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Fandom: Parmiga

Criado: 13/04/2026

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Batimentos e Sombras

O cheiro de antisséptico e café frio já se tornara uma extensão da minha própria pele. Aos vinte e oito anos, eu deveria, talvez, estar aproveitando as noites de sexta-feira em algum bar badalado de Nova Jersey, mas meu coração — tanto o físico quanto o metafórico — batia no ritmo acelerado das máquinas de monitoramento do Hospital Geral. Ser cardiologista não era apenas uma profissão; era o escudo que eu usava para não ter que lidar com o silêncio do meu próprio apartamento.

Eu encarava o prontuário do Sr. Henderson, um senhor de setenta anos que acabara de passar por uma revascularização complexa. Meus dedos, finos e pálidos, tamborilavam na prancheta. Meus cabelos loiros, cortados na altura do queixo para facilitar a rotina, insistiam em cair sobre meus olhos azuis, que queimavam pelo cansaço de doze horas ininterruptas de plantão.

— Você precisa ir para casa, Vera. Seus olhos estão quase fechando sozinhos.

Ergui o rosto e sorri levemente para Sarah, minha enfermeira-chefe e melhor amiga. Ela me conhecia melhor do que qualquer um, inclusive os fantasmas que eu tentava esconder sob o jaleco branco.

— Só mais uma rodada pela UTI, Sarah. Quero garantir que o pós-operatório da sala quatro esteja estável — respondi, minha voz saindo mais rouca do que eu esperava.

— O Jack vai passar aqui para me buscar em vinte minutos. Ele disse que a delegacia está um caos com o novo delegado que chegou esta semana. Por que você não pega uma carona com a gente? — Sarah sugeriu, ajeitando o estetoscópio no pescoço.

— Eu vim com meu carro hoje. Mas obrigada, querida. Dê um oi ao Jack por mim.

Caminhei pelos corredores brancos, o som dos meus sapatos ecoando no piso de linóleo. Três anos naquele hospital e eu ainda sentia um aperto no peito toda vez que passava pela ala de traumas. O passado é um animal traiçoeiro; ele se esconde nas sombras, esperando um momento de fraqueza para morder. Minha dedicação à cardiologia era uma tentativa desesperada de consertar corações, talvez porque o meu tivesse sido quebrado de formas que a medicina não podia alcançar.

Finalmente, às dez da noite, atravessei as portas automáticas da emergência. O ar frio da noite atingiu meu rosto como um choque térmico necessário. A delegacia de polícia ficava exatamente do outro lado da rua, um prédio de tijolos escuros cujas luzes nunca se apagavam. Entre o hospital e a delegacia, havia um fluxo constante de heróis e vilões, de vida e de crime.

Caminhei em direção ao estacionamento lateral, onde meu pequeno sedã estava estacionado sob um poste de luz que piscava intermitentemente. O frio de novembro penetrava meu casaco de lã, e eu apressei o passo, desejando apenas um banho quente e o esquecimento do sono.

— Doutora Farmiga! Que surpresa encontrá-la ainda por aqui.

Parei bruscamente, a chave do carro já em mãos. O policial Ricardo Miller estava encostado na porta do motorista do meu carro. Ele era um homem que exalava uma autoconfiança que sempre me causava calafrios, e não do tipo bom.

— Policial Miller. Já terminei meu turno. Se me der licença, gostaria de ir para casa — eu disse, tentando manter a voz firme e profissional.

— Ora, Vera... Posso te chamar de Vera, não é? — Ele se aproximou, diminuindo a distância de segurança. — Você trabalha demais. Eu estava pensando que poderíamos tomar um drinque no bar aqui da esquina. Você parece precisar relaxar.

— Eu não bebo com estranhos, Miller. E, como eu disse, estou cansada. Por favor, saia da frente da minha porta.

Tentei contorná-lo, mas ele foi mais rápido. Sua mão, grande e pesada, fechou-se em volta do meu braço com uma força desnecessária.

— Não precisa ser tão arisca. Só quero conversar. Uma mulher bonita como você não deveria passar a noite sozinha.

— Solte o meu braço, agora — eu disse, meu coração disparando, mas não por romance. O trauma antigo latejou na minha memória, o medo paralisante de ser dominada por alguém mais forte.

— E se eu não soltar? — Ele sorriu, um sorriso predatório. — Você vai fazer o quê? Chamar a polícia? Eu sou a polícia, gracinha.

Antes que eu pudesse processar o pânico crescente, um vulto alto e imponente surgiu das sombras entre as viaturas. O movimento foi tão rápido que meus olhos mal conseguiram acompanhar.

Em um segundo, Miller ainda segurava meu braço. No segundo seguinte, ele estava sendo prensado violentamente contra a lataria do meu carro, com o cano frio de uma pistola pressionado contra sua têmpora.

— Você quer uma bala no seu crânio, Miller? — Uma voz profunda, gélida e carregada de uma autoridade perigosa ecoou pelo estacionamento.

Eu congelei. O homem que segurava Miller era alto, de ombros largos, vestindo um sobretudo escuro que parecia emoldurar sua figura poderosa. Seus cabelos eram de um loiro acobreado, e seus olhos... mesmo na penumbra, eram de um azul tão intenso e cortante que pareciam atravessar a alma.

— Delegado... — Miller gaguejou, o rosto achatado contra o metal. — Calma, senhor. Estávamos apenas conversando.

O delegado soltou uma risada curta e debochada, um som sem nenhuma alegria.

— "Apenas conversando"? — O delegado inclinou a cabeça, os olhos fixos em Miller com um desprezo absoluto. — Eu já ouvi essa mesma frase antes. Meu pai dizia exatamente isso para a minha mãe, logo antes de bater nela e estuprá-la.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Senti um arrepio percorrer minha espinha ao ouvir aquela confissão tão crua, dita com uma calma calculista que era quase mais assustadora do que um grito.

— O senhor está exagerando... — Miller tentou dizer, mas o delegado pressionou a arma com mais força.

— Você não ouviu a mulher dizer que não? — O delegado perguntou, sua voz baixando para um sussurro letal. — Porque eu ouvi daqui. E se eu ouvir de novo, ou se eu vir você encostar um dedo sequer nela sem permissão, eu juro que vou deixar você exatamente como meu pai ficou: com uma bala atravessada pela cabeça. Você me entendeu?

— Sim, senhor! Entendi! — Miller estava pálido, o suor brilhando em sua testa apesar do frio.

— Patrick! Solte ele, por favor.

Reconheci a voz imediatamente. Jack, o irmão de Sarah e um dos policiais mais gentis da delegacia, aproximou-se apressadamente, as mãos erguidas em um gesto de paz.

— Ele não vale o relatório que você teria que escrever, Patrick — Jack disse, parando ao lado deles. — Miller, suma daqui. Agora.

O delegado, que agora eu sabia se chamar Patrick, relaxou a pressão da arma lentamente, mas seus olhos nunca deixaram os de Miller até que o outro policial se soltasse e saísse quase correndo em direção ao prédio da delegacia.

Patrick guardou a arma no coldre sob o sobretudo com um movimento fluido e preciso. Ele se virou para mim, e a intensidade do seu olhar me fez perder o fôlego por um instante. A aura de violência que o cercava segundos atrás pareceu se dissipar, dando lugar a uma preocupação genuína, embora contida.

— Você está bem, doutora? — Ele perguntou. Sua voz ainda era firme, mas o tom era suave, quase carinhoso.

— Eu... sim. Obrigada — consegui dizer, sentindo minhas pernas tremerem levemente.

— Vera! — Jack se aproximou, colocando a mão no meu ombro. — Sinto muito por isso. Miller é um idiota, mas ele nunca tinha passado tanto dos limites. Você está mesmo bem?

— Estou, Jack. Só foi um susto.

— Vera, este é Patrick Wilson, o novo delegado — Jack nos apresentou. — Ele chegou à cidade esta semana. Patrick, esta é a Dra. Vera Farmiga, a melhor cardiologista deste estado e a melhor amiga da minha irmã.

Patrick deu um passo à frente. Ele era consideravelmente mais alto que eu, e sua presença preenchia o espaço de uma forma que me fazia sentir protegida, em vez de ameaçada.

— Peço desculpas por ter que presenciar aquela cena, Dra. Farmiga — disse Patrick, estendendo a mão. — Não é a primeira impressão que eu gostaria de causar, mas não tolero homens que não entendem o significado da palavra "não".

Hesitei por um segundo antes de colocar minha mão na dele. Sua pele era quente, e o aperto foi firme, mas gentil. Nossos olhos se encontraram, e por um momento, o mundo ao redor — o hospital, a delegacia, o frio — pareceu desaparecer. Havia algo naqueles olhos azuis, uma dor compartilhada, uma compreensão silenciosa de quem já viu o pior do mundo e decidiu lutar contra ele.

— O senhor foi bem... enfático — eu disse, tentando recuperar meu senso de humor para esconder o nervosismo.

Ele deu um meio sorriso, o primeiro sinal de suavidade em seu rosto esculpido.

— Às vezes, o único idioma que certos homens entendem é a força. Mas prometo que sou muito mais civilizado em um ambiente de café.

— Patrick é o melhor que temos, Vera — Jack interveio, sorrindo. — Mas ele leva o trabalho muito a sério. Ele estava monitorando o pátio porque notou o comportamento do Miller mais cedo.

— Eu não gosto de predadores — Patrick disse simplesmente, seus olhos voltando-se para mim. — Especialmente quando o alvo é alguém que passa o dia salvando vidas.

— Eu só faço o meu trabalho, Delegado Wilson.

— E eu o meu — ele retrucou. — Jack, acompanhe a doutora até o carro dela e garanta que ela saia em segurança. Eu vou ter uma conversa administrativa com o policial Miller que ele não esquecerá tão cedo.

— Pode deixar, chefe — Jack assentiu.

Patrick me lançou um último olhar, um aceno de cabeça respeitoso, e começou a caminhar de volta para a delegacia. Seus passos eram decididos, a postura de um homem que carregava o peso do mundo nos ombros, mas que se recusava a curvar-se sob ele.

— Ele é intenso, não é? — Jack comentou enquanto eu abria a porta do meu carro.

— É uma palavra para descrever — respondi, observando a silhueta de Patrick desaparecer na entrada do prédio oposto. — O que ele disse sobre os pais dele... é verdade?

Jack suspirou, encostando-se na porta.

— Patrick não é de contar mentiras, Vera. Ele veio de um passado difícil. Acho que é por isso que ele é tão bom no que faz. Ele é calculista, frio quando precisa ser, mas tem um coração enorme para quem merece. Sarah já está encantada por ele, diz que ele é o "cavaleiro de armadura de aço".

— Sarah e suas metáforas românticas — sorri, entrando no carro. — Obrigada por aparecer, Jack.

— Não agradeça a mim. Patrick viu o que estava acontecendo antes mesmo de eu perceber que vocês não estavam apenas conversando. Ele tem olhos de águia.

Liguei o motor, mas antes de sair, olhei pelo retrovisor. Patrick Wilson estava parado na janela do segundo andar da delegacia, olhando para o estacionamento. Nossos olhares se cruzaram à distância por um breve segundo antes de eu engatar a marcha.

Meu coração, que eu tanto estudava e tentava proteger, bateu de uma forma diferente naquela noite. Não era o ritmo do medo, nem o da exaustão. Era algo novo, um pulsar de curiosidade e, pela primeira vez em muito tempo, uma estranha sensação de segurança.

A cidade de Jersey City parecia a mesma, mas enquanto eu dirigia para casa, as luzes da delegacia refletidas no meu espelho pareciam um pouco mais brilhantes. Eu sabia que o passado ainda estava lá, escondido nas cicatrizes que eu carregava, mas talvez, apenas talvez, o novo delegado fosse o tipo de tempestade que limpa o ar em vez de destruir tudo pelo caminho.

E enquanto eu subia para o meu apartamento, o som da voz dele — "Você quer uma bala no seu crânio?" — ecoava na minha mente, não como uma ameaça, mas como um lembrete de que, às vezes, os monstros são caçados por alguém ainda mais implacável.

Aquela noite fria de novembro fora apenas o começo. Eu sentia isso em cada batida do meu próprio coração.
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