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Poliana

Fandom: As aventuras de Poliana novela sbt

Criado: 01/05/2026

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O Peso do SilĂȘncio

A sala de ensaios da Escola Ruth Goulart, que antes transbordava o caos alegre de crianças de cinco anos, mergulhou em um silĂȘncio sepulcral, interrompido apenas pelo soluço estridente de Igor no chĂŁo. Marcelo sentia o coração de Caio bater freneticamente contra seu braço, uma pulsação rĂĄpida como a de um passarinho encurralado, mas a força que o menino exercia para se soltar era de um gigante.

— Calma, Caio! Para agora! — ordenou Marcelo, mantendo a voz firme, mas carregada de uma preocupação que lhe apertava o peito.

— Ele Ă© um mentiroso! Ele Ă© bobo! — Caio gritava, as bochechas vermelhas e os olhos castanhos, tĂŁo parecidos com os de LuĂ­sa quando estava indignada, transbordando lĂĄgrimas que ele se recusava a deixar cair. — Me solta, Tio Marcelo! Eu vou acabar com ele!

— Já chega! — Marcelo conseguiu virar o menino de frente para si, segurando-o pelos ombros. — Olhe para mim. Respire. Igor, levante-se e vá para perto da Professora Helena na outra sala. Agora.

Igor levantou-se dramaticamente, limpando o pó da calça e lançando um olhar de superioridade antes de sair, ainda fungando. Poliana, que observava tudo de um canto com as mãos postas no peito, aproximou-se devagar, seus olhos brilhando de pura empatia.

— Tio Marcelo, o Igor disse coisas muito feias... — Poliana tentou intervir, sua voz doce contrastando com o ambiente carregado. — O Caio só ficou triste.

— Eu não estou triste! — Caio rugiu, desvencilhando-se de Marcelo e chutando um cone de plástico que servia de marcação para a coreografia. — Eu odeio essa escola! Eu odeio esse ensaio!

Marcelo suspirou, passando a mĂŁo pelo rosto. Ele conhecia aquela expressĂŁo. Era a mesma armadura que LuĂ­sa usava hĂĄ anos: a raiva servindo de escudo para uma ferida que sangrava por dentro. Ele se ajoelhou para ficar na altura do menino, mas Caio deu um passo atrĂĄs, fechando-se em sua prĂłpria fortaleza de cinco anos de idade.

— Caio, eu preciso ligar para a sua tia. VocĂȘ sabe que agressĂŁo nĂŁo Ă© permitida aqui.

— Pode ligar! — Caio cruzou os braços, o queixo empinado. — Ela vai brigar comigo de qualquer jeito. Ela sempre briga.

Meia hora depois, o som seco dos saltos de Luísa D’Ávila ecoava pelo corredor de mármore da escola. Ela caminhava com a postura impecável, mas quem a conhecia bem — como Marcelo — notava a tensão excessiva em seus ombros. Ao entrar na sala da diretoria, seus olhos imediatamente encontraram Caio, que estava sentado em uma cadeira grande demais para ele, balançando as perninhas com uma indiferença fingida.

— Luísa, obrigado por vir — disse Marcelo, levantando-se.

— O que houve desta vez? — LuĂ­sa perguntou, ignorando o cumprimento e focando no sobrinho. — Caio, olhe para mim. É verdade que vocĂȘ empurrou o Igor?

O menino deu de ombros, focando intensamente em um fio solto na sua bermuda.

— Ele falou coisa que não devia. Eu só ajudei ele a ficar calado.

— Caio! — o tom de LuĂ­sa subiu uma oitava, frio e cortante. — NĂłs conversamos sobre isso. VocĂȘ nĂŁo pode resolver as coisas na base do empurrĂŁo. VocĂȘ Ă© um D’Ávila, tem que se comportar como tal. Peça desculpas agora para o Professor Marcelo pelo transtorno.

— Não peço! — Caio levantou o olhar, desafiador. — E eu não quero mais vir nesse ensaio bobo. Eu não tenho mãe, Luísa! Por que eu tenho que dançar para uma cadeira vazia?

O silĂȘncio que se seguiu foi como um soco no estĂŽmago de LuĂ­sa. Ela empalideceu, suas mĂŁos enfiando-se nos bolsos do casaco elegante para esconder o tremor. Marcelo deu um passo Ă  frente, tentando mediar a situação.

— Luísa, o Igor provocou o Caio. Ele disse coisas sobre a Amanda
 coisas pesadas para uma criança.

— Não importa o que disseram — Luísa cortou, a voz ríspida, embora seus olhos estivessem nublados. — O mundo não vai ser gentil com ele só porque ele teve perdas. Ele precisa aprender a ter autocontrole. Vamos para casa, Caio. Agora.

O caminho atĂ© o casarĂŁo foi feito em um silĂȘncio opressor. Poliana, sentada no banco de trĂĄs ao lado de Caio, tentava segurar a mĂŁo do primo, mas ele a repelia com um movimento brusco. Ao chegarem, LuĂ­sa sequer tirou o casaco.

— Para o seu quarto, Caio. E fique lĂĄ atĂ© eu chamar para o jantar. Sem televisĂŁo, sem aviĂ”es de papel.

— VocĂȘ Ă© chata! — Caio gritou antes de subir as escadas correndo. — O papai nĂŁo era assim!

Luísa estancou no meio da sala. O nome de Augusto era uma ferida aberta que ela tentava costurar com rigidez todos os dias. Poliana aproximou-se da tia, tocando-lhe levemente a manga do braço.

— Tia Luísa
 o Jogo do Contente diz que a gente pode ficar feliz porque o Caio defendeu o que ele sente. Ele só sente muita falta, igual eu sinto do meu pai e da minha mãe.

— Poliana, por favor — LuĂ­sa suspirou, fechando os olhos. — VĂĄ para o seu quarto tambĂ©m. Preciso de silĂȘncio.

Mais tarde, naquela noite, Luísa caminhava pelo corredor escuro quando ouviu um barulho abafado vindo do quarto de Caio. Ela parou à porta, a mão hesitando na maçaneta. Por dentro, ela lutava contra o instinto de ser a tia rigorosa que mantinha a ordem e a mulher que, no fundo, também queria gritar com o mundo pela partida de Augusto e pela covardia de Amanda.

Ao abrir a porta silenciosamente, ela viu uma cena que desarmou qualquer armadura. Caio nĂŁo estava dormindo. Ele estava sentado no chĂŁo, sob a luz fraca de um abajur de dinossauro, rodeado por fotos que ele claramente havia tirado de algum ĂĄlbum escondido. Eram fotos de Augusto, sorridente com seu parapente, e algumas poucas de Amanda, onde o rosto dela aparecia cortado ou rabiscado com giz de cera preto.

O menino não chorava com barulho. Ele soluçava baixinho, tentando colar o aviãozinho de papel que havia sido amassado na briga da escola.

— Ela não veio nem se despedir, Luísa — o menino sussurrou, sem se virar, reconhecendo o perfume da tia. — O Igor disse que eu sou tão chato que ela fugiu de mim.

Luísa sentiu o coração apertar de uma forma que ela não permitia hå muito tempo. Ela atravessou o quarto e, contrariando sua própria natureza rígida, sentou-se no tapete ao lado dele.

— O Igor Ă© um menino que nĂŁo sabe o que diz, Caio — ela começou, a voz ainda um pouco travada. — Sua mĂŁe
 a Amanda
 ela fez uma escolha. Mas essa escolha nĂŁo tem nada a ver com quem vocĂȘ Ă©.

— Tem sim! — Caio finalmente olhou para ela, os olhos vermelhos e inchados. — Se eu fosse bom, ela ficava. Se eu nĂŁo fizesse bagunça, ela nĂŁo ia embora. O papai morreu porque o cĂ©u quis, mas ela foi embora porque quis.

Luísa engoliu em seco. A lógica cruel de uma criança de cinco anos era mais afiada que qualquer crítica de adulto. Ela estendeu a mão e, com uma hesitação que mostrava o quanto aquilo era difícil para ela, acariciou o cabelo bagunçado do sobrinho.

— Olhe para mim, Caio. Augusto amava vocĂȘ mais do que qualquer coisa neste mundo. E eu
 — ela fez uma pausa, buscando as palavras. — Eu sou difĂ­cil. Eu sou brava Ă s vezes. Mas eu estou aqui. Eu nunca vou embora.

Caio a encarou por um longo tempo, analisando o rosto severo da tia, procurando por uma mentira. Ele era esperto demais para a própria idade, sabia que os adultos mentiam para "proteger" as crianças. Mas nos olhos de Luísa, ele viu uma dor que espelhava a sua.

— VocĂȘ jura? — ele perguntou, a voz pequena. — Mesmo se eu quebrar o seu vaso caro de novo?

Um esboço de sorriso, quase imperceptível, surgiu nos låbios de Luísa.

— Mesmo se vocĂȘ quebrar todos os vasos desta casa. Mas, por favor, tente nĂŁo quebrar. Eles sĂŁo herança de famĂ­lia.

Caio se inclinou e abraçou a cintura da tia, escondendo o rosto em seu colo. LuĂ­sa ficou estĂĄtica por um segundo, os braços pairando no ar, antes de finalmente envolver o pequeno corpo em um abraço protetor. Ali, no escuro do quarto, a tia amargurada e o menino "arteiro" compartilharam o Ășnico remĂ©dio possĂ­vel para o abandono: a presença.

Na manhã seguinte, Marcelo chegou cedo ao casarão para conversar com Luísa antes das aulas. Ele esperava encontrar uma mulher defensiva e um menino de castigo. Em vez disso, encontrou os dois na mesa de café da manhã. Luísa lia o jornal com sua seriedade habitual, mas Caio estava sentado ao seu lado, desenhando freneticamente em um papel.

— Bom dia — disse Marcelo, aproximando-se com cautela.

— Bom dia, Marcelo — respondeu Luísa, levantando os olhos. — O Caio tem algo para lhe entregar.

O menino levantou-se e entregou um papel dobrado para o professor. Marcelo abriu e viu um desenho colorido: duas figuras grandes e uma pequena, todas segurando balÔes.

— O que Ă© isso, Caio? — perguntou Marcelo, sorrindo.

— Sou eu, a Poliana e a LuĂ­sa — explicou o menino, com a mĂŁo na cintura. — E aquele ali no canto, bem pequeno, Ă© vocĂȘ, Tio Marcelo. Porque vocĂȘ Ă© legal, mas ainda nĂŁo Ă© da famĂ­lia.

Marcelo riu, trocando um olhar cĂșmplice com LuĂ­sa. Ela desviou o olhar rapidamente, mas nĂŁo antes de Marcelo notar que a expressĂŁo dela estava mais leve, menos carregada.

— E sobre o ensaio de Dia das Mães? — Marcelo sondou.

Caio olhou para LuĂ­sa, que apenas assentiu levemente.

— Eu vou — disse o menino, suspirando como se estivesse fazendo um grande sacrifício. — Mas eu não vou dançar para uma cadeira vazia. A Luísa disse que vai sentar na primeira fila. E ela disse que, se o Igor abrir a boca, ela mesma vai falar com a Dona Ruth.

— Eu disse que tomaria as providĂȘncias cabĂ­veis — corrigiu LuĂ­sa, tomando um gole de cafĂ©. — NĂŁo use gĂ­rias, Caio.

Marcelo percebeu que, embora a rigidez de LuĂ­sa ainda estivesse lĂĄ, algo havia mudado. O muro nĂŁo tinha caĂ­do, mas havia uma porta nova, pequena e colorida, por onde um menino de cinco anos acabara de passar.

— Então vamos para a escola? — sugeriu Marcelo.

— Vamos! — Caio pegou sua mochila, mas antes de sair, voltou e deu um beijo rápido na bochecha de Luísa, deixando-a visivelmente sem graça. — Tchau, Tia Luísa! Não esquece que hoje tem ensaio extra!

Quando as crianças saíram com Marcelo, Luísa ficou sozinha na sala vasta e silenciosa. Ela tocou o local onde o sobrinho a beijara, sentindo o calor da infùncia desafiar o gelo de sua alma. Ela ainda sofria por Augusto, ainda sentia raiva de Amanda e ainda não sabia como lidar com o otimismo irritante de Poliana. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o casarão não parecia um mausoléu de lembranças tristes. Parecia, finalmente, uma casa.

Ela se levantou, ajeitou o vestido e caminhou atĂ© o ateliĂȘ. Havia muitas cores que ela ainda precisava redescobrir, e talvez, apenas talvez, Caio fosse o pincel que ela precisava para recomeçar sua prĂłpria histĂłria.

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