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Entre farpas e gols

Fandom: S/o

Criado: 23/04/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaConsertoCenário Canônico
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Entre Saques e Ofensas

O som da bola de vôlei ecoando contra o chão de madeira do ginásio era o único ritmo que Cecília aceitava seguir naquela tarde de terça-feira. Ela estava na lateral da quadra, ajustando a joelheira pela décima vez, enquanto observava o time titular treinar. Ser reserva no vôlei e no handebol tinha suas vantagens — como não carregar o peso da derrota nas costas —, mas a desvantagem era ter tempo demais para pensar. E, infelizmente, seus pensamentos tinham nome, sobrenome e um sorriso irritante que ela jurava odiar.

Vinícius estava do outro lado do ginásio, aquecendo com os outros meninos do vôlei. Ele era a estrela do futebol, o camisa 10 que todo mundo idolatrava, mas ali, na quadra de vôlei, ele era apenas um reserva esforçado que parecia estar em todos os lugares onde Cecília não queria que ele estivesse.

— Cecília, entra no lugar da Bia! — gritou o treinador, interrompendo o transe da garota.

Ela se levantou num salto, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo firme. Ao entrar na quadra, o destino, que adorava pregar peças, colocou Vinícius exatamente na rede, na posição oposta à dela.

— Olha só, se não é a minha reserva favorita — disse Vinícius, com um brilho nos olhos que Cecília tentou ignorar.

— Cala a boca, Vinícius — rebateu ela, assumindo a posição de defesa. — Foca no jogo antes que uma bola acerte essa sua cara de quem não sabe o que é um rodízio.

— Grossa como sempre. É por isso que eu gosto de treinar com você — ele riu, mas havia um fundo de amargura no tom.

O treino seguiu tenso. Cecília jogava com uma agressividade que beirava o perigo. Cada vez que a bola vinha em sua direção, ela a golpeava como se estivesse tentando descarregar anos de frustração. No oitavo ano, aquela mesma agressividade era timidez. Ela se lembrava vividamente de quando escreveu aquela carta ridícula para ele, e de como ele, cercado pelos amigos, deu risada e perguntou se ela não tinha espelho em casa.

Hoje, aos 17 anos, Vinícius era outro. Ele tinha crescido, amadurecido e, há meses, tentava desesperadamente cavar um buraco na muralha que Cecília ergueu ao redor de si. Mas ela era teimosa. O perdão parecia uma derrota que ela não estava disposta a aceitar.

Após o treino, enquanto guardava suas coisas na mochila, Cecília sentiu a presença dele antes mesmo de ouvir seus passos.

— A gente pode conversar? Sem você tentar me matar com uma bolada? — perguntou Vinícius, parando a poucos metros dela.

— Não tenho nada para falar com você, Vinícius. Tenho treino de handebol daqui a pouco.

— O treino de handebol foi cancelado, Cecília. Eu vi o aviso no mural — ele deu um passo à frente. — Por quanto tempo mais você vai fingir que eu não existo até que eu peça desculpas pela milésima vez?

— Desculpas não apagam o fato de você ter sido um idiota completo — ela disparou, fechando o zíper da mochila com força. — Você me humilhou na frente de todo mundo. Eu tinha treze anos!

— E eu tinha treze anos e era um imbecil que queria se sentir superior! — Vinícius elevou um pouco a voz, mas logo se acalmou. — Eu me arrependo disso todos os dias, Ceci. Eu mudei. Por que você acha que eu entrei para a reserva do vôlei? Eu odeio vôlei, sou péssimo nisso.

Cecília parou o que estava fazendo e o encarou, confusa.

— O quê?

— Eu entrei para o time para estar perto de você — admitiu ele, coçando a nuca, visivelmente sem jeito. — Porque é o único lugar onde você não pode simplesmente sair correndo quando me vê.

— Isso é patético — disse ela, embora sentisse seu coração falhar uma batida.

— É, eu sei que é. Mas eu não sabia mais o que fazer. Você briga comigo por qualquer coisa, me xinga, me ignora... e eu aceito tudo porque sei que mereço. Mas dói saber que você ainda me olha e vê aquele moleque idiota de quatro anos atrás.

Cecília sentiu o nó na garganta apertar. Ela odiava o fato de que, apesar de toda a raiva, ela ainda reparava no jeito que o cabelo dele ficava bagunçado depois do treino, ou na forma como ele sempre deixava uma garrafa de água extra perto do banco dela "por coincidência". Ela odiava ainda mais o fato de que não o odiava de verdade.

— Você acha que é fácil? — perguntou ela, a voz subitamente baixa. — Eu gostava de você de verdade. E você fez aquilo virar uma piada.

— Eu sei. E eu daria tudo para voltar atrás — ele se aproximou mais, desta vez ela não recuou. — Mas eu não posso mudar o passado. Eu só posso tentar te mostrar quem eu sou agora. E o cara que eu sou agora... ele é completamente louco pela garota que faz o saque mais violento da escola.

Cecília soltou um riso anasalado, uma mistura de deboche e nervosismo.

— Você é um idiota, Vinícius.

— Eu sou. Mas sou o seu idiota? — ele arriscou um sorriso de lado.

— Nem nos seus sonhos mais selvagens.

— Bom, pelo menos você admitiu que eu apareço nos seus sonhos — provocou ele, recuperando um pouco da confiança.

— Você entendeu o que eu quis dizer! — ela deu um tapa no braço dele, mas não retirou a mão logo em seguida.

O silêncio que se seguiu no ginásio vazio não era desconfortável. Era carregado de uma tensão que vinha sendo construída há meses, entre discussões no corredor e olhares trocados por cima da rede. Vinícius cobriu a mão de Cecília, que ainda estava em seu braço, com a dele.

— Por que a gente não recomeça? — sugeriu ele em voz baixa. — Sem oitavo ano. Sem cartas. Só eu e você, agora.

— Eu não sei se consigo simplesmente esquecer — confessou Cecília, olhando para as mãos unidas.

— Então não esqueça. Use isso como combustível para me dar broncas quando eu errar o passe. Mas me deixa tentar, Ceci. Me deixa te levar para comer aquela pizza horrível da esquina depois do jogo de sexta.

Cecília olhou para cima, encontrando os olhos castanhos de Vinícius. Havia uma sinceridade ali que ela não conseguia mais ignorar. Sua teimosia estava cansada. Lutar contra o que sentia era muito mais exaustivo do que simplesmente ceder.

— A pizza da esquina não é horrível — murmurou ela.

— Viu? Já estamos concordando em algo — ele sorriu, e desta vez o sorriso não era irritante. Era acolhedor.

— Eu ainda estou brava com você — avisou ela, embora o tom não tivesse convicção nenhuma.

— Eu sei. E eu vou passar o resto do ensino médio compensando isso.

Vinícius inclinou a cabeça, diminuindo a distância entre eles. Cecília hesitou por um segundo, a última barreira de sua teimosia tentando se manter de pé, mas quando ele encostou os lábios nos dela, a muralha desmoronou completamente. Foi um beijo calmo, que carregava o peso do arrependimento dele e a aceitação dela.

Quando se afastaram, Cecília respirou fundo, sentindo o rosto esquentar.

— Se você contar para alguém que a gente ficou, eu juro que te acerto com uma bola de handebol no meio da cara — ameaçou ela, tentando recuperar a postura.

Vinícius riu, puxando-a para um abraço apertado.

— Combinado. Mas você vai ter que ir ao meu jogo de futebol na sexta. Na primeira fila.

— Como reserva do vôlei, meu tempo é muito caro, Vinícius. Vou ver se tenho agenda — ela brincou, encostando a cabeça no peito dele.

— Você é impossível, Cecília.

— E você adora isso.

Eles saíram do ginásio lado a lado, ainda trocando farpas e empurrões leves, como sempre faziam. A diferença era que, agora, entre uma provocação e outra, as mãos se buscavam e se entrelaçavam, selando um acordo que o tempo e a teimosia não podiam mais quebrar. A reserva finalmente tinha decidido entrar no jogo, e o capitão do time não poderia estar mais feliz por ter perdido aquela partida.
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