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As aventuras de Poliana
Fandom: As aventuras de Poliana
Criado: 01/05/2026
Tags
DramaFatias de VidaDor/ConfortoHistória DomésticaEstudo de PersonagemRealismoCenário CanônicoPsicológicoAngústia
O Caos Tem Cheiro de Tinta e Saudade
A mansão de Luiza D'Avila nunca foi conhecida pelo barulho. Pelo contrário, as paredes altas e os móveis de design impecável pareciam exigir um silêncio quase reverencial. Mas isso foi antes de Caio. Naquela manhã de terça-feira, o silêncio não apenas foi quebrado; ele foi estilhaçado por um estrondo vindo da sala de jantar, seguido pelo som rítmico de pés pequenos correndo descalços pelo assoalho de madeira.
Caio, com seus cinco anos de pura energia e cabelos loiros que pareciam ter brigado com o pente e perdido feio, surgiu no corredor. Ele vestia uma camiseta de super-herói do avesso e carregava um pincel cheio de tinta azul na mão direita.
— Tia Luiza! Tia Luiza! — gritou ele, os olhos brilhando com a intensidade de quem acabara de descobrir a cura para uma doença rara, ou, no caso dele, uma nova forma de decorar a casa.
Luiza apareceu no topo da escada, a expressão já contraída naquela mistura de preocupação e rigor que se tornara sua marca registrada. Ela olhou para baixo e sentiu o coração falhar uma batida ao ver o rastro de gotas azuis no tapete persa.
— Caio! O que você está fazendo com essa tinta? — Luiza desceu os degraus rapidamente, tentando manter a compostura.
O menino parou abruptamente, olhando para o pincel e depois para a tia. Ele deu um sorriso largo, daqueles que costumavam desarmar o pai, Augusto, em segundos.
— Eu tava tentando pintar o céu lá fora, mas o céu é muito alto e meu braço é muito curto — explicou ele, com uma lógica irrefutável. — Aí eu pensei: se eu pintar o chão de azul, o céu vai achar que tem um espelho aqui e vai descer pra brincar comigo.
Luiza respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ela pensou em Poliana, que estava na escola, e em como a sobrinha mais velha teria encontrado uma forma de ver o "Jogo do Contente" naquela bagunça. Mas Luiza ainda estava aprendendo a jogar.
— Caio, meu amor, a gente não pinta o chão. E nem o tapete — disse ela, aproximando-se e ajoelhando-se para ficar na altura dele, embora tomasse cuidado para não encostar na tinta. — Olha a sujeira que você fez.
Caio olhou para o tapete com a cabeça inclinada.
— Não é sujeira, Tia Luiza. É uma nuvem que caiu e ficou triste. Por isso ela tá azul.
— É tinta, Caio. Tinta cara — corrigiu ela, mas o tom de voz suavizou sem que ela percebesse. — Por que você não foi brincar com seus carrinhos?
O brilho nos olhos de Caio diminuiu um pouco. Ele baixou o pincel, deixando uma última gota cair sobre seu próprio pé.
— O papai dizia que quando a gente pinta, a alma sai pra passear. Eu acho que a alma do meu papai tá passeando por aí, e se eu fizer um caminho azul, ele encontra a volta pra casa.
O ar pareceu sumir dos pulmões de Luiza. Era isso que Caio fazia. Ele lançava bombas de profundidade emocional disfarçadas de travessuras infantis. Ele não chorava a morte de Augusto com lágrimas; ele a transformava em projetos de engenharia impossíveis e pinturas no tapete.
— Caio... — Luiza estendeu a mão e, ignorando a possibilidade de se sujar, tocou o ombro do menino. — Seu pai... ele não vai voltar por um caminho de tinta.
— Eu sei — disse ele, voltando a sorrir com uma rapidez quase assustadora. — Mas vai que ele esqueceu o GPS? O papai era meio distraído, você sabe, né? Ele uma vez tentou fazer café com suco de laranja.
Luiza não pôde evitar um pequeno riso contido. Augusto era exatamente assim. O irmão mais novo que sempre trazia o caos e a alegria para a família, o oposto dela em quase tudo.
— Sim, eu lembro. Ele era um desastre na cozinha.
Nesse momento, a porta da frente se abriu e Durval entrou, carregando uma caixa de pães da padaria. Ele parou diante da cena: Luiza ajoelhada, Caio sujo de azul e o tapete parecendo um quadro de arte moderna abstrata.
— Mas o que é isso? — Durval riu, colocando a caixa sobre o aparador. — Temos um novo Picasso na família?
— Tio Durval! — Caio correu em direção ao tio, deixando pegadas azuis pelo caminho. Luiza fez menção de impedi-lo, mas desistiu com um suspiro. — Eu fiz um mar pro sofá navegar!
— Um mar? — Durval pegou o sobrinho no colo, sujando seu próprio avental de tinta. — Mas que ideia genial! Luiza, olha só, a composição das cores está... ousada.
— Está um desastre, Durval! — Luiza levantou-se, cruzando os braços. — Ele precisa de limites. Não pode sair pintando a casa toda.
— Ah, Luiza, deixa o menino — Durval deu um beijo no topo da cabeça descabelada de Caio. — Ele é um aventureiro, igual ao pai. O Augusto ia adorar ver essa sala com mais vida.
O nome de Augusto pairou no ar. Caio, sentindo a tensão, olhou de Durval para Luiza.
— Tia Luiza tá brava porque o azul não combina com as cortinas? — perguntou o menino, com uma inocência cortante. — Se você quiser, eu posso pintar as cortinas de laranja pra combinar com o pôr do sol.
— Não! — exclamou Luiza, um pouco rápido demais. — Nem pense nisso, mocinho. Agora, banho. Já para o chuveiro. E Durval, por favor, me ajude a limpar isso antes que a tinta seque de vez.
— Missão dada é missão cumprida — disse Durval, batendo continência para o pequeno, que riu alto enquanto corria para o andar de cima.
Mais tarde, após o turbilhão da limpeza e do banho, a casa voltou a uma calma relativa. Poliana chegou da escola e, ao saber da "aventura azul" de Caio, correu para o quarto dele. Ela o encontrou sentado no chão, cercado por peças de Lego, tentando construir o que parecia ser uma torre instável.
— Oi, pequeno grande artista — disse Poliana, sentando-se ao lado dele.
— Oi, Poli. A Tia Luiza ainda tá com a cara de quem comeu limão? — perguntou Caio, sem tirar os olhos da construção.
— Ela está um pouco cansada, Caio. Mas ela não está brava de verdade. Ela só se preocupa muito com as coisas.
— As coisas são chatas — decretou o menino. — As coisas não abraçam a gente. O papai dizia que as pessoas são mais importantes que os vasos de porcelana.
Poliana sentiu aquela pontada familiar de saudade no peito. Ela entendia Caio melhor do que ninguém. Ambos tinham buracos no coração que tentavam preencher de formas diferentes. Ela, com o Jogo do Contente; ele, com o Jogo da Bagunça.
— Você sente muita falta dele hoje, não sente? — perguntou ela, suavemente.
Caio parou de mexer nos blocos. Ele olhou para Poliana, e por um breve segundo, a máscara de alegria constante escorregou, revelando o menino de cinco anos que se sentia perdido num mundo grande demais.
— A saudade é tipo quando a pessoa vai embora, mas esquece um pedaço dela dentro da gente, Poli. Aí o pedaço fica cutucando e dói um pouco.
Poliana puxou o primo para um abraço apertado. Caio encostou a cabeça no ombro dela, respirando o cheiro de lavanda que ela sempre tinha.
— Sabe o que eu faço quando dói? — sussurrou Poliana. — Eu penso que o meu pai e a minha mãe estão cuidando do seu pai lá em cima. E que eles estão rindo das suas artes.
— Você acha que eles viram o tapete azul? — Caio se afastou um pouco, os olhos brilhando novamente.
— Tenho certeza. Devem ter achado lindo.
— Então eu vou fazer uma coisa melhor amanhã. Vou tentar fazer um foguete com as caixas de sapato da Tia Luiza. Ela tem muitas caixas, Poli. Ela deve estar guardando pra isso e nem sabe.
Poliana riu, imaginando a reação de Luiza ao ver seus sapatos de grife espalhados pelo chão enquanto as caixas decolavam para Marte.
— Talvez seja melhor a gente pedir permissão primeiro, Caio.
Naquela noite, Marcelo passou na mansão para deixar uns livros para Luiza. Ele encontrou a namorada sentada no sofá, olhando fixamente para uma mancha azul clara que se recusara a sair do tapete, apesar de todos os esforços de Durval e Nancy.
— É uma cor bonita — comentou Marcelo, sentando-se ao lado dela.
— É um prejuízo, Marcelo — retrucou Luiza, mas não havia raiva em sua voz, apenas exaustão. — Eu não sei o que fazer. Ele é tão... intenso. Ele não para. Ele questiona tudo. E ele fala do Augusto como se ele fosse entrar por aquela porta a qualquer momento.
— Ele é uma criança processando a perda, Luiza. E ele é um D'Avila. Nós dois sabemos que essa família não é conhecida pela facilidade em lidar com sentimentos.
— Eu tento organizar a vida dele, dar uma rotina, mas ele desmancha tudo em cinco minutos — Luiza suspirou, encostando a cabeça no ombro de Marcelo. — Hoje ele me disse que queria pintar o chão para o pai encontrar o caminho de volta. Como eu lido com isso?
Marcelo envolveu-a em um abraço.
— Talvez você não precise "lidar". Talvez precise apenas caminhar com ele. O Caio não precisa de uma administradora, ele precisa de uma tia. De uma mãe, talvez.
— Eu não sou mãe dele, Marcelo.
— Mas é a pessoa que ele escolheu para pedir colo quando o "pedaço que ficou dentro dele" começa a doer.
Luiza ficou em silêncio, processando as palavras. Antes que pudesse responder, ouviu-se um ruído no corredor. Caio apareceu na porta da sala, arrastando um cobertor pesado e esfregando os olhos com as mãos pequenas.
— Tia Luiza?
— Caio? O que foi? Teve um pesadelo? — Ela se levantou instantaneamente, o instinto de proteção falando mais alto que qualquer rigidez.
— Não... é que o meu quarto tá muito grande hoje. E eu acho que tem um monstro embaixo da cama. Mas não é um monstro mau, é um monstro que ronca e não me deixa dormir.
Marcelo sorriu, observando a cena.
— Um monstro que ronca, é? — perguntou Marcelo. — E o que a gente faz com monstros assim?
Caio caminhou até Luiza e abraçou as pernas dela, escondendo o rosto no tecido do seu vestido.
— Eu acho que se eu ficar perto de você, ele vai embora. Porque você tem cara de quem sabe dar bronca em monstro.
Luiza sentiu algo derreter dentro de si. Ela olhou para Marcelo, que apenas assentiu com o olhar, e então pegou Caio no colo. Ele era surpreendentemente leve para tanta energia.
— Tudo bem — disse ela, a voz embargada. — O monstro não vai te pegar aqui.
— Tio Marcelo — disse Caio, com a voz abafada pelo ombro de Luiza —, você pode ficar aqui também? Assim a Tia Luiza não fica com medo se o monstro vier pra sala.
Marcelo riu, levantando-se.
— Claro, Caio. Eu fico por perto.
Luiza caminhou com o menino até o sofá, sentando-se com ele em seu colo. Caio se ajeitou, fechando os olhos quase imediatamente, sentindo-se seguro. Antes de pegar no sono profundo, ele murmurou algo que fez Luiza congelar.
— Tia Luiza... você tem cheiro de casa.
Marcelo sentou-se na poltrona em frente, observando Luiza acariciar os cabelos loiros e bagunçados do sobrinho. A mulher rígida e controladora estava dando lugar a algo novo, algo que o próprio Caio estava esculpindo com suas mãos sujas de tinta e sua lógica poética.
Naquela noite, a mancha azul no tapete não parecia mais um erro. Parecia um começo. Um caminho que, talvez, não trouxesse Augusto de volta, mas que estava guiando Luiza para um lugar que ela nunca imaginou habitar: o coração de uma criança que transformava a dor em aventura.
E enquanto o silêncio finalmente reinava na mansão, era um silêncio diferente. Não era o silêncio do vazio, mas o silêncio de quem finalmente encontrou paz em meio ao caos. Porque, como Caio diria mais tarde, a bagunça nada mais é do que o amor tentando encontrar um lugar para sentar.
Caio, com seus cinco anos de pura energia e cabelos loiros que pareciam ter brigado com o pente e perdido feio, surgiu no corredor. Ele vestia uma camiseta de super-herói do avesso e carregava um pincel cheio de tinta azul na mão direita.
— Tia Luiza! Tia Luiza! — gritou ele, os olhos brilhando com a intensidade de quem acabara de descobrir a cura para uma doença rara, ou, no caso dele, uma nova forma de decorar a casa.
Luiza apareceu no topo da escada, a expressão já contraída naquela mistura de preocupação e rigor que se tornara sua marca registrada. Ela olhou para baixo e sentiu o coração falhar uma batida ao ver o rastro de gotas azuis no tapete persa.
— Caio! O que você está fazendo com essa tinta? — Luiza desceu os degraus rapidamente, tentando manter a compostura.
O menino parou abruptamente, olhando para o pincel e depois para a tia. Ele deu um sorriso largo, daqueles que costumavam desarmar o pai, Augusto, em segundos.
— Eu tava tentando pintar o céu lá fora, mas o céu é muito alto e meu braço é muito curto — explicou ele, com uma lógica irrefutável. — Aí eu pensei: se eu pintar o chão de azul, o céu vai achar que tem um espelho aqui e vai descer pra brincar comigo.
Luiza respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ela pensou em Poliana, que estava na escola, e em como a sobrinha mais velha teria encontrado uma forma de ver o "Jogo do Contente" naquela bagunça. Mas Luiza ainda estava aprendendo a jogar.
— Caio, meu amor, a gente não pinta o chão. E nem o tapete — disse ela, aproximando-se e ajoelhando-se para ficar na altura dele, embora tomasse cuidado para não encostar na tinta. — Olha a sujeira que você fez.
Caio olhou para o tapete com a cabeça inclinada.
— Não é sujeira, Tia Luiza. É uma nuvem que caiu e ficou triste. Por isso ela tá azul.
— É tinta, Caio. Tinta cara — corrigiu ela, mas o tom de voz suavizou sem que ela percebesse. — Por que você não foi brincar com seus carrinhos?
O brilho nos olhos de Caio diminuiu um pouco. Ele baixou o pincel, deixando uma última gota cair sobre seu próprio pé.
— O papai dizia que quando a gente pinta, a alma sai pra passear. Eu acho que a alma do meu papai tá passeando por aí, e se eu fizer um caminho azul, ele encontra a volta pra casa.
O ar pareceu sumir dos pulmões de Luiza. Era isso que Caio fazia. Ele lançava bombas de profundidade emocional disfarçadas de travessuras infantis. Ele não chorava a morte de Augusto com lágrimas; ele a transformava em projetos de engenharia impossíveis e pinturas no tapete.
— Caio... — Luiza estendeu a mão e, ignorando a possibilidade de se sujar, tocou o ombro do menino. — Seu pai... ele não vai voltar por um caminho de tinta.
— Eu sei — disse ele, voltando a sorrir com uma rapidez quase assustadora. — Mas vai que ele esqueceu o GPS? O papai era meio distraído, você sabe, né? Ele uma vez tentou fazer café com suco de laranja.
Luiza não pôde evitar um pequeno riso contido. Augusto era exatamente assim. O irmão mais novo que sempre trazia o caos e a alegria para a família, o oposto dela em quase tudo.
— Sim, eu lembro. Ele era um desastre na cozinha.
Nesse momento, a porta da frente se abriu e Durval entrou, carregando uma caixa de pães da padaria. Ele parou diante da cena: Luiza ajoelhada, Caio sujo de azul e o tapete parecendo um quadro de arte moderna abstrata.
— Mas o que é isso? — Durval riu, colocando a caixa sobre o aparador. — Temos um novo Picasso na família?
— Tio Durval! — Caio correu em direção ao tio, deixando pegadas azuis pelo caminho. Luiza fez menção de impedi-lo, mas desistiu com um suspiro. — Eu fiz um mar pro sofá navegar!
— Um mar? — Durval pegou o sobrinho no colo, sujando seu próprio avental de tinta. — Mas que ideia genial! Luiza, olha só, a composição das cores está... ousada.
— Está um desastre, Durval! — Luiza levantou-se, cruzando os braços. — Ele precisa de limites. Não pode sair pintando a casa toda.
— Ah, Luiza, deixa o menino — Durval deu um beijo no topo da cabeça descabelada de Caio. — Ele é um aventureiro, igual ao pai. O Augusto ia adorar ver essa sala com mais vida.
O nome de Augusto pairou no ar. Caio, sentindo a tensão, olhou de Durval para Luiza.
— Tia Luiza tá brava porque o azul não combina com as cortinas? — perguntou o menino, com uma inocência cortante. — Se você quiser, eu posso pintar as cortinas de laranja pra combinar com o pôr do sol.
— Não! — exclamou Luiza, um pouco rápido demais. — Nem pense nisso, mocinho. Agora, banho. Já para o chuveiro. E Durval, por favor, me ajude a limpar isso antes que a tinta seque de vez.
— Missão dada é missão cumprida — disse Durval, batendo continência para o pequeno, que riu alto enquanto corria para o andar de cima.
Mais tarde, após o turbilhão da limpeza e do banho, a casa voltou a uma calma relativa. Poliana chegou da escola e, ao saber da "aventura azul" de Caio, correu para o quarto dele. Ela o encontrou sentado no chão, cercado por peças de Lego, tentando construir o que parecia ser uma torre instável.
— Oi, pequeno grande artista — disse Poliana, sentando-se ao lado dele.
— Oi, Poli. A Tia Luiza ainda tá com a cara de quem comeu limão? — perguntou Caio, sem tirar os olhos da construção.
— Ela está um pouco cansada, Caio. Mas ela não está brava de verdade. Ela só se preocupa muito com as coisas.
— As coisas são chatas — decretou o menino. — As coisas não abraçam a gente. O papai dizia que as pessoas são mais importantes que os vasos de porcelana.
Poliana sentiu aquela pontada familiar de saudade no peito. Ela entendia Caio melhor do que ninguém. Ambos tinham buracos no coração que tentavam preencher de formas diferentes. Ela, com o Jogo do Contente; ele, com o Jogo da Bagunça.
— Você sente muita falta dele hoje, não sente? — perguntou ela, suavemente.
Caio parou de mexer nos blocos. Ele olhou para Poliana, e por um breve segundo, a máscara de alegria constante escorregou, revelando o menino de cinco anos que se sentia perdido num mundo grande demais.
— A saudade é tipo quando a pessoa vai embora, mas esquece um pedaço dela dentro da gente, Poli. Aí o pedaço fica cutucando e dói um pouco.
Poliana puxou o primo para um abraço apertado. Caio encostou a cabeça no ombro dela, respirando o cheiro de lavanda que ela sempre tinha.
— Sabe o que eu faço quando dói? — sussurrou Poliana. — Eu penso que o meu pai e a minha mãe estão cuidando do seu pai lá em cima. E que eles estão rindo das suas artes.
— Você acha que eles viram o tapete azul? — Caio se afastou um pouco, os olhos brilhando novamente.
— Tenho certeza. Devem ter achado lindo.
— Então eu vou fazer uma coisa melhor amanhã. Vou tentar fazer um foguete com as caixas de sapato da Tia Luiza. Ela tem muitas caixas, Poli. Ela deve estar guardando pra isso e nem sabe.
Poliana riu, imaginando a reação de Luiza ao ver seus sapatos de grife espalhados pelo chão enquanto as caixas decolavam para Marte.
— Talvez seja melhor a gente pedir permissão primeiro, Caio.
Naquela noite, Marcelo passou na mansão para deixar uns livros para Luiza. Ele encontrou a namorada sentada no sofá, olhando fixamente para uma mancha azul clara que se recusara a sair do tapete, apesar de todos os esforços de Durval e Nancy.
— É uma cor bonita — comentou Marcelo, sentando-se ao lado dela.
— É um prejuízo, Marcelo — retrucou Luiza, mas não havia raiva em sua voz, apenas exaustão. — Eu não sei o que fazer. Ele é tão... intenso. Ele não para. Ele questiona tudo. E ele fala do Augusto como se ele fosse entrar por aquela porta a qualquer momento.
— Ele é uma criança processando a perda, Luiza. E ele é um D'Avila. Nós dois sabemos que essa família não é conhecida pela facilidade em lidar com sentimentos.
— Eu tento organizar a vida dele, dar uma rotina, mas ele desmancha tudo em cinco minutos — Luiza suspirou, encostando a cabeça no ombro de Marcelo. — Hoje ele me disse que queria pintar o chão para o pai encontrar o caminho de volta. Como eu lido com isso?
Marcelo envolveu-a em um abraço.
— Talvez você não precise "lidar". Talvez precise apenas caminhar com ele. O Caio não precisa de uma administradora, ele precisa de uma tia. De uma mãe, talvez.
— Eu não sou mãe dele, Marcelo.
— Mas é a pessoa que ele escolheu para pedir colo quando o "pedaço que ficou dentro dele" começa a doer.
Luiza ficou em silêncio, processando as palavras. Antes que pudesse responder, ouviu-se um ruído no corredor. Caio apareceu na porta da sala, arrastando um cobertor pesado e esfregando os olhos com as mãos pequenas.
— Tia Luiza?
— Caio? O que foi? Teve um pesadelo? — Ela se levantou instantaneamente, o instinto de proteção falando mais alto que qualquer rigidez.
— Não... é que o meu quarto tá muito grande hoje. E eu acho que tem um monstro embaixo da cama. Mas não é um monstro mau, é um monstro que ronca e não me deixa dormir.
Marcelo sorriu, observando a cena.
— Um monstro que ronca, é? — perguntou Marcelo. — E o que a gente faz com monstros assim?
Caio caminhou até Luiza e abraçou as pernas dela, escondendo o rosto no tecido do seu vestido.
— Eu acho que se eu ficar perto de você, ele vai embora. Porque você tem cara de quem sabe dar bronca em monstro.
Luiza sentiu algo derreter dentro de si. Ela olhou para Marcelo, que apenas assentiu com o olhar, e então pegou Caio no colo. Ele era surpreendentemente leve para tanta energia.
— Tudo bem — disse ela, a voz embargada. — O monstro não vai te pegar aqui.
— Tio Marcelo — disse Caio, com a voz abafada pelo ombro de Luiza —, você pode ficar aqui também? Assim a Tia Luiza não fica com medo se o monstro vier pra sala.
Marcelo riu, levantando-se.
— Claro, Caio. Eu fico por perto.
Luiza caminhou com o menino até o sofá, sentando-se com ele em seu colo. Caio se ajeitou, fechando os olhos quase imediatamente, sentindo-se seguro. Antes de pegar no sono profundo, ele murmurou algo que fez Luiza congelar.
— Tia Luiza... você tem cheiro de casa.
Marcelo sentou-se na poltrona em frente, observando Luiza acariciar os cabelos loiros e bagunçados do sobrinho. A mulher rígida e controladora estava dando lugar a algo novo, algo que o próprio Caio estava esculpindo com suas mãos sujas de tinta e sua lógica poética.
Naquela noite, a mancha azul no tapete não parecia mais um erro. Parecia um começo. Um caminho que, talvez, não trouxesse Augusto de volta, mas que estava guiando Luiza para um lugar que ela nunca imaginou habitar: o coração de uma criança que transformava a dor em aventura.
E enquanto o silêncio finalmente reinava na mansão, era um silêncio diferente. Não era o silêncio do vazio, mas o silêncio de quem finalmente encontrou paz em meio ao caos. Porque, como Caio diria mais tarde, a bagunça nada mais é do que o amor tentando encontrar um lugar para sentar.
