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Um assalto e reencontro
Fandom: La casa de papel
Creado: 7/5/2026
Etiquetas
RomanceDramaAngustiaDolor/ConsueloCrimenTragediaEmbarazo No Planificado/No DeseadoAmbientación CanonEstudio de Personaje
O Eco de um Adeus e o Ouro de Paris
O sol de Florença sempre pareceu brilhar de forma diferente quando Clara estava ao lado de Andrés de Fonollosa. Mas agora, sentada em um café barato em uma rua movimentada de Madri, a luz parecia cinzenta, filtrada pela poeira dos anos e pelo peso das memórias. Clara, uma brasileira de riso fácil e curvas generosas que nunca pediu desculpas por ocupar espaço, sentia que uma parte de sua alma havia murchado no dia em que Berlim a expulsou de sua vida.
Ela viera para a Espanha com sonhos grandes e a carteira vazia. O destino, ou talvez o azar, a colocou no caminho de um homem que exalava perigo e sofisticação em doses iguais. Andrés a encontrou quando ela estava prestes a ser despejada; ele ofereceu ajuda financeira em troca de sua astúcia para um golpe em uma joalheria. O que deveria ser um negócio tornou-se uma simbiose. Eles eram magnéticos. Onde ele era frio e calculado, ela era calor e instinto. Não conseguiam manter as mãos longe um do outro; cada toque era uma faísca, cada beijo uma promessa de que o mundo lá fora não importava.
Até que ela descobriu o segredo. A Miopatia de Helmer.
A reação dele não foi de vulnerabilidade, mas de fúria. Berlim não aceitava piedade, e o olhar de compaixão de Clara foi o gatilho para que ele a cortasse de sua vida com a precisão de um bisturi. O que ele não sabia, e o que ela nunca teve a chance de contar antes que ele desaparecesse nas sombras do submundo europeu, era que ela carregava um pedaço dele consigo.
A gravidez durou apenas dois meses. O corpo de Clara, tão cheio de vida, ironicamente rejeitou a semente do homem que ela mais amou. A perda do bebê foi um luto silencioso, vivido em quartos de hotel baratos e regado a lágrimas que ninguém viu.
— Você está distraída, Clara. O café vai esfriar.
A voz era calma, quase sussurrada, mas carregava uma autoridade que a fez despertar. Ela levantou os olhos para o homem sentado à sua frente. Óculos de armação grossa, barba bem aparada e um jeito de quem analisa cada átomo do ambiente. Sergio Marquina. O Professor.
— Eu estava pensando em como o tempo gosta de pregar peças na gente, Sergio — respondeu Clara, ajustando a alça de seu vestido. — Por que me procurou depois de tanto tempo?
O Professor entrelaçou os dedos sobre a mesa, observando a mulher extrovertida que, apesar da dor nos olhos, ainda mantinha aquela aura vibrante que tanto encantara seu irmão.
— Preciso de você para um projeto. O maior de todos. Um assalto à Casa da Moeda da Espanha.
Clara soltou uma risada seca, sem humor.
— Assaltar a Casa da Moeda? Você enlouqueceu de vez ou é apenas a genética da família Fonollosa se manifestando?
— É um plano perfeito, Clara. Mas preciso de pessoas que não tenham nada a perder e que possuam habilidades específicas. Você conhece o mercado negro de obras de arte como ninguém, e sua capacidade de improvisação é... lendária.
— E ele estará lá? — Ela não precisou dizer o nome. O ar entre eles ficou pesado.
— Ele é o comandante dentro da Casa da Moeda — confirmou Sergio. — Ele não sabe que estou te recrutando. Na verdade, ele acha que você desapareceu no Brasil.
Clara sentiu um aperto no peito. A imagem de Andrés, com seu sorriso cínico e sua elegância cruel, invadiu sua mente. Ela pensou no filho que nunca nasceu, no amor que foi arrancado dela e na doença que estava consumindo o homem que ela ainda chamava de seu em seus sonhos.
— Se eu aceitar... — ela começou, a voz falhando por um segundo antes de recuperar a firmeza — ...eu quero um codinome.
— Todos terão. Cidades.
— Paris — disse ela, sem hesitar. — Porque foi lá que ele me disse que eu era a única mulher que ele realmente via.
***
Meses depois, o mosteiro de San Juan de la Peña servia como o quartel-general para o grupo de desconhecidos. Clara, agora Paris, era a alma da casa. Ela cozinhava, contava piadas, e sua risada preenchia os corredores frios, contrastando com a tensão crescente do treinamento.
No entanto, a chegada de Berlim ao mosteiro mudou o clima. Quando ele cruzou o pátio e seus olhos encontraram os de Clara, o tempo parou. O Professor assistia de longe, preocupado com a combustão espontânea que poderia ocorrer.
Berlim caminhou até ela com aquela elegância predatória. Ele parecia mais magro, a pele um pouco mais pálida, mas o fogo nos olhos era o mesmo.
— Ora, ora... — disse Berlim, parando a poucos centímetros dela. O cheiro de seu perfume caro a atingiu como um soco. — O Professor realmente tem um senso de humor peculiar. Trazer uma fantasma para o banquete.
— Eu não sou um fantasma, Andrés — respondeu Paris, sustentando o olhar. — Fantasmas não têm carne, e você sabe muito bem que eu tenho de sobra.
Berlim soltou um riso baixo, seus olhos percorrendo o corpo dela com uma familiaridade que a fez estremecer.
— Continua insolente. E continua linda. O que faz aqui, Clara? Além de tentar me assombrar?
— Vim buscar o que é meu por direito — mentiu ela, embora o "direito" fosse o tempo que ele lhe roubara. — E vim garantir que você não morra antes de eu terminar de te odiar.
Ele se aproximou mais, invadindo seu espaço pessoal, a ponta dos dedos roçando levemente o braço dela.
— O ódio é um sentimento muito próximo da paixão, querida. E nós dois sempre fomos péssimos em manter a distância.
— Fique longe de mim, Andrés — sussurrou ela, embora seu corpo traísse suas palavras, inclinando-se para ele. — Você me expulsou. Lembra? "Não quero ver sua cara de choro", você disse.
— Eu fiz o que era necessário — retrucou ele, a voz perdendo a ironia por um breve momento. — Mas agora estamos aqui. Sob o mesmo teto. Com um plano de bilhões de euros.
— Não confunda as coisas — Paris disse, afastando-se com esforço. — Eu estou aqui pelo dinheiro. E pelo Professor. Você é apenas um efeito colateral desagradável.
Aquelas semanas no mosteiro foram uma tortura de desejo e ressentimento. Durante as aulas do Professor, Berlim frequentemente fazia comentários sarcásticos, e Paris respondia com uma agudeza que deixava os outros membros do grupo — Tóquio, Denver, Nairóbi — em um silêncio desconfortável.
Uma noite, enquanto a neve caía lá fora, Paris estava na cozinha preparando um chá. A dor da perda de seu bebê, algo que ela nunca processara totalmente, voltou a assombrá-la. Ela se sentou em um banco de madeira, as mãos protegendo a barriga vazia, os olhos fixos no nada.
— Você está chorando? — A voz de Berlim veio da sombra da porta.
— É o frio — mentiu ela, secando o rosto rapidamente.
Berlim entrou na cozinha e fechou a porta atrás de si. Ele não estava com a máscara de comandante agora. Parecia apenas um homem cansado.
— Você nunca foi boa em mentir para mim, Clara. O que aconteceu? Depois que você foi embora... você parece diferente. Há um peso em você que não existia.
Paris olhou para ele, o coração batendo tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir. Ela queria gritar. Queria dizer que ele tinha um filho, que ela o perdeu enquanto chamava pelo nome dele em um hospital público em São Paulo. Mas a doença dele, a contagem regressiva de sua vida, a impediu. Ela não queria que ele ficasse com ela por obrigação ou por luto.
— Eu descobri que a vida continua, Andrés. Com ou sem você. Só dói às vezes.
Ele caminhou até ela e, para sua surpresa, não usou o sarcasmo. Ele a puxou para um abraço. Paris tentou resistir, mas o calor dele era o seu único lar. Ela enterrou o rosto no peito dele, chorando silenciosamente enquanto as mãos de Berlim acariciavam seus cabelos.
— Eu nunca deixei de amar você — sussurrou ele no topo de sua cabeça. — Eu só não queria que você assistisse ao meu fim. Queria que sua última lembrança de mim fosse eu no meu auge, não definhando.
— Você foi um idiota — ela soluçou. — Um idiota egoísta.
— Eu sou um artista, meu amor. E artistas são inerentemente egoístas.
Eles se beijaram então. Foi um beijo desesperado, com gosto de arrependimento e de um tempo que não voltaria mais. As mãos de Berlim exploravam as curvas de Paris com uma fome renovada, e ela se entregava a ele, esquecendo por um momento o assalto, a doença e o filho perdido.
— Se sairmos vivos dessa... — começou ela, entre beijos.
— Nós vamos sair — interrompeu ele, voltando a vestir sua máscara de confiança. — Vamos viver como reis. Em uma ilha, ou em um palácio. Onde você quiser.
Paris queria acreditar. Mas ela conhecia Andrés. E conhecia o plano.
***
O dia do assalto chegou. Vestidos com os macacões vermelhos e a máscara de Dalí, o grupo entrou na Casa da Moeda. Paris estava encarregada de gerenciar os reféns de alto escalão e de avaliar as obras de arte que seriam usadas como moeda de troca diplomática, se necessário.
Berlim era o maestro do caos lá dentro. Ele desfilava pelo saguão com uma metralhadora em uma mão e uma taça de vinho na outra, enquanto a polícia cercava o prédio.
Em um momento de calmaria, enquanto os reféns trabalhavam nas impressoras de dinheiro, Paris encontrou Berlim no escritório do diretor. Ele estava injetando sua medicação, a mão tremendo levemente.
— Precisa de ajuda? — perguntou ela, aproximando-se com cuidado.
— Eu dou conta — rosnou ele, mas depois relaxou, entregando a seringa a ela. — É uma ironia, não é? Vamos roubar bilhões, e eu não tenho tempo para gastar nem um milhão.
Paris aplicou a medicação com precisão.
— Você sempre disse que a qualidade de vida é melhor que a quantidade, Andrés.
— E eu estava certo — ele sorriu, puxando-a para perto pela cintura. — Ter você aqui, sob fogo cruzado, é a experiência mais viva que tive em anos.
— Você é louco — ela riu, encostando a testa na dele.
— Sou. E você me ama por isso.
O plano começou a sofrer fissuras. A entrada da polícia, a rebelião dos reféns, a tensão entre o grupo. Paris se tornou o pilar emocional de muitos ali. Ela consolou Nairóbi quando as coisas ficaram difíceis e manteve Denver na linha quando sua impulsividade quase estragou tudo.
Mas o segredo da gravidez perdida ainda queimava em sua garganta.
Durante a noite do terceiro dia, enquanto vigiavam o túnel que estava sendo escavado, ela não aguentou mais.
— Eu estive grávida, Andrés.
O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor que qualquer explosão. Berlim parou de polir sua arma. Ele se virou lentamente, a expressão ilegível.
— O quê?
— Depois que você me mandou embora. Eu descobri um mês depois. Era seu.
Os olhos de Berlim, sempre tão seguros, vacilaram. Ele deu um passo em direção a ela, a voz rouca.
— Onde... onde está a criança?
— Eu perdi — disse ela, as lágrimas finalmente caindo. — Meu corpo não conseguiu segurar. Eu estava sozinha, Andrés. Eu perdi nosso filho e não tinha ninguém para segurar minha mão porque você decidiu que era melhor eu sofrer longe de você.
Berlim sentiu um golpe que nenhuma bala da polícia poderia desferir. Ele, que sempre se orgulhou de estar no controle, percebeu que havia destruído a única coisa real que já teve. Ele a abraçou, não com a paixão de antes, mas com uma dor profunda e compartilhada.
— Me perdoe... — sussurrou ele, a voz quebrada. — Clara, me perdoe.
— Eu não te contei para te punir — disse ela, soluçando em seu ombro. — Eu contei porque não quero que haja mais segredos entre nós. Se vamos morrer aqui, ou se vamos sair, eu precisava que você soubesse que você foi pai. Mesmo que por pouco tempo.
Berlim a segurou com força, como se temesse que ela desaparecesse no ar. Pela primeira vez, o grande Berlim não tinha uma frase de efeito ou um comentário cínico. Ele apenas chorou com ela, no fundo de um túnel que levava à liberdade ou à morte.
— Se sairmos daqui — disse Berlim, afastando-se para olhar nos olhos dela —, eu vou dedicar cada segundo que me resta a você. Não haverá mais planos, não haverá mais Berlim. Apenas Andrés e Clara.
Paris sorriu, limpando o rosto.
— Gosto do som disso. Mas agora, temos um bilhão de euros para imprimir. E eu não pretendo sair daqui de mãos vazias.
— Essa é a minha garota — disse ele, recuperando o brilho nos olhos.
Eles voltaram para o saguão, Paris e Berlim, unidos por um luto que agora era compartilhado e por um amor que sobrevivera ao abandono, à doença e ao crime. O assalto continuava, o mundo assistia, mas para Paris, o verdadeiro tesouro já havia sido recuperado entre as paredes frias da Casa da Moeda: a verdade e o homem que, apesar de todas as suas falhas, era o único que conseguia fazer seu coração brasileiro bater no ritmo de uma canção espanhola.
Ela viera para a Espanha com sonhos grandes e a carteira vazia. O destino, ou talvez o azar, a colocou no caminho de um homem que exalava perigo e sofisticação em doses iguais. Andrés a encontrou quando ela estava prestes a ser despejada; ele ofereceu ajuda financeira em troca de sua astúcia para um golpe em uma joalheria. O que deveria ser um negócio tornou-se uma simbiose. Eles eram magnéticos. Onde ele era frio e calculado, ela era calor e instinto. Não conseguiam manter as mãos longe um do outro; cada toque era uma faísca, cada beijo uma promessa de que o mundo lá fora não importava.
Até que ela descobriu o segredo. A Miopatia de Helmer.
A reação dele não foi de vulnerabilidade, mas de fúria. Berlim não aceitava piedade, e o olhar de compaixão de Clara foi o gatilho para que ele a cortasse de sua vida com a precisão de um bisturi. O que ele não sabia, e o que ela nunca teve a chance de contar antes que ele desaparecesse nas sombras do submundo europeu, era que ela carregava um pedaço dele consigo.
A gravidez durou apenas dois meses. O corpo de Clara, tão cheio de vida, ironicamente rejeitou a semente do homem que ela mais amou. A perda do bebê foi um luto silencioso, vivido em quartos de hotel baratos e regado a lágrimas que ninguém viu.
— Você está distraída, Clara. O café vai esfriar.
A voz era calma, quase sussurrada, mas carregava uma autoridade que a fez despertar. Ela levantou os olhos para o homem sentado à sua frente. Óculos de armação grossa, barba bem aparada e um jeito de quem analisa cada átomo do ambiente. Sergio Marquina. O Professor.
— Eu estava pensando em como o tempo gosta de pregar peças na gente, Sergio — respondeu Clara, ajustando a alça de seu vestido. — Por que me procurou depois de tanto tempo?
O Professor entrelaçou os dedos sobre a mesa, observando a mulher extrovertida que, apesar da dor nos olhos, ainda mantinha aquela aura vibrante que tanto encantara seu irmão.
— Preciso de você para um projeto. O maior de todos. Um assalto à Casa da Moeda da Espanha.
Clara soltou uma risada seca, sem humor.
— Assaltar a Casa da Moeda? Você enlouqueceu de vez ou é apenas a genética da família Fonollosa se manifestando?
— É um plano perfeito, Clara. Mas preciso de pessoas que não tenham nada a perder e que possuam habilidades específicas. Você conhece o mercado negro de obras de arte como ninguém, e sua capacidade de improvisação é... lendária.
— E ele estará lá? — Ela não precisou dizer o nome. O ar entre eles ficou pesado.
— Ele é o comandante dentro da Casa da Moeda — confirmou Sergio. — Ele não sabe que estou te recrutando. Na verdade, ele acha que você desapareceu no Brasil.
Clara sentiu um aperto no peito. A imagem de Andrés, com seu sorriso cínico e sua elegância cruel, invadiu sua mente. Ela pensou no filho que nunca nasceu, no amor que foi arrancado dela e na doença que estava consumindo o homem que ela ainda chamava de seu em seus sonhos.
— Se eu aceitar... — ela começou, a voz falhando por um segundo antes de recuperar a firmeza — ...eu quero um codinome.
— Todos terão. Cidades.
— Paris — disse ela, sem hesitar. — Porque foi lá que ele me disse que eu era a única mulher que ele realmente via.
***
Meses depois, o mosteiro de San Juan de la Peña servia como o quartel-general para o grupo de desconhecidos. Clara, agora Paris, era a alma da casa. Ela cozinhava, contava piadas, e sua risada preenchia os corredores frios, contrastando com a tensão crescente do treinamento.
No entanto, a chegada de Berlim ao mosteiro mudou o clima. Quando ele cruzou o pátio e seus olhos encontraram os de Clara, o tempo parou. O Professor assistia de longe, preocupado com a combustão espontânea que poderia ocorrer.
Berlim caminhou até ela com aquela elegância predatória. Ele parecia mais magro, a pele um pouco mais pálida, mas o fogo nos olhos era o mesmo.
— Ora, ora... — disse Berlim, parando a poucos centímetros dela. O cheiro de seu perfume caro a atingiu como um soco. — O Professor realmente tem um senso de humor peculiar. Trazer uma fantasma para o banquete.
— Eu não sou um fantasma, Andrés — respondeu Paris, sustentando o olhar. — Fantasmas não têm carne, e você sabe muito bem que eu tenho de sobra.
Berlim soltou um riso baixo, seus olhos percorrendo o corpo dela com uma familiaridade que a fez estremecer.
— Continua insolente. E continua linda. O que faz aqui, Clara? Além de tentar me assombrar?
— Vim buscar o que é meu por direito — mentiu ela, embora o "direito" fosse o tempo que ele lhe roubara. — E vim garantir que você não morra antes de eu terminar de te odiar.
Ele se aproximou mais, invadindo seu espaço pessoal, a ponta dos dedos roçando levemente o braço dela.
— O ódio é um sentimento muito próximo da paixão, querida. E nós dois sempre fomos péssimos em manter a distância.
— Fique longe de mim, Andrés — sussurrou ela, embora seu corpo traísse suas palavras, inclinando-se para ele. — Você me expulsou. Lembra? "Não quero ver sua cara de choro", você disse.
— Eu fiz o que era necessário — retrucou ele, a voz perdendo a ironia por um breve momento. — Mas agora estamos aqui. Sob o mesmo teto. Com um plano de bilhões de euros.
— Não confunda as coisas — Paris disse, afastando-se com esforço. — Eu estou aqui pelo dinheiro. E pelo Professor. Você é apenas um efeito colateral desagradável.
Aquelas semanas no mosteiro foram uma tortura de desejo e ressentimento. Durante as aulas do Professor, Berlim frequentemente fazia comentários sarcásticos, e Paris respondia com uma agudeza que deixava os outros membros do grupo — Tóquio, Denver, Nairóbi — em um silêncio desconfortável.
Uma noite, enquanto a neve caía lá fora, Paris estava na cozinha preparando um chá. A dor da perda de seu bebê, algo que ela nunca processara totalmente, voltou a assombrá-la. Ela se sentou em um banco de madeira, as mãos protegendo a barriga vazia, os olhos fixos no nada.
— Você está chorando? — A voz de Berlim veio da sombra da porta.
— É o frio — mentiu ela, secando o rosto rapidamente.
Berlim entrou na cozinha e fechou a porta atrás de si. Ele não estava com a máscara de comandante agora. Parecia apenas um homem cansado.
— Você nunca foi boa em mentir para mim, Clara. O que aconteceu? Depois que você foi embora... você parece diferente. Há um peso em você que não existia.
Paris olhou para ele, o coração batendo tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir. Ela queria gritar. Queria dizer que ele tinha um filho, que ela o perdeu enquanto chamava pelo nome dele em um hospital público em São Paulo. Mas a doença dele, a contagem regressiva de sua vida, a impediu. Ela não queria que ele ficasse com ela por obrigação ou por luto.
— Eu descobri que a vida continua, Andrés. Com ou sem você. Só dói às vezes.
Ele caminhou até ela e, para sua surpresa, não usou o sarcasmo. Ele a puxou para um abraço. Paris tentou resistir, mas o calor dele era o seu único lar. Ela enterrou o rosto no peito dele, chorando silenciosamente enquanto as mãos de Berlim acariciavam seus cabelos.
— Eu nunca deixei de amar você — sussurrou ele no topo de sua cabeça. — Eu só não queria que você assistisse ao meu fim. Queria que sua última lembrança de mim fosse eu no meu auge, não definhando.
— Você foi um idiota — ela soluçou. — Um idiota egoísta.
— Eu sou um artista, meu amor. E artistas são inerentemente egoístas.
Eles se beijaram então. Foi um beijo desesperado, com gosto de arrependimento e de um tempo que não voltaria mais. As mãos de Berlim exploravam as curvas de Paris com uma fome renovada, e ela se entregava a ele, esquecendo por um momento o assalto, a doença e o filho perdido.
— Se sairmos vivos dessa... — começou ela, entre beijos.
— Nós vamos sair — interrompeu ele, voltando a vestir sua máscara de confiança. — Vamos viver como reis. Em uma ilha, ou em um palácio. Onde você quiser.
Paris queria acreditar. Mas ela conhecia Andrés. E conhecia o plano.
***
O dia do assalto chegou. Vestidos com os macacões vermelhos e a máscara de Dalí, o grupo entrou na Casa da Moeda. Paris estava encarregada de gerenciar os reféns de alto escalão e de avaliar as obras de arte que seriam usadas como moeda de troca diplomática, se necessário.
Berlim era o maestro do caos lá dentro. Ele desfilava pelo saguão com uma metralhadora em uma mão e uma taça de vinho na outra, enquanto a polícia cercava o prédio.
Em um momento de calmaria, enquanto os reféns trabalhavam nas impressoras de dinheiro, Paris encontrou Berlim no escritório do diretor. Ele estava injetando sua medicação, a mão tremendo levemente.
— Precisa de ajuda? — perguntou ela, aproximando-se com cuidado.
— Eu dou conta — rosnou ele, mas depois relaxou, entregando a seringa a ela. — É uma ironia, não é? Vamos roubar bilhões, e eu não tenho tempo para gastar nem um milhão.
Paris aplicou a medicação com precisão.
— Você sempre disse que a qualidade de vida é melhor que a quantidade, Andrés.
— E eu estava certo — ele sorriu, puxando-a para perto pela cintura. — Ter você aqui, sob fogo cruzado, é a experiência mais viva que tive em anos.
— Você é louco — ela riu, encostando a testa na dele.
— Sou. E você me ama por isso.
O plano começou a sofrer fissuras. A entrada da polícia, a rebelião dos reféns, a tensão entre o grupo. Paris se tornou o pilar emocional de muitos ali. Ela consolou Nairóbi quando as coisas ficaram difíceis e manteve Denver na linha quando sua impulsividade quase estragou tudo.
Mas o segredo da gravidez perdida ainda queimava em sua garganta.
Durante a noite do terceiro dia, enquanto vigiavam o túnel que estava sendo escavado, ela não aguentou mais.
— Eu estive grávida, Andrés.
O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor que qualquer explosão. Berlim parou de polir sua arma. Ele se virou lentamente, a expressão ilegível.
— O quê?
— Depois que você me mandou embora. Eu descobri um mês depois. Era seu.
Os olhos de Berlim, sempre tão seguros, vacilaram. Ele deu um passo em direção a ela, a voz rouca.
— Onde... onde está a criança?
— Eu perdi — disse ela, as lágrimas finalmente caindo. — Meu corpo não conseguiu segurar. Eu estava sozinha, Andrés. Eu perdi nosso filho e não tinha ninguém para segurar minha mão porque você decidiu que era melhor eu sofrer longe de você.
Berlim sentiu um golpe que nenhuma bala da polícia poderia desferir. Ele, que sempre se orgulhou de estar no controle, percebeu que havia destruído a única coisa real que já teve. Ele a abraçou, não com a paixão de antes, mas com uma dor profunda e compartilhada.
— Me perdoe... — sussurrou ele, a voz quebrada. — Clara, me perdoe.
— Eu não te contei para te punir — disse ela, soluçando em seu ombro. — Eu contei porque não quero que haja mais segredos entre nós. Se vamos morrer aqui, ou se vamos sair, eu precisava que você soubesse que você foi pai. Mesmo que por pouco tempo.
Berlim a segurou com força, como se temesse que ela desaparecesse no ar. Pela primeira vez, o grande Berlim não tinha uma frase de efeito ou um comentário cínico. Ele apenas chorou com ela, no fundo de um túnel que levava à liberdade ou à morte.
— Se sairmos daqui — disse Berlim, afastando-se para olhar nos olhos dela —, eu vou dedicar cada segundo que me resta a você. Não haverá mais planos, não haverá mais Berlim. Apenas Andrés e Clara.
Paris sorriu, limpando o rosto.
— Gosto do som disso. Mas agora, temos um bilhão de euros para imprimir. E eu não pretendo sair daqui de mãos vazias.
— Essa é a minha garota — disse ele, recuperando o brilho nos olhos.
Eles voltaram para o saguão, Paris e Berlim, unidos por um luto que agora era compartilhado e por um amor que sobrevivera ao abandono, à doença e ao crime. O assalto continuava, o mundo assistia, mas para Paris, o verdadeiro tesouro já havia sido recuperado entre as paredes frias da Casa da Moeda: a verdade e o homem que, apesar de todas as suas falhas, era o único que conseguia fazer seu coração brasileiro bater no ritmo de uma canção espanhola.
