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Sem pressa
Fandom: Outer banks
Creado: 6/5/2026
Etiquetas
RomanceDramaAngustiaPsicológicoCelosUso de DrogasAbuso de AlcoholAmbientación CanonEstudio de Personaje
O Fantasma da Rua Figure Eight
O ar de Outer Banks tem um cheiro específico. É uma mistura de salitre, protetor solar caro e pântano. Um cheiro que eu tentei, com todas as minhas forças, lavar da minha pele durante os últimos dois anos. Mas assim que o carro do meu pai cruzou a ponte e os pneus cantaram no asfalto quente da ilha, eu senti como se nunca tivesse saído. E isso era exatamente o que eu mais temia.
Eu tinha quatorze anos quando fui embora. Agora tenho dezesseis. Dois anos não parecem muito tempo na teoria, mas na prática, sinto que vivi uma década inteira em outro estado, tentando me convencer de que aquela menina impulsiva e de coração acelerado tinha ficado para trás.
— Amber, querida, você pode pelo menos tentar parecer um pouco menos infeliz? — Minha mãe falou do banco do passageiro, sem tirar os olhos do celular. — É uma casa nova, vida nova. Bom, tecnicamente a mesma casa, mas você entende o que quero dizer.
— Eu entendo, mãe — respondi, encostando a testa no vidro frio da janela. — Só estou cansada da viagem.
Mentira. Eu estava apavorada.
Passamos pelas entradas de condomínios luxuosos, pelos campos de golfe impecáveis e, finalmente, entramos na Figure Eight. O lado rico da ilha. O lado onde as aparências valem mais do que o caráter e onde os segredos são enterrados em jardins perfeitamente podados.
Quando o carro parou em frente à nossa antiga casa, meu estômago deu um solavanco. As memórias vieram como um soco. A sacada do meu quarto, o jardim onde eu costumava escapar no meio da noite... e a casa dos Cameron, a apenas algumas quadras de distância.
Eu não avisei a Sarah que estava voltando. Nós costumávamos ser unha e carne, o tipo de amizade que as pessoas achavam que duraria para sempre. Eu era quase uma segunda filha para o Ward, quase uma irmã para a Sarah. E para o Rafe... bom, para o Rafe eu fui o erro que ele não conseguiu consertar. E ele foi o incêndio que eu não consegui apagar.
Nossa última conversa não foi uma conversa. Foi um campo de batalha. Gritos, acusações, o orgulho dele batendo de frente com a minha mágoa. E depois, o silêncio. Eu fui embora sem dizer tchau. Sem uma mensagem. Bloqueei o número dele, apaguei as fotos, mas não consegui apagar o jeito que meu nome soava na voz dele quando ele estava chapado ou desesperado.
Saí do carro e o calor úmido de junho me atingiu em cheio. Meus pais começaram a coordenar os carregadores que traziam nossas caixas, mas eu só conseguia olhar para a rua, esperando — ou temendo — ver um Range Rover preto passando por ali.
— Amber! — Meu pai me chamou, tirando-me do transe. — Leve suas malas menores para cima. Seu quarto está do jeito que você deixou, a equipe de limpeza veio ontem.
Subi as escadas sentindo o peso de cada degrau. Quando abri a porta do meu quarto, o cheiro de mofo e lavanda me recebeu. Era como entrar em uma cápsula do tempo. Eu esperava encontrar poeira, mas estava tudo limpo, exceto pela sensação de que a Amber de quatorze anos ainda estava sentada naquela cama, chorando por causa de um garoto que ela sabia que ia destruí-la.
Fui até a janela e abri as cortinas. A vista para o canal era a mesma. O sol brilhava intensamente, refletindo na água. Longe dali, eu conseguia ver o píer dos Cameron. Meu coração falhou uma batida.
— Ele não está mais lá, Amber — sussurrei para mim mesma. — Ele deve estar em algum lugar sendo um idiota, e você não deve nada a ele.
Mas a verdade é que Outer Banks é pequena demais para esconder fantasmas.
Peguei meu celular. O ícone do Instagram estava lá, e eu sabia que se rolasse o feed, acabaria encontrando algo. Eu não seguia mais o Rafe, óbvio, mas a Sarah... eu ainda a seguia, embora não curtisse nada dela há meses.
Respirei fundo e abri o perfil dela.
A primeira foto era de uma festa em um barco. Sarah estava linda, como sempre, rindo com a Kiara e alguns garotos que eu não reconheci de imediato. Rolei mais um pouco. E então, meu sangue gelou.
Era um story postado há três horas. Uma mesa de bar, copos de cerveja e um braço tatuado apoiado na madeira. Eu reconheceria aquelas veias saltadas e aquele anel de ouro em qualquer lugar. Rafe.
E ao lado dele, uma mão feminina com unhas pintadas de vermelho descansava em seu ombro.
— Ótimo — murmurei, jogando o celular na cama. — Ele seguiu em frente. Você deveria estar feliz por isso.
Mas eu não estava feliz. Eu estava com uma raiva irracional. Não porque eu ainda o amasse — eu nem sabia o que sentia —, mas porque o fato de ele estar bem, vivendo a vida dele com uma tal de Sofia (eu tinha ouvido boatos através de conhecidos em comum), enquanto eu sentia que estava voltando para uma cena de crime, parecia injusto.
Passei o resto da tarde desfazendo malas com uma energia frenética. Eu precisava me ocupar. Se eu parasse de me mexer, eu começaria a pensar. E pensar em Outer Banks sempre levava ao mesmo beco sem saída.
Por volta das sete da noite, minha mãe entrou no quarto. Ela estava usando um daqueles vestidos de linho que custavam o preço de um carro popular.
— Amber, os Ward estão dando um jantar hoje. O Ward ligou para o seu pai assim que soube que chegamos. Eles querem comemorar nossa volta.
Senti o ar fugir dos meus pulmões.
— Mãe, não. Eu acabei de chegar. Estou exausta.
— Não foi um convite, querida, foi uma convocação — ela disse, com aquele sorriso que não admitia discussões. — Além disso, a Sarah está morrendo de saudades de você. Vai ser bom rever seus amigos.
— Nós não somos mais amigos, mãe. A gente mal se fala.
— Bobagem. Amizades de infância são assim mesmo, têm altos e baixos. Esteja pronta em uma hora. E use algo que não seja esse moletom largo.
Ela saiu antes que eu pudesse protestar.
Fiquei encarando a porta fechada por longos minutos. O jantar dos Cameron. O lugar onde tudo começou e onde tudo terminou. Meus pais sempre acharam o Rafe um "garoto difícil", mas nunca souberam da intensidade do que aconteceu entre nós. Para eles, ele era apenas o filho problemático do sócio do meu pai. Para mim, ele era o motivo de eu ter tido ataques de pânico em outro estado.
Tomei um banho demorado, deixando a água quente queimar meus ombros. Tentei lavar a ansiedade, mas ela estava entranhada nos meus ossos. Escolhi um vestido preto simples, nada muito chamativo, e deixei meu cabelo solto. Eu parecia mais velha, mais séria. A maquiagem escondia as olheiras de quem não dormia bem há dias.
O trajeto até a mansão Cameron durou cinco minutos, mas pareceu uma eternidade. Quando o carro entrou na garagem circular, vi as luzes da casa brilhando como se nada de errado tivesse acontecido ali nos últimos anos.
Descemos do carro e Ward Cameron já estava na porta, com aquele sorriso de vendedor de seguros que sempre me deu arrepios.
— Amber! Olhe para você! — Ele me abraçou de um jeito paternal que me fez querer recuar. — Uma mulher! Sarah vai ter um choque. Ela está lá atrás, perto da piscina.
— Obrigada, Sr. Cameron — respondi, tentando manter a voz firme.
Meus pais entraram para conversar com Ward e Rose, e eu me vi caminhando sozinha em direção à área externa. Meus pés pareciam de chumbo.
O som de risadas e música ambiente ficava mais alto conforme eu me aproximava da piscina. Vi Sarah de costas, conversando com Rose. Ela se virou quando ouviu o som dos meus sapatos no piso de pedra.
O copo dela quase escorregou da mão.
— Amber? — O tom de voz dela era uma mistura de choque e algo que parecia acusação.
— Oi, Sarah.
Ela caminhou até mim, hesitante, e me deu um abraço rápido. O perfume dela era o mesmo, mas o abraço era frio.
— Você não disse que vinha. Eu mandei mensagem no seu aniversário e você nem visualizou.
— Eu sei. Desculpa. Foi tudo muito corrido.
— Corrido? Amber, você sumiu por dois anos — ela disse, cruzando os braços. — Mas tudo bem. Você está aqui agora.
Ficamos naquele silêncio desconfortável que só existe entre pessoas que costumavam saber os segredos mais profundos uma da outra e agora não sabem nem o que dizer sobre o tempo.
— Sarah, o Rafe... — As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las. — Ele está aqui?
Sarah me olhou com uma expressão indecifrável.
— Está lá dentro, com a Sofia. Eles chegaram há pouco. Amber, se você veio esperando que as coisas estivessem iguais...
— Eu não espero nada, Sarah. Só queria saber onde pisar para não tropeçar em nenhum lixo.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— O Rafe mudou. Ou talvez tenha ficado pior, depende do dia. Só... toma cuidado.
Eu ia responder, mas a porta de vidro que dava para a sala de jantar se abriu.
Primeiro vi a garota. Alta, bronzeada, com um sorriso confiante e um vestido que gritava "eu pertenço a este lugar". E logo atrás dela, com uma mão possessiva na cintura dela, estava ele.
O cabelo estava mais comprido, penteado para trás de um jeito meio desleixado. Ele usava uma camisa social branca com os primeiros botões abertos. Ele parecia mais largo, mais homem, mas o olhar... o olhar ainda tinha aquela intensidade maníaca que me assombrava.
Ele estava rindo de algo que a garota disse, até que seus olhos varreram o jardim e pararam em mim.
O riso dele morreu instantaneamente.
O tempo parou. O som da água da piscina, as conversas dos nossos pais lá dentro, o grilo no jardim... tudo sumiu. Só existia o par de olhos claros dele cravados nos meus, queimando com uma mistura de choque, ódio e algo que eu não queria identificar.
Ele não desviou o olhar. Nem eu. Era uma guerra silenciosa de quem ia quebrar primeiro.
— Rafe? — A garota, Sofia, perguntou, percebendo a tensão. — O que foi?
Ele demorou alguns segundos para responder, mas quando o fez, sua voz saiu rouca, carregada de um sarcasmo que me atingiu como um tapa.
— Nada, Sofia. Só achei que tinha visto um fantasma.
Ele começou a caminhar na nossa direção, arrastando a garota junto. Cada passo dele fazia meu coração martelar contra as costelas. Eu queria fugir, queria pegar o carro e dirigir até a ponte e nunca mais olhar para trás. Mas eu fiquei parada. Meu orgulho era a única coisa que me mantinha de pé.
Eles pararam a poucos centímetros de nós. O cheiro dele — tabaco, colônia cara e algo metálico — me inundou.
— Amber — ele disse meu nome como se fosse um palavrão. — Que surpresa desagradável.
— Rafe — respondi, mantendo o rosto inexpressivo. — Vejo que você continua sem modos.
Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. Sofia parecia confusa, olhando de um para o outro.
— E você continua achando que pode simplesmente aparecer e agir como se não tivesse fugido como uma covarde — ele sibilou, a voz baixa o suficiente para que apenas eu e Sarah ouvíssemos.
— Eu não fugi, Rafe. Eu fui embora. Tem uma diferença.
— É? — Ele deu um sorriso de lado, mas não havia alegria ali. — Engraçado. Para mim, pareceu a mesma coisa.
— Rafe, para — Sarah interveio, parecendo desconfortável. — Amber acabou de chegar.
— Eu estou vendo — ele disse, finalmente desviando os olhos de mim para olhar para Sofia, mas logo voltando para mim. — Amber, essa é a Sofia. Minha namorada. Sofia, essa é a menina que costumava morar aqui antes de decidir que era importante demais para se despedir das pessoas.
Sofia estendeu a mão, parecendo incerta.
— Prazer, Amber. Eu ouvi falar de você... brevemente.
— Imagino que sim — respondi, apertando a mão dela com a ponta dos dedos. — Nada de bom, suponho.
— Na verdade, ele nunca disse muito — Sofia disse, tentando ser simpática.
— É o estilo dele — comentei, olhando diretamente para Rafe. — Guardar tudo até explodir.
Os olhos de Rafe faiscaram. Ele abriu a boca para dizer algo, mas Ward apareceu na porta, chamando todos para a mesa.
— Vamos entrar — disse Sarah, claramente querendo acabar com aquele momento. — O jantar está servido.
Sarah e Sofia foram na frente. Eu comecei a segui-las, mas senti uma mão segurar meu braço com força. Uma pressão familiar e dolorosa.
Virei-me bruscamente. Rafe estava ali, o rosto a centímetros do meu.
— O que você está fazendo aqui, Amber? — Ele perguntou, a voz carregada de uma fúria contida.
— Meus pais voltaram, Rafe. Eu não tive escolha.
— Você sempre tem escolha — ele rebateu, apertando mais meu braço. — Você escolheu sumir. Você escolheu me deixar naquele estado.
— Você se deixou naquele estado sozinho! — sussurrei de volta, tentando me soltar. — Não coloque a culpa da sua vida desgraçada em mim.
Ele soltou meu braço como se eu o tivesse queimado. Ele soltou uma risada seca, sem vida.
— Você não faz ideia de como as coisas estão agora. Você acha que pode voltar e tudo vai ser como antes? Jantares de família e conversas fiadas?
— Eu não quero que nada seja como antes, Rafe. Eu só quero que você fique longe de mim.
Ele se inclinou, o hálito quente perto do meu ouvido.
— Tarde demais para isso. Você voltou para a minha ilha, Amber. E aqui, as regras são minhas.
Ele se afastou, ajeitou a camisa e caminhou em direção à sala de jantar com uma calma que eu sabia ser falsa. Ele estava tremendo por dentro, eu conseguia ver pela tensão nos ombros dele.
Eu fiquei ali, no escuro do jardim, tentando recuperar o fôlego. Minhas mãos tremiam e minhas pernas pareciam gelatina.
Eu tinha passado dois anos tentando esquecer o monstro que Rafe Cameron podia ser. E em menos de dez minutos, ele tinha me lembrado de que, em Outer Banks, os monstros não se escondem debaixo da cama. Eles sentam à mesa com você e te servem o vinho.
Respirei fundo, limpei uma lágrima solitária que teimava em descer e caminhei para dentro.
O jantar estava apenas começando, e eu já sentia que ia me afogar.
Eu tinha quatorze anos quando fui embora. Agora tenho dezesseis. Dois anos não parecem muito tempo na teoria, mas na prática, sinto que vivi uma década inteira em outro estado, tentando me convencer de que aquela menina impulsiva e de coração acelerado tinha ficado para trás.
— Amber, querida, você pode pelo menos tentar parecer um pouco menos infeliz? — Minha mãe falou do banco do passageiro, sem tirar os olhos do celular. — É uma casa nova, vida nova. Bom, tecnicamente a mesma casa, mas você entende o que quero dizer.
— Eu entendo, mãe — respondi, encostando a testa no vidro frio da janela. — Só estou cansada da viagem.
Mentira. Eu estava apavorada.
Passamos pelas entradas de condomínios luxuosos, pelos campos de golfe impecáveis e, finalmente, entramos na Figure Eight. O lado rico da ilha. O lado onde as aparências valem mais do que o caráter e onde os segredos são enterrados em jardins perfeitamente podados.
Quando o carro parou em frente à nossa antiga casa, meu estômago deu um solavanco. As memórias vieram como um soco. A sacada do meu quarto, o jardim onde eu costumava escapar no meio da noite... e a casa dos Cameron, a apenas algumas quadras de distância.
Eu não avisei a Sarah que estava voltando. Nós costumávamos ser unha e carne, o tipo de amizade que as pessoas achavam que duraria para sempre. Eu era quase uma segunda filha para o Ward, quase uma irmã para a Sarah. E para o Rafe... bom, para o Rafe eu fui o erro que ele não conseguiu consertar. E ele foi o incêndio que eu não consegui apagar.
Nossa última conversa não foi uma conversa. Foi um campo de batalha. Gritos, acusações, o orgulho dele batendo de frente com a minha mágoa. E depois, o silêncio. Eu fui embora sem dizer tchau. Sem uma mensagem. Bloqueei o número dele, apaguei as fotos, mas não consegui apagar o jeito que meu nome soava na voz dele quando ele estava chapado ou desesperado.
Saí do carro e o calor úmido de junho me atingiu em cheio. Meus pais começaram a coordenar os carregadores que traziam nossas caixas, mas eu só conseguia olhar para a rua, esperando — ou temendo — ver um Range Rover preto passando por ali.
— Amber! — Meu pai me chamou, tirando-me do transe. — Leve suas malas menores para cima. Seu quarto está do jeito que você deixou, a equipe de limpeza veio ontem.
Subi as escadas sentindo o peso de cada degrau. Quando abri a porta do meu quarto, o cheiro de mofo e lavanda me recebeu. Era como entrar em uma cápsula do tempo. Eu esperava encontrar poeira, mas estava tudo limpo, exceto pela sensação de que a Amber de quatorze anos ainda estava sentada naquela cama, chorando por causa de um garoto que ela sabia que ia destruí-la.
Fui até a janela e abri as cortinas. A vista para o canal era a mesma. O sol brilhava intensamente, refletindo na água. Longe dali, eu conseguia ver o píer dos Cameron. Meu coração falhou uma batida.
— Ele não está mais lá, Amber — sussurrei para mim mesma. — Ele deve estar em algum lugar sendo um idiota, e você não deve nada a ele.
Mas a verdade é que Outer Banks é pequena demais para esconder fantasmas.
Peguei meu celular. O ícone do Instagram estava lá, e eu sabia que se rolasse o feed, acabaria encontrando algo. Eu não seguia mais o Rafe, óbvio, mas a Sarah... eu ainda a seguia, embora não curtisse nada dela há meses.
Respirei fundo e abri o perfil dela.
A primeira foto era de uma festa em um barco. Sarah estava linda, como sempre, rindo com a Kiara e alguns garotos que eu não reconheci de imediato. Rolei mais um pouco. E então, meu sangue gelou.
Era um story postado há três horas. Uma mesa de bar, copos de cerveja e um braço tatuado apoiado na madeira. Eu reconheceria aquelas veias saltadas e aquele anel de ouro em qualquer lugar. Rafe.
E ao lado dele, uma mão feminina com unhas pintadas de vermelho descansava em seu ombro.
— Ótimo — murmurei, jogando o celular na cama. — Ele seguiu em frente. Você deveria estar feliz por isso.
Mas eu não estava feliz. Eu estava com uma raiva irracional. Não porque eu ainda o amasse — eu nem sabia o que sentia —, mas porque o fato de ele estar bem, vivendo a vida dele com uma tal de Sofia (eu tinha ouvido boatos através de conhecidos em comum), enquanto eu sentia que estava voltando para uma cena de crime, parecia injusto.
Passei o resto da tarde desfazendo malas com uma energia frenética. Eu precisava me ocupar. Se eu parasse de me mexer, eu começaria a pensar. E pensar em Outer Banks sempre levava ao mesmo beco sem saída.
Por volta das sete da noite, minha mãe entrou no quarto. Ela estava usando um daqueles vestidos de linho que custavam o preço de um carro popular.
— Amber, os Ward estão dando um jantar hoje. O Ward ligou para o seu pai assim que soube que chegamos. Eles querem comemorar nossa volta.
Senti o ar fugir dos meus pulmões.
— Mãe, não. Eu acabei de chegar. Estou exausta.
— Não foi um convite, querida, foi uma convocação — ela disse, com aquele sorriso que não admitia discussões. — Além disso, a Sarah está morrendo de saudades de você. Vai ser bom rever seus amigos.
— Nós não somos mais amigos, mãe. A gente mal se fala.
— Bobagem. Amizades de infância são assim mesmo, têm altos e baixos. Esteja pronta em uma hora. E use algo que não seja esse moletom largo.
Ela saiu antes que eu pudesse protestar.
Fiquei encarando a porta fechada por longos minutos. O jantar dos Cameron. O lugar onde tudo começou e onde tudo terminou. Meus pais sempre acharam o Rafe um "garoto difícil", mas nunca souberam da intensidade do que aconteceu entre nós. Para eles, ele era apenas o filho problemático do sócio do meu pai. Para mim, ele era o motivo de eu ter tido ataques de pânico em outro estado.
Tomei um banho demorado, deixando a água quente queimar meus ombros. Tentei lavar a ansiedade, mas ela estava entranhada nos meus ossos. Escolhi um vestido preto simples, nada muito chamativo, e deixei meu cabelo solto. Eu parecia mais velha, mais séria. A maquiagem escondia as olheiras de quem não dormia bem há dias.
O trajeto até a mansão Cameron durou cinco minutos, mas pareceu uma eternidade. Quando o carro entrou na garagem circular, vi as luzes da casa brilhando como se nada de errado tivesse acontecido ali nos últimos anos.
Descemos do carro e Ward Cameron já estava na porta, com aquele sorriso de vendedor de seguros que sempre me deu arrepios.
— Amber! Olhe para você! — Ele me abraçou de um jeito paternal que me fez querer recuar. — Uma mulher! Sarah vai ter um choque. Ela está lá atrás, perto da piscina.
— Obrigada, Sr. Cameron — respondi, tentando manter a voz firme.
Meus pais entraram para conversar com Ward e Rose, e eu me vi caminhando sozinha em direção à área externa. Meus pés pareciam de chumbo.
O som de risadas e música ambiente ficava mais alto conforme eu me aproximava da piscina. Vi Sarah de costas, conversando com Rose. Ela se virou quando ouviu o som dos meus sapatos no piso de pedra.
O copo dela quase escorregou da mão.
— Amber? — O tom de voz dela era uma mistura de choque e algo que parecia acusação.
— Oi, Sarah.
Ela caminhou até mim, hesitante, e me deu um abraço rápido. O perfume dela era o mesmo, mas o abraço era frio.
— Você não disse que vinha. Eu mandei mensagem no seu aniversário e você nem visualizou.
— Eu sei. Desculpa. Foi tudo muito corrido.
— Corrido? Amber, você sumiu por dois anos — ela disse, cruzando os braços. — Mas tudo bem. Você está aqui agora.
Ficamos naquele silêncio desconfortável que só existe entre pessoas que costumavam saber os segredos mais profundos uma da outra e agora não sabem nem o que dizer sobre o tempo.
— Sarah, o Rafe... — As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las. — Ele está aqui?
Sarah me olhou com uma expressão indecifrável.
— Está lá dentro, com a Sofia. Eles chegaram há pouco. Amber, se você veio esperando que as coisas estivessem iguais...
— Eu não espero nada, Sarah. Só queria saber onde pisar para não tropeçar em nenhum lixo.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— O Rafe mudou. Ou talvez tenha ficado pior, depende do dia. Só... toma cuidado.
Eu ia responder, mas a porta de vidro que dava para a sala de jantar se abriu.
Primeiro vi a garota. Alta, bronzeada, com um sorriso confiante e um vestido que gritava "eu pertenço a este lugar". E logo atrás dela, com uma mão possessiva na cintura dela, estava ele.
O cabelo estava mais comprido, penteado para trás de um jeito meio desleixado. Ele usava uma camisa social branca com os primeiros botões abertos. Ele parecia mais largo, mais homem, mas o olhar... o olhar ainda tinha aquela intensidade maníaca que me assombrava.
Ele estava rindo de algo que a garota disse, até que seus olhos varreram o jardim e pararam em mim.
O riso dele morreu instantaneamente.
O tempo parou. O som da água da piscina, as conversas dos nossos pais lá dentro, o grilo no jardim... tudo sumiu. Só existia o par de olhos claros dele cravados nos meus, queimando com uma mistura de choque, ódio e algo que eu não queria identificar.
Ele não desviou o olhar. Nem eu. Era uma guerra silenciosa de quem ia quebrar primeiro.
— Rafe? — A garota, Sofia, perguntou, percebendo a tensão. — O que foi?
Ele demorou alguns segundos para responder, mas quando o fez, sua voz saiu rouca, carregada de um sarcasmo que me atingiu como um tapa.
— Nada, Sofia. Só achei que tinha visto um fantasma.
Ele começou a caminhar na nossa direção, arrastando a garota junto. Cada passo dele fazia meu coração martelar contra as costelas. Eu queria fugir, queria pegar o carro e dirigir até a ponte e nunca mais olhar para trás. Mas eu fiquei parada. Meu orgulho era a única coisa que me mantinha de pé.
Eles pararam a poucos centímetros de nós. O cheiro dele — tabaco, colônia cara e algo metálico — me inundou.
— Amber — ele disse meu nome como se fosse um palavrão. — Que surpresa desagradável.
— Rafe — respondi, mantendo o rosto inexpressivo. — Vejo que você continua sem modos.
Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. Sofia parecia confusa, olhando de um para o outro.
— E você continua achando que pode simplesmente aparecer e agir como se não tivesse fugido como uma covarde — ele sibilou, a voz baixa o suficiente para que apenas eu e Sarah ouvíssemos.
— Eu não fugi, Rafe. Eu fui embora. Tem uma diferença.
— É? — Ele deu um sorriso de lado, mas não havia alegria ali. — Engraçado. Para mim, pareceu a mesma coisa.
— Rafe, para — Sarah interveio, parecendo desconfortável. — Amber acabou de chegar.
— Eu estou vendo — ele disse, finalmente desviando os olhos de mim para olhar para Sofia, mas logo voltando para mim. — Amber, essa é a Sofia. Minha namorada. Sofia, essa é a menina que costumava morar aqui antes de decidir que era importante demais para se despedir das pessoas.
Sofia estendeu a mão, parecendo incerta.
— Prazer, Amber. Eu ouvi falar de você... brevemente.
— Imagino que sim — respondi, apertando a mão dela com a ponta dos dedos. — Nada de bom, suponho.
— Na verdade, ele nunca disse muito — Sofia disse, tentando ser simpática.
— É o estilo dele — comentei, olhando diretamente para Rafe. — Guardar tudo até explodir.
Os olhos de Rafe faiscaram. Ele abriu a boca para dizer algo, mas Ward apareceu na porta, chamando todos para a mesa.
— Vamos entrar — disse Sarah, claramente querendo acabar com aquele momento. — O jantar está servido.
Sarah e Sofia foram na frente. Eu comecei a segui-las, mas senti uma mão segurar meu braço com força. Uma pressão familiar e dolorosa.
Virei-me bruscamente. Rafe estava ali, o rosto a centímetros do meu.
— O que você está fazendo aqui, Amber? — Ele perguntou, a voz carregada de uma fúria contida.
— Meus pais voltaram, Rafe. Eu não tive escolha.
— Você sempre tem escolha — ele rebateu, apertando mais meu braço. — Você escolheu sumir. Você escolheu me deixar naquele estado.
— Você se deixou naquele estado sozinho! — sussurrei de volta, tentando me soltar. — Não coloque a culpa da sua vida desgraçada em mim.
Ele soltou meu braço como se eu o tivesse queimado. Ele soltou uma risada seca, sem vida.
— Você não faz ideia de como as coisas estão agora. Você acha que pode voltar e tudo vai ser como antes? Jantares de família e conversas fiadas?
— Eu não quero que nada seja como antes, Rafe. Eu só quero que você fique longe de mim.
Ele se inclinou, o hálito quente perto do meu ouvido.
— Tarde demais para isso. Você voltou para a minha ilha, Amber. E aqui, as regras são minhas.
Ele se afastou, ajeitou a camisa e caminhou em direção à sala de jantar com uma calma que eu sabia ser falsa. Ele estava tremendo por dentro, eu conseguia ver pela tensão nos ombros dele.
Eu fiquei ali, no escuro do jardim, tentando recuperar o fôlego. Minhas mãos tremiam e minhas pernas pareciam gelatina.
Eu tinha passado dois anos tentando esquecer o monstro que Rafe Cameron podia ser. E em menos de dez minutos, ele tinha me lembrado de que, em Outer Banks, os monstros não se escondem debaixo da cama. Eles sentam à mesa com você e te servem o vinho.
Respirei fundo, limpei uma lágrima solitária que teimava em descer e caminhei para dentro.
O jantar estava apenas começando, e eu já sentia que ia me afogar.
