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Vnc
Fandom: S/o
Criado: 24/04/2026
Tags
RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoRealismoCenário CanônicoFofuraEstudo de PersonagemHistória Doméstica
Entre Saques, Chutes e Orgulho Ferido
O ginásio do Colégio J.C. parecia prestes a explodir. O barulho das vuvuzelas, os gritos das torcidas organizadas de cada sala e o som estridente do apito dos árbitros criavam uma cacofonia que, para Cecilia, era o som da guerra. Era a semana do Interclasse, o evento mais esperado do terceiro ano, a última chance de glória antes do vestibular e da vida adulta.
Cecilia ajustou a joelheira com força excessiva, sentada no banco de reservas do time de vôlei. Seus olhos castanhos estavam fixos na quadra, mas sua mente estava a poucos metros dali, onde o time de futebol masculino se aquecia para a semifinal. Mais especificamente, sua atenção — por mais que ela negasse até a morte — estava em um par de pernas ágeis e um cabelo bagunçado que ela conhecia bem demais.
Vinicius.
— Cecilia, acorda! Se a capitã te chamar e você estiver no mundo da lua, ela te mata — alertou Mariana, sua melhor amiga, sentando ao seu lado.
— Eu estou acordada, Mari. Só estou... concentrada — mentiu Cecilia, sentindo o rosto esquentar.
— Concentrada no treino do futebol? Sei. O Vinicius está jogando muito hoje, né?
Cecilia soltou um som de desdém, cruzando os braços sobre o uniforme esportivo.
— Ele é um idiota. Pode ser o melhor jogador da escola, mas continua sendo o mesmo moleque que achou engraçado fazer piada de mim na frente de todo mundo no oitavo ano.
— Isso faz quatro anos, Ceci. Ele já pediu desculpas umas mil vezes este mês.
— E eu vou demorar mais mil para aceitar. Teimosia é minha virtude, esqueceu?
A verdade era que Cecilia sentia o estômago dar voltas toda vez que Vinicius chegava perto. No oitavo ano, ela era apaixonada por ele, um sentimento puro e infantil que foi esmagado quando ele, para impressionar os amigos populares, zombou do jeito que ela jogava e da sua altura na época. O trauma criou uma barreira de gelo que ela se recusava a derreter, mesmo que agora, aos 17 anos, Vinicius tivesse mudado. Ele tinha crescido, amadurecido e, para o azar dela, se tornado irritantemente gentil.
O intervalo entre os jogos de vôlei e o futebol de campo permitiu que as turmas se misturassem no pátio. Cecilia caminhava em direção ao bebedouro quando uma figura alta bloqueou seu caminho.
— Ei, Ceci. Vai assistir ao nosso jogo contra o 2º MS? — Vinicius sorriu, aquele sorriso de lado que sempre fazia o coração dela falhar uma batida.
— Tenho escolha? Minha sala está jogando, Vinicius. Sou obrigada a estar lá — respondeu ela, mantendo a voz fria.
— Você sabe que eu não quis dizer como obrigação. Eu queria que você torcesse por mim. De verdade.
Cecilia parou e o encarou, os olhos faiscando.
— Torcer por você? Por que eu faria isso? Para você ganhar e depois se sentir o rei da escola de novo?
— Cecilia, sério... até quando? — O tom de Vinicius mudou, perdendo a brincadeira. — Eu era um moleque idiota no fundamental. Eu me arrependo de cada palavra que eu disse para te magoar. Eu tento falar com você, tento me aproximar, mas você me trata como se eu fosse um vilão de filme.
— Talvez porque, para mim, você foi — retrucou ela, embora sentisse uma pontada de culpa ao ver a expressão murcha dele. — Agora sai da frente, preciso me hidratar para o handebol.
— Boa sorte no jogo — disse ele, baixinho, enquanto ela passava por ele sem olhar para trás.
A semifinal do futebol masculino começou sob um sol escaldante. O 3º JC estava enfrentando o 2º MS, um time conhecido por jogar sujo e ter alunos fisicamente maiores. O clima estava tenso. Cecilia estava na arquibancada, cercada pelos colegas de sala, tentando fingir que não estava prestando atenção em cada movimento de Vinicius em campo.
Ele era o motor do time. Driblava com facilidade, distribuía passes e já tinha marcado um gol. Mas o 2º MS não estava facilitando. As faltas estavam se tornando frequentes e a arbitragem parecia perder o controle.
— Eles vão acabar machucando alguém — comentou Mari, preocupada.
— O Vinicius é abusado demais, ele provoca o contato — Cecilia respondeu, mas suas mãos estavam cerradas em punho sobre os joelhos.
Faltando cinco minutos para o fim do segundo tempo, o placar estava empatado em 1 a 1. Vinicius recebeu a bola no meio de campo e arrancou em velocidade. Ele passou por um, driblou o segundo e, quando se preparava para chutar ao gol, o zagueiro adversário entrou com as travas da chuteira por cima, atingindo diretamente o tornozelo de apoio de Vinicius.
O estalo foi audível para quem estava nas primeiras fileiras.
Vinicius caiu instantaneamente, rolando no gramado sintético com as mãos no rosto. O juiz apitou desesperadamente, expulsando o jogador do 2º ano, mas o caos já estava instaurado. Os jogadores do 3º JC correram para cima do agressor, e uma confusão generalizada começou.
Cecilia sentiu o sangue fugir do rosto. Ela se levantou em um salto, o coração martelando contra as costelas.
— Vinicius! — O grito escapou de sua garganta antes que ela pudesse processar.
Ela não esperou autorização. Pulou a mureta da arquibancada e correu para o gramado, ignorando os gritos dos professores que tentavam conter a briga. Quando chegou perto, viu o professor de Educação Física ajoelhado ao lado de Vinicius.
O tornozelo dele já estava inchando de forma alarmante, e ele estava pálido, com o suor frio escorrendo pela testa.
— Afastem-se! Deem espaço! — gritava o professor.
Cecilia se ajoelhou do outro lado de Vinicius. A máscara de indiferença caiu completamente.
— Vini? Vini, olha para mim — pediu ela, a voz trêmula.
Ele abriu os olhos, cerrando os dentes para não gritar de dor. Ao ver Cecilia ali, ele tentou esboçar um sorriso fraco, que mais pareceu uma careta.
— Você veio... torcer? — sussurrou ele, a voz embargada.
— Cala a boca, seu idiota. Não ouse fazer piada agora — disse ela, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. — Professor, isso parece sério. Ele precisa de um hospital.
— Eu sei, Cecilia. Vou chamar a ambulância do posto aqui do lado. Fica com ele, não deixa ele tentar levantar.
A confusão ao redor parecia ter diminuído de volume. O mundo de Cecilia se resumia ao rapaz deitado à sua frente, sofrendo. Ela pegou a mão dele, sem pensar, e ele apertou a dela com força, buscando um ponto de apoio na dor.
— Dói muito? — perguntou ela, desnecessariamente.
— Parece que tem um ferro quente no meu pé — ele respirou fundo, fechando os olhos. — Desculpa, Ceci.
— Desculpa pelo quê? Você levou uma entrada criminosa!
— Desculpa por estragar o jogo... e por tudo o que eu fiz antes. Eu não queria que você me visse assim. Eu queria ganhar para te dedicar o troféu.
Cecilia sentiu um nó na garganta. A teimosia que ela cultivou por anos estava derretendo como gelo sob o sol.
— Esquece o troféu, Vinicius. Esquece o oitavo ano. Só... só fica bem, tá? Se você ficar bem, eu prometo que paro de ser chata.
Ele abriu um olho só, encarando-a com uma mistura de dor e esperança.
— Promete mesmo? Sem gelo? Sem respostas atravessadas?
— Prometo. Mas só se você parar de tentar ser um herói de futebol e começar a se cuidar mais.
A ambulância chegou minutos depois. Enquanto os paramédicos imobilizavam a perna de Vinicius e o colocavam na maca, ele não soltou a mão de Cecilia até o último segundo.
— Você vai comigo? — perguntou ele, antes de fecharem a porta da ambulância.
Cecilia olhou para o ginásio, onde seu time de handebol logo entraria em quadra. Ela era a reserva imediata, e sua ausência seria notada. Depois, olhou para Vinicius, vulnerável e precisando de alguém.
— Vou. Vou ligar para os seus pais no caminho — disse ela, subindo na ambulância.
O trajeto até o hospital foi silencioso, exceto pelos gemidos baixos de Vinicius quando o veículo passava por algum buraco. Cecilia não soltou a mão dele. Ela observava o perfil do garoto que ela tentou odiar, percebendo que a raiva era apenas uma armadura para proteger um coração que nunca tinha deixado de bater por ele.
Após os exames e o raio-X, o diagnóstico veio: uma entorse grave com ruptura de ligamento. Ele teria que usar bota ortopédica e ficar longe dos esportes por alguns meses.
Horas depois, já devidamente medicado e com a perna imobilizada, Vinicius descansava em uma maca do pronto-socorro enquanto esperava o pai chegar com a papelada da alta. Cecilia estava sentada em uma cadeira de plástico ao lado dele, segurando um copo de água.
— Cecilia? — chamou ele, com a voz sonolenta por causa dos analgésicos.
— Estou aqui.
— Obrigado por não ter me deixado lá.
Ela deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso verdadeiro que direcionava a ele em anos.
— Eu não podia deixar você sofrendo sozinho. Mesmo que você seja um bobão.
— Um bobão que você ainda gosta? — Ele arriscou, olhando-a fixamente.
Cecilia suspirou, deixando os ombros caírem. Não havia mais sentido em mentir, não depois do susto que levou no campo.
— É, Vinicius. Um bobão que eu ainda gosto. Infelizmente.
Ele estendeu a mão, e desta vez foi um toque suave, as pontas dos dedos roçando o pulso dela.
— Eu vou compensar todo o tempo perdido, Ceci. Eu prometo.
— Comece ficando quieto e se recuperando — ela disse, mas se inclinou e beijou a testa dele. — O Interclasse acabou para você, mas parece que a nossa trégua está só começando.
Vinicius sorriu, finalmente em paz, enquanto Cecilia percebia que, às vezes, é preciso um tombo feio para a gente parar de fugir do que o coração já sabe há muito tempo. No fim das contas, o 3º JC perdeu o título de futebol, mas Cecilia sentia que, naquela tarde, ela tinha ganhado algo muito mais importante.
Cecilia ajustou a joelheira com força excessiva, sentada no banco de reservas do time de vôlei. Seus olhos castanhos estavam fixos na quadra, mas sua mente estava a poucos metros dali, onde o time de futebol masculino se aquecia para a semifinal. Mais especificamente, sua atenção — por mais que ela negasse até a morte — estava em um par de pernas ágeis e um cabelo bagunçado que ela conhecia bem demais.
Vinicius.
— Cecilia, acorda! Se a capitã te chamar e você estiver no mundo da lua, ela te mata — alertou Mariana, sua melhor amiga, sentando ao seu lado.
— Eu estou acordada, Mari. Só estou... concentrada — mentiu Cecilia, sentindo o rosto esquentar.
— Concentrada no treino do futebol? Sei. O Vinicius está jogando muito hoje, né?
Cecilia soltou um som de desdém, cruzando os braços sobre o uniforme esportivo.
— Ele é um idiota. Pode ser o melhor jogador da escola, mas continua sendo o mesmo moleque que achou engraçado fazer piada de mim na frente de todo mundo no oitavo ano.
— Isso faz quatro anos, Ceci. Ele já pediu desculpas umas mil vezes este mês.
— E eu vou demorar mais mil para aceitar. Teimosia é minha virtude, esqueceu?
A verdade era que Cecilia sentia o estômago dar voltas toda vez que Vinicius chegava perto. No oitavo ano, ela era apaixonada por ele, um sentimento puro e infantil que foi esmagado quando ele, para impressionar os amigos populares, zombou do jeito que ela jogava e da sua altura na época. O trauma criou uma barreira de gelo que ela se recusava a derreter, mesmo que agora, aos 17 anos, Vinicius tivesse mudado. Ele tinha crescido, amadurecido e, para o azar dela, se tornado irritantemente gentil.
O intervalo entre os jogos de vôlei e o futebol de campo permitiu que as turmas se misturassem no pátio. Cecilia caminhava em direção ao bebedouro quando uma figura alta bloqueou seu caminho.
— Ei, Ceci. Vai assistir ao nosso jogo contra o 2º MS? — Vinicius sorriu, aquele sorriso de lado que sempre fazia o coração dela falhar uma batida.
— Tenho escolha? Minha sala está jogando, Vinicius. Sou obrigada a estar lá — respondeu ela, mantendo a voz fria.
— Você sabe que eu não quis dizer como obrigação. Eu queria que você torcesse por mim. De verdade.
Cecilia parou e o encarou, os olhos faiscando.
— Torcer por você? Por que eu faria isso? Para você ganhar e depois se sentir o rei da escola de novo?
— Cecilia, sério... até quando? — O tom de Vinicius mudou, perdendo a brincadeira. — Eu era um moleque idiota no fundamental. Eu me arrependo de cada palavra que eu disse para te magoar. Eu tento falar com você, tento me aproximar, mas você me trata como se eu fosse um vilão de filme.
— Talvez porque, para mim, você foi — retrucou ela, embora sentisse uma pontada de culpa ao ver a expressão murcha dele. — Agora sai da frente, preciso me hidratar para o handebol.
— Boa sorte no jogo — disse ele, baixinho, enquanto ela passava por ele sem olhar para trás.
A semifinal do futebol masculino começou sob um sol escaldante. O 3º JC estava enfrentando o 2º MS, um time conhecido por jogar sujo e ter alunos fisicamente maiores. O clima estava tenso. Cecilia estava na arquibancada, cercada pelos colegas de sala, tentando fingir que não estava prestando atenção em cada movimento de Vinicius em campo.
Ele era o motor do time. Driblava com facilidade, distribuía passes e já tinha marcado um gol. Mas o 2º MS não estava facilitando. As faltas estavam se tornando frequentes e a arbitragem parecia perder o controle.
— Eles vão acabar machucando alguém — comentou Mari, preocupada.
— O Vinicius é abusado demais, ele provoca o contato — Cecilia respondeu, mas suas mãos estavam cerradas em punho sobre os joelhos.
Faltando cinco minutos para o fim do segundo tempo, o placar estava empatado em 1 a 1. Vinicius recebeu a bola no meio de campo e arrancou em velocidade. Ele passou por um, driblou o segundo e, quando se preparava para chutar ao gol, o zagueiro adversário entrou com as travas da chuteira por cima, atingindo diretamente o tornozelo de apoio de Vinicius.
O estalo foi audível para quem estava nas primeiras fileiras.
Vinicius caiu instantaneamente, rolando no gramado sintético com as mãos no rosto. O juiz apitou desesperadamente, expulsando o jogador do 2º ano, mas o caos já estava instaurado. Os jogadores do 3º JC correram para cima do agressor, e uma confusão generalizada começou.
Cecilia sentiu o sangue fugir do rosto. Ela se levantou em um salto, o coração martelando contra as costelas.
— Vinicius! — O grito escapou de sua garganta antes que ela pudesse processar.
Ela não esperou autorização. Pulou a mureta da arquibancada e correu para o gramado, ignorando os gritos dos professores que tentavam conter a briga. Quando chegou perto, viu o professor de Educação Física ajoelhado ao lado de Vinicius.
O tornozelo dele já estava inchando de forma alarmante, e ele estava pálido, com o suor frio escorrendo pela testa.
— Afastem-se! Deem espaço! — gritava o professor.
Cecilia se ajoelhou do outro lado de Vinicius. A máscara de indiferença caiu completamente.
— Vini? Vini, olha para mim — pediu ela, a voz trêmula.
Ele abriu os olhos, cerrando os dentes para não gritar de dor. Ao ver Cecilia ali, ele tentou esboçar um sorriso fraco, que mais pareceu uma careta.
— Você veio... torcer? — sussurrou ele, a voz embargada.
— Cala a boca, seu idiota. Não ouse fazer piada agora — disse ela, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. — Professor, isso parece sério. Ele precisa de um hospital.
— Eu sei, Cecilia. Vou chamar a ambulância do posto aqui do lado. Fica com ele, não deixa ele tentar levantar.
A confusão ao redor parecia ter diminuído de volume. O mundo de Cecilia se resumia ao rapaz deitado à sua frente, sofrendo. Ela pegou a mão dele, sem pensar, e ele apertou a dela com força, buscando um ponto de apoio na dor.
— Dói muito? — perguntou ela, desnecessariamente.
— Parece que tem um ferro quente no meu pé — ele respirou fundo, fechando os olhos. — Desculpa, Ceci.
— Desculpa pelo quê? Você levou uma entrada criminosa!
— Desculpa por estragar o jogo... e por tudo o que eu fiz antes. Eu não queria que você me visse assim. Eu queria ganhar para te dedicar o troféu.
Cecilia sentiu um nó na garganta. A teimosia que ela cultivou por anos estava derretendo como gelo sob o sol.
— Esquece o troféu, Vinicius. Esquece o oitavo ano. Só... só fica bem, tá? Se você ficar bem, eu prometo que paro de ser chata.
Ele abriu um olho só, encarando-a com uma mistura de dor e esperança.
— Promete mesmo? Sem gelo? Sem respostas atravessadas?
— Prometo. Mas só se você parar de tentar ser um herói de futebol e começar a se cuidar mais.
A ambulância chegou minutos depois. Enquanto os paramédicos imobilizavam a perna de Vinicius e o colocavam na maca, ele não soltou a mão de Cecilia até o último segundo.
— Você vai comigo? — perguntou ele, antes de fecharem a porta da ambulância.
Cecilia olhou para o ginásio, onde seu time de handebol logo entraria em quadra. Ela era a reserva imediata, e sua ausência seria notada. Depois, olhou para Vinicius, vulnerável e precisando de alguém.
— Vou. Vou ligar para os seus pais no caminho — disse ela, subindo na ambulância.
O trajeto até o hospital foi silencioso, exceto pelos gemidos baixos de Vinicius quando o veículo passava por algum buraco. Cecilia não soltou a mão dele. Ela observava o perfil do garoto que ela tentou odiar, percebendo que a raiva era apenas uma armadura para proteger um coração que nunca tinha deixado de bater por ele.
Após os exames e o raio-X, o diagnóstico veio: uma entorse grave com ruptura de ligamento. Ele teria que usar bota ortopédica e ficar longe dos esportes por alguns meses.
Horas depois, já devidamente medicado e com a perna imobilizada, Vinicius descansava em uma maca do pronto-socorro enquanto esperava o pai chegar com a papelada da alta. Cecilia estava sentada em uma cadeira de plástico ao lado dele, segurando um copo de água.
— Cecilia? — chamou ele, com a voz sonolenta por causa dos analgésicos.
— Estou aqui.
— Obrigado por não ter me deixado lá.
Ela deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso verdadeiro que direcionava a ele em anos.
— Eu não podia deixar você sofrendo sozinho. Mesmo que você seja um bobão.
— Um bobão que você ainda gosta? — Ele arriscou, olhando-a fixamente.
Cecilia suspirou, deixando os ombros caírem. Não havia mais sentido em mentir, não depois do susto que levou no campo.
— É, Vinicius. Um bobão que eu ainda gosto. Infelizmente.
Ele estendeu a mão, e desta vez foi um toque suave, as pontas dos dedos roçando o pulso dela.
— Eu vou compensar todo o tempo perdido, Ceci. Eu prometo.
— Comece ficando quieto e se recuperando — ela disse, mas se inclinou e beijou a testa dele. — O Interclasse acabou para você, mas parece que a nossa trégua está só começando.
Vinicius sorriu, finalmente em paz, enquanto Cecilia percebia que, às vezes, é preciso um tombo feio para a gente parar de fugir do que o coração já sabe há muito tempo. No fim das contas, o 3º JC perdeu o título de futebol, mas Cecilia sentia que, naquela tarde, ela tinha ganhado algo muito mais importante.
