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O vale dos segredos
Fandom: Para todos os garotos que já amei?
Creado: 14/5/2026
Etiquetas
RomanceDramaDolor/ConsueloFluffRecortes de VidaHistoria DomésticaRealismoHumorAmbientación CanonNovela RománticaEstudio de Personaje
Equações de Segundo Grau e Saques de Areia
O corredor principal da escola Adler High fervilhava com a energia caótica do primeiro dia de aula. Alice Smith apertava as alças de sua mochila, sentindo o peso familiar dos livros de cálculo e biologia avançada. Com seus um metro e sessenta, ela precisava se esquivar habilmente entre os jogadores de futebol americano e as líderes de torcida que ocupavam o centro do caminho. Seus cabelos loiros e ondulados estavam presos em um rabo de cavalo prático, e seus olhos cor de mel escaneavam o mural de avisos em busca da lista de horários.
Alice sempre fora a definição de "filha perfeita". Notas impecáveis, comportamento exemplar e uma obediência que orgulharia qualquer mestre zen. No entanto, havia um lugar onde ela se permitia ser um pouco menos contida: a quadra de areia. O beach tennis era sua válvula de escape, o único momento em que o silêncio da biblioteca era substituído pelo som seco da raquete batendo na bola.
— Alice! — Uma voz familiar a chamou. Era Kitty, a irmã mais nova de sua melhor amiga, Lara Jean, que parecia ter assumido a missão de saber da vida de todos na escola. — Você viu o instrutor novo que contrataram para o clube de esportes de areia?
— Ainda não, Kitty. Eu estava mais preocupada em saber se o professor Miller vai mesmo dar prova na primeira semana — respondeu Alice, ajustando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz.
— Esqueça os livros por cinco minutos — Kitty deu uma piscadinha. — Dizem que ele é do terceiro ano, veio transferido de uma escola de elite e tem cara de quem nunca ouviu uma piada na vida.
Alice riu baixo, balançando a cabeça. Ela não tinha tempo para garotos de cara amarrada. Seu plano para o último ano era simples: manter a média, ganhar o torneio regional de beach tennis e entrar para uma boa universidade.
O destino, porém, parecia ter outros planos.
Naquela tarde, o sol de Huntington Beach estava especialmente forte. Alice trocou o uniforme escolar pelo short de compressão e a regata esportiva. Ao chegar às quadras da escola, percebeu que o ambiente estava diferente. O antigo instrutor, o senhor Higgins, que era um senhor bonachão de sessenta anos, não estava lá. Em seu lugar, de costas para a entrada, estava um rapaz alto, de ombros largos e cabelos loiros que brilhavam sob a luz solar.
— Você está atrasada dois minutos — disse uma voz grave, sem que o rapaz sequer se virasse.
Alice parou bruscamente, a areia quente entrando entre seus dedos.
— Desculpe, o treino de hoje começa às quatro e...
O rapaz se virou. Alice sentiu o ar escapar por um segundo. Ele era impressionantemente bonito, com olhos verdes que pareciam duas pedras de esmeralda fria. Mas não havia um pingo de simpatia em seu rosto. Ele segurava uma prancheta como se fosse um escudo.
— Quatro horas em ponto — corrigiu ele, a voz seca. — Eu sou Mateus Miller. O novo instrutor e monitor de esportes. Se você quer continuar na equipe principal, a pontualidade é o primeiro requisito.
— Eu sou a Alice. Jogo aqui há dois anos e nunca...
— O que você fez nos últimos dois anos não me interessa — Mateus a interrompeu, caminhando em direção à rede. — O que me interessa é se você consegue sustentar um rali de dez minutos sem errar a altura da rede. Pegue sua raquete.
Alice piscou, surpresa com a rispidez. Ela era a aluna mais obediente da escola, mas algo na arrogância de Mateus despertou uma faísca de teimosia que ela raramente mostrava. Sem dizer uma palavra, ela pegou sua raquete de carbono e se posicionou na linha de fundo.
Durante a próxima hora, Mateus agiu como um sargento. Ele não sorriu, não elogiou e mal piscou.
— Mais força no pulso, Smith! — gritava ele. — Você está acariciando a bola ou jogando um torneio?
— Eu estou tentando manter o controle! — rebateu ela, ofegante, limpando o suor da testa.
— Controle sem potência é apenas defesa. E eu não treino perdedores.
Ao final do treino, Alice estava exausta. Ela se sentou no banco de madeira, bebendo água ansiosamente, enquanto observava Mateus organizar as bolas no cesto com uma precisão quase obsessiva. Ele parecia uma máquina.
— Você joga bem — disse ele, aproximando-se, mas o tom ainda era gélido. — Mas sua técnica de saque é previsível. Amanhã, chegue dez minutos mais cedo.
— Amanhã eu tenho monitoria de matemática — respondeu Alice, recuperando o fôlego. — Não posso chegar mais cedo.
Mateus paralisou. Pela primeira vez, a expressão de superioridade vacilou, sendo substituída por algo que parecia... desconforto. Ele olhou para a prancheta e depois para Alice.
— Matemática? — ele repetiu, a palavra parecendo estranha em sua boca.
— Sim. Sou monitora do segundo e terceiro ano. Por quê?
Mateus suspirou, um som pesado que pareceu carregar todo o peso do mundo. Ele olhou ao redor para garantir que nenhum outro aluno estivesse por perto.
— A diretora disse que, para eu manter o cargo de instrutor e minha bolsa esportiva, eu preciso de um tutor. Imediatamente.
Alice arqueou uma sobrancelha, um pequeno sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Deixe-me adivinhar. O grande e rigoroso Mateus Miller está indo mal em álgebra?
— Não estou indo mal — ele retrucou, as orelhas ficando levemente vermelhas. — Eu apenas... não entendo a lógica por trás das funções logarítmicas. É perda de tempo.
Alice se levantou, batendo a areia das pernas. Ela se aproximou dele, percebendo que, apesar de ser baixinha, conseguia sustentar o olhar firme.
— Sabe, Mateus, eu poderia te ajudar. Sou a melhor da classe. Mas você é um instrutor terrível.
— Eu sou um instrutor exigente — corrigiu ele.
— Você é rude. Se quiser que eu te ajude a não reprovar e perder sua bolsa, vamos ter que fazer um acordo.
Mateus cruzou os braços, os olhos verdes a estudando com uma intensidade nova.
— Que tipo de acordo?
— Você sorri — disse ela, simplesmente.
Mateus franziu a testa, confuso.
— O quê?
— Você ouviu. Você é tenso demais. Se eu vou passar minhas tardes te ensinando matemática, eu quero um ambiente agradável. E você vai parar de gritar comigo na quadra. Em troca, eu garanto que você tira um "A" na prova de sexta-feira.
O silêncio caiu entre eles, quebrado apenas pelo som das ondas do mar ao longe. Mateus parecia estar travando uma batalha interna. Ele olhou para Alice — a garota nerd, obediente, com cabelos bagunçados e areia no rosto — e viu algo que não esperava: determinação.
— Duas horas de estudo por dia — disse ele, por fim. — Na biblioteca. Em uma mesa isolada.
— Fechado — Alice estendeu a mão.
Mateus hesitou, mas apertou a mão dela. A pele dele era quente e áspera por causa do esporte.
— Mas eu não prometo o sorriso — resmungou ele.
— Veremos — Alice piscou para ele, sentindo um frio estranho na barriga.
No dia seguinte, a biblioteca estava silenciosa. Alice havia separado todos os seus cadernos coloridos, post-its e canetas marca-texto. Mateus chegou cinco minutos atrasado, parecendo um leão enjaulado. Ele se sentou à frente dela, jogando um caderno amarrotado sobre a mesa de carvalho.
— Vamos acabar logo com isso — ele murmurou.
— Primeiro, abra na página quarenta e dois — ordenou Alice, no seu melhor tom de professora. — E pare de olhar para o relógio. A matemática exige paciência, assim como o seu saque.
— Matemática é lógica pura. O esporte é instinto — ele rebateu.
— Errado. O beach tennis é física aplicada. O ângulo da raquete, a força centrípeta, a resistência do ar... Se você entendesse a teoria, não precisaria treinar tanto o braço.
Mateus parou e a encarou. Foi a primeira vez que ele realmente pareceu ouvi-la.
— Você realmente pensa assim enquanto joga?
— O tempo todo — ela sorriu timidamente. — É o que me ajuda a compensar o fato de eu ser mais baixa que a maioria das jogadoras.
Mateus ficou em silêncio por um longo tempo, observando-a. Alice começou a explicar as funções, desenhando gráficos com paciência. Ela percebeu que, por trás da fachada de garoto durão, Mateus era apenas alguém que tinha medo de falhar. Ele se concentrava tanto que chegava a morder o lábio inferior, uma expressão de foco absoluto que o deixava menos intimidador e mais... humano.
— Entendeu agora por que o "X" não pode ser negativo nesse caso? — perguntou ela, após vinte minutos de explicação.
Mateus olhou para o papel, depois para ela. Um brilho de compreensão iluminou seus olhos verdes.
— Porque a raiz quadrada de um número negativo não pertence aos reais... — ele sussurrou. — Faz sentido.
— Viu? Você não é um caso perdido — brincou Alice.
Nesse momento, algo extraordinário aconteceu. Os cantos da boca de Mateus se elevaram levemente. Não foi um sorriso aberto, mas foi o suficiente para criar pequenas covinhas quase imperceptíveis em suas bochechas. O rosto dele se suavizou completamente, e Alice sentiu como se o sol tivesse saído de trás das nuvens.
— Você sorriu — ela acusou, sentindo o coração acelerar.
— Não sorri — ele mentiu prontamente, voltando a ficar sério, mas o brilho nos olhos o traía. — Foi apenas um espasmo muscular.
— Um espasmo bem bonito, devo dizer — Alice soltou, e imediatamente sentiu o rosto queimar.
Mateus tossiu, visivelmente sem graça, e voltou a atenção para o caderno.
— Próximo exercício, Smith. Não perca o foco.
As semanas se passaram e a rotina entre os dois se tornou o ponto alto do dia de Alice. Na quadra, Mateus ainda era exigente, mas havia uma nova cumplicidade entre eles. Ele não gritava mais; em vez disso, ele se aproximava e corrigia sua postura com um toque suave no ombro que a fazia estremecer.
— Assim — ele disse certa tarde, posicionando-se atrás dela para ajustar seu movimento de defesa. — Deixe o peso no pé da frente. Confie no seu equilíbrio.
A proximidade era eletrizante. Alice conseguia sentir o cheiro de maresia e protetor solar que emanava dele.
— Mateus? — ela chamou baixinho.
— Hum?
— Você está sendo... legal.
Ele se afastou um pouco, passando a mão pelo cabelo loiro.
— Não se acostume. É só porque você me ajudou a tirar um nove na prova de trigonometria.
— Admitir que eu sou uma boa professora é o primeiro passo para a sua redenção — ela provocou, rindo.
Mateus a observou. Alice estava radiante, com alguns fios de cabelo grudados na testa e as bochechas coradas pelo esforço físico. Ela era o oposto dele em quase tudo. Ela era a ordem, ele era o caos controlado. Ela era a doçura, ele era a casca grossa. E, de alguma forma, o encaixe era perfeito.
Naquela noite, após o treino, eles caminharam juntos até o estacionamento. O céu estava tingido de tons de rosa e laranja.
— Alice — Mateus a chamou antes que ela entrasse no carro do pai.
— Sim?
Ele caminhou até ela, as mãos nos bolsos da jaqueta do time. O olhar rígido de semanas atrás havia desaparecido, substituído por algo muito mais profundo e vulnerável.
— Tem um festival de cinema ao ar livre na praia no sábado — ele começou, parecendo ensaiar as palavras. — Eu sei que você provavelmente tem que estudar ou organizar seus lápis por cor... mas eu pensei que você poderia querer ir. Comigo.
Alice sentiu um sorriso gigante se formar em seu rosto. A garota obediente em sua mente disse que ela deveria estudar para o simulado, mas a garota que amava o som das ondas e a companhia de Mateus Miller falou mais alto.
— Eu adoraria. Mas com uma condição.
Mateus soltou um suspiro curto, uma risada anasalada.
— Deixe-me adivinhar. Eu tenho que sorrir de novo?
— Não — disse Alice, aproximando-se e ficando na ponta dos pés para depositar um beijo rápido e suave na bochecha dele. — Dessa vez, eu que vou te ensinar a relaxar.
Mateus ficou parado por alguns segundos, a mão tocando o lugar onde os lábios dela estiveram. E então, finalmente, ele deu um sorriso largo, verdadeiro e deslumbrante, que iluminou todo o estacionamento.
— Acho que posso aprender isso — disse ele, em voz baixa.
Alice entrou no carro, o coração batendo como se tivesse acabado de jogar a final de um campeonato. Ela sabia que o último ano seria inesquecível, e não era por causa das notas. Era por causa do instrutor de olhos verdes que, finalmente, tinha aprendido a sorrir.
Alice sempre fora a definição de "filha perfeita". Notas impecáveis, comportamento exemplar e uma obediência que orgulharia qualquer mestre zen. No entanto, havia um lugar onde ela se permitia ser um pouco menos contida: a quadra de areia. O beach tennis era sua válvula de escape, o único momento em que o silêncio da biblioteca era substituído pelo som seco da raquete batendo na bola.
— Alice! — Uma voz familiar a chamou. Era Kitty, a irmã mais nova de sua melhor amiga, Lara Jean, que parecia ter assumido a missão de saber da vida de todos na escola. — Você viu o instrutor novo que contrataram para o clube de esportes de areia?
— Ainda não, Kitty. Eu estava mais preocupada em saber se o professor Miller vai mesmo dar prova na primeira semana — respondeu Alice, ajustando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz.
— Esqueça os livros por cinco minutos — Kitty deu uma piscadinha. — Dizem que ele é do terceiro ano, veio transferido de uma escola de elite e tem cara de quem nunca ouviu uma piada na vida.
Alice riu baixo, balançando a cabeça. Ela não tinha tempo para garotos de cara amarrada. Seu plano para o último ano era simples: manter a média, ganhar o torneio regional de beach tennis e entrar para uma boa universidade.
O destino, porém, parecia ter outros planos.
Naquela tarde, o sol de Huntington Beach estava especialmente forte. Alice trocou o uniforme escolar pelo short de compressão e a regata esportiva. Ao chegar às quadras da escola, percebeu que o ambiente estava diferente. O antigo instrutor, o senhor Higgins, que era um senhor bonachão de sessenta anos, não estava lá. Em seu lugar, de costas para a entrada, estava um rapaz alto, de ombros largos e cabelos loiros que brilhavam sob a luz solar.
— Você está atrasada dois minutos — disse uma voz grave, sem que o rapaz sequer se virasse.
Alice parou bruscamente, a areia quente entrando entre seus dedos.
— Desculpe, o treino de hoje começa às quatro e...
O rapaz se virou. Alice sentiu o ar escapar por um segundo. Ele era impressionantemente bonito, com olhos verdes que pareciam duas pedras de esmeralda fria. Mas não havia um pingo de simpatia em seu rosto. Ele segurava uma prancheta como se fosse um escudo.
— Quatro horas em ponto — corrigiu ele, a voz seca. — Eu sou Mateus Miller. O novo instrutor e monitor de esportes. Se você quer continuar na equipe principal, a pontualidade é o primeiro requisito.
— Eu sou a Alice. Jogo aqui há dois anos e nunca...
— O que você fez nos últimos dois anos não me interessa — Mateus a interrompeu, caminhando em direção à rede. — O que me interessa é se você consegue sustentar um rali de dez minutos sem errar a altura da rede. Pegue sua raquete.
Alice piscou, surpresa com a rispidez. Ela era a aluna mais obediente da escola, mas algo na arrogância de Mateus despertou uma faísca de teimosia que ela raramente mostrava. Sem dizer uma palavra, ela pegou sua raquete de carbono e se posicionou na linha de fundo.
Durante a próxima hora, Mateus agiu como um sargento. Ele não sorriu, não elogiou e mal piscou.
— Mais força no pulso, Smith! — gritava ele. — Você está acariciando a bola ou jogando um torneio?
— Eu estou tentando manter o controle! — rebateu ela, ofegante, limpando o suor da testa.
— Controle sem potência é apenas defesa. E eu não treino perdedores.
Ao final do treino, Alice estava exausta. Ela se sentou no banco de madeira, bebendo água ansiosamente, enquanto observava Mateus organizar as bolas no cesto com uma precisão quase obsessiva. Ele parecia uma máquina.
— Você joga bem — disse ele, aproximando-se, mas o tom ainda era gélido. — Mas sua técnica de saque é previsível. Amanhã, chegue dez minutos mais cedo.
— Amanhã eu tenho monitoria de matemática — respondeu Alice, recuperando o fôlego. — Não posso chegar mais cedo.
Mateus paralisou. Pela primeira vez, a expressão de superioridade vacilou, sendo substituída por algo que parecia... desconforto. Ele olhou para a prancheta e depois para Alice.
— Matemática? — ele repetiu, a palavra parecendo estranha em sua boca.
— Sim. Sou monitora do segundo e terceiro ano. Por quê?
Mateus suspirou, um som pesado que pareceu carregar todo o peso do mundo. Ele olhou ao redor para garantir que nenhum outro aluno estivesse por perto.
— A diretora disse que, para eu manter o cargo de instrutor e minha bolsa esportiva, eu preciso de um tutor. Imediatamente.
Alice arqueou uma sobrancelha, um pequeno sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Deixe-me adivinhar. O grande e rigoroso Mateus Miller está indo mal em álgebra?
— Não estou indo mal — ele retrucou, as orelhas ficando levemente vermelhas. — Eu apenas... não entendo a lógica por trás das funções logarítmicas. É perda de tempo.
Alice se levantou, batendo a areia das pernas. Ela se aproximou dele, percebendo que, apesar de ser baixinha, conseguia sustentar o olhar firme.
— Sabe, Mateus, eu poderia te ajudar. Sou a melhor da classe. Mas você é um instrutor terrível.
— Eu sou um instrutor exigente — corrigiu ele.
— Você é rude. Se quiser que eu te ajude a não reprovar e perder sua bolsa, vamos ter que fazer um acordo.
Mateus cruzou os braços, os olhos verdes a estudando com uma intensidade nova.
— Que tipo de acordo?
— Você sorri — disse ela, simplesmente.
Mateus franziu a testa, confuso.
— O quê?
— Você ouviu. Você é tenso demais. Se eu vou passar minhas tardes te ensinando matemática, eu quero um ambiente agradável. E você vai parar de gritar comigo na quadra. Em troca, eu garanto que você tira um "A" na prova de sexta-feira.
O silêncio caiu entre eles, quebrado apenas pelo som das ondas do mar ao longe. Mateus parecia estar travando uma batalha interna. Ele olhou para Alice — a garota nerd, obediente, com cabelos bagunçados e areia no rosto — e viu algo que não esperava: determinação.
— Duas horas de estudo por dia — disse ele, por fim. — Na biblioteca. Em uma mesa isolada.
— Fechado — Alice estendeu a mão.
Mateus hesitou, mas apertou a mão dela. A pele dele era quente e áspera por causa do esporte.
— Mas eu não prometo o sorriso — resmungou ele.
— Veremos — Alice piscou para ele, sentindo um frio estranho na barriga.
No dia seguinte, a biblioteca estava silenciosa. Alice havia separado todos os seus cadernos coloridos, post-its e canetas marca-texto. Mateus chegou cinco minutos atrasado, parecendo um leão enjaulado. Ele se sentou à frente dela, jogando um caderno amarrotado sobre a mesa de carvalho.
— Vamos acabar logo com isso — ele murmurou.
— Primeiro, abra na página quarenta e dois — ordenou Alice, no seu melhor tom de professora. — E pare de olhar para o relógio. A matemática exige paciência, assim como o seu saque.
— Matemática é lógica pura. O esporte é instinto — ele rebateu.
— Errado. O beach tennis é física aplicada. O ângulo da raquete, a força centrípeta, a resistência do ar... Se você entendesse a teoria, não precisaria treinar tanto o braço.
Mateus parou e a encarou. Foi a primeira vez que ele realmente pareceu ouvi-la.
— Você realmente pensa assim enquanto joga?
— O tempo todo — ela sorriu timidamente. — É o que me ajuda a compensar o fato de eu ser mais baixa que a maioria das jogadoras.
Mateus ficou em silêncio por um longo tempo, observando-a. Alice começou a explicar as funções, desenhando gráficos com paciência. Ela percebeu que, por trás da fachada de garoto durão, Mateus era apenas alguém que tinha medo de falhar. Ele se concentrava tanto que chegava a morder o lábio inferior, uma expressão de foco absoluto que o deixava menos intimidador e mais... humano.
— Entendeu agora por que o "X" não pode ser negativo nesse caso? — perguntou ela, após vinte minutos de explicação.
Mateus olhou para o papel, depois para ela. Um brilho de compreensão iluminou seus olhos verdes.
— Porque a raiz quadrada de um número negativo não pertence aos reais... — ele sussurrou. — Faz sentido.
— Viu? Você não é um caso perdido — brincou Alice.
Nesse momento, algo extraordinário aconteceu. Os cantos da boca de Mateus se elevaram levemente. Não foi um sorriso aberto, mas foi o suficiente para criar pequenas covinhas quase imperceptíveis em suas bochechas. O rosto dele se suavizou completamente, e Alice sentiu como se o sol tivesse saído de trás das nuvens.
— Você sorriu — ela acusou, sentindo o coração acelerar.
— Não sorri — ele mentiu prontamente, voltando a ficar sério, mas o brilho nos olhos o traía. — Foi apenas um espasmo muscular.
— Um espasmo bem bonito, devo dizer — Alice soltou, e imediatamente sentiu o rosto queimar.
Mateus tossiu, visivelmente sem graça, e voltou a atenção para o caderno.
— Próximo exercício, Smith. Não perca o foco.
As semanas se passaram e a rotina entre os dois se tornou o ponto alto do dia de Alice. Na quadra, Mateus ainda era exigente, mas havia uma nova cumplicidade entre eles. Ele não gritava mais; em vez disso, ele se aproximava e corrigia sua postura com um toque suave no ombro que a fazia estremecer.
— Assim — ele disse certa tarde, posicionando-se atrás dela para ajustar seu movimento de defesa. — Deixe o peso no pé da frente. Confie no seu equilíbrio.
A proximidade era eletrizante. Alice conseguia sentir o cheiro de maresia e protetor solar que emanava dele.
— Mateus? — ela chamou baixinho.
— Hum?
— Você está sendo... legal.
Ele se afastou um pouco, passando a mão pelo cabelo loiro.
— Não se acostume. É só porque você me ajudou a tirar um nove na prova de trigonometria.
— Admitir que eu sou uma boa professora é o primeiro passo para a sua redenção — ela provocou, rindo.
Mateus a observou. Alice estava radiante, com alguns fios de cabelo grudados na testa e as bochechas coradas pelo esforço físico. Ela era o oposto dele em quase tudo. Ela era a ordem, ele era o caos controlado. Ela era a doçura, ele era a casca grossa. E, de alguma forma, o encaixe era perfeito.
Naquela noite, após o treino, eles caminharam juntos até o estacionamento. O céu estava tingido de tons de rosa e laranja.
— Alice — Mateus a chamou antes que ela entrasse no carro do pai.
— Sim?
Ele caminhou até ela, as mãos nos bolsos da jaqueta do time. O olhar rígido de semanas atrás havia desaparecido, substituído por algo muito mais profundo e vulnerável.
— Tem um festival de cinema ao ar livre na praia no sábado — ele começou, parecendo ensaiar as palavras. — Eu sei que você provavelmente tem que estudar ou organizar seus lápis por cor... mas eu pensei que você poderia querer ir. Comigo.
Alice sentiu um sorriso gigante se formar em seu rosto. A garota obediente em sua mente disse que ela deveria estudar para o simulado, mas a garota que amava o som das ondas e a companhia de Mateus Miller falou mais alto.
— Eu adoraria. Mas com uma condição.
Mateus soltou um suspiro curto, uma risada anasalada.
— Deixe-me adivinhar. Eu tenho que sorrir de novo?
— Não — disse Alice, aproximando-se e ficando na ponta dos pés para depositar um beijo rápido e suave na bochecha dele. — Dessa vez, eu que vou te ensinar a relaxar.
Mateus ficou parado por alguns segundos, a mão tocando o lugar onde os lábios dela estiveram. E então, finalmente, ele deu um sorriso largo, verdadeiro e deslumbrante, que iluminou todo o estacionamento.
— Acho que posso aprender isso — disse ele, em voz baixa.
Alice entrou no carro, o coração batendo como se tivesse acabado de jogar a final de um campeonato. Ela sabia que o último ano seria inesquecível, e não era por causa das notas. Era por causa do instrutor de olhos verdes que, finalmente, tinha aprendido a sorrir.
