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E se fosse outra pessoa
Fandom: Pursuit of Jade
Creado: 6/4/2026
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HistóricoDramaAngustiaOscuroAcciónPsicológicoThrillerSupervivenciaViolencia GráficaSilkpunk
O Sangue sob o Luar de Lin'an
A noite em Lin'an não cheirava a terra molhada ou ao aroma familiar de carne defumada que costumava emanar da tenda de Fan Changyu. Naquela noite, o ar estava espesso, saturado com o odor metálico de sangue fresco e o calor sufocante das chamas que lambiam os telhados de palha das casas vizinhas. O vilarejo, que outrora fora um refúgio de paz e trabalho duro, transformara-se em um cenário de pesadelo. Gritos de desespero ecoavam pelos becos estreitos, interrompidos apenas pelo som ríspido de lâminas cortando o ar e o galope pesado de cavalos.
Fan Changyu apertava o cabo de seu cutelo de açougueira com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Suas roupas estavam manchadas de fuligem e respingos de sangue que não eram seus. Atrás dela, encolhida contra uma parede de pedra fria, estava a pequena Changning. A menina tremia violentamente, as mãos pequenas tapando os ouvidos para abafar os sons da carnificina lá fora.
— Changning, escute-me — sussurrou Changyu, sua voz firme apesar do terror que lhe subia pela garganta. — Você precisa correr para o bunker. Não olhe para trás. Se vir um soldado, não grite. Apenas corra.
— Mas e você, irmã? — a voz da menina saiu num fio, embargada pelo choro. — E o papai? E o Yan Zheng?
Changyu sentiu uma pontada no coração ao ouvir o nome do marido. Yan Zheng... onde ele estaria? Ele havia saído para tentar conter o avanço dos invasores, mas o caos era absoluto. Ela ainda o via como o homem simples e gentil que se casara com ela, sem imaginar que sob aquela fachada de marido dedicado escondia-se o Marquês Xie Zheng. Para ela, ele era apenas seu pilar, e agora, no meio do fogo, ela se sentia perigosamente sozinha.
— Eu vou encontrá-los — mentiu Changyu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Agora vá!
Antes que a menina pudesse se mover, a porta da cabana onde se escondiam foi estilhaçada. A madeira voou em pedaços, e a silhueta de um homem emoldurada pelo incêndio externo surgiu na entrada. Ele não vestia a armadura comum dos soldados da Fortaleza de Qingfeng; suas vestes eram finas, escuras, e o sorriso em seu rosto era algo que Changyu reconheceria até no mais profundo dos infernos.
Sui Yuanqing entrou no recinto com a elegância de um predador que sabe que a presa não tem para onde escapar. Ele limpava casualmente uma gota de sangue da bochecha com o polegar, seus olhos brilhando com uma luz doentia sob o luar.
— Ora, ora... — a voz dele era suave, quase musical, contrastando horrivelmente com os gritos de agonia que vinham da rua. — Eu viajei uma distância considerável para este reencontro, Changyu. Você poderia ao menos fingir que está feliz em me ver.
Changyu colocou-se imediatamente à frente de Changning, erguendo o cutelo. Seus olhos faiscavam de puro ódio.
— Você é um monstro, Sui Yuanqing! — gritou ela, a voz vibrando de fúria. — Por que está fazendo isso? Estas pessoas não têm nada a ver com suas disputas políticas!
Yuanqing deu um passo à frente, ignorando a arma dela. Ele parecia fascinado pela forma como ela o encarava. A coragem dela, aquela ferocidade de uma leoa protegendo sua cria, era exatamente o que o atraía. Desde que ela o sequestrara e o esfaqueara, ele não conseguia tirar a imagem dela da cabeça. A dor da ferida que ela lhe causara no passado ainda parecia pulsar sob sua pele, mas não como uma lembrança de derrota, e sim como um selo de posse.
— O mundo é um lugar cruel, minha cara açougueira — disse ele, parando a poucos centímetros da ponta da lâmina dela. — E o seu querido Yan Zheng... ele é o responsável por isso. Se ele não fosse tão teimoso, talvez eu não tivesse que queimar este buraco miserável até o chão.
— Não ouse falar o nome dele! — Changyu avançou, desferindo um golpe lateral com o cutelo.
Yuanqing moveu-se com uma agilidade impressionante, desviando por milímetros. Ele agarrou o pulso dela com uma força surpreendente, torcendo-o até que ela soltasse um gemido de dor, mas ela não soltou a arma. Em vez disso, ela usou o peso do corpo para tentar chutá-lo, uma manobra desesperada que ele bloqueou com o joelho.
— Essa agressividade... — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela, o hálito quente contra sua pele. — É por isso que eu não consigo matar você. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois daquela flecha que quase me tirou a vida, eu só conseguia pensar em como seria ver esse fogo nos seus olhos de perto novamente.
— Me solte! — Changyu cuspiu as palavras, tentando se desvencilhar.
Nesse momento, Changning soltou um grito agudo quando dois soldados de Yuanqing entraram na cabana, cercando as irmãs.
— General — disse um dos soldados, curvando-se levemente —, o vilarejo está sob controle. O que devemos fazer com a mulher e a criança?
Yuanqing não desviou os olhos de Changyu. Ele estendeu a mão livre e tocou uma mecha de cabelo dela que estava solta, acariciando-a com uma delicadeza perturbadora.
— Elas vêm comigo — declarou ele, sua voz assumindo um tom de autoridade absoluta. — São as "joias" do Marquês, não são? A esposa e a filha dele. Teremos muito o que conversar no caminho para a capital.
— Ela não é filha dele, é minha irmã! — corrigiu Changyu, tentando proteger a pequena com o próprio corpo enquanto os soldados as agarravam. — E eu não vou a lugar nenhum com você! Prefiro morrer aqui!
Yuanqing soltou uma risada curta e seca, um som desprovido de qualquer humor real.
— Ah, Changyu... você sempre foi tão dramática. A morte é um desperdício de talento. E quanto à pequena... — ele olhou para Changning, que soluçava baixinho — ...se você se comportar, talvez ela sobreviva à viagem. Caso contrário, temo que meus homens não sejam tão pacientes quanto eu.
O sangue de Changyu gelou. Ela conhecia aquele olhar. Sui Yuanqing não estava blefando. Ele era capaz de qualquer atrocidade para conseguir o que queria. Ela olhou para a irmã, vendo o terror puro em seus olhos, e depois para o vilarejo em chamas. Se ficassem, morreriam. Se fossem com ele... havia uma chance. Uma chance de sobreviver, de encontrar Yan Zheng, de se vingar.
— Tudo bem — disse ela, a voz rouca, deixando o cutelo cair no chão de terra. O som do metal batendo no solo pareceu o toque de um sino fúnebre para sua liberdade. — Eu vou. Mas deixe-a em paz. Se você tocar em um fio de cabelo da Changning, eu juro que vou terminar o que comecei daquela vez. Eu vou arrancar seu coração.
Yuanqing sorriu, um sorriso genuíno e perverso. Ele se inclinou e apanhou o cutelo dela, observando o fio da lâmina antes de entregá-lo a um de seus subordinados.
— Eu não esperaria nada menos de você — disse ele. — Levem-nas para a carruagem. E certifiquem-se de que fiquem bem confortáveis. Afinal, elas são minhas convidadas de honra.
***
A viagem de Lin'an para o acampamento avançado das forças de Sui foi um borrão de dor e exaustão. Changyu e Changning foram colocadas em uma carroça fechada, vigiada por guardas armados em todos os lados. Através das frestas da madeira, Changyu viu as cinzas de sua vida ficarem para trás. Ela não sabia se seu pai estava vivo, ou se Yan Zheng tinha conseguido escapar. A incerteza era uma tortura lenta.
Dentro da carroça, ela abraçava Changning, tentando aquecer a menina.
— Vai ficar tudo bem, Ning'er — sussurrava ela, embora não acreditasse nas próprias palavras. — Nós vamos dar um jeito.
— Aquele homem... ele é mau, irmã — disse a menina, a voz trêmula. — Por que ele olha para você daquele jeito? Como se quisesse te comer viva?
Changyu fechou os olhos, sentindo um calafrio. Ela sabia exatamente do que Changning estava falando. O interesse de Yuanqing não era apenas político. Havia algo distorcido, uma obsessão sombria que ela não conseguia compreender totalmente. Ele a via como um desafio, um troféu que se recusava a ser polido.
No meio da noite, a carroça parou. A porta foi aberta e a luz de uma tocha cegou Changyu por um momento.
— Saia — ordenou um guarda. — O Príncipe quer vê-la.
— Eu não vou deixar minha irmã sozinha — rebateu Changyu imediatamente.
— A pequena fica aqui. Se você cooperar, ela recebe comida. Se não... — o guarda deu de ombros significativamente.
Changyu apertou a mão de Changning uma última vez antes de descer. Ela foi conduzida através de um acampamento militar organizado, onde o som de espadas sendo afiadas e risadas rudes de soldados preenchiam o ar. No centro, uma tenda luxuosa se destacava.
Ao entrar, ela encontrou Sui Yuanqing sentado à mesa, examinando um mapa. Ele havia trocado as roupas sujas de batalha por um robe de seda escura, o que o tornava ainda mais perigoso — um lobo vestido em pele de nobreza.
— Sente-se — disse ele, sem levantar os olhos.
— Prefiro ficar de pé — respondeu ela, mantendo a distância.
Yuanqing finalmente ergueu o olhar. Ele parecia cansado, mas seus olhos brilharam ao vê-la. Ele apontou para uma bandeja com comida e vinho sobre a mesa.
— Você não comeu nada desde que saímos de Lin'an. Não quero que minha prisioneira mais valiosa desmaie de fome antes de chegarmos ao nosso destino.
— O que você quer, Yuanqing? — perguntou ela, ignorando a comida. — Se quer informações sobre o Marquês, está perdendo seu tempo. Eu sou apenas uma açougueira. Meu marido é um homem simples.
Yuanqing soltou uma risada melodiosa, levantando-se e caminhando lentamente em direção a ela.
— Um homem simples? Changyu, você é realmente tão ingênua ou é uma atriz melhor do que eu pensava? Yan Zheng... ou melhor, Xie Zheng, enganou você. Ele usou você como um escudo, como um disfarce para suas ambições. Ele não é o marido devoto que você imagina. Ele é um estrategista frio que a abandonou às chamas para salvar a própria pele.
— Você está mentindo! — gritou ela, embora uma semente de dúvida, plantada há muito tempo pelas inconsistências de Yan Zheng, começasse a latejar em sua mente. — Ele virá me buscar. Ele nunca me deixaria nas suas mãos.
Yuanqing parou a poucos centímetros dela. Ele era mais alto, e sua presença parecia ocupar todo o espaço da tenda. Ele estendeu a mão e, antes que ela pudesse recuar, segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele.
— E quando ele não vier? — perguntou ele, a voz baixando para um sussurro perigosamente íntimo. — Quando você perceber que o único homem que realmente atravessaria o fogo para possuí-la sou eu? O que você fará então, Changyu?
— Eu mataria você — respondeu ela, os dentes cerrados.
— Ah... — ele suspirou, um sorriso de satisfação cruzando seus lábios. — É por isso que eu gosto de você. Outras mulheres chorariam ou implorariam. Mas você... você promete me matar com o mesmo fogo que eu sinto quando te vejo. Sabe, aquela facada que você me deu... eu guardei a cicatriz. Às vezes, à noite, ela coça, e eu me lembro da sua expressão naquele momento. Foi a primeira vez que me senti realmente vivo em anos.
Changyu sentiu uma mistura de nojo e uma estranha, indesejada eletricidade percorrer sua espinha. A química entre eles era uma coisa doentia, uma tensão que beirava o ódio puro e algo muito mais sombrio.
— Você é louco — disse ela, a voz falhando levemente.
— Talvez — admitiu ele, soltando o queixo dela, mas não se afastando. — Mas sou um louco que tem você agora. E eu não pretendo deixar Xie Zheng tê-la de volta. Nunca.
Ele se virou e caminhou de volta para a mesa, pegando uma taça de vinho.
— Você vai ficar nesta tenda esta noite. Há uma cama ali. Não tente fugir; há guardas em cada centímetro deste acampamento e, se você sair, a vida da sua irmã será o preço da sua liberdade.
Changyu olhou para a cama luxuosa e depois para ele.
— E você? Onde vai dormir?
Yuanqing sorriu de lado, um olhar predatório cruzando seu rosto.
— Aqui mesmo. Gosto de observar minhas aquisições. Especialmente as que mordem.
Changyu sentou-se no chão, o mais longe possível dele, abraçando os próprios joelhos. Ela não dormiria. Ela vigiaria cada movimento dele, esperando por uma fraqueza, um deslize. Mas, enquanto as horas passavam e o silêncio do acampamento se instalava, ela não pôde deixar de pensar nas palavras dele. Xie Zheng... Yan Zheng... quem era o homem com quem ela se casara? E quem era esse monstro à sua frente que parecia conhecê-la melhor do que ela mesma?
A noite estava longe de acabar, e em Lin'an, as cinzas ainda estavam quentes, mas o verdadeiro incêndio, Changyu percebeu, estava apenas começando dentro daquela tenda. Ela era uma prisioneira, sim, mas enquanto olhava para Sui Yuanqing, ela percebeu que ele também estava preso — preso em uma obsessão que poderia destruir a ambos antes que o sol nascesse.
— Coma, Changyu — disse ele, sem olhar para ela. — Amanhã o caminho será longo. E eu quero que você tenha forças para me odiar durante todo o trajeto.
Ela não respondeu. Apenas o observou, sentindo que o destino de sua família, e talvez o de todo o reino, agora estava entrelaçado com a loucura daquele homem. A faca que ela usara contra ele no passado parecia uma arma pequena demais para a guerra que estava por vir.
Fan Changyu apertava o cabo de seu cutelo de açougueira com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Suas roupas estavam manchadas de fuligem e respingos de sangue que não eram seus. Atrás dela, encolhida contra uma parede de pedra fria, estava a pequena Changning. A menina tremia violentamente, as mãos pequenas tapando os ouvidos para abafar os sons da carnificina lá fora.
— Changning, escute-me — sussurrou Changyu, sua voz firme apesar do terror que lhe subia pela garganta. — Você precisa correr para o bunker. Não olhe para trás. Se vir um soldado, não grite. Apenas corra.
— Mas e você, irmã? — a voz da menina saiu num fio, embargada pelo choro. — E o papai? E o Yan Zheng?
Changyu sentiu uma pontada no coração ao ouvir o nome do marido. Yan Zheng... onde ele estaria? Ele havia saído para tentar conter o avanço dos invasores, mas o caos era absoluto. Ela ainda o via como o homem simples e gentil que se casara com ela, sem imaginar que sob aquela fachada de marido dedicado escondia-se o Marquês Xie Zheng. Para ela, ele era apenas seu pilar, e agora, no meio do fogo, ela se sentia perigosamente sozinha.
— Eu vou encontrá-los — mentiu Changyu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Agora vá!
Antes que a menina pudesse se mover, a porta da cabana onde se escondiam foi estilhaçada. A madeira voou em pedaços, e a silhueta de um homem emoldurada pelo incêndio externo surgiu na entrada. Ele não vestia a armadura comum dos soldados da Fortaleza de Qingfeng; suas vestes eram finas, escuras, e o sorriso em seu rosto era algo que Changyu reconheceria até no mais profundo dos infernos.
Sui Yuanqing entrou no recinto com a elegância de um predador que sabe que a presa não tem para onde escapar. Ele limpava casualmente uma gota de sangue da bochecha com o polegar, seus olhos brilhando com uma luz doentia sob o luar.
— Ora, ora... — a voz dele era suave, quase musical, contrastando horrivelmente com os gritos de agonia que vinham da rua. — Eu viajei uma distância considerável para este reencontro, Changyu. Você poderia ao menos fingir que está feliz em me ver.
Changyu colocou-se imediatamente à frente de Changning, erguendo o cutelo. Seus olhos faiscavam de puro ódio.
— Você é um monstro, Sui Yuanqing! — gritou ela, a voz vibrando de fúria. — Por que está fazendo isso? Estas pessoas não têm nada a ver com suas disputas políticas!
Yuanqing deu um passo à frente, ignorando a arma dela. Ele parecia fascinado pela forma como ela o encarava. A coragem dela, aquela ferocidade de uma leoa protegendo sua cria, era exatamente o que o atraía. Desde que ela o sequestrara e o esfaqueara, ele não conseguia tirar a imagem dela da cabeça. A dor da ferida que ela lhe causara no passado ainda parecia pulsar sob sua pele, mas não como uma lembrança de derrota, e sim como um selo de posse.
— O mundo é um lugar cruel, minha cara açougueira — disse ele, parando a poucos centímetros da ponta da lâmina dela. — E o seu querido Yan Zheng... ele é o responsável por isso. Se ele não fosse tão teimoso, talvez eu não tivesse que queimar este buraco miserável até o chão.
— Não ouse falar o nome dele! — Changyu avançou, desferindo um golpe lateral com o cutelo.
Yuanqing moveu-se com uma agilidade impressionante, desviando por milímetros. Ele agarrou o pulso dela com uma força surpreendente, torcendo-o até que ela soltasse um gemido de dor, mas ela não soltou a arma. Em vez disso, ela usou o peso do corpo para tentar chutá-lo, uma manobra desesperada que ele bloqueou com o joelho.
— Essa agressividade... — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela, o hálito quente contra sua pele. — É por isso que eu não consigo matar você. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois daquela flecha que quase me tirou a vida, eu só conseguia pensar em como seria ver esse fogo nos seus olhos de perto novamente.
— Me solte! — Changyu cuspiu as palavras, tentando se desvencilhar.
Nesse momento, Changning soltou um grito agudo quando dois soldados de Yuanqing entraram na cabana, cercando as irmãs.
— General — disse um dos soldados, curvando-se levemente —, o vilarejo está sob controle. O que devemos fazer com a mulher e a criança?
Yuanqing não desviou os olhos de Changyu. Ele estendeu a mão livre e tocou uma mecha de cabelo dela que estava solta, acariciando-a com uma delicadeza perturbadora.
— Elas vêm comigo — declarou ele, sua voz assumindo um tom de autoridade absoluta. — São as "joias" do Marquês, não são? A esposa e a filha dele. Teremos muito o que conversar no caminho para a capital.
— Ela não é filha dele, é minha irmã! — corrigiu Changyu, tentando proteger a pequena com o próprio corpo enquanto os soldados as agarravam. — E eu não vou a lugar nenhum com você! Prefiro morrer aqui!
Yuanqing soltou uma risada curta e seca, um som desprovido de qualquer humor real.
— Ah, Changyu... você sempre foi tão dramática. A morte é um desperdício de talento. E quanto à pequena... — ele olhou para Changning, que soluçava baixinho — ...se você se comportar, talvez ela sobreviva à viagem. Caso contrário, temo que meus homens não sejam tão pacientes quanto eu.
O sangue de Changyu gelou. Ela conhecia aquele olhar. Sui Yuanqing não estava blefando. Ele era capaz de qualquer atrocidade para conseguir o que queria. Ela olhou para a irmã, vendo o terror puro em seus olhos, e depois para o vilarejo em chamas. Se ficassem, morreriam. Se fossem com ele... havia uma chance. Uma chance de sobreviver, de encontrar Yan Zheng, de se vingar.
— Tudo bem — disse ela, a voz rouca, deixando o cutelo cair no chão de terra. O som do metal batendo no solo pareceu o toque de um sino fúnebre para sua liberdade. — Eu vou. Mas deixe-a em paz. Se você tocar em um fio de cabelo da Changning, eu juro que vou terminar o que comecei daquela vez. Eu vou arrancar seu coração.
Yuanqing sorriu, um sorriso genuíno e perverso. Ele se inclinou e apanhou o cutelo dela, observando o fio da lâmina antes de entregá-lo a um de seus subordinados.
— Eu não esperaria nada menos de você — disse ele. — Levem-nas para a carruagem. E certifiquem-se de que fiquem bem confortáveis. Afinal, elas são minhas convidadas de honra.
***
A viagem de Lin'an para o acampamento avançado das forças de Sui foi um borrão de dor e exaustão. Changyu e Changning foram colocadas em uma carroça fechada, vigiada por guardas armados em todos os lados. Através das frestas da madeira, Changyu viu as cinzas de sua vida ficarem para trás. Ela não sabia se seu pai estava vivo, ou se Yan Zheng tinha conseguido escapar. A incerteza era uma tortura lenta.
Dentro da carroça, ela abraçava Changning, tentando aquecer a menina.
— Vai ficar tudo bem, Ning'er — sussurrava ela, embora não acreditasse nas próprias palavras. — Nós vamos dar um jeito.
— Aquele homem... ele é mau, irmã — disse a menina, a voz trêmula. — Por que ele olha para você daquele jeito? Como se quisesse te comer viva?
Changyu fechou os olhos, sentindo um calafrio. Ela sabia exatamente do que Changning estava falando. O interesse de Yuanqing não era apenas político. Havia algo distorcido, uma obsessão sombria que ela não conseguia compreender totalmente. Ele a via como um desafio, um troféu que se recusava a ser polido.
No meio da noite, a carroça parou. A porta foi aberta e a luz de uma tocha cegou Changyu por um momento.
— Saia — ordenou um guarda. — O Príncipe quer vê-la.
— Eu não vou deixar minha irmã sozinha — rebateu Changyu imediatamente.
— A pequena fica aqui. Se você cooperar, ela recebe comida. Se não... — o guarda deu de ombros significativamente.
Changyu apertou a mão de Changning uma última vez antes de descer. Ela foi conduzida através de um acampamento militar organizado, onde o som de espadas sendo afiadas e risadas rudes de soldados preenchiam o ar. No centro, uma tenda luxuosa se destacava.
Ao entrar, ela encontrou Sui Yuanqing sentado à mesa, examinando um mapa. Ele havia trocado as roupas sujas de batalha por um robe de seda escura, o que o tornava ainda mais perigoso — um lobo vestido em pele de nobreza.
— Sente-se — disse ele, sem levantar os olhos.
— Prefiro ficar de pé — respondeu ela, mantendo a distância.
Yuanqing finalmente ergueu o olhar. Ele parecia cansado, mas seus olhos brilharam ao vê-la. Ele apontou para uma bandeja com comida e vinho sobre a mesa.
— Você não comeu nada desde que saímos de Lin'an. Não quero que minha prisioneira mais valiosa desmaie de fome antes de chegarmos ao nosso destino.
— O que você quer, Yuanqing? — perguntou ela, ignorando a comida. — Se quer informações sobre o Marquês, está perdendo seu tempo. Eu sou apenas uma açougueira. Meu marido é um homem simples.
Yuanqing soltou uma risada melodiosa, levantando-se e caminhando lentamente em direção a ela.
— Um homem simples? Changyu, você é realmente tão ingênua ou é uma atriz melhor do que eu pensava? Yan Zheng... ou melhor, Xie Zheng, enganou você. Ele usou você como um escudo, como um disfarce para suas ambições. Ele não é o marido devoto que você imagina. Ele é um estrategista frio que a abandonou às chamas para salvar a própria pele.
— Você está mentindo! — gritou ela, embora uma semente de dúvida, plantada há muito tempo pelas inconsistências de Yan Zheng, começasse a latejar em sua mente. — Ele virá me buscar. Ele nunca me deixaria nas suas mãos.
Yuanqing parou a poucos centímetros dela. Ele era mais alto, e sua presença parecia ocupar todo o espaço da tenda. Ele estendeu a mão e, antes que ela pudesse recuar, segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele.
— E quando ele não vier? — perguntou ele, a voz baixando para um sussurro perigosamente íntimo. — Quando você perceber que o único homem que realmente atravessaria o fogo para possuí-la sou eu? O que você fará então, Changyu?
— Eu mataria você — respondeu ela, os dentes cerrados.
— Ah... — ele suspirou, um sorriso de satisfação cruzando seus lábios. — É por isso que eu gosto de você. Outras mulheres chorariam ou implorariam. Mas você... você promete me matar com o mesmo fogo que eu sinto quando te vejo. Sabe, aquela facada que você me deu... eu guardei a cicatriz. Às vezes, à noite, ela coça, e eu me lembro da sua expressão naquele momento. Foi a primeira vez que me senti realmente vivo em anos.
Changyu sentiu uma mistura de nojo e uma estranha, indesejada eletricidade percorrer sua espinha. A química entre eles era uma coisa doentia, uma tensão que beirava o ódio puro e algo muito mais sombrio.
— Você é louco — disse ela, a voz falhando levemente.
— Talvez — admitiu ele, soltando o queixo dela, mas não se afastando. — Mas sou um louco que tem você agora. E eu não pretendo deixar Xie Zheng tê-la de volta. Nunca.
Ele se virou e caminhou de volta para a mesa, pegando uma taça de vinho.
— Você vai ficar nesta tenda esta noite. Há uma cama ali. Não tente fugir; há guardas em cada centímetro deste acampamento e, se você sair, a vida da sua irmã será o preço da sua liberdade.
Changyu olhou para a cama luxuosa e depois para ele.
— E você? Onde vai dormir?
Yuanqing sorriu de lado, um olhar predatório cruzando seu rosto.
— Aqui mesmo. Gosto de observar minhas aquisições. Especialmente as que mordem.
Changyu sentou-se no chão, o mais longe possível dele, abraçando os próprios joelhos. Ela não dormiria. Ela vigiaria cada movimento dele, esperando por uma fraqueza, um deslize. Mas, enquanto as horas passavam e o silêncio do acampamento se instalava, ela não pôde deixar de pensar nas palavras dele. Xie Zheng... Yan Zheng... quem era o homem com quem ela se casara? E quem era esse monstro à sua frente que parecia conhecê-la melhor do que ela mesma?
A noite estava longe de acabar, e em Lin'an, as cinzas ainda estavam quentes, mas o verdadeiro incêndio, Changyu percebeu, estava apenas começando dentro daquela tenda. Ela era uma prisioneira, sim, mas enquanto olhava para Sui Yuanqing, ela percebeu que ele também estava preso — preso em uma obsessão que poderia destruir a ambos antes que o sol nascesse.
— Coma, Changyu — disse ele, sem olhar para ela. — Amanhã o caminho será longo. E eu quero que você tenha forças para me odiar durante todo o trajeto.
Ela não respondeu. Apenas o observou, sentindo que o destino de sua família, e talvez o de todo o reino, agora estava entrelaçado com a loucura daquele homem. A faca que ela usara contra ele no passado parecia uma arma pequena demais para a guerra que estava por vir.
