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Respostas atordoadas

Fandom: História original

Creado: 9/4/2026

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O Ritmo Caótico do Coração

Zake soltou um suspiro pesado, os dedos apertando o controle do console com uma força que fazia as juntas ficarem brancas. Na tela, seu personagem acabara de cair em um penhasco pela terceira vez consecutiva. O motivo? Amber. A garotinha de sete anos parecia ter molas nos pés, pulando no estofado do sofá com uma energia que desafiava as leis da física e a paciência de qualquer ser humano.

— Amber, pelo amor de Deus, senta um pouco! — Zake resmungou, a voz grave vibrando discretamente por causa do piercing na língua.

— Eu sou uma pipoca, Zake! Pipocas não sentam, elas explodem! — a menina gritou, rindo e dando uma pirueta que quase acertou o rosto do irmão.

— E eu vou explodir de ódio se você não parar de reclamar dessa prova de história, Kalia — Zake direcionou o olhar para a irmã do meio, que estava jogada no tapete, rodeada de livros e com uma expressão de quem preferia estar mastigando vidro.

— Mas Zake, é injusto! — Kalia bufou, jogando uma caneta para o alto. — Quem se importa com o que aconteceu em mil oitocentos e bolinha? Eu quero ser influencer, não arqueóloga. E a mamãe confiscou meu celular até eu decorar as capitais da Europa. Isso é tortura!

— É educação, Kalia — a voz de Agatha veio da cozinha, acompanhada pelo cheiro delicioso de cebola refogada e carne assada. — E se eu ouvir mais um pio sobre injustiça, vou confiscar o tablet também.

Breno, o pai, apareceu na porta da cozinha com um pano de prato no ombro e um sorriso de canto, observando o caos. Ele olhou para Zake, notando como o filho tentava manter a pose de metaleiro durão enquanto era usado como trampolim por uma criança de sete anos. O estilo de Zake era um reflexo do pai — os dois gostavam de roupas escuras e tinham um jeito mais contido —, mas Breno sabia que, por trás dos piercings nos lábios e das dreads longas, o coração do filho batia em um ritmo muito específico toda vez que certa pessoa aparecia.

Foi então que o som abafado de batidas na porta cortou a gritaria da sala.

Zake congelou por um milésimo de segundo. Ele conhecia aquele ritmo de batida. Era firme, mas apressado. Ele largou o controle no sofá, ignorando o fato de que seu personagem estava sendo devorado por monstros na tela, e se levantou.

— Eu atendo — disse ele, tentando manter a voz o mais neutra possível, embora sentisse um leve tremor nas mãos.

Ao abrir a porta, o ar pareceu fugir de seus pulmões. Kaio estava parado ali, com aquele sorriso de lado que sempre parecia carregar algum segredo divertido. O sol de fim de tarde batia em seu cabelo loiro, destacando a raiz castanha e fazendo as sardas em seu rosto parecerem pequenas constelações. Ele vestia uma camiseta larga e um jeans gasto, carregando uma mochila que parecia pesada demais.

— E aí, bonitão? — Kaio disse, a voz carregada de uma malícia leve. — Vai me deixar entrar ou vai ficar aí me admirando como se eu fosse uma obra de arte?

Zake sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Ele deu um passo para trás, abrindo caminho, enquanto tentava desviar o olhar dos olhos esverdeados de Kaio que pareciam ler sua alma.

— Entra logo, idiota. Você sabe que não precisa bater.

— Ah, mas eu gosto de ver você vindo abrir a porta — Kaio passou por ele, o cheiro de desodorante cítrico e algo que lembrava liberdade preenchendo o espaço pessoal de Zake. — Dá um ar de importância, sabe?

— Kaio! — Amber gritou, pulando do sofá e correndo para abraçar as pernas do recém-chegado. — Você veio brincar de pipoca?

— Pipoca? — Kaio riu, bagunçando o cabelo da menina. — Só se for agora! Mas primeiro, preciso cumprimentar o pessoal.

— Oi, Kaio! — Agatha gritou da cozinha. — Já coloquei mais um prato na mesa!

— Obrigado, tia! A senhora é um anjo — Kaio respondeu, já se sentindo em casa.

Ele se jogou no sofá, exatamente onde Zake estava sentado antes, e olhou para a tela da TV.

— Caramba, Zake... você morreu de novo? Você é péssimo nesse jogo quando eu não estou por perto para te carregar, hein?

Zake fechou a porta e caminhou de volta para a sala, sentando-se na ponta oposta do sofá, tentando manter uma distância segura que não denunciasse o quão nervoso ele ficava com a proximidade física de Kaio.

— Eu estava distraído. A Amber não para quieta.

— Sei... distraído — Kaio se inclinou na direção de Zake, diminuindo o espaço entre eles. — Ou será que você estava pensando em mim e perdeu o foco?

Zake sentiu o piercing no mamilo repuxar sob a camiseta preta quando ele se encolheu levemente. Ele olhou para Kaio, os olhos castanhos encontrando os verdes. Naquela pose de "durão", com seus snake bites brilhando sob a luz da sala, Zake parecia intimidador para qualquer um, menos para Kaio. Para Kaio, Zake era um livro aberto escrito em letras garrafais.

— Nos seus sonhos, Kaio — Zake murmurou, virando o rosto para esconder o sorriso involuntário.

— Nos meus sonhos você é bem mais gentil, sabia? — Kaio deu uma piscadinha e se virou para Kalia. — E aí, pequena peste? O que te deixou com essa cara de quem comeu limão azedo?

— História — Kalia resmungou. — É um tédio.

— História é incrível, você só precisa do professor certo — Kaio pegou o livro dela, folheando com desleixo. — Se você quiser, depois do jantar eu te ajudo a decorar essas capitais. Eu conheço uns macetes ótimos.

— Sério? — ela se animou. — Você é bem melhor que o Zake. Ele só sabe cozinhar e ouvir música que parece um liquidificador quebrado.

Zake revirou os olhos, mas não disse nada. Ele gostava de como Kaio se integrava à sua família. Era natural. Kaio não tinha uma relação boa com os próprios pais; o ambiente na casa dele era frio, cheio de cobranças e de uma não aceitação silenciosa que doía mais do que gritos. Por isso, a casa de Zake havia se tornado seu refúgio. Agatha e Breno o tratavam como um terceiro filho, e as meninas o adoravam.

— O jantar está pronto! — Breno anunciou, aparecendo na sala. Ele viu Kaio e sorriu. — E aí, campeão. Chegou na hora certa.

— O senhor sabe que eu tenho um radar para a comida da tia Agatha, tio Breno — Kaio se levantou, esticando os braços e deixando a camiseta subir um pouco, revelando a borda da fita que ele usava para comprimir o peito.

Zake desviou o olhar rapidamente, o coração martelando contra as costelas. Ele se lembrava perfeitamente do dia em que Kaio contou para ele que era um garoto trans. Foi há quase dois anos, em uma noite chuvosa no telhado da garagem. Zake esperava qualquer coisa, menos aquilo, mas no momento em que as palavras saíram da boca de Kaio, nada mudou para ele. Ou melhor, mudou: ele percebeu que amava Kaio não pelo que ele parecia ser, mas por quem ele era de verdade. O amor só cresceu, tornando-se esse sentimento sufocante e doce que ele não tinha coragem de confessar.

Na mesa de jantar, o clima era o de sempre: barulhento e acolhedor. Amber tentava contar sobre um desenho que viu, Kalia reclamava da comida (mesmo repetindo o prato), e Agatha e Breno trocavam olhares cúmplices enquanto observavam Zake e Kaio.

— Então, Kaio — Agatha começou, servindo mais suco. — Vai ficar para dormir hoje? Amanhã é sábado.

— Se não for incômodo... — Kaio olhou para Zake. — O que você acha, Zake? Quer aguentar minha cara feia até amanhã?

Zake deu de ombros, fingindo desinteresse enquanto mastigava.

— Tanto faz. O quarto é seu também, praticamente.

— Viu só? Ele me ama — Kaio brincou, cutucando a costela de Zake com o cotovelo.

Zake quase engasgou.

— Para com isso, estou comendo!

— Está nervoso, Zake? — Kaio provocou, a voz baixinha, apenas para ele ouvir. — Suas orelhas estão ficando vermelhas. É o efeito que eu causo em você?

Zake sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele era o mais alto, o mais forte, o "metaleiro de piercings", mas perto de Kaio, ele se sentia como um gatinho acuado. Ele era, por natureza, alguém que preferia ser cuidado, que gostava do toque, mas a timidez o impedia de buscar isso.

Após o jantar e de Kaio realmente cumprir a promessa de ajudar Kalia com a lição — transformando as capitais da Europa em uma música de rap improvisada que fez Amber morrer de rir —, os dois adolescentes finalmente subiram para o quarto de Zake.

O quarto era o refúgio pessoal de Zake: paredes escuras cobertas de pôsteres de bandas de death metal, prateleiras com discos de vinil e o cheiro característico de incenso de sândalo. Kaio fechou a porta e imediatamente jogou a mochila no canto, começando a tirar a camiseta.

Zake, que estava sentado na beira da cama tirando os coturnos, sentiu o sangue subir para o rosto. Ele já tinha visto Kaio sem camisa muitas vezes, mas nunca deixava de ser um momento de tensão. Kaio ficou apenas com as fitas adesivas beges cruzando o peito, a pele bronzeada contrastando com o material.

— Cara, essas fitas estão me matando hoje — Kaio reclamou, sentando-se ao lado de Zake na cama. — Acho que apertei demais.

— Quer que eu... quer dizer, você quer ajuda para tirar ou algo assim? — Zake perguntou, a voz saindo mais fina do que o planejado.

Kaio olhou para ele, um brilho diferente nos olhos esverdeados. O tom de brincadeira sumiu por um instante, substituído por algo mais denso.

— Você faria isso? — Kaio perguntou, inclinando-se para frente.

Zake engoliu em seco. Ele podia ver as sardas no ombro de Kaio, a curva do seu pescoço.

— Claro. Eu... eu não quero que você sinta dor.

Kaio sorriu, mas desta vez foi um sorriso doce, sem a provocação de antes.

— Você é um cara legal, Zake. Por isso que eu gosto de te atentar. Você é todo durão por fora, cheio de metal na cara, mas é a pessoa mais fofa que eu conheço.

— Eu não sou fofo — Zake protestou, embora estivesse derretendo por dentro.

— É sim. Especialmente quando fica com essa carinha de quem quer um abraço mas está com vergonha de pedir.

Kaio se aproximou mais, o calor de seu corpo irradiando para Zake. Ele esticou a mão e tocou levemente o piercing na sobrancelha de Zake, descendo os dedos pela bochecha até o lábio, onde os snake bites brilhavam.

— Às vezes eu acho que você tem medo de mim — murmurou Kaio, a voz agora rouca.

— Eu não tenho medo de você — Zake respondeu, o coração batendo tão forte que ele tinha certeza de que Kaio podia ouvir. — Eu só... eu não sei o que fazer quando você está por perto.

— Não precisa fazer nada. Só me deixa ficar aqui.

Kaio deitou a cabeça no ombro de Zake, suspirando de alívio. Zake hesitou por um segundo antes de passar o braço pelos ombros de Kaio, puxando-o para mais perto. O toque físico era a linguagem favorita de Zake, e ter Kaio ali, vulnerável e relaxado em seus braços, era tudo o que ele sempre quis.

— Zake? — Kaio chamou baixinho.

— Oi.

— Seus pais ganharam a aposta, né?

Zake travou.

— Que aposta?

— Eu ouvi eles comentando na cozinha uma vez. Eles apostaram que a gente ia acabar junto antes do final do ano.

Zake escondeu o rosto nas dreads de Kaio, sentindo uma vergonha mortal.

— Eu vou matar o meu pai.

Kaio soltou uma risada vibrante, que aqueceu o peito de Zake.

— Não mata não. Eu quero ganhar a aposta junto com eles.

Zake não respondeu com palavras. Em vez disso, ele apertou o abraço, deixando que o silêncio do quarto e a presença de Kaio dissessem tudo o que sua timidez escondia. Ali, naquele pequeno santuário de pôsteres de metal e cheiro de incenso, o caos da sala parecia a quilômetros de distância. E, pela primeira vez, Zake não se importou em parecer o "coitado" da relação. Se o prêmio era ter Kaio, ele aceitaria qualquer papel.
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