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Oceano
Fandom: Parmiga
Criado: 17/04/2026
Tags
RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaDetetiveCrimeEstudo de Personagem
Ritmos Cardíacos e Sombras do Passado
A semana no hospital seguiu o seu curso implacável, mas algo havia mudado. O lírio branco, agora com as pétalas levemente curvadas pelo tempo em cima da minha mesa, era um lembrete constante de que o mundo lá fora ainda pulsava, apesar das paredes estéreis da UTI. Eu me peguei olhando para a janela da delegacia mais vezes do que gostaria de admitir, procurando por aquela silhueta alta e imponente.
Na sexta-feira à tarde, Jack apareceu no hospital com um brilho travesso no olhar que eu conhecia bem. Ele estava encostado no balcão de enfermagem, conversando com Taissa, quando me aproximei para guardar alguns prontuários.
— Nem pensem em dizer não — disparou Jack assim que me viu. — Hoje à noite, o "The Badge & Scalpel" é o nosso destino. Organizei uma pequena confraternização para dar as boas-vindas oficiais ao Wilson. Ele tentou dar uma de durão e dizer que tinha papelada, mas eu usei minha arma secreta.
— E qual seria essa arma? — perguntei, cruzando os braços e tentando esconder o sorriso.
— Eu disse que as mulheres mais brilhantes e bonitas deste hospital estariam lá — ele piscou para a irmã e depois para mim. — Taissa já confirmou. Vera, você precisa sair desse modo "médica 24 horas" ou seu próprio coração vai entrar em greve.
— Ele tem razão, V — Taissa reforçou, guardando o estetoscópio no bolso. — Uma cerveja não vai matar ninguém. E eu adoraria ver o Delegado fora daquele ambiente de interrogatório.
Eu suspirei, sentindo o cansaço da semana pesar nos ombros, mas a ideia de ver Patrick novamente — sem armas ou formulários de ocorrência entre nós — era tentadora demais.
— Tudo bem, Jack. Você venceu. Mas só uma rodada.
O bar era um refúgio rústico, frequentado quase exclusivamente por policiais e funcionários do hospital. O cheiro de madeira, malte e fritura era um alívio bem-vindo após dias respirando antisséptico. Quando entramos, o ambiente estava animado. Ao fundo, em uma mesa grande de canto, vi o grupo de policiais.
Patrick Wilson estava sentado na ponta. Ele não usava mais a camisa social clara; vestia uma malha cinza-escura que destacava a largura de seus ombros e o azul profundo de seus olhos. Quando nossos olhares se cruzaram, ele parou o copo de cerveja no meio do caminho.
Eu havia escolhido um vestido de seda azul-marinho, simples, que batia nos joelhos, e um casaco leve por cima. Meus cabelos loiros estavam soltos, caindo em ondas suaves. Senti meu rosto esquentar sob o escrutínio dele. Patrick não apenas olhou; ele me observou com uma intensidade que parecia despir todas as minhas defesas médicas.
— Vejam só, a cavalaria chegou! — exclamou Jack, puxando cadeiras para nós.
— Boa noite — eu disse, sentando-me quase à frente de Patrick.
— Doutora Farmiga. Taissa — Patrick cumprimentou com um aceno de cabeça. Sua voz, naquele ambiente barulhento, parecia um porto seguro de gravidade. — Fico feliz que Jack tenha sido tão... persuasivo.
— Ele pode ser bem irritante quando quer — brinquei, pegando o cardápio.
— Eu prefiro o termo "persistente" — corrigiu Jack, rindo enquanto pedia uma rodada para a mesa.
A conversa fluía entre os policiais, mas eu me sentia estranhamente tímida. Patrick era um homem de poucas palavras em público, mas sua presença preenchia o espaço. De vez em quando, eu sentia seus olhos em mim, um toque invisível que fazia minha pele formigar.
— Como está o seu braço, Vera? — ele perguntou em voz baixa, aproveitando um momento em que os outros discutiam um jogo de beisebol na TV.
— Quase sem marcas — respondi, puxando levemente a manga do casaco para mostrar a pele recuperada. — Obrigada por perguntar. E obrigada pela flor. Ela iluminou meu consultório a semana toda.
— Fico feliz. Você parece... menos cinza hoje — ele citou a brincadeira de Taissa do outro dia, e um pequeno sorriso brincou em seus lábios.
Antes que eu pudesse responder, o celular de Patrick, que estava sobre a mesa, vibrou intensamente. Ele franziu o cenho ao ver o nome na tela.
— Com licença, preciso atender. É pessoal — ele disse, levantando-se e afastando-se para um canto mais silencioso do bar, perto da saída.
Eu o observei pelo canto do olho. Sua expressão mudou de cautelosa para algo mais suave, quase terno.
— Sim, Alex — ouvi sua voz barítona murmurar. — Entendi. A casa em Columbia está pronta?
Fiquei curiosa, mas tentei me concentrar no que Taissa dizia sobre um paciente difícil. No entanto, fragmentos da conversa de Patrick chegavam até mim.
— E a segurança? — Patrick perguntava ao telefone. — Ótimo. Alex, você sabe que ela precisa de vigilância constante até as coisas se acalmarem aqui.
Alex Garcia não era apenas um colega para Patrick; era seu amigo de longa data e seu padrasto, o homem que ajudara a curar as feridas que o pai biológico de Patrick deixara.
— Eleanor já arrumou as malas dela? — Patrick continuou, e meu coração deu um salto bobo ao ouvir o nome de uma possível mulher, até que ele completou: — Mal posso esperar para vê-la. Sim, tragam a pequena Liz amanhã. Eu estarei esperando.
Ele desligou o telefone e voltou para a mesa, parecendo mais leve, embora ainda houvesse uma sombra de preocupação em seu olhar. Jack e Taissa se levantaram logo em seguida.
— Vamos buscar mais uma rodada e uns petiscos — anunciou Jack, arrastando Taissa com ele para o balcão, deixando-nos momentaneamente sozinhos na mesa barulhenta.
— Tudo bem? — perguntei, notando a mudança em sua aura.
— Sim — ele respondeu, tomando um gole longo de sua bebida. — Era Alex Garcia, um grande amigo. Minha mãe, Eleanor, e ele estão vindo para a cidade amanhã. Eles vão trazer minha filha, Liz.
— Você tem uma filha? — A surpresa saiu antes que eu pudesse contê-la.
— Tenho. Ela tem cinco anos — Patrick disse, e seus olhos brilharam de uma forma que eu ainda não tinha visto. — Ela é o motivo de eu ter aceitado este posto. Columbia é mais segura, e a casa nova finalmente ficou pronta, com todo o sistema de segurança que eu exigi. Depois do que aconteceu no meu último distrito... eu não arrisco a segurança dela por nada.
— Eu entendo — murmurei. — O mundo pode ser um lugar assustador para quem tem um coração tão pequeno para proteger.
Patrick inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre nós.
— E você, Vera? O que uma cardiologista brilhante faz quando não está remendando as pessoas?
— Eu tento não quebrar — confessei, a honestidade fluindo mais fácil por causa da penumbra do bar. — Minha vida é o hospital. Às vezes, esqueço como é ter uma conversa que não envolva pressão arterial ou exames de sangue.
— Então, considere esta uma prescrição médica — ele brincou, usando meus próprios termos. — Menos hospital, mais conversas reais.
Ficamos ali, conversando sobre coisas triviais — filmes antigos, a comida horrível da cafeteria do hospital, o frio que se intensificava — até que Jack e Taissa voltaram. Por um momento, o peso do meu passado e a intensidade do dele pareceram suspensos no ar, substituídos por uma conexão incipiente que eu não sabia se estava pronta para explorar, mas que meu coração, teimoso como sempre, já estava monitorando.
***
A manhã de sábado nasceu com um sol pálido e preguiçoso. No seu novo endereço em Columbia, uma casa de estilo colonial com um jardim que ele ainda precisava aprender a cuidar, Patrick Wilson não foi acordado pelo despertador.
Um focinho úmido e uma língua entusiasmada atingiram sua bochecha.
— Ei, Pipoca! Já entendi, já entendi — resmungou Patrick, rindo enquanto afastava o Golden Retriever que pulava sobre a cama.
Pipoca era uma energia indomável de pelos dourados, o companheiro fiel que Patrick trouxera na mudança. O cachorro parecia saber que o dia seria especial. Patrick levantou-se, sentindo os músculos protestarem levemente — reflexo de uma semana de estresse e da tensão da noite anterior.
Ele entrou no banho, deixando a água quente relaxar seus ombros. Enquanto se vestia, seus pensamentos voltaram para Vera Farmiga. A maneira como a luz do bar refletia em seus olhos azuis, a timidez graciosa com que ela bebia sua cerveja... ela era um enigma que ele desejava decifrar, mas sabia que precisava ir devagar. Mulheres como Vera, que carregam o peso do mundo nos ombros, não se abrem facilmente.
Ele desceu para a cozinha e preparou uma jarra de café forte. O cheiro inundou a casa nova, que ainda tinha aquele aroma característico de tinta fresca e madeira polida. Ele verificou o painel de segurança perto da porta — tudo em ordem. As câmeras de vigilância externas, instaladas por Alex, cobriam cada ângulo morto.
Pipoca começou a latir e a correr em direção à janela da frente, a cauda abanando como um ventilador descontrolado.
Um carro SUV preto estacionou em frente ao portão. Patrick sentiu um aperto familiar e doce no peito. Ele abriu a porta bem a tempo de ver uma pequena figura saltar do banco de trás antes mesmo que o carro parasse totalmente.
— Papai!
Liz, com seus cachos loiros bagunçados e um casaco rosa choque, correu pelo gramado como um pequeno furacão. Patrick se abaixou, abrindo os braços, e a pegou no ar, girando-a enquanto ela soltava gargalhadas cristalinas.
— Oi, meu amor! Que saudade — ele sussurrou contra o cabelo dela, fechando os olhos por um segundo, sentindo que seu mundo finalmente estava completo.
Logo atrás, Eleanor e Alex Garcia desceram do carro, sorrindo com a cena. Eleanor, uma mulher elegante que carregava a força de quem sobreviveu a tempestades, aproximou-se para beijar a face do filho.
— Ela não parou de falar de você desde que saímos de casa, Patrick — disse Eleanor, abraçando-o.
— Bom trabalho com a casa, garoto — Alex comentou, apertando a mão de Patrick com firmeza. — O sistema que instalei vai garantir que vocês durmam tranquilos.
Patrick assentiu, ainda segurando Liz no colo. Pipoca agora pulava ao redor deles, tentando participar do abraço coletivo.
— Venham, entrem — convidou Patrick. — O café está pronto.
Enquanto Liz corria pela sala nova, explorando cada canto com a curiosidade típica dos cinco anos, Patrick sentou-se à mesa com a mãe e o padrasto. O sol agora entrava pelas janelas, iluminando a poeira que dançava no ar.
— Como está o novo trabalho? — perguntou Eleanor, observando o filho com o olhar atento que só as mães possuem.
— Intenso — admitiu Patrick. — Mas necessário. Conheci algumas pessoas... interessantes.
Ele pensou no lírio branco e no sorriso contido de Vera.
— Interessantes, é? — Alex ergueu uma sobrancelha, percebendo o tom diferente na voz do enteado.
— Uma médica — Patrick respondeu de forma curta, mas o brilho em seus olhos disse mais do que ele pretendia. — Uma cardiologista. Ela... ela me ajudou com um incidente no estacionamento.
— Cardiologista? — Eleanor sorriu. — Bem, parece que você vai precisar que ela cuide bem do seu coração, Patrick.
Ele riu, um som raro e genuíno.
— Talvez, mãe. Talvez.
Enquanto Liz o puxava pela mão para mostrar um desenho que fizera na escola, Patrick sentiu que, pela primeira vez em anos, a linha verde da sua vida não estava apenas oscilando em um monitor de hospital ou em uma cena de crime. Ela estava estável. E, de alguma forma, ele sabia que Vera Farmiga tinha algo a ver com aquela nova e estranha sensação de paz.
Na sexta-feira à tarde, Jack apareceu no hospital com um brilho travesso no olhar que eu conhecia bem. Ele estava encostado no balcão de enfermagem, conversando com Taissa, quando me aproximei para guardar alguns prontuários.
— Nem pensem em dizer não — disparou Jack assim que me viu. — Hoje à noite, o "The Badge & Scalpel" é o nosso destino. Organizei uma pequena confraternização para dar as boas-vindas oficiais ao Wilson. Ele tentou dar uma de durão e dizer que tinha papelada, mas eu usei minha arma secreta.
— E qual seria essa arma? — perguntei, cruzando os braços e tentando esconder o sorriso.
— Eu disse que as mulheres mais brilhantes e bonitas deste hospital estariam lá — ele piscou para a irmã e depois para mim. — Taissa já confirmou. Vera, você precisa sair desse modo "médica 24 horas" ou seu próprio coração vai entrar em greve.
— Ele tem razão, V — Taissa reforçou, guardando o estetoscópio no bolso. — Uma cerveja não vai matar ninguém. E eu adoraria ver o Delegado fora daquele ambiente de interrogatório.
Eu suspirei, sentindo o cansaço da semana pesar nos ombros, mas a ideia de ver Patrick novamente — sem armas ou formulários de ocorrência entre nós — era tentadora demais.
— Tudo bem, Jack. Você venceu. Mas só uma rodada.
O bar era um refúgio rústico, frequentado quase exclusivamente por policiais e funcionários do hospital. O cheiro de madeira, malte e fritura era um alívio bem-vindo após dias respirando antisséptico. Quando entramos, o ambiente estava animado. Ao fundo, em uma mesa grande de canto, vi o grupo de policiais.
Patrick Wilson estava sentado na ponta. Ele não usava mais a camisa social clara; vestia uma malha cinza-escura que destacava a largura de seus ombros e o azul profundo de seus olhos. Quando nossos olhares se cruzaram, ele parou o copo de cerveja no meio do caminho.
Eu havia escolhido um vestido de seda azul-marinho, simples, que batia nos joelhos, e um casaco leve por cima. Meus cabelos loiros estavam soltos, caindo em ondas suaves. Senti meu rosto esquentar sob o escrutínio dele. Patrick não apenas olhou; ele me observou com uma intensidade que parecia despir todas as minhas defesas médicas.
— Vejam só, a cavalaria chegou! — exclamou Jack, puxando cadeiras para nós.
— Boa noite — eu disse, sentando-me quase à frente de Patrick.
— Doutora Farmiga. Taissa — Patrick cumprimentou com um aceno de cabeça. Sua voz, naquele ambiente barulhento, parecia um porto seguro de gravidade. — Fico feliz que Jack tenha sido tão... persuasivo.
— Ele pode ser bem irritante quando quer — brinquei, pegando o cardápio.
— Eu prefiro o termo "persistente" — corrigiu Jack, rindo enquanto pedia uma rodada para a mesa.
A conversa fluía entre os policiais, mas eu me sentia estranhamente tímida. Patrick era um homem de poucas palavras em público, mas sua presença preenchia o espaço. De vez em quando, eu sentia seus olhos em mim, um toque invisível que fazia minha pele formigar.
— Como está o seu braço, Vera? — ele perguntou em voz baixa, aproveitando um momento em que os outros discutiam um jogo de beisebol na TV.
— Quase sem marcas — respondi, puxando levemente a manga do casaco para mostrar a pele recuperada. — Obrigada por perguntar. E obrigada pela flor. Ela iluminou meu consultório a semana toda.
— Fico feliz. Você parece... menos cinza hoje — ele citou a brincadeira de Taissa do outro dia, e um pequeno sorriso brincou em seus lábios.
Antes que eu pudesse responder, o celular de Patrick, que estava sobre a mesa, vibrou intensamente. Ele franziu o cenho ao ver o nome na tela.
— Com licença, preciso atender. É pessoal — ele disse, levantando-se e afastando-se para um canto mais silencioso do bar, perto da saída.
Eu o observei pelo canto do olho. Sua expressão mudou de cautelosa para algo mais suave, quase terno.
— Sim, Alex — ouvi sua voz barítona murmurar. — Entendi. A casa em Columbia está pronta?
Fiquei curiosa, mas tentei me concentrar no que Taissa dizia sobre um paciente difícil. No entanto, fragmentos da conversa de Patrick chegavam até mim.
— E a segurança? — Patrick perguntava ao telefone. — Ótimo. Alex, você sabe que ela precisa de vigilância constante até as coisas se acalmarem aqui.
Alex Garcia não era apenas um colega para Patrick; era seu amigo de longa data e seu padrasto, o homem que ajudara a curar as feridas que o pai biológico de Patrick deixara.
— Eleanor já arrumou as malas dela? — Patrick continuou, e meu coração deu um salto bobo ao ouvir o nome de uma possível mulher, até que ele completou: — Mal posso esperar para vê-la. Sim, tragam a pequena Liz amanhã. Eu estarei esperando.
Ele desligou o telefone e voltou para a mesa, parecendo mais leve, embora ainda houvesse uma sombra de preocupação em seu olhar. Jack e Taissa se levantaram logo em seguida.
— Vamos buscar mais uma rodada e uns petiscos — anunciou Jack, arrastando Taissa com ele para o balcão, deixando-nos momentaneamente sozinhos na mesa barulhenta.
— Tudo bem? — perguntei, notando a mudança em sua aura.
— Sim — ele respondeu, tomando um gole longo de sua bebida. — Era Alex Garcia, um grande amigo. Minha mãe, Eleanor, e ele estão vindo para a cidade amanhã. Eles vão trazer minha filha, Liz.
— Você tem uma filha? — A surpresa saiu antes que eu pudesse contê-la.
— Tenho. Ela tem cinco anos — Patrick disse, e seus olhos brilharam de uma forma que eu ainda não tinha visto. — Ela é o motivo de eu ter aceitado este posto. Columbia é mais segura, e a casa nova finalmente ficou pronta, com todo o sistema de segurança que eu exigi. Depois do que aconteceu no meu último distrito... eu não arrisco a segurança dela por nada.
— Eu entendo — murmurei. — O mundo pode ser um lugar assustador para quem tem um coração tão pequeno para proteger.
Patrick inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre nós.
— E você, Vera? O que uma cardiologista brilhante faz quando não está remendando as pessoas?
— Eu tento não quebrar — confessei, a honestidade fluindo mais fácil por causa da penumbra do bar. — Minha vida é o hospital. Às vezes, esqueço como é ter uma conversa que não envolva pressão arterial ou exames de sangue.
— Então, considere esta uma prescrição médica — ele brincou, usando meus próprios termos. — Menos hospital, mais conversas reais.
Ficamos ali, conversando sobre coisas triviais — filmes antigos, a comida horrível da cafeteria do hospital, o frio que se intensificava — até que Jack e Taissa voltaram. Por um momento, o peso do meu passado e a intensidade do dele pareceram suspensos no ar, substituídos por uma conexão incipiente que eu não sabia se estava pronta para explorar, mas que meu coração, teimoso como sempre, já estava monitorando.
***
A manhã de sábado nasceu com um sol pálido e preguiçoso. No seu novo endereço em Columbia, uma casa de estilo colonial com um jardim que ele ainda precisava aprender a cuidar, Patrick Wilson não foi acordado pelo despertador.
Um focinho úmido e uma língua entusiasmada atingiram sua bochecha.
— Ei, Pipoca! Já entendi, já entendi — resmungou Patrick, rindo enquanto afastava o Golden Retriever que pulava sobre a cama.
Pipoca era uma energia indomável de pelos dourados, o companheiro fiel que Patrick trouxera na mudança. O cachorro parecia saber que o dia seria especial. Patrick levantou-se, sentindo os músculos protestarem levemente — reflexo de uma semana de estresse e da tensão da noite anterior.
Ele entrou no banho, deixando a água quente relaxar seus ombros. Enquanto se vestia, seus pensamentos voltaram para Vera Farmiga. A maneira como a luz do bar refletia em seus olhos azuis, a timidez graciosa com que ela bebia sua cerveja... ela era um enigma que ele desejava decifrar, mas sabia que precisava ir devagar. Mulheres como Vera, que carregam o peso do mundo nos ombros, não se abrem facilmente.
Ele desceu para a cozinha e preparou uma jarra de café forte. O cheiro inundou a casa nova, que ainda tinha aquele aroma característico de tinta fresca e madeira polida. Ele verificou o painel de segurança perto da porta — tudo em ordem. As câmeras de vigilância externas, instaladas por Alex, cobriam cada ângulo morto.
Pipoca começou a latir e a correr em direção à janela da frente, a cauda abanando como um ventilador descontrolado.
Um carro SUV preto estacionou em frente ao portão. Patrick sentiu um aperto familiar e doce no peito. Ele abriu a porta bem a tempo de ver uma pequena figura saltar do banco de trás antes mesmo que o carro parasse totalmente.
— Papai!
Liz, com seus cachos loiros bagunçados e um casaco rosa choque, correu pelo gramado como um pequeno furacão. Patrick se abaixou, abrindo os braços, e a pegou no ar, girando-a enquanto ela soltava gargalhadas cristalinas.
— Oi, meu amor! Que saudade — ele sussurrou contra o cabelo dela, fechando os olhos por um segundo, sentindo que seu mundo finalmente estava completo.
Logo atrás, Eleanor e Alex Garcia desceram do carro, sorrindo com a cena. Eleanor, uma mulher elegante que carregava a força de quem sobreviveu a tempestades, aproximou-se para beijar a face do filho.
— Ela não parou de falar de você desde que saímos de casa, Patrick — disse Eleanor, abraçando-o.
— Bom trabalho com a casa, garoto — Alex comentou, apertando a mão de Patrick com firmeza. — O sistema que instalei vai garantir que vocês durmam tranquilos.
Patrick assentiu, ainda segurando Liz no colo. Pipoca agora pulava ao redor deles, tentando participar do abraço coletivo.
— Venham, entrem — convidou Patrick. — O café está pronto.
Enquanto Liz corria pela sala nova, explorando cada canto com a curiosidade típica dos cinco anos, Patrick sentou-se à mesa com a mãe e o padrasto. O sol agora entrava pelas janelas, iluminando a poeira que dançava no ar.
— Como está o novo trabalho? — perguntou Eleanor, observando o filho com o olhar atento que só as mães possuem.
— Intenso — admitiu Patrick. — Mas necessário. Conheci algumas pessoas... interessantes.
Ele pensou no lírio branco e no sorriso contido de Vera.
— Interessantes, é? — Alex ergueu uma sobrancelha, percebendo o tom diferente na voz do enteado.
— Uma médica — Patrick respondeu de forma curta, mas o brilho em seus olhos disse mais do que ele pretendia. — Uma cardiologista. Ela... ela me ajudou com um incidente no estacionamento.
— Cardiologista? — Eleanor sorriu. — Bem, parece que você vai precisar que ela cuide bem do seu coração, Patrick.
Ele riu, um som raro e genuíno.
— Talvez, mãe. Talvez.
Enquanto Liz o puxava pela mão para mostrar um desenho que fizera na escola, Patrick sentiu que, pela primeira vez em anos, a linha verde da sua vida não estava apenas oscilando em um monitor de hospital ou em uma cena de crime. Ela estava estável. E, de alguma forma, ele sabia que Vera Farmiga tinha algo a ver com aquela nova e estranha sensação de paz.
