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A trouxa

Fandom: Harry potter

Criado: 22/04/2026

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O Eco de um Coração de Inverno

O ar do Grande Salão estava impregnado com o cheiro de abóbora assada e o frescor úmido que subia das masmorras, mas para Clara, o ambiente parecia sufocante. Sentada na extremidade da mesa da Sonserina, ela mantinha os olhos fixos em seu prato de mingau, ignorando os olhares de soslaio e os sussurros maldosos que a cercavam. Para os outros alunos, ela era apenas a "trouxa intrusa", a garota gordinha que não parecia pertencer à casa das serpentes. Mas, por trás daqueles olhos castanhos cansados, Clara carregava o peso de cinquenta anos de história e o fantasma de um homem que o mundo conhecia como um monstro.

O ano era 1992. Harry Potter estava em seu segundo ano, e as paredes de Hogwarts começavam a sangrar mensagens de terror sobre o Herdeiro de Slytherin. Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao olhar para a mesa da Grifinória. Ela sabia o que estava por vir. Ela sabia quem estava por trás daquilo. Ou melhor, o que restara dele.

— Olhem só, parece que a porquinha está perdendo o apetite — zombou Pansy Parkinson, algumas cadeiras à frente. — Talvez o Herdeiro de Slytherin faça um favor a todos nós e limpe a escola de tipos como você, Clara.

Clara não respondeu. Ela apenas apertou a colher com força, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Se Pansy soubesse que Clara tinha passado meses nos anos 40 sendo a única pessoa a quem o verdadeiro Herdeiro de Slytherin dedicava um olhar de ternura, ela provavelmente cairia da cadeira.

A mente de Clara, no entanto, já não estava mais no salão. O barulho das conversas se transformou no som de chuva batendo nas janelas de uma Hogwarts muito mais silenciosa e sombria.

*Flashback: Inverno de 1943*

— Você é uma anomalia, Clara.

A voz de Tom Riddle era como veludo sobre navalhas. Ele estava sentado na biblioteca, cercado por pergaminhos antigos, a luz das velas esculpindo os ângulos perfeitos de seu rosto jovem e aristocrático. Ele não olhava para ela, mas Clara sabia que ele estava consciente de cada movimento seu.

— Uma anomalia por ser nascida trouxa na Sonserina? — perguntou Clara, sentando-se à frente dele com um saco de doces da Dedosmel que ela conseguira contrabandear. — Ou uma anomalia por não ter medo de você?

Tom errou a pena sobre o pergaminho, deixando uma pequena mancha de tinta. Ele finalmente ergueu os olhos. Não havia o brilho vermelho que o mundo veria décadas depois; eram olhos escuros, profundos e assustadoramente inteligentes.

— Ambos — admitiu ele, fechando o livro com um estrondo seco. — Você não tem o pedigree, não tem a elegância e, no entanto... você tem uma luz que me irrita profundamente. Por que você insiste em tentar me mudar?

Clara sorriu, um sorriso triste que ele ainda não conseguia decifrar. Ela estendeu a mão e, para a surpresa de ambos, tocou os dedos longos e frios dele sobre a mesa.

— Porque eu vi o que o frio faz com as pessoas, Tom. E eu acho que, lá no fundo, você só está esperando alguém que não se importe de queimar as mãos para te aquecer.

Naquele momento, o mestre da manipulação, o futuro Lorde das Trevas, hesitou. Ele não afastou a mão. Em vez disso, seus dedos se fecharam em torno dos dela, um aperto possessivo e desesperado.

— Se você ficar ao meu lado — sussurrou Tom, inclinando-se para frente —, eu farei deste mundo um lugar onde ninguém jamais ousará rir de você.

— Eu não quero o mundo, Tom — respondeu ela, com o coração batendo na garganta. — Eu só quero você. O garoto, não o monstro.

*Fim do Flashback*

Um estrondo vindo da mesa dos professores trouxe Clara de volta ao presente. Gilderoy Lockhart acabara de derrubar uma taça de vinho, rindo de forma afetada enquanto tentava limpar a bagunça com um feitiço desajeitado.

Clara sentiu uma náusea súbita. O contraste entre a promessa de Tom e a realidade de 1992 era doloroso. Ele não tinha mudado. Ela falhara. O diário estava circulando pela escola, e a memória de Tom — a parte dele que ela tanto amara — estava agora possuindo a pequena Gina Weasley e espalhando o terror pelos corredores.

— Com licença — murmurou Clara, levantando-se da mesa sem olhar para ninguém.

Ela caminhou pelos corredores de pedra, seus passos ecoando no silêncio opressor. Ela sabia para onde estava indo. Seus pés a levaram instintivamente para o banheiro feminino do segundo andar. O lugar onde a tragédia começara em 1943 e onde estava recomeçando agora.

Ao entrar, o som do choro de Murta Queixosa preenchia o ambiente úmido. Clara aproximou-se das pias, seus olhos fixos na pequena serpente gravada na torneira de cobre.

— Ele está aqui, não está? — perguntou Clara ao vazio.

A Murta parou de soluçar e flutuou para fora de um dos boxes, olhando para Clara com curiosidade.

— Você... você parece familiar — disse o fantasma, franzindo a testa. — Mas você é mais velha... e está mais triste.

— O tempo faz isso com a gente, Murta — suspirou Clara. — Você o viu? O garoto do diário?

— Ele é tão bonito — sussurou Murta, com um brilho sonhador nos olhos opacos. — Mas ele não fala comigo. Ele só fala com a pequena ruiva. Ele está bravo, sabe? Ele diz que alguém o traiu há muito tempo.

Clara sentiu um aperto no peito. "Alguém o traiu". Ela sabia que ele se referia a ela. Quando Clara fora puxada de volta para o seu próprio tempo, ela desaparecera sem deixar rastros, deixando Tom Riddle sozinho com sua ambição e seu ódio crescente. Para ele, ela fora a única pessoa em quem ele confiara, e ela o abandonara.

— Eu não tive escolha, Tom — sussurrou ela para a pia de pedra, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu tentei te salvar de si mesmo.

— Falar sozinha é o primeiro sinal de loucura, sabia?

Clara deu um pulo, virando-se rapidamente. Parado na porta do banheiro estava Draco Malfoy, com um sorriso de escárnio no rosto pálido.

— O que você quer, Malfoy? — perguntou ela, limpando o rosto apressadamente.

— Só queria ver o que a "orgulho da Sonserina" estava fazendo escondida em um banheiro de fantasma — disse ele, entrando no recinto com passos lentos. — Você é estranha, Clara. Meus pais dizem que não lembram de nenhuma família sangue-puro com o seu sobrenome, mas você age como se fosse dona deste lugar. Como se soubesse segredos que ninguém mais sabe.

Clara endireitou os ombros. Ela podia ser excluída, podia ser a garota gordinha que ninguém notava, mas ela tinha algo que Malfoy jamais teria: a memória de um tempo em que as serpentes eram realmente temidas, não por bullying infantil, mas por poder real.

— Existem muitas coisas que você não sabe, Draco — disse ela, sua voz soando estranhamente calma e autoritária. — E se eu fosse você, ficaria longe desta parte do castelo. O Herdeiro não gosta de ser observado.

Malfoy empalideceu levemente, o sorriso desaparecendo.

— Você... você sabe quem é? — perguntou ele, a voz falhando por um segundo.

— Eu conheço a alma dele melhor do que qualquer um — respondeu Clara, passando por ele e saindo para o corredor.

Enquanto caminhava em direção à sala comum da Sonserina, as paredes pareciam sussurrar para ela. *Sangue-ruim, cuidado.*

Clara parou diante de um espelho antigo em um corredor deserto. Ela olhou para o seu reflexo. Ela não era a beleza clássica de Hogwarts, mas havia uma força em seus olhos que não existia antes da viagem no tempo. Ela tocou o pingente escondido sob as vestes — um pequeno anel de prata que ela conseguira roubar do dormitório de Tom antes de partir. Não era uma Horcrux, era apenas um anel. Um objeto sem magia, mas carregado de promessas quebradas.

— Eu vou te encontrar, Tom — prometeu ela em voz baixa. — Não para te ajudar a abrir a Câmara, mas para te mostrar que o amor que você sentiu uma vez não era uma fraqueza. Era a sua única chance.

Naquela noite, Clara sonhou com o laboratório de Poções em 1943.

*Flashback: Outono de 1943*

Eles estavam sozinhos, cumprindo detenção por terem explodido um caldeirão (embora Clara soubesse que Tom o fizera de propósito para ficarem a sós).

— Por que você sempre me defende, Clara? — perguntou Tom, enquanto limpava os restos de muco de verme-cego da mesa. — Até mesmo quando eu sou cruel com os seus "iguais"?

Clara parou de esfregar o chão e olhou para ele.

— Porque eu vejo o medo em você, Tom. Você tem medo de ser comum. Tem medo de morrer e ser esquecido como o seu pai.

O rosto de Tom se transformou em uma máscara de fúria. Ele atravessou a sala em dois passos e segurou o rosto de Clara com força, forçando-a a olhar para ele.

— Nunca mais fale dele — sibilou ele.

— A verdade dói, não é? — Clara não recuou. — Mas você não precisa de um exército de Comensais da Morte para ser lembrado. Você poderia ser o maior bruxo que este século já viu pelo seu talento, não pelo seu terror.

A fúria nos olhos de Tom começou a vacilar, substituída por algo que parecia agonia. Ele soltou o rosto dela, mas não se afastou.

— Você é a única que se atreve a falar assim comigo — murmurou ele, sua testa encostando na dela. — Às vezes, eu sinto vontade de te destruir para não ter que ouvir a sua voz na minha cabeça o tempo todo.

— E por que não destrói? — desafiou ela, o coração disparado.

Tom soltou um suspiro trêmulo e, pela primeira vez, ele a beijou. Foi um beijo desesperado, com gosto de tinta e solidão. Naquele momento, Clara acreditou que tinha vencido. Ela acreditou que o amor poderia mudar o curso da história.

*Fim do Flashback*

Clara acordou no dormitório escuro da Sonserina, as faces molhadas de lágrimas. O som de algo raspando dentro das paredes a fez congelar na cama. O Basilisco estava se movendo.

Ela se levantou, calçou os sapatos e pegou sua varinha. Ela não era a heroína da história de Harry Potter. Ela não era a "Eleita". Mas ela era a mulher que Tom Riddle tinha amado, e ela não deixaria que a memória dele destruísse mais ninguém.

Ao sair para a sala comunal, ela viu uma figura sentada perto da lareira moribunda. Era uma menina ruiva, com os olhos vidrados e um livro de capa preta apertado contra o peito. Gina Weasley.

Clara sentiu o ar ficar frio. Ela se aproximou lentamente, cada fibra do seu ser gritando para ela fugir.

— Gina? — chamou Clara suavemente.

A menina não respondeu. Mas o diário em seu colo pareceu vibrar. Clara sentiu uma conexão magnética, uma puxada no centro de seu peito que ela reconheceria em qualquer lugar.

— Tom... — sussurrou ela.

Gina ergueu a cabeça. Mas o olhar que encontrou o de Clara não era o de uma menina de onze anos. Era um olhar frio, calculista e terrivelmente familiar. Um sorriso lento e cruel surgiu nos lábios de Gina.

— Clara... — a voz que saiu da boca da menina era um sussurro duplo, o de Gina e o de um jovem que Clara conhecera há cinquenta anos. — Você demorou a voltar para mim.

Clara sentiu o mundo girar. Ele sabia. A memória no diário sabia quem ela era.

— O que você está fazendo com ela, Tom? Deixe-a ir — ordenou Clara, tentando manter a voz firme apesar do tremor em suas mãos.

— Ela é apenas um instrumento — disse a "Gina", levantando-se com uma graça que não pertencia a uma criança. — Mas você... você é a traidora. Você me deu esperança e depois desapareceu no ar. Eu guardei esse sentimento, Clara. Eu o transformei em algo muito mais útil do que o amor. Eu o transformei em vingança.

— Eu não te traí! — exclamou Clara, dando um passo à frente. — Eu fui puxada de volta! Eu nunca quis te deixar!

— Palavras vazias de uma sangue-ruim — sibilou a voz. — Mas não importa agora. A Câmara foi aberta. O trabalho começou. E se você quiser me impedir, terá que vir até mim, Clara. No lugar onde tudo termina.

Gina virou-se e correu para fora da sala comunal com uma velocidade sobrenatural. Clara não hesitou. Ela correu atrás dela, ignorando o cansaço e o medo.

Enquanto atravessava os corredores escuros de Hogwarts, Clara percebeu que sua viagem no tempo não fora para mudar Tom Riddle. Fora para prepará-la para este momento. Ela não podia mudar o passado, mas talvez, apenas talvez, ela pudesse salvar o que restava da alma do homem que ela ainda amava, mesmo que ele agora vivesse nas sombras de um diário e nos olhos de uma criança inocente.

A batalha pelo coração de Tom Riddle estava apenas começando, e desta vez, Clara não tinha a intenção de desaparecer.
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