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Paixão proibida

Fandom: Nao tem. Acontece num colégio de ensino médio

Creado: 4/5/2026

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A Gramática do Silêncio

O sinal estridente do intervalo ainda ecoava nos corredores do Colégio Estadual Machado de Assis, mas no fundo da sala 204, o tempo parecia ter uma cadência diferente. Eshilly não tinha pressa. Ela guardava o material com uma lentidão quase coreografada, os olhos fixos na figura que, à frente do quadro negro, apagava as orações subordinadas substantivas com movimentos precisos e metódicos.

Sueli Abreu era uma constante. Cabelos curtos, perfeitamente alinhados, que nunca ousavam sair do lugar. A sapatilha preta, gasta mas impecável, que não emitia som algum ao caminhar. Ela era o oposto do caos adolescente que a rodeava. Enquanto os outros alunos a viam como uma estátua de gelo, uma carrasca da gramática que nunca sorria e raramente falava algo além do conteúdo programático, Eshilly via poesia.

— Vai ficar aí plantada até o próximo período ou vai comer alguma coisa? — Heloisy sussurrou ao lado dela, dando um cutucão no braço da amiga.

— Shhh! — Eshilly sibilou, sentindo o rosto esquentar. — Ela vai ouvir.

— Ela não ouve nem o sinal da liberdade, Eshilly, quanto mais a gente — Heloisy riu, ajeitando a mochila. — Mas sério, hoje ela estava com aquele olhar de "vou reprovar metade da linhagem de vocês". Como você consegue achar isso atraente?

— É o mistério, Helô. Você não entende — Eshilly suspirou, finalmente fechando o zíper da mochila. — Ela é... sólida. Num mundo de gente efêmera, a Sueli é um monumento.

As duas saíram da sala, mas não antes de Eshilly lançar um último olhar para trás. Sueli estava agora sentada à mesa, organizando uma pilha de redações. O rosto era uma máscara de seriedade, as sobrancelhas levemente franzidas em concentração. Para Eshilly, aquele era o ápice da beleza.

No pátio, sentadas no banco de cimento sob a sombra de uma mangueira, Heloisy abriu o seu caderno de anotações, mas não o de química. Era o caderno onde as duas, entre risos e sussurros, construíam o universo paralelo onde Sueli Abreu não era apenas a professora rígida de 45 anos, casada e com um filho de vinte e poucos anos que já seguia a própria vida.

— Ok, nova cena para a nossa "fanfic da vida real" — começou Heloisy, com um brilho travesso nos olhos. — Imagine que a sapatilha dela quebra bem no meio do corredor. Ela entra em pânico, porque odeia salto alto e não tem reserva. Aí você, como uma cavaleira andante, surge com um par de sapatilhas idênticas que você comprou só por precaução.

Eshilly soltou uma risada alta, escondendo o rosto entre as mãos.

— Meu Deus, Helô! Isso é ridículo. Ela nunca quebraria uma sapatilha, aquelas coisas são indestrutíveis, assim como ela.

— Deixa eu sonhar! — Heloisy protestou. — E aí, nesse momento de vulnerabilidade, ela olha para você e diz: "Eshilly, você é a única que me entende nesta escola de bárbaros".

— Quem dera — Eshilly murmurou, o sorriso diminuindo para algo mais melancólico. — Ela nem sabe que eu existo fora da lista de chamada. Ela tem uma vida, Helô. Um marido que deve ser super culto, um filho que já é homem... Ela nunca olharia para uma garota de dezessete anos que mal sabe interpretar um soneto de Camões sem gaguejar.

— Mas ela olha — Heloisy pontuou, ficando séria por um momento. — Nas aulas, ela olha para você, Eshilly. Eu vejo.

— Ela olha porque eu sou a única que não faz bagunça — justificou a garota, embora o coração desse um salto. — Ou porque ela acha que eu sou doida, já que eu fico encarando ela com cara de quem quer rir.

— E por que você faz essa cara? — Heloisy perguntou, embora já soubesse a resposta.

— É o nervoso! — Eshilly exclamou. — Se eu não fizer aquela cara de riso, eu começo a chorar ou me confesso ali mesmo na frente de todo mundo. O riso é meu escudo.

O sinal tocou novamente. Era hora da aula de Português, a segunda do dia. O momento em que o mundo de Eshilly se resumia às quatro paredes da sala e à voz monótona, porém firme, de Sueli.

Ao entrarem na sala, o ambiente mudou instantaneamente. O barulho cessou assim que a professora se levantou. Sueli não precisava gritar; sua presença impunha um silêncio respeitoso, nascido do medo para a maioria, e da devoção para uma.

— Abram o livro na página 142 — disse Sueli, a voz seca como papel antigo. — Vamos analisar a estrutura das orações reduzidas.

Eshilly sentou-se na última fila, como de costume. Ela abriu o livro, mas seus olhos logo se desviaram para a professora. Sueli caminhava entre as fileiras, as mãos cruzadas atrás das costas. Quando ela se aproximou do fundo da sala, o ar pareceu ficar mais denso.

Sueli parou exatamente ao lado da carteira de Eshilly. Ela não disse nada por alguns segundos, apenas observando o livro da aluna. Eshilly sentiu o perfume dela — algo suave, como sabonete de lavanda e papel novo. Era um cheiro limpo, organizado.

De repente, Sueli inclinou-se levemente.

— Alguma dúvida, senhorita Eshilly? — perguntou ela, baixo o suficiente para que apenas a garota ouvisse.

Eshilly levantou o olhar. Os olhos de Sueli eram de um castanho profundo, quase impenetráveis. Naquele momento, a conexão aconteceu. Era o encarar que Heloisy mencionara. Sueli não desviou o olhar; ela sustentou a conexão, analisando o rosto da aluna com uma intensidade que beirava o desconfortável.

Eshilly sentiu a risada nervosa subindo pela garganta. Seus lábios se curvaram naquele sorriso contido, quase uma careta de diversão, enquanto suas bochechas ardiam.

— Nenhuma, professora — respondeu Eshilly, a voz falhando levemente. — Está tudo muito claro.

Sueli permaneceu ali por mais dois segundos — que para Eshilly pareceram horas. Houve um lampejo de algo nos olhos da professora, um breve tremor na máscara de gelo, antes que ela se endireitasse e voltasse para a frente da sala.

— Pois bem — continuou Sueli, sem alterar o tom. — Se está claro para a Eshilly, deve estar para todos. Continuem o exercício.

Heloisy, duas carteiras à frente, virou-se discretamente e piscou para a amiga. Eshilly, no entanto, não conseguiu retribuir. Ela estava ocupada demais tentando acalmar as batidas do próprio coração.

Aqueles 0,5% de esperança, aquela fagulha irracional que dizia que talvez, sob aquela superfície rígida e aquela vida perfeitamente heteronormativa, houvesse algo que Sueli reconhecia em Eshilly, brilharam intensamente.

Ao final da aula, enquanto os alunos saíam apressados, Sueli chamou:

— Eshilly, por favor, um momento.

O coração da garota quase parou. Heloisy lançou um olhar de "boa sorte ou adeus" e saiu com a multidão. Eshilly caminhou até a mesa da professora, sentindo as pernas de algodão.

Sueli estava guardando suas canetas em um estojo de couro. Ela não olhou para cima imediatamente.

— Você tem tido um desempenho excelente, Eshilly — começou ela, a voz ainda formal. — Suas redações mostram uma sensibilidade que não é comum na sua idade.

— Obrigada, professora — Eshilly disse, o sorriso de vergonha ainda presente, mas agora mais suave.

Sueli finalmente olhou para ela. Ela não sorriu, mas sua expressão estava menos tensa.

— No entanto — continuou Sueli —, você passa as aulas me encarando como se eu fosse uma piada ou um enigma. Qual dos dois é?

Eshilly sentiu o chão sumir. A pergunta era direta demais, desarmante demais.

— Eu não acho que a senhora seja uma piada, professora — Eshilly respondeu, a coragem vindo de algum lugar profundo. — Eu acho que a senhora é... a pessoa mais interessante que eu já conheci. O riso é só porque eu não sei lidar com coisas que eu admiro muito.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sueli Abreu, a mulher que nunca perdia a compostura, desviou o olhar primeiro. Ela ajeitou a sapatilha preta sob a mesa e fechou a pasta com um estalo seco.

— Vá para o intervalo, Eshilly — disse ela, voltando ao tom profissional. — E tente focar mais no conteúdo e menos na professora. A admiração não cai na prova de vestibular.

— Sim, senhora — Eshilly murmurou, dando um passo para trás.

Ao chegar à porta, ela parou e olhou uma última vez. Sueli ainda estava lá, mas suas mãos, antes tão firmes, agora tamborilavam nervosamente sobre a mesa de madeira.

Eshilly sorriu, desta vez de verdade. Talvez os 0,5% não fossem apenas imaginação. Talvez, na gramática rígida da vida de Sueli Abreu, houvesse uma nota de rodapé escrita com o nome de uma aluna que se atrevia a encará-la sem medo.

Lá fora, Heloisy já a esperava com o caderno aberto.

— E aí? O que aconteceu? Ela te deu uma detenção ou te declarou amor eterno em latim?

— Nem um, nem outro — Eshilly disse, pegando o braço da amiga e começando a caminhar. — Mas acho que acabei de escrever o melhor capítulo da nossa história até agora.

— Me conta tudo! — Heloisy exclamou, animada.

E enquanto caminhavam pelo corredor barulhento, Eshilly sentia que, por mais que Sueli fosse casada, tivesse um filho e uma vida inteira de regras, aquele breve momento de hesitação na mesa da professora era tudo o que ela precisava para continuar sonhando. Afinal, a língua portuguesa era cheia de exceções às regras, e talvez, apenas talvez, o amor também fosse.
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