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Amorteamo
Fandom: Amorteamo
Creado: 17/5/2026
Etiquetas
RomanceDramaAngustiaDolor/ConsueloOscuroTragediaCelosNoir GóticoHistórico
O Sangue e a Renda sob o Clarão dos Raios
A tempestade que açoiteava o Recife parecia querer arrancar as pedras do calçamento e afogar os segredos daquelas ruas estreitas. O céu, um manto de chumbo rasgado por clarões purpúreos, refletia o estado de espírito de Gabriel. Ele cambaleou pelo corredor da antiga casa, a respiração curta e o rosto marcado por um corte profundo na maçã do rosto, fruto de um conflito covarde na praça central, onde o nome de Malvina fora usado como insulto.
Lá dentro, o silêncio era preenchido apenas pelo estalar das velas e pelo som rítmico da chuva batendo nas telhas de barro. Malvina o esperava na penumbra. Quando a porta se abriu e o viu naquele estado — as roupas encharcadas, o olhar sensível e melancólico turvado pela dor —, ela não disse nada de imediato. Apenas sentiu o peito arder.
— Gabriel... — ela sussurrou, a voz carregada de uma doçura fúnebre.
— Eles não entendem, Malvina. Eles não entendem o que somos — disse ele, a voz trêmula enquanto se apoiava no batente.
Ela se aproximou com passos leves, quase como se flutuasse. Suas mãos pálidas, adornadas por anéis de prata envelhecida, guiaram-no até uma poltrona de veludo gasto. Com uma bacia de água morna e panos de linho, Malvina começou a limpar o sangue que escorria pelo rosto fino e delicado de seu noivo.
— Você não deveria ter lutado por mim — disse ela, os olhos grandes e escuros fixos nos dele. — Eu já pertenço às sombras, Gabriel. Não quero que você sangre por causa de uma noiva que a cidade já condenou antes mesmo do "sim".
Gabriel segurou a mão dela com uma delicadeza desesperada, interrompendo o movimento do pano. A pele dela era fria, mas o toque incendiava o que restava de sua sanidade.
— Eu sangraria mil vezes para que ninguém ousasse pronunciar seu nome com desdém — afirmou ele, os olhos marejados. — Você é a única verdade que eu tenho neste mundo de hipocrisia.
A proximidade era perigosa. O cheiro de Malvina — uma mistura de flores murchas, incenso e terra molhada — envolvia Gabriel como um feitiço. Ele era um poeta do sofrimento, e ela era sua musa sombria. Durante semanas, eles tentaram manter a distância imposta pelo decoro e pelo medo do julgamento, mas a barreira estava desmoronando sob o peso do desejo reprimido.
— Eu tenho medo, Gabriel — confessou ela, a voz falhando pela primeira vez. — Tenho medo de que, se eu me entregar a este amor, o destino encontre uma forma de nos separar. Eu sinto que a felicidade é um vidro quebrado nas minhas mãos.
— Então vamos sangrar juntos — respondeu ele, puxando-a para mais perto. — Não há destino que possa desfazer o que sinto.
Sem mais hesitações, Gabriel selou o espaço entre eles. O beijo não foi suave; foi uma explosão de necessidade, carregada de um romantismo trágico. Malvina sentiu o gosto do sangue dele e o calor de sua respiração, contrastando com sua própria natureza gélida. Suas mãos se perderam nos cabelos castanhos e ondulados dele, enquanto ele a envolvia com uma urgência que dizia que o amanhã era uma incerteza que não importava.
Ali, sob a luz vacilante das velas que projetavam sombras gigantescas nas paredes, eles se entregaram um ao outro. O vestido preto de renda de Malvina deslizou pelos ombros pálidos como uma cortina que se fecha para o mundo exterior. Naquela noite, eles não eram o acordo entre famílias, nem os párias da cidade. Eram apenas duas almas feridas tentando se curar através do pecado e da paixão.
Do lado de fora, no entanto, a tempestade não era a única testemunha.
Lena estava parada sob a chuva, protegida apenas pela sombra de um beiral vizinho. Ela viera atrás de Gabriel, movida por uma mistura de preocupação e uma esperança doentia de que, no último momento, ele desistiria daquela "noiva fantasmagórica" para voltar aos seus braços. Mas o que viu através da fresta da janela entreaberta foi o fim de todas as suas ilusões.
A luz das velas iluminava perfeitamente o abraço dos dois. Lena viu as carícias, ouviu os suspiros de Malvina e a forma como Gabriel a olhava — com uma devoção que ele nunca dedicara a ela. Cada beijo trocado entre o casal era uma facada no peito de Lena. O ódio, frio e cortante, começou a substituir a tristeza.
— Então é assim? — sussurrou ela para a escuridão, as lágrimas se misturando à chuva que escorria por seu rosto. — Você prefere a morte ao meu lado, Gabriel?
Ela permaneceu ali por muito tempo, observando o ritual de amor e desespero. Quando finalmente se afastou, seus passos não eram mais os de uma mulher apaixonada e ferida, mas os de alguém que acabara de encontrar um propósito sombrio.
Na manhã seguinte, o sol nasceu pálido sobre o Recife, mas a tensão na casa de Malvina era palpável. Gabriel e Malvina estavam sentados à mesa, compartilhando um silêncio cúmplice, acreditando que o segredo da noite anterior pertencia apenas a eles.
— Precisamos ser discretos até o casamento — disse Gabriel, segurando a mão de Malvina sobre a mesa. — Depois que os votos forem feitos, ninguém poderá nos tocar.
— O mundo não perdoa quem ama fora das regras, Gabriel — comentou Malvina, o olhar perdido na fumaça da xícara de café. — Sinto que algo mudou no ar.
Ela estava certa.
Lena não esperou muito para agir. Ela não procurou Gabriel para um confronto direto; sua vingança exigia algo mais refinado, algo que destruísse a reputação que Malvina mal possuía. Ao meio-dia, Lena já circulava pelo mercado, encontrando-se com as beatas e as fofoqueiras da cidade.
— É uma pena, não é? — dizia Lena, com uma expressão de falsa melancolia. — Pobre Gabriel. Tão jovem, tão influenciável. Dizem que aquela casa... a casa da noiva... é um antro de perdição. Eu mesma vi vultos ontem à noite. Coisas que uma mulher de família não deveria sequer imaginar.
— O que você quer dizer com isso, Lena? — perguntou Dona Maria, a maior língua da paróquia.
— Ora, o pecado tem um cheiro forte, dona Maria. E ele cheira a renda preta e velas acesas na calada da noite. Malvina não quer um marido, ela quer uma alma para levar com ela para o túmulo. E parece que Gabriel já entregou a dele antes mesmo de subir ao altar.
As sementes da discórdia foram plantadas com maestria. À tarde, o boato de que Malvina e Gabriel haviam tido uma noite de núpcias antecipada e "profana" já corria as ladeiras. O julgamento da cidade, que Malvina tanto temia, estava se transformando em uma tempestade muito mais perigosa do que a da noite anterior.
Enquanto isso, alheio ao veneno que se espalhava, Gabriel buscava flores para Malvina. Ele se sentia revigorado, possuído por uma coragem que só os amantes desesperados conhecem. No entanto, ao caminhar pela rua, percebeu que as pessoas desviavam o olhar ou cuspiam no chão após sua passagem.
Ao chegar à porta de Malvina, ele a encontrou parada na varanda, olhando para o horizonte com uma expressão de puro pavor.
— Eles sabem, Gabriel — disse ela, sem olhar para ele.
— Como poderiam saber? Estávamos sós!
— O vento conta segredos quando as paredes têm ouvidos — Malvina virou-se, e Gabriel viu que ela segurava um bilhete anônimo deixado em seu portão.
Ele pegou o papel. A caligrafia era elegante, mas a mensagem era um punhal: *"O que foi feito no escuro será gritado no altar. A noiva de preto não merece o branco, nem o céu. O inferno espera por vocês dois."*
— Foi a Lena — Gabriel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. — Só ela teria esse rancor.
— Ela não quer apenas você, Gabriel — disse Malvina, aproximando-se dele, seus olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Ela quer nos ver destruídos. Ela quer que o nosso "felizes para sempre" seja um funeral.
Gabriel sentiu a fragilidade de sua posição. Ele era um sonhador, mas o mundo era feito de pedras. Ele segurou os ombros de Malvina, sentindo a estrutura magra dela sob o tecido fino.
— Não importa o que digam. Nós vamos nos casar. Amanhã, diante de Deus e dos homens, eu farei de você minha esposa.
— E se eles não permitirem? — perguntou ela. — Se a cidade se levantar contra nós?
— Então fugiremos para onde a morte não possa nos alcançar — respondeu ele, com o fervor de um herói de tragédia gótica. — Mas hoje, Malvina, você é minha. E nada, nem Lena, nem as línguas ferinas deste lugar, podem tirar isso de mim.
Malvina sorriu, um sorriso triste e assustadoramente belo. Ela sabia que o amor deles era amaldiçoado, e havia uma beleza terrível nisso.
Enquanto isso, em seu quarto, Lena observava o frasco de veneno sobre a penteadeira. Ela não planejava espalhar apenas rumores. Se Gabriel não podia ser dela nesta vida, ele não pertenceria a Malvina em nenhuma outra. A rivalidade entre as duas mulheres havia transcendido o ciúme; tornara-se uma questão de existência.
— Você acha que venceu, Malvina — murmurou Lena, olhando seu próprio reflexo, que parecia cada vez mais pálido e amargo. — Mas o casamento que você tanto deseja será o espetáculo mais sangrento que esta cidade já viu.
A noite caiu novamente, mas desta vez o silêncio era pesado, carregado de presságios. Gabriel e Malvina, trancados dentro da casa, tentavam ignorar os gritos distantes e o sentimento de que estavam sendo observados. Eles se amavam no limite entre a vida e o abismo, cientes de que cada carícia poderia ser a última.
— Prometa-me uma coisa — pediu Malvina, enquanto se aninhava no peito de Gabriel.
— Qualquer coisa.
— Se o mundo nos separar, prometa que me encontrará do outro lado. Não me deixe sozinha naquela escuridão de novo.
Gabriel beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro das flores murchas.
— Eu prometo. Nem a morte terá poder sobre nós.
Malvina fechou os olhos, mas não dormiu. Ela ouvia o som de passos lá fora, o sussurro das sombras e o riso abafado de Lena, que parecia ecoar pelas frestas das janelas. O palco estava montado. O figurino era de renda e sangue. E o ato final estava apenas começando.
Lá dentro, o silêncio era preenchido apenas pelo estalar das velas e pelo som rítmico da chuva batendo nas telhas de barro. Malvina o esperava na penumbra. Quando a porta se abriu e o viu naquele estado — as roupas encharcadas, o olhar sensível e melancólico turvado pela dor —, ela não disse nada de imediato. Apenas sentiu o peito arder.
— Gabriel... — ela sussurrou, a voz carregada de uma doçura fúnebre.
— Eles não entendem, Malvina. Eles não entendem o que somos — disse ele, a voz trêmula enquanto se apoiava no batente.
Ela se aproximou com passos leves, quase como se flutuasse. Suas mãos pálidas, adornadas por anéis de prata envelhecida, guiaram-no até uma poltrona de veludo gasto. Com uma bacia de água morna e panos de linho, Malvina começou a limpar o sangue que escorria pelo rosto fino e delicado de seu noivo.
— Você não deveria ter lutado por mim — disse ela, os olhos grandes e escuros fixos nos dele. — Eu já pertenço às sombras, Gabriel. Não quero que você sangre por causa de uma noiva que a cidade já condenou antes mesmo do "sim".
Gabriel segurou a mão dela com uma delicadeza desesperada, interrompendo o movimento do pano. A pele dela era fria, mas o toque incendiava o que restava de sua sanidade.
— Eu sangraria mil vezes para que ninguém ousasse pronunciar seu nome com desdém — afirmou ele, os olhos marejados. — Você é a única verdade que eu tenho neste mundo de hipocrisia.
A proximidade era perigosa. O cheiro de Malvina — uma mistura de flores murchas, incenso e terra molhada — envolvia Gabriel como um feitiço. Ele era um poeta do sofrimento, e ela era sua musa sombria. Durante semanas, eles tentaram manter a distância imposta pelo decoro e pelo medo do julgamento, mas a barreira estava desmoronando sob o peso do desejo reprimido.
— Eu tenho medo, Gabriel — confessou ela, a voz falhando pela primeira vez. — Tenho medo de que, se eu me entregar a este amor, o destino encontre uma forma de nos separar. Eu sinto que a felicidade é um vidro quebrado nas minhas mãos.
— Então vamos sangrar juntos — respondeu ele, puxando-a para mais perto. — Não há destino que possa desfazer o que sinto.
Sem mais hesitações, Gabriel selou o espaço entre eles. O beijo não foi suave; foi uma explosão de necessidade, carregada de um romantismo trágico. Malvina sentiu o gosto do sangue dele e o calor de sua respiração, contrastando com sua própria natureza gélida. Suas mãos se perderam nos cabelos castanhos e ondulados dele, enquanto ele a envolvia com uma urgência que dizia que o amanhã era uma incerteza que não importava.
Ali, sob a luz vacilante das velas que projetavam sombras gigantescas nas paredes, eles se entregaram um ao outro. O vestido preto de renda de Malvina deslizou pelos ombros pálidos como uma cortina que se fecha para o mundo exterior. Naquela noite, eles não eram o acordo entre famílias, nem os párias da cidade. Eram apenas duas almas feridas tentando se curar através do pecado e da paixão.
Do lado de fora, no entanto, a tempestade não era a única testemunha.
Lena estava parada sob a chuva, protegida apenas pela sombra de um beiral vizinho. Ela viera atrás de Gabriel, movida por uma mistura de preocupação e uma esperança doentia de que, no último momento, ele desistiria daquela "noiva fantasmagórica" para voltar aos seus braços. Mas o que viu através da fresta da janela entreaberta foi o fim de todas as suas ilusões.
A luz das velas iluminava perfeitamente o abraço dos dois. Lena viu as carícias, ouviu os suspiros de Malvina e a forma como Gabriel a olhava — com uma devoção que ele nunca dedicara a ela. Cada beijo trocado entre o casal era uma facada no peito de Lena. O ódio, frio e cortante, começou a substituir a tristeza.
— Então é assim? — sussurrou ela para a escuridão, as lágrimas se misturando à chuva que escorria por seu rosto. — Você prefere a morte ao meu lado, Gabriel?
Ela permaneceu ali por muito tempo, observando o ritual de amor e desespero. Quando finalmente se afastou, seus passos não eram mais os de uma mulher apaixonada e ferida, mas os de alguém que acabara de encontrar um propósito sombrio.
Na manhã seguinte, o sol nasceu pálido sobre o Recife, mas a tensão na casa de Malvina era palpável. Gabriel e Malvina estavam sentados à mesa, compartilhando um silêncio cúmplice, acreditando que o segredo da noite anterior pertencia apenas a eles.
— Precisamos ser discretos até o casamento — disse Gabriel, segurando a mão de Malvina sobre a mesa. — Depois que os votos forem feitos, ninguém poderá nos tocar.
— O mundo não perdoa quem ama fora das regras, Gabriel — comentou Malvina, o olhar perdido na fumaça da xícara de café. — Sinto que algo mudou no ar.
Ela estava certa.
Lena não esperou muito para agir. Ela não procurou Gabriel para um confronto direto; sua vingança exigia algo mais refinado, algo que destruísse a reputação que Malvina mal possuía. Ao meio-dia, Lena já circulava pelo mercado, encontrando-se com as beatas e as fofoqueiras da cidade.
— É uma pena, não é? — dizia Lena, com uma expressão de falsa melancolia. — Pobre Gabriel. Tão jovem, tão influenciável. Dizem que aquela casa... a casa da noiva... é um antro de perdição. Eu mesma vi vultos ontem à noite. Coisas que uma mulher de família não deveria sequer imaginar.
— O que você quer dizer com isso, Lena? — perguntou Dona Maria, a maior língua da paróquia.
— Ora, o pecado tem um cheiro forte, dona Maria. E ele cheira a renda preta e velas acesas na calada da noite. Malvina não quer um marido, ela quer uma alma para levar com ela para o túmulo. E parece que Gabriel já entregou a dele antes mesmo de subir ao altar.
As sementes da discórdia foram plantadas com maestria. À tarde, o boato de que Malvina e Gabriel haviam tido uma noite de núpcias antecipada e "profana" já corria as ladeiras. O julgamento da cidade, que Malvina tanto temia, estava se transformando em uma tempestade muito mais perigosa do que a da noite anterior.
Enquanto isso, alheio ao veneno que se espalhava, Gabriel buscava flores para Malvina. Ele se sentia revigorado, possuído por uma coragem que só os amantes desesperados conhecem. No entanto, ao caminhar pela rua, percebeu que as pessoas desviavam o olhar ou cuspiam no chão após sua passagem.
Ao chegar à porta de Malvina, ele a encontrou parada na varanda, olhando para o horizonte com uma expressão de puro pavor.
— Eles sabem, Gabriel — disse ela, sem olhar para ele.
— Como poderiam saber? Estávamos sós!
— O vento conta segredos quando as paredes têm ouvidos — Malvina virou-se, e Gabriel viu que ela segurava um bilhete anônimo deixado em seu portão.
Ele pegou o papel. A caligrafia era elegante, mas a mensagem era um punhal: *"O que foi feito no escuro será gritado no altar. A noiva de preto não merece o branco, nem o céu. O inferno espera por vocês dois."*
— Foi a Lena — Gabriel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. — Só ela teria esse rancor.
— Ela não quer apenas você, Gabriel — disse Malvina, aproximando-se dele, seus olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Ela quer nos ver destruídos. Ela quer que o nosso "felizes para sempre" seja um funeral.
Gabriel sentiu a fragilidade de sua posição. Ele era um sonhador, mas o mundo era feito de pedras. Ele segurou os ombros de Malvina, sentindo a estrutura magra dela sob o tecido fino.
— Não importa o que digam. Nós vamos nos casar. Amanhã, diante de Deus e dos homens, eu farei de você minha esposa.
— E se eles não permitirem? — perguntou ela. — Se a cidade se levantar contra nós?
— Então fugiremos para onde a morte não possa nos alcançar — respondeu ele, com o fervor de um herói de tragédia gótica. — Mas hoje, Malvina, você é minha. E nada, nem Lena, nem as línguas ferinas deste lugar, podem tirar isso de mim.
Malvina sorriu, um sorriso triste e assustadoramente belo. Ela sabia que o amor deles era amaldiçoado, e havia uma beleza terrível nisso.
Enquanto isso, em seu quarto, Lena observava o frasco de veneno sobre a penteadeira. Ela não planejava espalhar apenas rumores. Se Gabriel não podia ser dela nesta vida, ele não pertenceria a Malvina em nenhuma outra. A rivalidade entre as duas mulheres havia transcendido o ciúme; tornara-se uma questão de existência.
— Você acha que venceu, Malvina — murmurou Lena, olhando seu próprio reflexo, que parecia cada vez mais pálido e amargo. — Mas o casamento que você tanto deseja será o espetáculo mais sangrento que esta cidade já viu.
A noite caiu novamente, mas desta vez o silêncio era pesado, carregado de presságios. Gabriel e Malvina, trancados dentro da casa, tentavam ignorar os gritos distantes e o sentimento de que estavam sendo observados. Eles se amavam no limite entre a vida e o abismo, cientes de que cada carícia poderia ser a última.
— Prometa-me uma coisa — pediu Malvina, enquanto se aninhava no peito de Gabriel.
— Qualquer coisa.
— Se o mundo nos separar, prometa que me encontrará do outro lado. Não me deixe sozinha naquela escuridão de novo.
Gabriel beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro das flores murchas.
— Eu prometo. Nem a morte terá poder sobre nós.
Malvina fechou os olhos, mas não dormiu. Ela ouvia o som de passos lá fora, o sussurro das sombras e o riso abafado de Lena, que parecia ecoar pelas frestas das janelas. O palco estava montado. O figurino era de renda e sangue. E o ato final estava apenas começando.
