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Ritmo do coração
Fandom: Parmiga
Criado: 14/04/2026
Tags
RomanceDramaDor/ConfortoCrimeDetetiveEstudo de PersonagemRealismoNoirFatias de VidaFofuraHumorHistória Doméstica
Cicatrizes sob a Luz de Mercúrio
O som rítmico do monitor cardíaco era, para muitos, um prenúncio de ansiedade, mas para mim, era a melodia que regia a minha existência. Eu observava a linha verde oscilar no monitor da Unidade de Terapia Intensiva, sentindo o peso familiar do estetoscópio em volta do meu pescoço. Ser cardiologista aos vinte e oito anos exigia mais do que apenas habilidade técnica; exigia uma blindagem emocional que, às vezes, eu sentia que estava começando a rachar.
Meu dia havia começado às cinco da manhã. Entre cirurgias de ponte de sapena e atendimentos de emergência, o hospital parecia um labirinto de azulejos brancos e cheiro de antisséptico. Eu gostava do caos controlado. Ali, eu tinha domínio. Ali, eu sabia exatamente como consertar um coração partido — pelo menos, o tipo físico.
— Doutora Farmiga? — A voz doce de Taissa me tirou dos meus pensamentos.
Taissa era minha melhor amiga e enfermeira-chefe da ala. Seus olhos castanhos transmitiam uma calma que eu raramente sentia. Ela era a irmã que a vida me deu, e seu irmão, Jack, trabalhava na delegacia logo em frente ao hospital. Era um arranjo curioso: a vida sendo salva de um lado da rua e a ordem sendo mantida do outro.
— O paciente do quarto 402 está estável, Vera. Vá tomar um café. Você está aqui há doze horas seguidas e seus olhos azuis estão começando a parecer cinzas de tanto cansaço — ela brincou, encostando a mão no meu ombro.
— Eu só preciso terminar de revisar esses prontuários, Tai. Você sabe como o Dr. Aris é exigente com a burocracia — respondi, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos.
— O Dr. Aris que se exploda por meia hora. Vá. Agora.
Eu obedeci. Caminhei pelo corredor, meus passos ecoando suavemente. No caminho para a cafeteria, passei pelas grandes janelas de vidro que davam para a rua. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um laranja melancólico que logo daria lugar ao azul profundo da noite fria que se aproximava. Do outro lado da avenida, vi a movimentação na delegacia. Viaturas entrando e saindo. Ouvi dizer que um novo delegado havia assumido o posto naquela semana, mas com a minha escala insana, eu mal tinha tempo de saber o que acontecia fora das paredes do hospital, quanto mais conhecer os novos vizinhos da lei.
O restante da tarde foi um borrão de consultas. Atendi o Sr. Miller, um senhor de setenta anos cujo coração estava cansado de carregar tantas memórias, e a jovem Amanda, que nascera com uma malformação congênita e me olhava como se eu fosse uma espécie de super-heroína de jaleco branco. Se ela soubesse que, por dentro, eu me sentia tão frágil quanto o cristal de um frasco de remédio, talvez não sorrisse tanto.
Quando o relógio marcou quase nove da noite, eu finalmente me dei por vencida. Meus músculos protestavam e minha mente implorava por silêncio. Troquei o jaleco pelo meu sobretudo de lã escura, ajeitei meus cabelos loiros curtos no espelho do vestiário e suspirei. O espelho devolveu a imagem de uma mulher que muitos chamariam de bem-sucedida, mas que eu via apenas como alguém tentando não afundar no próprio passado.
Saí pelo portão lateral dos funcionários. O ar gelado da noite atingiu meu rosto como um choque elétrico, fazendo-me encolher os ombros. O estacionamento estava quase vazio, mergulhado em uma penumbra quebrada apenas pelos postes de luz amarelada.
Enquanto eu caminhava em direção ao meu carro, tateando a bolsa em busca das chaves, uma silhueta se desprendeu das sombras perto da entrada da delegacia e atravessou a rua em minha direção. Eu reconheci o porte antes mesmo de ver o rosto. Era Ricardo Miller, um policial que vinha me importunando há semanas com convites insistentes e olhares que me deixavam desconfortável.
— Doutora Farmiga! Que coincidência encontrar você saindo agora — disse ele, com um sorriso que não transmitia confiança.
— Não é coincidência, Ricardo. Eu saio quase sempre neste horário — respondi, tentando manter a voz neutra enquanto apertava o passo.
— Você trabalha demais, Vera. Precisa relaxar. Que tal irmos tomar um drink naquele bar novo no centro? Eu insisto.
— Eu já disse que não, Ricardo. Estou exausta e só quero ir para casa. Por favor, me dê licença.
Cheguei ao meu carro, mas ele se posicionou entre mim e a porta do motorista. O cheiro de cigarro e um perfume barato emanavam dele.
— Qual é, loirinha? Só uma bebida. Não seja difícil. Eu sei que você gosta de um pouco de atenção — ele disse, aproximando-se mais do que o permitido pelo bom senso.
— Eu disse para sair da minha frente — minha voz saiu mais firme, embora meu coração estivesse começando a disparar contra as costelas.
— E se eu não sair? — Ele riu, uma risada seca, e segurou meu braço com força excessiva. — Você é muito metidinha para uma médica.
— Me solta! Você está me machucando! — Minha voz saiu mais alta, carregada de um medo que eu odiava sentir.
— Não precisa de escândalo, a gente só está conversando...
Antes que Ricardo pudesse terminar a frase, ou que eu pudesse tentar me desvencilhar, um vulto escuro e rápido surgiu das sombras entre os carros. Em um movimento quase borrado de tão ágil, Ricardo foi arrancado de perto de mim. O som do corpo dele sendo prensado contra o metal da porta do meu carro ecoou pelo estacionamento.
O choque me deixou paralisada.
Um homem alto, de ombros largos e cabelos aloirados, segurava Ricardo pelo colarinho com uma mão, enquanto a outra pressionava o cano frio de uma pistola diretamente contra a têmpora do policial. Os olhos do desconhecido eram de um azul gélido, profundo, que parecia atravessar a alma.
— Você quer uma bala no seu crânio? — A voz do homem era um barítono baixo, carregado de uma fúria controlada e perigosa.
— Calma, chefe! — Ricardo gaguejou, as mãos levantadas, o rosto pálido de terror. — É o Miller! Sou da sua equipe! A gente só estava conversando!
O homem — que eu deduzi ser o tal Delegado Wilson — soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Era um deboche amargo que me fez arrepiar.
— "Só conversando"? — Patrick Wilson repetiu, pressionando a arma com ainda mais força contra a cabeça de Ricardo. — Engraçado... Eu já ouvi essa mesma frase antes. Meu pai dizia exatamente isso para os vizinhos, logo depois de espancar e estuprar a minha mãe.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu mal conseguia respirar, olhando para aquele homem que parecia personificar a justiça e o trauma ao mesmo tempo.
— Você não ouviu a mulher dizer que não? — continuou o delegado, os olhos fixos nos de Ricardo. — Ou você tem algum problema auditivo que eu precise resolver com um tiro para limpar o canal? Você quer ficar como ele? Quer terminar com uma bala atravessada pela cabeça porque não sabe respeitar o espaço de uma mulher?
— Delegado! Solte ele, por favor!
Jack, o irmão de Taissa, surgiu correndo da direção da delegacia, parando a poucos metros de nós, ofegante. Ele olhou para mim com preocupação e depois para a cena caótica à sua frente.
— Wilson, solta o cara. Ele é um idiota, mas não vale o relatório de homicídio — Jack pediu, com a voz cautelosa de quem sabe que está lidando com uma bomba prestes a explodir.
Patrick Wilson permaneceu imóvel por mais alguns segundos, o dedo relaxando levemente no gatilho, mas o olhar ainda fixo em Ricardo. Finalmente, ele guardou a arma no coldre e soltou o colarinho do policial com um empurrão desprezível.
— Saia da minha frente — ordenou Patrick, sem elevar o tom de voz. — Amanhã cedo, quero seu distintivo e sua arma na minha mesa. Você está suspenso até que a corregedoria decida se você serve para ser policial ou se é apenas mais um lixo que precisa ser varrido da rua.
Ricardo não contestou. Ele lançou um olhar rápido e carregado de ódio para nós antes de sair apressado em direção ao prédio da delegacia.
O silêncio voltou a reinar no estacionamento. Jack aproximou-se de mim, colocando a mão no meu ombro.
— Vera, você está bem? Ele te machucou?
— Eu... eu estou bem, Jack. Foi só o susto — respondi, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. Olhei para o meu braço; a marca dos dedos de Ricardo provavelmente se tornaria um hematoma amanhã.
Patrick Wilson guardou a arma no coldre sob o casaco e virou-se para mim. Pela primeira vez, o olhar gélido se suavizou, transformando-se em algo que beirava a preocupação, embora ele ainda mantivesse uma distância profissional.
— Peço desculpas pela conduta do meu subordinado, Dra. Farmiga — disse ele. Sua voz não era mais a de um executor, mas a de um homem educado, embora distante. — Eu sou Patrick Wilson. Assumi o distrito esta semana.
— Eu sei quem o senhor é — respondi, tentando recuperar minha postura. — Obrigada pela intervenção. Eu não sei o que teria acontecido se o senhor não tivesse aparecido.
— Provavelmente nada de bom — ele comentou, com um tom sombrio. Ele olhou para o hospital atrás de mim e depois de volta para os meus olhos. — Jack me falou muito bem da senhora. Disse que é a melhor cirurgiã cardíaca da cidade.
— Jack exagera — respondi, lançando um olhar rápido para o meu amigo, que apenas deu de ombros.
— Ele não exagera — Patrick retrucou. — Mas, se me permite o conselho, não ande sozinha por aqui tão tarde. A vizinhança é segura na teoria, mas lobos vestem fardas com mais frequência do que o público gostaria de admitir.
Havia algo na maneira como ele falava que me intrigava. Não era apenas o cinismo de um policial veterano; era algo mais profundo, uma dor antiga que ele carregava como uma armadura. A menção ao pai dele, feita momentos antes, ainda ecoava na minha mente. Como médica, eu estava acostumada a ler as pessoas, e Patrick Wilson era um livro escrito em uma língua morta que eu estava morrendo de vontade de traduzir.
— Eu vou acompanhá-la até o seu carro — disse Jack. — E você, Wilson? Vai ficar para o café ou vai voltar para a papelada?
— Vou terminar os relatórios — Patrick respondeu, mas seus olhos permaneceram em mim por um segundo a mais do que o necessário. — Tenha uma boa noite, Dra. Farmiga. Espero que nosso próximo encontro seja em circunstâncias menos... balísticas.
— Eu também espero, Delegado — respondi.
Eu entrei no carro, observando pelo retrovisor enquanto os dois homens caminhavam de volta para a delegacia. Patrick Wilson tinha um andar pesado, como se carregasse o mundo nos ombros. Ele não olhou para trás.
Dirigi até em casa em uma espécie de transe. O apartamento estava silencioso e frio. Joguei as chaves na mesa da entrada e fui direto para o banheiro. Enquanto lavava o rosto, olhei para o meu reflexo. Meus olhos azuis, que Taissa dissera estarem cinzas, agora brilhavam com uma adrenalina residual.
Eu passei a vida estudando o coração humano. Eu sabia como ele funcionava, como ele batia, como ele falhava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, senti que meu próprio coração estava batendo em um ritmo que eu não conseguia diagnosticar.
No dia seguinte, o hospital estava tão agitado quanto de costume. No entanto, o clima parecia diferente. Taissa me encontrou no posto de enfermagem com um olhar de quem sabia de tudo.
— Jack me contou o que aconteceu ontem à noite — ela disse, baixando o tom de voz. — Aquele Ricardo é um animal. Fico feliz que o Wilson tenha colocado ele no lugar dele.
— Ele foi... intenso — comentei, focando em assinar alguns papéis para evitar o olhar inquisitivo dela.
— Intenso é pouco. Jack diz que ele é o melhor delegado que já passou por ali, mas que ele é um mistério completo. Ninguém sabe de onde ele veio exatamente, ou por que um homem com o currículo dele aceitou um distrito tão problemático quanto o nosso.
— Talvez ele só queira fazer a diferença — sugeri.
— Ou talvez ele esteja fugindo de algo — Taissa rebateu. — Homens como o Patrick Wilson não aparecem do nada sem um motivo.
Eu não tive tempo de responder. Um bip no meu bolso anunciou uma emergência na ala de cardiologia pediátrica. Corri pelos corredores, o instinto médico assumindo o controle total.
Passei as próximas seis horas em uma cirurgia delicada. Uma pequena paciente, Sofia, precisava de uma correção valvular urgente. Quando finalmente saí da sala de operação, o céu já estava escurecendo novamente. O sucesso da cirurgia trouxe um alívio temporário, mas o cansaço era como uma âncora me puxando para baixo.
Enquanto caminhava para o vestiário, vi um vulto conhecido no final do corredor. Patrick Wilson estava encostado na parede, usando calças jeans escuras e uma jaqueta de couro que o fazia parecer menos um delegado e mais um homem comum — se é que algo nele poderia ser chamado de comum.
— Delegado? — perguntei, surpresa. — Aconteceu alguma coisa? Algum policial ferido?
Ele se endireitou, desencostando-se da parede. Ele segurava um envelope pardo nas mãos.
— Não, nada disso. Eu vim trazer isto — ele estendeu o envelope. — É a cópia do depoimento que Jack redigiu sobre o incidente de ontem. Como você é a vítima, precisa assinar para que o processo de suspensão do Miller se torne permanente.
— Você veio pessoalmente entregar isso? — perguntei, pegando o envelope. Nossos dedos se tocaram por um breve instante, e uma faísca de eletricidade estática pareceu saltar entre nós.
— Eu estava por perto — ele mentiu, e eu soube que era mentira pelo leve desvio de seu olhar. — E queria ter certeza de que você estava bem. Jack mencionou que você teve uma cirurgia difícil hoje.
— Como ele sabe disso? — dei uma risada leve. — Esse hospital e aquela delegacia são piores do que uma cidade pequena no interior.
— Ele se preocupa com você. E, depois de ontem, eu também — ele admitiu, sua voz caindo para aquele tom barítono que me fazia estremecer.
Houve um silêncio carregado entre nós. O corredor estava quase vazio, e a luz fluorescente acima de nós zumbia baixinho.
— Obrigada, Patrick — eu disse, usando o nome dele pela primeira vez.
Ele pareceu surpreso, mas um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu no canto de seus lábios.
— De nada, Vera.
Ele começou a se afastar, mas parou e se virou novamente.
— Eu não sou um homem fácil de lidar — disse ele, sem preâmbulos. — Tenho muitos demônios que ainda não aprendi a domar. Mas eu sei reconhecer alguém que também está lutando contra os seus.
Eu não soube o que dizer. Ele me leu como se eu fosse um prontuário médico aberto em sua frente.
— Eu conserto corações, Patrick — respondi, com a voz embargada. — Mas não sei se sei consertar os que foram quebrados por algo que não seja uma doença.
— Talvez — disse ele, dando um passo em minha direção — nós possamos tentar descobrir isso juntos. Algum dia. Longe de armas e bisturis.
Ele não esperou por uma resposta. Virou-se e caminhou em direção à saída, deixando-me ali, no meio do corredor de azulejos brancos, sentindo que, pela primeira vez em anos, meu próprio coração não estava apenas batendo para me manter viva, mas estava batendo por algo que eu ainda não conseguia nomear.
Abri o envelope pardo. Dentro, além dos papéis do depoimento, havia um pequeno pedaço de papel rasgado com um número de telefone escrito em uma caligrafia firme e elegante.
Sorri, sentindo o peso do estetoscópio um pouco mais leve no meu pescoço. A noite estava fria lá fora, mas dentro daquelas paredes, algo novo estava começando a pulsar. E eu, como boa cardiologista, sabia que aquele era um sinal vital que eu não poderia ignorar.
Meu dia havia começado às cinco da manhã. Entre cirurgias de ponte de sapena e atendimentos de emergência, o hospital parecia um labirinto de azulejos brancos e cheiro de antisséptico. Eu gostava do caos controlado. Ali, eu tinha domínio. Ali, eu sabia exatamente como consertar um coração partido — pelo menos, o tipo físico.
— Doutora Farmiga? — A voz doce de Taissa me tirou dos meus pensamentos.
Taissa era minha melhor amiga e enfermeira-chefe da ala. Seus olhos castanhos transmitiam uma calma que eu raramente sentia. Ela era a irmã que a vida me deu, e seu irmão, Jack, trabalhava na delegacia logo em frente ao hospital. Era um arranjo curioso: a vida sendo salva de um lado da rua e a ordem sendo mantida do outro.
— O paciente do quarto 402 está estável, Vera. Vá tomar um café. Você está aqui há doze horas seguidas e seus olhos azuis estão começando a parecer cinzas de tanto cansaço — ela brincou, encostando a mão no meu ombro.
— Eu só preciso terminar de revisar esses prontuários, Tai. Você sabe como o Dr. Aris é exigente com a burocracia — respondi, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos.
— O Dr. Aris que se exploda por meia hora. Vá. Agora.
Eu obedeci. Caminhei pelo corredor, meus passos ecoando suavemente. No caminho para a cafeteria, passei pelas grandes janelas de vidro que davam para a rua. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um laranja melancólico que logo daria lugar ao azul profundo da noite fria que se aproximava. Do outro lado da avenida, vi a movimentação na delegacia. Viaturas entrando e saindo. Ouvi dizer que um novo delegado havia assumido o posto naquela semana, mas com a minha escala insana, eu mal tinha tempo de saber o que acontecia fora das paredes do hospital, quanto mais conhecer os novos vizinhos da lei.
O restante da tarde foi um borrão de consultas. Atendi o Sr. Miller, um senhor de setenta anos cujo coração estava cansado de carregar tantas memórias, e a jovem Amanda, que nascera com uma malformação congênita e me olhava como se eu fosse uma espécie de super-heroína de jaleco branco. Se ela soubesse que, por dentro, eu me sentia tão frágil quanto o cristal de um frasco de remédio, talvez não sorrisse tanto.
Quando o relógio marcou quase nove da noite, eu finalmente me dei por vencida. Meus músculos protestavam e minha mente implorava por silêncio. Troquei o jaleco pelo meu sobretudo de lã escura, ajeitei meus cabelos loiros curtos no espelho do vestiário e suspirei. O espelho devolveu a imagem de uma mulher que muitos chamariam de bem-sucedida, mas que eu via apenas como alguém tentando não afundar no próprio passado.
Saí pelo portão lateral dos funcionários. O ar gelado da noite atingiu meu rosto como um choque elétrico, fazendo-me encolher os ombros. O estacionamento estava quase vazio, mergulhado em uma penumbra quebrada apenas pelos postes de luz amarelada.
Enquanto eu caminhava em direção ao meu carro, tateando a bolsa em busca das chaves, uma silhueta se desprendeu das sombras perto da entrada da delegacia e atravessou a rua em minha direção. Eu reconheci o porte antes mesmo de ver o rosto. Era Ricardo Miller, um policial que vinha me importunando há semanas com convites insistentes e olhares que me deixavam desconfortável.
— Doutora Farmiga! Que coincidência encontrar você saindo agora — disse ele, com um sorriso que não transmitia confiança.
— Não é coincidência, Ricardo. Eu saio quase sempre neste horário — respondi, tentando manter a voz neutra enquanto apertava o passo.
— Você trabalha demais, Vera. Precisa relaxar. Que tal irmos tomar um drink naquele bar novo no centro? Eu insisto.
— Eu já disse que não, Ricardo. Estou exausta e só quero ir para casa. Por favor, me dê licença.
Cheguei ao meu carro, mas ele se posicionou entre mim e a porta do motorista. O cheiro de cigarro e um perfume barato emanavam dele.
— Qual é, loirinha? Só uma bebida. Não seja difícil. Eu sei que você gosta de um pouco de atenção — ele disse, aproximando-se mais do que o permitido pelo bom senso.
— Eu disse para sair da minha frente — minha voz saiu mais firme, embora meu coração estivesse começando a disparar contra as costelas.
— E se eu não sair? — Ele riu, uma risada seca, e segurou meu braço com força excessiva. — Você é muito metidinha para uma médica.
— Me solta! Você está me machucando! — Minha voz saiu mais alta, carregada de um medo que eu odiava sentir.
— Não precisa de escândalo, a gente só está conversando...
Antes que Ricardo pudesse terminar a frase, ou que eu pudesse tentar me desvencilhar, um vulto escuro e rápido surgiu das sombras entre os carros. Em um movimento quase borrado de tão ágil, Ricardo foi arrancado de perto de mim. O som do corpo dele sendo prensado contra o metal da porta do meu carro ecoou pelo estacionamento.
O choque me deixou paralisada.
Um homem alto, de ombros largos e cabelos aloirados, segurava Ricardo pelo colarinho com uma mão, enquanto a outra pressionava o cano frio de uma pistola diretamente contra a têmpora do policial. Os olhos do desconhecido eram de um azul gélido, profundo, que parecia atravessar a alma.
— Você quer uma bala no seu crânio? — A voz do homem era um barítono baixo, carregado de uma fúria controlada e perigosa.
— Calma, chefe! — Ricardo gaguejou, as mãos levantadas, o rosto pálido de terror. — É o Miller! Sou da sua equipe! A gente só estava conversando!
O homem — que eu deduzi ser o tal Delegado Wilson — soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Era um deboche amargo que me fez arrepiar.
— "Só conversando"? — Patrick Wilson repetiu, pressionando a arma com ainda mais força contra a cabeça de Ricardo. — Engraçado... Eu já ouvi essa mesma frase antes. Meu pai dizia exatamente isso para os vizinhos, logo depois de espancar e estuprar a minha mãe.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu mal conseguia respirar, olhando para aquele homem que parecia personificar a justiça e o trauma ao mesmo tempo.
— Você não ouviu a mulher dizer que não? — continuou o delegado, os olhos fixos nos de Ricardo. — Ou você tem algum problema auditivo que eu precise resolver com um tiro para limpar o canal? Você quer ficar como ele? Quer terminar com uma bala atravessada pela cabeça porque não sabe respeitar o espaço de uma mulher?
— Delegado! Solte ele, por favor!
Jack, o irmão de Taissa, surgiu correndo da direção da delegacia, parando a poucos metros de nós, ofegante. Ele olhou para mim com preocupação e depois para a cena caótica à sua frente.
— Wilson, solta o cara. Ele é um idiota, mas não vale o relatório de homicídio — Jack pediu, com a voz cautelosa de quem sabe que está lidando com uma bomba prestes a explodir.
Patrick Wilson permaneceu imóvel por mais alguns segundos, o dedo relaxando levemente no gatilho, mas o olhar ainda fixo em Ricardo. Finalmente, ele guardou a arma no coldre e soltou o colarinho do policial com um empurrão desprezível.
— Saia da minha frente — ordenou Patrick, sem elevar o tom de voz. — Amanhã cedo, quero seu distintivo e sua arma na minha mesa. Você está suspenso até que a corregedoria decida se você serve para ser policial ou se é apenas mais um lixo que precisa ser varrido da rua.
Ricardo não contestou. Ele lançou um olhar rápido e carregado de ódio para nós antes de sair apressado em direção ao prédio da delegacia.
O silêncio voltou a reinar no estacionamento. Jack aproximou-se de mim, colocando a mão no meu ombro.
— Vera, você está bem? Ele te machucou?
— Eu... eu estou bem, Jack. Foi só o susto — respondi, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. Olhei para o meu braço; a marca dos dedos de Ricardo provavelmente se tornaria um hematoma amanhã.
Patrick Wilson guardou a arma no coldre sob o casaco e virou-se para mim. Pela primeira vez, o olhar gélido se suavizou, transformando-se em algo que beirava a preocupação, embora ele ainda mantivesse uma distância profissional.
— Peço desculpas pela conduta do meu subordinado, Dra. Farmiga — disse ele. Sua voz não era mais a de um executor, mas a de um homem educado, embora distante. — Eu sou Patrick Wilson. Assumi o distrito esta semana.
— Eu sei quem o senhor é — respondi, tentando recuperar minha postura. — Obrigada pela intervenção. Eu não sei o que teria acontecido se o senhor não tivesse aparecido.
— Provavelmente nada de bom — ele comentou, com um tom sombrio. Ele olhou para o hospital atrás de mim e depois de volta para os meus olhos. — Jack me falou muito bem da senhora. Disse que é a melhor cirurgiã cardíaca da cidade.
— Jack exagera — respondi, lançando um olhar rápido para o meu amigo, que apenas deu de ombros.
— Ele não exagera — Patrick retrucou. — Mas, se me permite o conselho, não ande sozinha por aqui tão tarde. A vizinhança é segura na teoria, mas lobos vestem fardas com mais frequência do que o público gostaria de admitir.
Havia algo na maneira como ele falava que me intrigava. Não era apenas o cinismo de um policial veterano; era algo mais profundo, uma dor antiga que ele carregava como uma armadura. A menção ao pai dele, feita momentos antes, ainda ecoava na minha mente. Como médica, eu estava acostumada a ler as pessoas, e Patrick Wilson era um livro escrito em uma língua morta que eu estava morrendo de vontade de traduzir.
— Eu vou acompanhá-la até o seu carro — disse Jack. — E você, Wilson? Vai ficar para o café ou vai voltar para a papelada?
— Vou terminar os relatórios — Patrick respondeu, mas seus olhos permaneceram em mim por um segundo a mais do que o necessário. — Tenha uma boa noite, Dra. Farmiga. Espero que nosso próximo encontro seja em circunstâncias menos... balísticas.
— Eu também espero, Delegado — respondi.
Eu entrei no carro, observando pelo retrovisor enquanto os dois homens caminhavam de volta para a delegacia. Patrick Wilson tinha um andar pesado, como se carregasse o mundo nos ombros. Ele não olhou para trás.
Dirigi até em casa em uma espécie de transe. O apartamento estava silencioso e frio. Joguei as chaves na mesa da entrada e fui direto para o banheiro. Enquanto lavava o rosto, olhei para o meu reflexo. Meus olhos azuis, que Taissa dissera estarem cinzas, agora brilhavam com uma adrenalina residual.
Eu passei a vida estudando o coração humano. Eu sabia como ele funcionava, como ele batia, como ele falhava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, senti que meu próprio coração estava batendo em um ritmo que eu não conseguia diagnosticar.
No dia seguinte, o hospital estava tão agitado quanto de costume. No entanto, o clima parecia diferente. Taissa me encontrou no posto de enfermagem com um olhar de quem sabia de tudo.
— Jack me contou o que aconteceu ontem à noite — ela disse, baixando o tom de voz. — Aquele Ricardo é um animal. Fico feliz que o Wilson tenha colocado ele no lugar dele.
— Ele foi... intenso — comentei, focando em assinar alguns papéis para evitar o olhar inquisitivo dela.
— Intenso é pouco. Jack diz que ele é o melhor delegado que já passou por ali, mas que ele é um mistério completo. Ninguém sabe de onde ele veio exatamente, ou por que um homem com o currículo dele aceitou um distrito tão problemático quanto o nosso.
— Talvez ele só queira fazer a diferença — sugeri.
— Ou talvez ele esteja fugindo de algo — Taissa rebateu. — Homens como o Patrick Wilson não aparecem do nada sem um motivo.
Eu não tive tempo de responder. Um bip no meu bolso anunciou uma emergência na ala de cardiologia pediátrica. Corri pelos corredores, o instinto médico assumindo o controle total.
Passei as próximas seis horas em uma cirurgia delicada. Uma pequena paciente, Sofia, precisava de uma correção valvular urgente. Quando finalmente saí da sala de operação, o céu já estava escurecendo novamente. O sucesso da cirurgia trouxe um alívio temporário, mas o cansaço era como uma âncora me puxando para baixo.
Enquanto caminhava para o vestiário, vi um vulto conhecido no final do corredor. Patrick Wilson estava encostado na parede, usando calças jeans escuras e uma jaqueta de couro que o fazia parecer menos um delegado e mais um homem comum — se é que algo nele poderia ser chamado de comum.
— Delegado? — perguntei, surpresa. — Aconteceu alguma coisa? Algum policial ferido?
Ele se endireitou, desencostando-se da parede. Ele segurava um envelope pardo nas mãos.
— Não, nada disso. Eu vim trazer isto — ele estendeu o envelope. — É a cópia do depoimento que Jack redigiu sobre o incidente de ontem. Como você é a vítima, precisa assinar para que o processo de suspensão do Miller se torne permanente.
— Você veio pessoalmente entregar isso? — perguntei, pegando o envelope. Nossos dedos se tocaram por um breve instante, e uma faísca de eletricidade estática pareceu saltar entre nós.
— Eu estava por perto — ele mentiu, e eu soube que era mentira pelo leve desvio de seu olhar. — E queria ter certeza de que você estava bem. Jack mencionou que você teve uma cirurgia difícil hoje.
— Como ele sabe disso? — dei uma risada leve. — Esse hospital e aquela delegacia são piores do que uma cidade pequena no interior.
— Ele se preocupa com você. E, depois de ontem, eu também — ele admitiu, sua voz caindo para aquele tom barítono que me fazia estremecer.
Houve um silêncio carregado entre nós. O corredor estava quase vazio, e a luz fluorescente acima de nós zumbia baixinho.
— Obrigada, Patrick — eu disse, usando o nome dele pela primeira vez.
Ele pareceu surpreso, mas um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu no canto de seus lábios.
— De nada, Vera.
Ele começou a se afastar, mas parou e se virou novamente.
— Eu não sou um homem fácil de lidar — disse ele, sem preâmbulos. — Tenho muitos demônios que ainda não aprendi a domar. Mas eu sei reconhecer alguém que também está lutando contra os seus.
Eu não soube o que dizer. Ele me leu como se eu fosse um prontuário médico aberto em sua frente.
— Eu conserto corações, Patrick — respondi, com a voz embargada. — Mas não sei se sei consertar os que foram quebrados por algo que não seja uma doença.
— Talvez — disse ele, dando um passo em minha direção — nós possamos tentar descobrir isso juntos. Algum dia. Longe de armas e bisturis.
Ele não esperou por uma resposta. Virou-se e caminhou em direção à saída, deixando-me ali, no meio do corredor de azulejos brancos, sentindo que, pela primeira vez em anos, meu próprio coração não estava apenas batendo para me manter viva, mas estava batendo por algo que eu ainda não conseguia nomear.
Abri o envelope pardo. Dentro, além dos papéis do depoimento, havia um pequeno pedaço de papel rasgado com um número de telefone escrito em uma caligrafia firme e elegante.
Sorri, sentindo o peso do estetoscópio um pouco mais leve no meu pescoço. A noite estava fria lá fora, mas dentro daquelas paredes, algo novo estava começando a pulsar. E eu, como boa cardiologista, sabia que aquele era um sinal vital que eu não poderia ignorar.
