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Oceano
Fandom: Parmiga
Criado: 21/04/2026
Tags
RomanceDramaDor/ConfortoCrimeDetetiveAçãoViolência GráficaHistória DomésticaEstudo de Personagem
Sombras e Cicatrizes
A semana em Columbia havia passado como um borrão de relatórios policiais, café frio e a sensação constante de que eu estava sendo observado por fantasmas. Ser o novo delegado não era apenas sobre manter a ordem; era sobre tentar manter a minha própria sanidade em uma cidade que cheirava a segredos. Eu preferia a solidão do meu escritório, mas Jack, com aquele otimismo irritante que parecia ser genético na família dele, não aceitaria um "não" como resposta.
— Qual é, Wilson! — Jack exclamou, encostado no batente da minha porta na tarde de sexta-feira. — É apenas uma cerveja. O pessoal precisa ver que o chefe não é um robô programado para emitir multas e prender idiotas.
— Eu tenho muito o que fazer, Jack. A papelada da corregedoria sobre o Miller não vai se escrever sozinha — respondi, sem tirar os olhos do monitor.
— Deixe isso para segunda. Eu já organizei tudo no bar do Joe, aqui na esquina. E antes que você diga que prefere a companhia do seu cachorro, eu chamei a Taissa e a Dra. Farmiga.
Minhas mãos pararam sobre o teclado. A imagem de Vera, com seu lírio branco e aqueles olhos azuis que pareciam esconder um oceano de melancolia, invadiu minha mente. Eu não a via desde terça-feira, mas o perfume dela parecia ter ficado impregnado nas minhas luvas.
— A Dra. Farmiga vai? — perguntei, tentando manter a voz neutra.
— Vai. E se você não for, eu vou dizer a ela que o grande Delegado Patrick Wilson tem medo de uma happy hour — Jack provocou, saindo da sala com um sorriso vitorioso.
Duas horas depois, eu estava sentado em uma mesa de madeira gasta no bar do Joe. O ambiente era escuro, carregado com o cheiro de cevada e o som baixo de uma jukebox tocando algum clássico do rock. Meus homens estavam relaxados, rindo e bebendo, mas eu me sentia fora de lugar. O coldre sob minha jaqueta pesava, um lembrete constante de que eu nunca estava realmente de folga.
A porta do bar se abriu, deixando entrar uma lufada de ar frio e a luz dourada dos postes da rua. Vera entrou primeiro, seguida por Taissa. Ela estava diferente hoje. Não havia jaleco, apenas um suéter de tricô creme que realçava a palidez delicada de sua pele e uma calça jeans escura. Seus cabelos loiros estavam levemente bagunçados pelo vento, e ela parecia ainda mais linda do que sob as luzes fluorescentes do hospital.
— Boa noite, cavalheiros — disse Taissa, animada, sentando-se imediatamente ao lado do irmão.
Vera ficou parada por um segundo, os olhos percorrendo a mesa até encontrarem os meus. A única cadeira vazia era a que estava bem ao meu lado.
— Sente-se aqui, Vera — eu disse, afastando a cadeira para ela. Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia.
— Obrigada, Patrick — ela murmurou, sentando-se.
Notei imediatamente que ela não estava relaxada. Seus ombros estavam tensos e ela evitava olhar para as mesas ao redor, onde homens bebiam e riam alto.
— Você está bem? — perguntei, inclinando-me um pouco mais perto para que apenas ela ouvisse. — Parece que preferia estar fazendo uma cirurgia cardíaca de dez horas a estar aqui.
Vera forçou um sorriso, mas eu vi a verdade.
— Você está pálida, Vera. E suas mãos estão tremendo — observei, notando como ela apertava a alça da bolsa.
— É só o cansaço, eu juro — ela tentou responder, mas sua voz falhou.
Sem pensar muito nas consequências ou em quem estava olhando, estendi minha mão e cobri a dela sobre a mesa. A pele de Vera estava gelada, e o tremor era real. Ela ficou estática por alguns segundos, olhando para nossas mãos unidas. Seus olhos subiram para os meus, surpresos e vulneráveis.
— Quer falar sobre isso? — perguntei suavemente.
Ela hesitou, olhando ao redor antes de se aproximar do meu ouvido. O hálito dela tinha cheiro de hortelã.
— O cheiro daqui... — ela sussurrou, quase inaudível. — O álcool, o cigarro, o barulho. Não me traz lembranças boas, Patrick. Faz meu corpo reagir antes que minha mente consiga controlar.
Senti uma onda de proteção me atingir. Eu sabia o que era ser traído pelos próprios sentidos por causa de traumas passados.
— Mas eu queria estar aqui — ela continuou, ganhando um pouco mais de firmeza na voz. — Queria agradecer novamente por ter me ajudado com o Miller. E pela flor. Foi... ninguém nunca tinha me dado flores antes, Patrick. Pelo menos, não daquele jeito. Sem segundas intenções, apenas como um gesto de respeito.
Soltei uma risada curta, balançando a cabeça.
— Como isso é possível? — perguntei, genuinamente intrigado. — Uma mulher como você deve ter uma fila de pretendentes deixando jardins inteiros na sua porta.
— Médicos não têm tempo para jardins — ela brincou, e o brilho em seus olhos voltou timidamente. — E a maioria dos homens se intimida com mulheres que sabem abrir um tórax com um bisturi.
— Eu não me intimido fácil, Vera — respondi, mantendo o contato visual. — O que você quer beber? Algo que não tenha cheiro de álcool barato, eu presumo.
— Uma água tônica com limão seria perfeito.
Chamei o garçom e fiz o pedido. Estávamos começando a conversar sobre como foi a semana dela no hospital — ela mencionou uma cirurgia bem-sucedida na pequena Amanda — quando meu celular vibrou no bolso. Era Alex Garcia, meu padrasto e o homem que me ensinou tudo o que eu sabia sobre ser um policial e um homem de honra.
— Com licença, preciso atender — disse a Vera, afastando-me um pouco da mesa. — Garcia? Alguma novidade?
— Tenho uma notícia boa e uma ruim, Patrick — a voz de Alex soou grave do outro lado.
— Me dê a boa primeiro. Preciso dela.
— A casa em Columbia está pronta. A segurança foi toda reforçada, câmeras de última geração, vidros blindados e o sistema de alarme está conectado direto com a sua central pessoal. Na manhã de domingo, eu e Eleanor vamos levar a pequena Liz para você. Ela não para de perguntar pelo pai.
Um sorriso genuíno surgiu no meu rosto. A saudade da minha filha era uma dor física que eu carregava todos os dias.
— Isso é ótimo, Alex. Mal posso esperar para tê-la aqui comigo. E a notícia ruim?
— Alguma revista on-line de fofocas locais acabou de publicar uma nota sobre a sua chegada. "O novo xerife justiceiro de Columbia". Eles postaram fotos suas entrando no bar e estão fazendo um estardalhaço sobre a "festa" dos policiais enquanto a criminalidade não para. Patrick, você sabe como isso funciona. Se a sua localização e o seu rosto ficarem muito expostos agora, com o processo do Miller e o que deixamos para trás em Chicago... você precisa tirar isso do ar agora.
Minha mandíbula travou. A última coisa que eu precisava era de atenção da imprensa sensacionalista. Olhei ao redor do bar, meus instintos de detetive entrando em alerta máximo.
— Jack! — chamei, aproximando-me dele. — Quem aqui é da imprensa local?
Jack franziu a testa, confuso com a mudança repentina no meu humor.
— O quê? Ah... aquele cara ali no canto — ele apontou para um homem magro com um tablet e uma câmera profissional sobre a mesa. — É o repórter da "Columbia Voice", uma dessas revistas on-line que vivem de cliques. Por quê?
Não respondi. Caminhei a passos largos em direção ao sujeito. Antes que ele pudesse reagir, agarrei o colarinho de sua camisa e o levantei parcialmente da cadeira.
— Você tirou fotos minhas? — rosnei.
— Ei! O que é isso? Me solta! Eu tenho direito de... — o homem gaguejou, tentando alcançar a câmera.
— Você vai retirar a notícia e as fotos do site agora — ordenei, minha voz subindo de tom. — Você está colocando em risco a segurança de uma operação e de civis. Tire agora.
— Eu não posso fazer isso! É liberdade de imprensa! — ele gritou, atraindo a atenção de todos no bar.
A fúria, aquela velha conhecida que eu tentava domar, explodiu. Saquei minha arma e pressionei o cano contra a têmpora dele. O bar ficou em silêncio absoluto. Ouvi o suspiro de horror de Vera atrás de mim.
— Escute bem, seu verme — eu disse, com uma calma mortal. — Se você não apagar essas fotos agora, eu vou estourar sua cabeça e alegar legítima defesa contra um suspeito armado. Você quer testar a minha paciência?
— Patrick, não! — ouvi a voz de Vera, mas era tarde demais para o alerta.
Um segundo homem, que estava sentado com o repórter e que eu ignorei na minha raiva, levantou-se rapidamente. Antes que eu pudesse girar, senti o impacto brutal. Uma garrafa de cerveja explodiu contra a parte de trás da minha cabeça.
A dor foi uma explosão branca. Senti o líquido quente — uma mistura de cerveja e sangue — escorrer pelo meu pescoço. Cambaleei para frente, minha visão ficando turva. Jack e os outros policiais saltaram sobre os dois homens imediatamente, iniciando uma confusão de gritos e algemas.
Senti mãos pequenas e firmes segurarem meus ombros, impedindo que eu caísse.
— Patrick! Olhe para mim! — era Vera. O tom profissional de médica tinha assumido o controle, mas seus olhos estavam cheios de pânico. — Jack, ajude aqui!
— Eu estou bem... — tentei dizer, mas minha voz saiu arrastada.
— Você não está bem, você tem um corte profundo e possivelmente uma concussão — Vera disse, limpando o sangue do meu rosto com um guardanapo. — O hospital fica a duas quadras. Você vai comigo agora.
— Não precisa de hospital, Vera...
— Patrick Wilson, eu sou a médica aqui. Você vai para o hospital agora ou eu mesma te algemo à maca — ela disparou, e havia tanta autoridade em sua voz que eu não tive forças para argumentar.
Jack ajudou Vera a me levar até o carro dela. O trajeto foi curto, mas cada solavanco parecia uma marretada no meu crânio. Quando chegamos à emergência do hospital, Vera assumiu o comando de uma forma que me deixou impressionado.
— Quarto de sutura, agora! — ela ordenou a um enfermeiro que passava. — Tragam o kit de limpeza e lidocaína.
Ela me sentou na maca e começou a limpar o ferimento. O toque dela era incrivelmente gentil, apesar da firmeza.
— Vai doer um pouco — ela avisou, aproximando-se com a agulha para a anestesia local.
— Já senti pior — resmunguei, fechando os olhos.
— Você é um idiota, sabia? — ela disse, enquanto começava a dar os pontos. — Apontar uma arma para um repórter no meio de um bar? Você quer ser expulso da polícia na primeira semana?
— Ele estava ameaçando a segurança da minha família, Vera. Você não entende...
— Eu entendo que você age por impulso quando se sente ameaçado — ela me interrompeu, sua voz suavizando. — Mas você não está mais sozinho nisso, Patrick. Você tem uma equipe. E, aparentemente, tem a mim também, já que estou aqui remendando sua cabeça numa sexta-feira à noite.
Abri os olhos e a observei. Ela estava tão perto que eu podia ver as pequenas sardas no seu nariz e a concentração absoluta em seu trabalho.
— Obrigado, Vera — eu disse, sinceramente.
— Guarde os agradecimentos para quando eu tirar os pontos — ela respondeu, terminando o curativo. — Agora, você vai ficar em observação por uma hora. E nem pense em fugir.
Fiquei ali, deitado na maca, sentindo o latejar da minha cabeça diminuir aos poucos. O domingo estava chegando. Liz estaria aqui. A vida que eu estava tentando construir em Columbia já tinha começado com sangue e violência, mas, ao olhar para Vera, que escrevia algo no meu prontuário na ponta da maca, senti que talvez houvesse uma luz no fim desse túnel escuro.
No domingo de manhã, o sol brilhava forte. Eu estava na minha nova casa, uma propriedade cercada por árvores e com um gramado vasto. O curativo na minha cabeça ainda estava lá, mas a dor era suportável. Zeus, meu pastor alemão, estava inquieto, correndo de um lado para o outro do portão.
Quando o SUV preto de Alex entrou pelo cascalho, meu coração quase saiu pelo peito. A porta traseira se abriu e uma pequena figura loira saltou para fora.
— Papai! — Liz gritou, correndo em minha direção com os braços abertos.
Eu me abaixei, ignorando o protesto da minha cabeça, e a peguei no colo, apertando-a contra mim. O cheiro de shampoo de criança e sol era o melhor remédio do mundo.
— Oi, meu amor. Senti tanto a sua falta — sussurrei, beijando o topo da sua cabeça.
Eleanor e Alex saíram do carro, sorrindo com a cena. Mas Liz logo se distraiu. Zeus se aproximou, balançando o rabo freneticamente e soltando um latido baixo de saudação.
— Um cachorro, papai! — ela exclamou, descendo do meu colo para acariciar as orelhas do pastor alemão. — Ele é nosso?
— Ele é nosso, Liz. O nome dele é Zeus.
Enquanto observava minha filha brincar com o cão no gramado, senti um peso sair dos meus ombros. Eu tinha minha família de volta. Mas, ao fundo da minha mente, a imagem de Vera Farmiga no hospital, cuidando de mim com aquela mistura de severidade e ternura, permanecia.
Columbia não era apenas o lugar onde eu recomeçaria minha vida como pai e delegado. Era o lugar onde, contra todas as probabilidades, eu tinha encontrado um coração que batia no mesmo ritmo descompassado que o meu. E eu faria qualquer coisa para proteger o que estava começando a florescer ali, entre o hospital e a delegacia.
— Qual é, Wilson! — Jack exclamou, encostado no batente da minha porta na tarde de sexta-feira. — É apenas uma cerveja. O pessoal precisa ver que o chefe não é um robô programado para emitir multas e prender idiotas.
— Eu tenho muito o que fazer, Jack. A papelada da corregedoria sobre o Miller não vai se escrever sozinha — respondi, sem tirar os olhos do monitor.
— Deixe isso para segunda. Eu já organizei tudo no bar do Joe, aqui na esquina. E antes que você diga que prefere a companhia do seu cachorro, eu chamei a Taissa e a Dra. Farmiga.
Minhas mãos pararam sobre o teclado. A imagem de Vera, com seu lírio branco e aqueles olhos azuis que pareciam esconder um oceano de melancolia, invadiu minha mente. Eu não a via desde terça-feira, mas o perfume dela parecia ter ficado impregnado nas minhas luvas.
— A Dra. Farmiga vai? — perguntei, tentando manter a voz neutra.
— Vai. E se você não for, eu vou dizer a ela que o grande Delegado Patrick Wilson tem medo de uma happy hour — Jack provocou, saindo da sala com um sorriso vitorioso.
Duas horas depois, eu estava sentado em uma mesa de madeira gasta no bar do Joe. O ambiente era escuro, carregado com o cheiro de cevada e o som baixo de uma jukebox tocando algum clássico do rock. Meus homens estavam relaxados, rindo e bebendo, mas eu me sentia fora de lugar. O coldre sob minha jaqueta pesava, um lembrete constante de que eu nunca estava realmente de folga.
A porta do bar se abriu, deixando entrar uma lufada de ar frio e a luz dourada dos postes da rua. Vera entrou primeiro, seguida por Taissa. Ela estava diferente hoje. Não havia jaleco, apenas um suéter de tricô creme que realçava a palidez delicada de sua pele e uma calça jeans escura. Seus cabelos loiros estavam levemente bagunçados pelo vento, e ela parecia ainda mais linda do que sob as luzes fluorescentes do hospital.
— Boa noite, cavalheiros — disse Taissa, animada, sentando-se imediatamente ao lado do irmão.
Vera ficou parada por um segundo, os olhos percorrendo a mesa até encontrarem os meus. A única cadeira vazia era a que estava bem ao meu lado.
— Sente-se aqui, Vera — eu disse, afastando a cadeira para ela. Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia.
— Obrigada, Patrick — ela murmurou, sentando-se.
Notei imediatamente que ela não estava relaxada. Seus ombros estavam tensos e ela evitava olhar para as mesas ao redor, onde homens bebiam e riam alto.
— Você está bem? — perguntei, inclinando-me um pouco mais perto para que apenas ela ouvisse. — Parece que preferia estar fazendo uma cirurgia cardíaca de dez horas a estar aqui.
Vera forçou um sorriso, mas eu vi a verdade.
— Você está pálida, Vera. E suas mãos estão tremendo — observei, notando como ela apertava a alça da bolsa.
— É só o cansaço, eu juro — ela tentou responder, mas sua voz falhou.
Sem pensar muito nas consequências ou em quem estava olhando, estendi minha mão e cobri a dela sobre a mesa. A pele de Vera estava gelada, e o tremor era real. Ela ficou estática por alguns segundos, olhando para nossas mãos unidas. Seus olhos subiram para os meus, surpresos e vulneráveis.
— Quer falar sobre isso? — perguntei suavemente.
Ela hesitou, olhando ao redor antes de se aproximar do meu ouvido. O hálito dela tinha cheiro de hortelã.
— O cheiro daqui... — ela sussurrou, quase inaudível. — O álcool, o cigarro, o barulho. Não me traz lembranças boas, Patrick. Faz meu corpo reagir antes que minha mente consiga controlar.
Senti uma onda de proteção me atingir. Eu sabia o que era ser traído pelos próprios sentidos por causa de traumas passados.
— Mas eu queria estar aqui — ela continuou, ganhando um pouco mais de firmeza na voz. — Queria agradecer novamente por ter me ajudado com o Miller. E pela flor. Foi... ninguém nunca tinha me dado flores antes, Patrick. Pelo menos, não daquele jeito. Sem segundas intenções, apenas como um gesto de respeito.
Soltei uma risada curta, balançando a cabeça.
— Como isso é possível? — perguntei, genuinamente intrigado. — Uma mulher como você deve ter uma fila de pretendentes deixando jardins inteiros na sua porta.
— Médicos não têm tempo para jardins — ela brincou, e o brilho em seus olhos voltou timidamente. — E a maioria dos homens se intimida com mulheres que sabem abrir um tórax com um bisturi.
— Eu não me intimido fácil, Vera — respondi, mantendo o contato visual. — O que você quer beber? Algo que não tenha cheiro de álcool barato, eu presumo.
— Uma água tônica com limão seria perfeito.
Chamei o garçom e fiz o pedido. Estávamos começando a conversar sobre como foi a semana dela no hospital — ela mencionou uma cirurgia bem-sucedida na pequena Amanda — quando meu celular vibrou no bolso. Era Alex Garcia, meu padrasto e o homem que me ensinou tudo o que eu sabia sobre ser um policial e um homem de honra.
— Com licença, preciso atender — disse a Vera, afastando-me um pouco da mesa. — Garcia? Alguma novidade?
— Tenho uma notícia boa e uma ruim, Patrick — a voz de Alex soou grave do outro lado.
— Me dê a boa primeiro. Preciso dela.
— A casa em Columbia está pronta. A segurança foi toda reforçada, câmeras de última geração, vidros blindados e o sistema de alarme está conectado direto com a sua central pessoal. Na manhã de domingo, eu e Eleanor vamos levar a pequena Liz para você. Ela não para de perguntar pelo pai.
Um sorriso genuíno surgiu no meu rosto. A saudade da minha filha era uma dor física que eu carregava todos os dias.
— Isso é ótimo, Alex. Mal posso esperar para tê-la aqui comigo. E a notícia ruim?
— Alguma revista on-line de fofocas locais acabou de publicar uma nota sobre a sua chegada. "O novo xerife justiceiro de Columbia". Eles postaram fotos suas entrando no bar e estão fazendo um estardalhaço sobre a "festa" dos policiais enquanto a criminalidade não para. Patrick, você sabe como isso funciona. Se a sua localização e o seu rosto ficarem muito expostos agora, com o processo do Miller e o que deixamos para trás em Chicago... você precisa tirar isso do ar agora.
Minha mandíbula travou. A última coisa que eu precisava era de atenção da imprensa sensacionalista. Olhei ao redor do bar, meus instintos de detetive entrando em alerta máximo.
— Jack! — chamei, aproximando-me dele. — Quem aqui é da imprensa local?
Jack franziu a testa, confuso com a mudança repentina no meu humor.
— O quê? Ah... aquele cara ali no canto — ele apontou para um homem magro com um tablet e uma câmera profissional sobre a mesa. — É o repórter da "Columbia Voice", uma dessas revistas on-line que vivem de cliques. Por quê?
Não respondi. Caminhei a passos largos em direção ao sujeito. Antes que ele pudesse reagir, agarrei o colarinho de sua camisa e o levantei parcialmente da cadeira.
— Você tirou fotos minhas? — rosnei.
— Ei! O que é isso? Me solta! Eu tenho direito de... — o homem gaguejou, tentando alcançar a câmera.
— Você vai retirar a notícia e as fotos do site agora — ordenei, minha voz subindo de tom. — Você está colocando em risco a segurança de uma operação e de civis. Tire agora.
— Eu não posso fazer isso! É liberdade de imprensa! — ele gritou, atraindo a atenção de todos no bar.
A fúria, aquela velha conhecida que eu tentava domar, explodiu. Saquei minha arma e pressionei o cano contra a têmpora dele. O bar ficou em silêncio absoluto. Ouvi o suspiro de horror de Vera atrás de mim.
— Escute bem, seu verme — eu disse, com uma calma mortal. — Se você não apagar essas fotos agora, eu vou estourar sua cabeça e alegar legítima defesa contra um suspeito armado. Você quer testar a minha paciência?
— Patrick, não! — ouvi a voz de Vera, mas era tarde demais para o alerta.
Um segundo homem, que estava sentado com o repórter e que eu ignorei na minha raiva, levantou-se rapidamente. Antes que eu pudesse girar, senti o impacto brutal. Uma garrafa de cerveja explodiu contra a parte de trás da minha cabeça.
A dor foi uma explosão branca. Senti o líquido quente — uma mistura de cerveja e sangue — escorrer pelo meu pescoço. Cambaleei para frente, minha visão ficando turva. Jack e os outros policiais saltaram sobre os dois homens imediatamente, iniciando uma confusão de gritos e algemas.
Senti mãos pequenas e firmes segurarem meus ombros, impedindo que eu caísse.
— Patrick! Olhe para mim! — era Vera. O tom profissional de médica tinha assumido o controle, mas seus olhos estavam cheios de pânico. — Jack, ajude aqui!
— Eu estou bem... — tentei dizer, mas minha voz saiu arrastada.
— Você não está bem, você tem um corte profundo e possivelmente uma concussão — Vera disse, limpando o sangue do meu rosto com um guardanapo. — O hospital fica a duas quadras. Você vai comigo agora.
— Não precisa de hospital, Vera...
— Patrick Wilson, eu sou a médica aqui. Você vai para o hospital agora ou eu mesma te algemo à maca — ela disparou, e havia tanta autoridade em sua voz que eu não tive forças para argumentar.
Jack ajudou Vera a me levar até o carro dela. O trajeto foi curto, mas cada solavanco parecia uma marretada no meu crânio. Quando chegamos à emergência do hospital, Vera assumiu o comando de uma forma que me deixou impressionado.
— Quarto de sutura, agora! — ela ordenou a um enfermeiro que passava. — Tragam o kit de limpeza e lidocaína.
Ela me sentou na maca e começou a limpar o ferimento. O toque dela era incrivelmente gentil, apesar da firmeza.
— Vai doer um pouco — ela avisou, aproximando-se com a agulha para a anestesia local.
— Já senti pior — resmunguei, fechando os olhos.
— Você é um idiota, sabia? — ela disse, enquanto começava a dar os pontos. — Apontar uma arma para um repórter no meio de um bar? Você quer ser expulso da polícia na primeira semana?
— Ele estava ameaçando a segurança da minha família, Vera. Você não entende...
— Eu entendo que você age por impulso quando se sente ameaçado — ela me interrompeu, sua voz suavizando. — Mas você não está mais sozinho nisso, Patrick. Você tem uma equipe. E, aparentemente, tem a mim também, já que estou aqui remendando sua cabeça numa sexta-feira à noite.
Abri os olhos e a observei. Ela estava tão perto que eu podia ver as pequenas sardas no seu nariz e a concentração absoluta em seu trabalho.
— Obrigado, Vera — eu disse, sinceramente.
— Guarde os agradecimentos para quando eu tirar os pontos — ela respondeu, terminando o curativo. — Agora, você vai ficar em observação por uma hora. E nem pense em fugir.
Fiquei ali, deitado na maca, sentindo o latejar da minha cabeça diminuir aos poucos. O domingo estava chegando. Liz estaria aqui. A vida que eu estava tentando construir em Columbia já tinha começado com sangue e violência, mas, ao olhar para Vera, que escrevia algo no meu prontuário na ponta da maca, senti que talvez houvesse uma luz no fim desse túnel escuro.
No domingo de manhã, o sol brilhava forte. Eu estava na minha nova casa, uma propriedade cercada por árvores e com um gramado vasto. O curativo na minha cabeça ainda estava lá, mas a dor era suportável. Zeus, meu pastor alemão, estava inquieto, correndo de um lado para o outro do portão.
Quando o SUV preto de Alex entrou pelo cascalho, meu coração quase saiu pelo peito. A porta traseira se abriu e uma pequena figura loira saltou para fora.
— Papai! — Liz gritou, correndo em minha direção com os braços abertos.
Eu me abaixei, ignorando o protesto da minha cabeça, e a peguei no colo, apertando-a contra mim. O cheiro de shampoo de criança e sol era o melhor remédio do mundo.
— Oi, meu amor. Senti tanto a sua falta — sussurrei, beijando o topo da sua cabeça.
Eleanor e Alex saíram do carro, sorrindo com a cena. Mas Liz logo se distraiu. Zeus se aproximou, balançando o rabo freneticamente e soltando um latido baixo de saudação.
— Um cachorro, papai! — ela exclamou, descendo do meu colo para acariciar as orelhas do pastor alemão. — Ele é nosso?
— Ele é nosso, Liz. O nome dele é Zeus.
Enquanto observava minha filha brincar com o cão no gramado, senti um peso sair dos meus ombros. Eu tinha minha família de volta. Mas, ao fundo da minha mente, a imagem de Vera Farmiga no hospital, cuidando de mim com aquela mistura de severidade e ternura, permanecia.
Columbia não era apenas o lugar onde eu recomeçaria minha vida como pai e delegado. Era o lugar onde, contra todas as probabilidades, eu tinha encontrado um coração que batia no mesmo ritmo descompassado que o meu. E eu faria qualquer coisa para proteger o que estava começando a florescer ali, entre o hospital e a delegacia.
