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Friends with benefits and a family!?
Fandom: EngLot FayeLotte
Creado: 12/5/2026
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RomanceDramaAngustiaRecortes de VidaDolor/ConsueloFluffHumorHistoria DomésticaRealismoLenguaje ExplícitoAbuso de AlcoholEstudio de PersonajeCelos
Gasolina, Morangos e o Caos de Ser Família
O som ensurdecedor do motor da Kawasaki Ninja H2R ecoou pela garagem do condomínio de luxo, um rugido que parecia vibrar nos ossos de qualquer um que estivesse por perto. Engfa Waraha desligou a ignição, retirou o capacete e deixou que uma nuvem de fumaça de cigarro escapasse de seus lábios antes mesmo de descer da moto. Ela limpou o canto da boca, onde um pequeno corte recente — cortesia de uma briga de bar na noite anterior — insistia em latejar.
— Você está atrasada três minutos, "pai" — uma voz jovem e sarcástica ecoou do canto da garagem.
Freen Sarocha estava encostada na parede, os braços cruzados sobre o uniforme escolar impecável, mas com uma expressão que era o espelho da de Engfa. Aos dezessete anos, a garota era a personificação do que aconteceria se o caos de Engfa fosse filtrado por uma inteligência acadêmica de primeira classe.
Engfa soltou uma risada rouca, ajeitando os óculos no rosto e jogando a chave da moto para a adolescente.
— Três minutos é o tempo que eu levei para despachar um idiota que achou que podia fechar minha frente no sinal, pirralha. E não me chama de pai, eu sou jovem demais para essa crise de identidade.
— Charlotte disse que se você chegasse com mais um roxo no rosto, ela ia te colocar para dormir no sofá com o Sunny — Freen provocou, pegando as chaves no ar com agilidade. — E Faye disse que se você ensinasse mais alguma manobra ilegal para mim hoje, ela queimaria sua coleção de jaquetas.
Engfa revirou os olhos, mas um sorriso involuntário surgiu. Ela caminhou até Freen e bagunçou o cabelo escuro da garota, um gesto de carinho bruto que era a linguagem delas.
— Elas falam demais. Vamos subir, antes que a Charlotte sinta o cheiro do cigarro e resolva me dar um banho de mangueira.
O apartamento das três era um refúgio de contrastes. De um lado, as telas de pintura de Charlotte, manchadas com tons pastéis e cheirando a terebentina; do outro, as estantes de livros perfeitamente organizadas de Faye; e, espalhados por todo canto, os vestígios da presença caótica de Engfa e, agora, de Freen.
Assim que a porta se abriu, um borrão branco de pelos saltou sobre as pernas de Engfa. Sunny, o Lulu da Pomerânia, latia como se estivesse anunciando a chegada de um exército.
— Shhh, Sunny! Você vai acordar os vizinhos que eu ainda não tive o prazer de mandar para o inferno — murmurou Engfa, pegando o cachorrinho no colo.
— Tarde demais para o silêncio, Waraha — a voz de Faye Malisorn veio da sala de leitura.
A mulher de cabelos vermelhos surgiu no corredor, segurando um livro de capa dura. Ela caminhou até as duas com uma elegância que sempre fazia Engfa se sentir um pouco desleixada. Faye parou na frente de Engfa, analisando o novo corte em sua bochecha com um suspiro pesado.
— Outra briga, Engfa? Realmente? — Faye perguntou, mas sua mão subiu para a nuca de Engfa, puxando-a para um beijo demorado no pescoço, um gesto que instantaneamente drenou metade da tensão dos ombros da mais velha.
— Ele mereceu, Faye. Falou merda da moto — Engfa resmungou, fechando os olhos e se entregando ao toque.
— Ela sempre diz que eles mereceram — Freen comentou, jogando a mochila no sofá e indo direto para a cozinha. — Onde está a mamãe Char? Estou com fome de morangos.
— Na varanda, terminando uma tela — respondeu Faye, soltando Engfa para abraçar Charlotte, que acabava de entrar na sala com as mãos sujas de tinta azul e rosa.
Charlotte Austin tinha aquele olhar calmo que funcionava como um balde de água fria no temperamento explosivo de Engfa. Ela sorriu ao ver Freen, mas seu olhar logo se fixou em Engfa. Ela caminhou até a namorada, ignorando o cheiro de couro e tabaco, e segurou o rosto de Engfa com as pontas dos dedos limpas.
— Você está inteira? — Charlotte perguntou em voz baixa.
— Estou, calma. Só uns arranhões — Engfa respondeu, sua voz perdendo a ironia habitual.
Charlotte não disse nada. Em vez disso, inclinou-se e depositou um beijo suave em cada bochecha de Engfa, exatamente onde a pele não estava ferida. Era o ritual delas. O "calmante pessoal" de Engfa estava em pleno funcionamento. Em seguida, Charlotte virou-se para Faye e pegou uma de suas mãos grandes, beijando o dorso com carinho.
— Freen, querida, os morangos estão lavados na geladeira — disse Charlotte, olhando para a adolescente. — E eu recebi um e-mail da sua escola. "Melhor aluna do semestre", de novo.
— É fácil quando os professores têm medo de mim porque acham que eu sou filha de uma líder de gangue — Freen brincou, de boca cheia.
— Ei! Eu não sou líder de gangue — protestou Engfa, sentando-se no balcão da cozinha. — Sou apenas uma entusiasta da velocidade com baixa tolerância a idiotas.
— O que é tecnicamente a definição de alguém que precisa de terapia, não de uma moto de 300 cavalos — Faye pontuou, sentando-se ao lado delas e abrindo seu livro, embora seus olhos estivessem atentos à dinâmica da família.
O clima era leve, mas havia uma sombra que sempre pairava quando o assunto era a família biológica de Freen. O processo de adoção estava avançando, graças à influência da família de Charlotte, que finalmente estava sendo usada para algo nobre. Os pais de Freen não ligavam; para eles, a filha era apenas um item em uma planilha de custos que podia ser transferido para terceiros.
— Eles ligaram hoje? — Charlotte perguntou, sua voz carregada de uma preocupação que ela tentava esconder.
Freen parou de comer por um segundo, seus olhos escuros perdendo o brilho caótico por um breve instante.
— Não. E nem vão. Estão em Londres ou Dubai, sei lá. Eles só mandaram um comprovante de transferência para a conta da escola. Nem uma mensagem de "feliz aniversário antecipado".
O silêncio caiu sobre a sala. Engfa sentiu aquela velha queimação no peito, o trauma de sua própria infância com um pai abusivo borbulhando como lava. Ela apertou o punho sobre a bancada, as juntas dos dedos ficando brancas.
— Eles são uns covardes — Engfa sibilou, a voz tremendo de raiva. — Se eu visse seu pai agora, eu juro que...
— Engfa — Faye chamou calmamente, colocando a mão sobre o punho fechado da namorada. — Respire.
— Não me peça para ter calma, Faye! Eles deixam ela sozinha naquela casa imensa, sem ninguém, enquanto viajam o mundo gastando dinheiro. Ela é uma criança!
— Eu não sou mais uma criança, Engfa — Freen disse, embora sua voz soasse pequena.
Engfa levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um guincho estridente. Ela caminhou até Freen e a puxou para um abraço apertado, quase possessivo.
— Você é nossa, Freen. Entendeu? Aquela casa solitária não é seu lugar. Este caos aqui é. Se eles não te querem, o azar é deles, porque você é a melhor coisa que já entrou por aquela porta depois da Ninja H2R.
Freen riu contra o ombro de Engfa, o som saindo um pouco abafado.
— Você estragou o momento emocionante me comparando com uma moto.
— É um elogio de alto nível, aceite — Engfa retrucou, soltando-a, mas mantendo as mãos em seus ombros.
Charlotte aproximou-se, abraçando as duas por trás, enquanto Faye se juntava ao grupo, circulando a cintura de Charlotte com um braço e descansando a outra mão no ombro de Freen. Naquele momento, no centro de um apartamento cheio de tintas, livros, cheiro de cigarro e um cachorro latindo para o nada, o mundo exterior não importava.
— Amanhã vamos ao tribunal — Charlotte lembrou, sua voz firme. — Meus advogados garantiram que a guarda provisória vai sair. Você nunca mais vai ter que voltar para aquela casa se não quiser, Freen.
— E para comemorar — Engfa disse, recuperando seu tom sarcástico —, eu vou levar a Freen para a pista clandestina. Ela precisa aprender a fazer curvas fechadas sem amarelar.
— Engfa Waraha! — Charlotte e Faye gritaram em uníssono.
— O quê? É uma habilidade de sobrevivência! — Engfa defendeu-se, já correndo para o quarto para escapar das almofadas que Faye começou a jogar.
— Eu vou pegar meu capacete! — Freen gritou, seguindo Engfa enquanto ria alto, a sombra da negligência dos pais biológicos sendo dissipada pelo brilho daquela nova e estranha família.
Faye e Charlotte ficaram sozinhas na sala por um momento, trocando um olhar de exaustão e adoração.
— Nós adotamos duas crianças, não foi? — Faye perguntou, fechando o livro.
— Uma de dezessete e uma de trinta — Charlotte concordou, sorrindo e beijando a mão de Faye. — Mas eu não trocaria esse caos por paz nenhuma no mundo.
— Nem eu — Faye murmurou, puxando Charlotte para mais perto enquanto, ao fundo, ouviam o som de Engfa e Freen discutindo sobre qual era a melhor marca de óleo para motor, entremeado pelos latidos histéricos de Sunny.
A vida delas nunca seria normal. Engfa continuaria voltando para casa com cicatrizes e cheirando a asfalto. Charlotte continuaria limpando a sujeira e acalmando as tempestades. Faye continuaria sendo a âncora que impedia o barco de virar. E Freen... Freen finalmente tinha um lugar onde o silêncio não era a única companhia.
Mais tarde naquela noite, após o jantar regado a risadas e provocações, Engfa saiu para a varanda. O céu de Bangkok estava nublado, as luzes da cidade piscando abaixo. Ela acendeu um cigarro, observando a fumaça se dissipar no vento.
Sentiu uma presença ao seu lado. Charlotte encostou-se no parapeito, observando o perfil da namorada.
— Você está pensando nele, não está? — Charlotte perguntou suavemente.
Engfa demorou a responder. O fantasma de seu pai, com seus acessos de raiva e mãos pesadas, era algo que ela lutava para enterrar todos os dias.
— Eu só não quero ser como ele, Char. Às vezes eu sinto essa raiva subindo e... eu tenho medo de que a Freen veja isso.
Charlotte pegou o cigarro da mão de Engfa e o apagou no cinzeiro, substituindo-o pela sua própria mão, entrelaçando seus dedos nos dela.
— Você não é ele. Ele usava a raiva para destruir. Você usa a sua para proteger. Olha para aquela sala, Engfa. Você deu a essa garota um motivo para sorrir. Você é o herói dela, mesmo sendo um herói meio torto e cheio de graxa.
Engfa soltou um suspiro longo, encostando a testa na de Charlotte.
— O que eu faria sem vocês duas para me segurar no chão?
— Você provavelmente estaria em uma prisão ou em um hospital — a voz de Faye veio da porta da varanda. Ela se aproximou, abraçando as duas por trás. — Mas, felizmente, você é péssima em fugir da gente.
— Sou mesmo — admitiu Engfa, sorrindo contra os lábios de Charlotte antes de se virar para incluir Faye no beijo.
Dentro do apartamento, Freen observava a cena pela fresta da porta de vidro, sentada no chão com Sunny no colo. Ela pegou o celular e, pela primeira vez em anos, não sentiu vontade de checar se havia mensagens dos pais. Em vez disso, ela abriu a galeria e olhou para a foto que havia tirado mais cedo: Engfa fazendo uma careta ridícula, Charlotte rindo ao fundo e Faye tentando manter a pose enquanto Sunny lambia seu rosto.
Freen bloqueou a tela e sorriu. Ela não precisava de mensagens de Londres ou Dubai. Ela já estava em casa.
— Ei, pirralha! — Engfa gritou da varanda, percebendo que estava sendo observada. — Sai daí e vem ajudar a escolher o filme. Se a Faye escolher outro documentário sobre vinhos, eu juro que vendo o Sunny!
— Deixa o meu irmão em paz, Engfa! — Freen gritou de volta, levantando-se e correndo para a sala.
O caos recomeçou, vibrante e barulhento. Exatamente como deveria ser.
— Você está atrasada três minutos, "pai" — uma voz jovem e sarcástica ecoou do canto da garagem.
Freen Sarocha estava encostada na parede, os braços cruzados sobre o uniforme escolar impecável, mas com uma expressão que era o espelho da de Engfa. Aos dezessete anos, a garota era a personificação do que aconteceria se o caos de Engfa fosse filtrado por uma inteligência acadêmica de primeira classe.
Engfa soltou uma risada rouca, ajeitando os óculos no rosto e jogando a chave da moto para a adolescente.
— Três minutos é o tempo que eu levei para despachar um idiota que achou que podia fechar minha frente no sinal, pirralha. E não me chama de pai, eu sou jovem demais para essa crise de identidade.
— Charlotte disse que se você chegasse com mais um roxo no rosto, ela ia te colocar para dormir no sofá com o Sunny — Freen provocou, pegando as chaves no ar com agilidade. — E Faye disse que se você ensinasse mais alguma manobra ilegal para mim hoje, ela queimaria sua coleção de jaquetas.
Engfa revirou os olhos, mas um sorriso involuntário surgiu. Ela caminhou até Freen e bagunçou o cabelo escuro da garota, um gesto de carinho bruto que era a linguagem delas.
— Elas falam demais. Vamos subir, antes que a Charlotte sinta o cheiro do cigarro e resolva me dar um banho de mangueira.
O apartamento das três era um refúgio de contrastes. De um lado, as telas de pintura de Charlotte, manchadas com tons pastéis e cheirando a terebentina; do outro, as estantes de livros perfeitamente organizadas de Faye; e, espalhados por todo canto, os vestígios da presença caótica de Engfa e, agora, de Freen.
Assim que a porta se abriu, um borrão branco de pelos saltou sobre as pernas de Engfa. Sunny, o Lulu da Pomerânia, latia como se estivesse anunciando a chegada de um exército.
— Shhh, Sunny! Você vai acordar os vizinhos que eu ainda não tive o prazer de mandar para o inferno — murmurou Engfa, pegando o cachorrinho no colo.
— Tarde demais para o silêncio, Waraha — a voz de Faye Malisorn veio da sala de leitura.
A mulher de cabelos vermelhos surgiu no corredor, segurando um livro de capa dura. Ela caminhou até as duas com uma elegância que sempre fazia Engfa se sentir um pouco desleixada. Faye parou na frente de Engfa, analisando o novo corte em sua bochecha com um suspiro pesado.
— Outra briga, Engfa? Realmente? — Faye perguntou, mas sua mão subiu para a nuca de Engfa, puxando-a para um beijo demorado no pescoço, um gesto que instantaneamente drenou metade da tensão dos ombros da mais velha.
— Ele mereceu, Faye. Falou merda da moto — Engfa resmungou, fechando os olhos e se entregando ao toque.
— Ela sempre diz que eles mereceram — Freen comentou, jogando a mochila no sofá e indo direto para a cozinha. — Onde está a mamãe Char? Estou com fome de morangos.
— Na varanda, terminando uma tela — respondeu Faye, soltando Engfa para abraçar Charlotte, que acabava de entrar na sala com as mãos sujas de tinta azul e rosa.
Charlotte Austin tinha aquele olhar calmo que funcionava como um balde de água fria no temperamento explosivo de Engfa. Ela sorriu ao ver Freen, mas seu olhar logo se fixou em Engfa. Ela caminhou até a namorada, ignorando o cheiro de couro e tabaco, e segurou o rosto de Engfa com as pontas dos dedos limpas.
— Você está inteira? — Charlotte perguntou em voz baixa.
— Estou, calma. Só uns arranhões — Engfa respondeu, sua voz perdendo a ironia habitual.
Charlotte não disse nada. Em vez disso, inclinou-se e depositou um beijo suave em cada bochecha de Engfa, exatamente onde a pele não estava ferida. Era o ritual delas. O "calmante pessoal" de Engfa estava em pleno funcionamento. Em seguida, Charlotte virou-se para Faye e pegou uma de suas mãos grandes, beijando o dorso com carinho.
— Freen, querida, os morangos estão lavados na geladeira — disse Charlotte, olhando para a adolescente. — E eu recebi um e-mail da sua escola. "Melhor aluna do semestre", de novo.
— É fácil quando os professores têm medo de mim porque acham que eu sou filha de uma líder de gangue — Freen brincou, de boca cheia.
— Ei! Eu não sou líder de gangue — protestou Engfa, sentando-se no balcão da cozinha. — Sou apenas uma entusiasta da velocidade com baixa tolerância a idiotas.
— O que é tecnicamente a definição de alguém que precisa de terapia, não de uma moto de 300 cavalos — Faye pontuou, sentando-se ao lado delas e abrindo seu livro, embora seus olhos estivessem atentos à dinâmica da família.
O clima era leve, mas havia uma sombra que sempre pairava quando o assunto era a família biológica de Freen. O processo de adoção estava avançando, graças à influência da família de Charlotte, que finalmente estava sendo usada para algo nobre. Os pais de Freen não ligavam; para eles, a filha era apenas um item em uma planilha de custos que podia ser transferido para terceiros.
— Eles ligaram hoje? — Charlotte perguntou, sua voz carregada de uma preocupação que ela tentava esconder.
Freen parou de comer por um segundo, seus olhos escuros perdendo o brilho caótico por um breve instante.
— Não. E nem vão. Estão em Londres ou Dubai, sei lá. Eles só mandaram um comprovante de transferência para a conta da escola. Nem uma mensagem de "feliz aniversário antecipado".
O silêncio caiu sobre a sala. Engfa sentiu aquela velha queimação no peito, o trauma de sua própria infância com um pai abusivo borbulhando como lava. Ela apertou o punho sobre a bancada, as juntas dos dedos ficando brancas.
— Eles são uns covardes — Engfa sibilou, a voz tremendo de raiva. — Se eu visse seu pai agora, eu juro que...
— Engfa — Faye chamou calmamente, colocando a mão sobre o punho fechado da namorada. — Respire.
— Não me peça para ter calma, Faye! Eles deixam ela sozinha naquela casa imensa, sem ninguém, enquanto viajam o mundo gastando dinheiro. Ela é uma criança!
— Eu não sou mais uma criança, Engfa — Freen disse, embora sua voz soasse pequena.
Engfa levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando no chão com um guincho estridente. Ela caminhou até Freen e a puxou para um abraço apertado, quase possessivo.
— Você é nossa, Freen. Entendeu? Aquela casa solitária não é seu lugar. Este caos aqui é. Se eles não te querem, o azar é deles, porque você é a melhor coisa que já entrou por aquela porta depois da Ninja H2R.
Freen riu contra o ombro de Engfa, o som saindo um pouco abafado.
— Você estragou o momento emocionante me comparando com uma moto.
— É um elogio de alto nível, aceite — Engfa retrucou, soltando-a, mas mantendo as mãos em seus ombros.
Charlotte aproximou-se, abraçando as duas por trás, enquanto Faye se juntava ao grupo, circulando a cintura de Charlotte com um braço e descansando a outra mão no ombro de Freen. Naquele momento, no centro de um apartamento cheio de tintas, livros, cheiro de cigarro e um cachorro latindo para o nada, o mundo exterior não importava.
— Amanhã vamos ao tribunal — Charlotte lembrou, sua voz firme. — Meus advogados garantiram que a guarda provisória vai sair. Você nunca mais vai ter que voltar para aquela casa se não quiser, Freen.
— E para comemorar — Engfa disse, recuperando seu tom sarcástico —, eu vou levar a Freen para a pista clandestina. Ela precisa aprender a fazer curvas fechadas sem amarelar.
— Engfa Waraha! — Charlotte e Faye gritaram em uníssono.
— O quê? É uma habilidade de sobrevivência! — Engfa defendeu-se, já correndo para o quarto para escapar das almofadas que Faye começou a jogar.
— Eu vou pegar meu capacete! — Freen gritou, seguindo Engfa enquanto ria alto, a sombra da negligência dos pais biológicos sendo dissipada pelo brilho daquela nova e estranha família.
Faye e Charlotte ficaram sozinhas na sala por um momento, trocando um olhar de exaustão e adoração.
— Nós adotamos duas crianças, não foi? — Faye perguntou, fechando o livro.
— Uma de dezessete e uma de trinta — Charlotte concordou, sorrindo e beijando a mão de Faye. — Mas eu não trocaria esse caos por paz nenhuma no mundo.
— Nem eu — Faye murmurou, puxando Charlotte para mais perto enquanto, ao fundo, ouviam o som de Engfa e Freen discutindo sobre qual era a melhor marca de óleo para motor, entremeado pelos latidos histéricos de Sunny.
A vida delas nunca seria normal. Engfa continuaria voltando para casa com cicatrizes e cheirando a asfalto. Charlotte continuaria limpando a sujeira e acalmando as tempestades. Faye continuaria sendo a âncora que impedia o barco de virar. E Freen... Freen finalmente tinha um lugar onde o silêncio não era a única companhia.
Mais tarde naquela noite, após o jantar regado a risadas e provocações, Engfa saiu para a varanda. O céu de Bangkok estava nublado, as luzes da cidade piscando abaixo. Ela acendeu um cigarro, observando a fumaça se dissipar no vento.
Sentiu uma presença ao seu lado. Charlotte encostou-se no parapeito, observando o perfil da namorada.
— Você está pensando nele, não está? — Charlotte perguntou suavemente.
Engfa demorou a responder. O fantasma de seu pai, com seus acessos de raiva e mãos pesadas, era algo que ela lutava para enterrar todos os dias.
— Eu só não quero ser como ele, Char. Às vezes eu sinto essa raiva subindo e... eu tenho medo de que a Freen veja isso.
Charlotte pegou o cigarro da mão de Engfa e o apagou no cinzeiro, substituindo-o pela sua própria mão, entrelaçando seus dedos nos dela.
— Você não é ele. Ele usava a raiva para destruir. Você usa a sua para proteger. Olha para aquela sala, Engfa. Você deu a essa garota um motivo para sorrir. Você é o herói dela, mesmo sendo um herói meio torto e cheio de graxa.
Engfa soltou um suspiro longo, encostando a testa na de Charlotte.
— O que eu faria sem vocês duas para me segurar no chão?
— Você provavelmente estaria em uma prisão ou em um hospital — a voz de Faye veio da porta da varanda. Ela se aproximou, abraçando as duas por trás. — Mas, felizmente, você é péssima em fugir da gente.
— Sou mesmo — admitiu Engfa, sorrindo contra os lábios de Charlotte antes de se virar para incluir Faye no beijo.
Dentro do apartamento, Freen observava a cena pela fresta da porta de vidro, sentada no chão com Sunny no colo. Ela pegou o celular e, pela primeira vez em anos, não sentiu vontade de checar se havia mensagens dos pais. Em vez disso, ela abriu a galeria e olhou para a foto que havia tirado mais cedo: Engfa fazendo uma careta ridícula, Charlotte rindo ao fundo e Faye tentando manter a pose enquanto Sunny lambia seu rosto.
Freen bloqueou a tela e sorriu. Ela não precisava de mensagens de Londres ou Dubai. Ela já estava em casa.
— Ei, pirralha! — Engfa gritou da varanda, percebendo que estava sendo observada. — Sai daí e vem ajudar a escolher o filme. Se a Faye escolher outro documentário sobre vinhos, eu juro que vendo o Sunny!
— Deixa o meu irmão em paz, Engfa! — Freen gritou de volta, levantando-se e correndo para a sala.
O caos recomeçou, vibrante e barulhento. Exatamente como deveria ser.
