admite. Diz que você quer que eu te leve para o meu quarto, que eu tire essa Bíblia da sua mão e mostre o que é o verdadeiro êxtase.

— Eu amo... a sua alma — repeti, como um mantra de proteção, embora minhas mãos tivessem subido por instinto para os ombros dela, sentindo os músculos firmes sob o tecido fino.

— Sua mentirosa — ela murmurou, e por um momento achei que ela fosse me beijar.

Nossos lábios estavam a milímetros de distância. Eu podia sentir o gosto de menta do hálito dela. O mundo ao redor — os gritos das crianças brincando lá embaixo, o som do funk vindo de um bar distante, o latido dos cachorros — tudo desapareceu. Só existia aquele espaço minúsculo entre nós, carregado de pecados não cometidos e promessas de perdição.

De repente, o som de uma porta batendo nos fundos da igreja nos trouxe de volta. Era o sacristão começando a fechar as janelas laterais.

Ravena se afastou bruscamente, a expressão voltando a ser a máscara de frieza e autoridade que ela usava para governar Azarath. Ela ajeitou a capa, mas seus olhos ainda guardavam brasas acesas.

— A missa acabou, santinha — disse ela, recuperando o fôlego. — Mas eu vou estar lá embaixo, no baile, mais tarde. Se a sua alma quiser me visitar, você sabe onde me encontrar.

— Eu vou orar por você — respondi, tentando recuperar minha dignidade enquanto ajeitava meu vestido.

— Ore — ela sorriu de lado, um sorriso predatório e fascinante. — Mas ore com vontade. Porque na próxima vez que eu te encurralar naquela escada, eu não vou me importar com quem está assistindo, nem com o que o seu Deus vai pensar.

Ela virou as costas e começou a descer os degraus com a graça de uma pantera negra. Eu fiquei ali, estática, o coração batendo tão forte que chegava a doer. Olhei para a Bíblia em minhas mãos, mas as palavras pareciam borradas.

Eu a amava apenas como alma, eu dizia a mim mesma. Eu era a menina da igreja, e ela era a escuridão. Mas, enquanto eu a via desaparecer na névoa que subia do morro, eu sabia que a mentira estava ficando pesada demais para carregar.

O problema não era que Ravena era o demônio. O problema era que, para mim, ela era o único céu que eu realmente queria conhecer.

Suspirei, sentindo o calor do toque dela ainda marcado na minha pele. Levantei-me, limpei a poeira do vestido e entrei na igreja. O incenso do altar agora parecia sem graça comparado ao sândalo dela. Ajoelhei-me diante da imagem de Santa Bárbara, fechei os olhos e comecei a rezar.

Mas, pela primeira vez na vida, eu não estava pedindo perdão. Eu estava pedindo força para não descer aquele morro e me entregar ao que eu mais temia — e ao que eu mais desejava.

— Senhor — murmurei, a voz falhando —, proteja a alma dela.

E, em um sussurro que só as paredes de pedra ouviram, acrescentei:

— E proteja a minha, porque eu não sei por quanto tempo vou conseguir fingir.

Lá fora, a noite caiu de vez sobre o Morro de Azarath. As luzes da favela começaram a brilhar como estrelas caídas, e eu sabia que, em algum lugar em meio àquela constelação de perigo, Ravena estava esperando por mim. E ela sabia, com a certeza de quem domina as sombras, que as almas podiam ser eternas, mas a carne... a carne sempre tinha pressa.
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