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O caderno esquecido

Fandom: Twice

Criado: 20/04/2026

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RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaEstudo de PersonagemCenário Canônico
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As Entrelinhas do Silêncio

O dormitório das Twice estava estranhamente silencioso naquela tarde de terça-feira. A maioria das integrantes havia saído para compromissos individuais ou para aproveitar as poucas horas de folga no shopping. Mina, no entanto, optara por ficar. O silêncio era um luxo que ela apreciava, uma oportunidade para organizar seus pensamentos e, ocasionalmente, o caos que se acumulava nos armários compartilhados.

Foi durante essa limpeza improvisada no fundo da prateleira de cima do armário da sala que ela encontrou. Era um caderno de capa dura, desbotado pelo tempo, com uma textura de couro sintético descascando nas bordas. Não havia nome na capa, apenas um elástico gasto segurando as páginas amareladas.

Mina hesitou. Ela conhecia a caligrafia que escapava pelas bordas das páginas. Era a letra de Jeongyeon — firme, mas ocasionalmente apressada, com inclinações que denotavam momentos de ansiedade ou cansaço. Jeongyeon era a pessoa mais reservada que Mina conhecia. Enquanto as outras extravasavam emoções com lágrimas ou risadas altas, Jeongyeon protegia seu mundo interior com uma armadura de piadas e um cuidado prático e silencioso pelas outras.

A curiosidade, porém, venceu o protocolo. Mina sentou-se no tapete da sala, o coração batendo um pouco mais rápido, e abriu o caderno.

As primeiras páginas eram datadas de anos atrás, durante os tempos de trainee. Eram anotações sobre coreografias, críticas que recebera dos instrutores e lembretes para comprar vitaminas para as outras meninas. Mas, conforme as páginas passavam, o conteúdo se tornava mais denso. Eram desabafos sobre o peso da fama, o medo de não ser boa o suficiente e a solidão que sentia mesmo estando cercada por oito irmãs.

Mina sentiu um aperto no peito. Ela sempre soube que Jeongyeon carregava o mundo nas costas, mas ver as palavras ali, cruas e sem filtro, era diferente. Ela estava prestes a fechar o caderno, sentindo-se uma intrusa, quando uma aba de papel dobrado chamou sua atenção quase no final do volume.

Era uma página dedicada inteiramente a ela.

O topo da página não tinha data, apenas um nome escrito com uma pressão de caneta que quase rasgara o papel: *Mina*.

Abaixo, o texto dizia:

*"Eu não sei quando o silêncio dela parou de ser apenas 'silêncio' e passou a ser a música que eu mais gosto de ouvir. A Mina tem esse jeito de flutuar pela sala, como se o chão não fosse digno de seus pés, mas ao mesmo tempo ela é a pessoa que mais me mantém no chão. Às vezes eu a observo quando ela está concentrada em um jogo ou lendo, e sinto uma vontade absurda de dizer que o mundo é menos assustador porque ela está nele.*

*Eu brinco, eu provoco, eu finjo que ela é apenas mais uma das minhas irmãs, mas a verdade é que eu tenho medo. Medo de que, se eu abrir a boca para dizer o que sinto, o equilíbrio que construímos se quebre. Como você diz a alguém que ela é o seu porto seguro sem parecer desesperada? Como eu explico que, quando ela sorri daquele jeito tímido, mostrando os dentes, meu coração faz um barulho que eu tenho certeza que todo mundo consegue ouvir?*

*Mina é o cisne, e eu sou apenas a pessoa que tenta garantir que o lago esteja calmo para ela nadar. E talvez isso baste. Mas, Deus, como eu queria que ela soubesse que cada xícara de café que eu faço para ela, cada vez que eu verifico se ela está agasalhada, é a minha maneira de dizer 'eu te amo' sem ter que usar as palavras que me travam a garganta."*

Mina sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. O peso daquelas palavras era avassalador. Ela sempre sentira uma conexão especial com Jeongyeon, um entendimento mútuo que não precisava de frases longas, mas ler aquilo — a confissão de um amor tão guardado e protetor — mudava tudo.

O som da porta da frente sendo destrancada a sobressaltou. Mina tentou fechar o caderno rapidamente, mas era tarde demais. Jeongyeon entrou na sala, tirando os sapatos com um suspiro cansado. Ela usava um boné e um moletom largo, a imagem exata do conforto que ela tanto prezava.

— Mina? Achei que você estivesse dormindo — disse Jeongyeon, jogando as chaves na mesa. Seu olhar, no entanto, caiu imediatamente para o objeto nas mãos da japonesa.

O rosto de Jeongyeon empalideceu instantaneamente. O ar pareceu fugir da sala.

— Onde você achou isso? — A voz de Jeongyeon saiu baixa, um misto de choque e uma defensividade que beirava o pânico.

Mina levantou-se devagar, segurando o caderno contra o peito.

— Estava no armário de cima. Eu estava limpando e ele caiu.

Jeongyeon deu um passo à frente, estendendo a mão, mas seus dedos tremiam.

— Me dá isso. Não é nada. São só... bobagens antigas. Coisas de quando eu estava cansada e não sabia o que estava escrevendo.

— Não pareceu bobagem para mim — rebateu Mina, sua voz suave, mas firme. — E a data de algumas páginas é bem recente, Jeong.

Jeongyeon desviou o olhar, as orelhas ficando vermelhas. Ela soltou uma risada nervosa, seca, tentando recuperar sua fachada de indiferença.

— Você sabe como eu sou. Eu escrevo qualquer coisa para desabafar. Eu provavelmente estava sob efeito de muito café ou sono acumulado. Não leve a sério, Mina. Por favor.

— Por que você está mentindo? — Mina deu um passo em direção a ela. — Por que é tão difícil admitir que você sente algo?

— Porque é perigoso! — Jeongyeon explodiu, o volume da voz subindo antes de ela se encolher novamente. — Porque se eu admitir, e você não sentir o mesmo, eu perco a única coisa que me mantém sã nesse grupo. Eu perco você.

Mina parou a poucos centímetros de Jeongyeon. O caderno agora estava sobre a mesa de centro, esquecido entre as duas. O silêncio que se seguiu não era o silêncio confortável de costume, mas um carregado de eletricidade e verdades suspensas.

— Você escreveu que eu sou a música que você mais gosta de ouvir — sussurrou Mina, seus olhos fixos nos de Jeongyeon, que brilhavam com lágrimas não derramadas. — Você escreveu que cada café que me faz é um "eu te amo".

— Mina, para... — pediu Jeongyeon, a voz falhando.

— Eu tomei todos aqueles cafés, Jeongyeon. E eu sempre me perguntei por que eles tinham um gosto diferente quando era você quem fazia.

Jeongyeon finalmente olhou para ela, a vulnerabilidade exposta de uma forma que Mina nunca vira em todos os anos de convivência.

— Eu não sou boa com palavras — disse Jeongyeon, as mãos agora escondidas nos bolsos do moletom. — Eu sou a pessoa que cuida, que limpa, que faz piada para ninguém ficar triste. Eu não sei ser a pessoa que se declara. O caderno... ele era para ser o meu segredo.

— O problema de segredos — Mina deu o passo final, eliminando qualquer distância — é que eles pesam demais quando são carregados sozinhos.

Mina estendeu a mão e tocou o rosto de Jeongyeon, a pele quente sob seus dedos frios. Jeongyeon fechou os olhos, inclinando-se inconscientemente para o toque, um gesto de rendição total.

— Você não precisa dizer nada agora — continuou Mina. — O caderno já disse tudo por você. E agora, eu quero te dar a minha resposta.

Jeongyeon abriu os olhos, a confusão dando lugar a uma esperança cautelosa.

— E qual é a sua resposta?

Mina não respondeu com palavras. Ela se inclinou, as pontas dos pés se afastando levemente do chão, e pressionou seus lábios contra os de Jeongyeon.

O beijo começou como um suspiro, uma hesitação mútua que durou apenas um milésimo de segundo antes de se transformar em algo profundo e urgente. Não era um beijo de cena de dorama, coreografado e perfeito; era real, um pouco desajeitado pelo ângulo, mas carregado de anos de sentimentos reprimidos.

Jeongyeon soltou um som baixo na garganta, algo entre um soluço e um alívio, e finalmente tirou as mãos dos bolsos para envolver a cintura de Mina. Ela a puxou para mais perto, como se tentasse fundir seus corpos, as mãos grandes de Jeongyeon espalmadas nas costas de Mina, sentindo a delicadeza da outra sob o tecido fino de sua blusa.

Para Mina, o beijo tinha o gosto da segurança que Jeongyeon sempre lhe proporcionara. Era firme e protetor, mas havia uma doçura escondida, uma fome que a surpreendeu. Ela passou os braços pelo pescoço de Jeongyeon, os dedos se perdendo nos fios curtos do cabelo da mais velha, puxando-a para que o contato fosse ainda mais íntimo.

Ali, na sala silenciosa, o tempo pareceu parar. O mundo lá fora — a fama, as câmeras, as agendas exaustivas — deixou de existir. Só existia o calor da respiração de Jeongyeon contra sua pele e o batimento acelerado de dois corações que finalmente batiam no mesmo ritmo.

Quando se separaram, apenas o suficiente para recuperarem o fôlego, suas testas permaneceram encostadas. Os olhos de Jeongyeon estavam úmidos, mas o pânico havia desaparecido, substituído por uma serenidade que a deixava ainda mais bonita.

— Isso... — começou Jeongyeon, a voz rouca — ...estava no caderno?

Mina soltou uma risadinha baixa, o som que Jeongyeon descrevera como sua melodia favorita.

— Não. Isso é algo que eu queria fazer há muito tempo, mas estava esperando você parar de se esconder atrás de piadas.

Jeongyeon sorriu, um sorriso verdadeiro que iluminou seu rosto inteiro. Ela acariciou o polegar pela bochecha de Mina, limpando um rastro de lágrima que nem a japonesa percebera que caíra.

— Acho que eu não preciso mais daquele caderno — sussurrou Jeongyeon.

— Ah, você precisa sim — brincou Mina, encostando o nariz no dela. — Ainda faltam muitas páginas em branco. E eu pretendo ajudar você a preencher cada uma delas.

Jeongyeon riu, uma risada leve e solta, antes de puxar Mina para outro beijo. Dessa vez, não havia urgência, apenas a promessa silenciosa de que, a partir daquele momento, o silêncio entre elas nunca mais seria vazio. Seria compartilhado, entendido e, acima de tudo, amado.

O caderno permaneceu sobre a mesa, aberto na página que mudara tudo. As palavras de Jeongyeon, escritas em momentos de solidão, agora serviam de alicerce para algo novo. O segredo fora revelado, e o peso que Jeongyeon carregava fora finalmente dividido. No dormitório silencioso, o amor não precisava mais de metáforas ou páginas escondidas; ele estava ali, presente em cada toque e em cada olhar que as duas trocavam enquanto o sol da tarde começava a se pôr, pintando a sala de dourado.
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