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O ultimo de nos

Fandom: Httyd

Criado: 02/05/2026

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O Eco do Aço e a Neve Vermelha

A escuridão da sala era absoluta, exceto pelo brilho fantasmagórico da imensa tela que flutuava diante de Stoico, o Imenso. O líder de Berk sentia o peso de seu machado na mão, mas o aço parecia inútil contra as imagens que desfilavam diante de seus olhos. Ele não estava mais no Grande Salão. Não havia o cheiro de hidromel ou o calor das fogueiras. Havia apenas o rastro de um futuro que ele não conseguia compreender, mas que sentia como uma adaga no peito.

Na tela, ele viu o fim do mundo que conhecia. Não foram os dragões que trouxeram a ruína, mas algo muito mais insidioso. Ele viu Valka, sua amada Valka, ser cercada por criaturas que outrora foram homens — seres de pele acinzentada e olhos vazios que se moviam com uma fome antinatural. Ele gritou o nome dela, sua voz ecoando no vazio da sala, mas a imagem apenas mostrou o momento em que a vida se apagou dos olhos dela.

— Não... — sussurrou Stoico, caindo de joelhos. — Isso não pode ser real.

As imagens saltaram no tempo. Berk era uma lembrança distante, um cemitério de barcos e ossos. Stoico viu a si mesmo, mais velho e com o olhar endurecido por uma dor que ele ainda não possuía, caminhando por corredores de concreto e cercas de arame farpado. Uma "zona de quarentena". Ao seu lado, um rapaz de dezenove anos, alto e magro, mas com a mesma determinação teimosa nos olhos verdes. Soluço.

O Stoico da tela e o Soluço do futuro viviam uma existência de silêncio e sobrevivência. O mundo era cinza. E então, o dia fatídico chegou.

A imagem na tela mudou para uma floresta densa e sombria, longe da segurança relativa dos muros. O ar parecia pesado.

— Pai, você ouviu isso? — perguntou o Soluço da tela, parando abruptamente e empunhando uma faca de caça desgastada.

Stoico, observando da sala escura, sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Ele queria avisá-los. Queria gritar que a morte estava espreitando entre os troncos das árvores.

— Deve ser apenas o vento, garoto — respondeu o Stoico da tela, embora sua mão estivesse firmemente fechada no cabo de seu rifle. — Mantenha os olhos abertos.

Não foi o vento. Sete homens surgiram das sombras como espectros de um pesadelo. Eles não eram mortos-vivos; eram algo pior. Eram sobreviventes que haviam perdido a humanidade muito antes do mundo acabar. Estavam armados com escopetas enferrujadas e facões que brilhavam sob a luz pálida.

A emboscada foi rápida e brutal. Stoico lutou como um urso encurralado, derrubando dois deles com a força bruta, mas o número era excessivo. Três homens o imobilizaram contra o chão lamacento, pressionando canos de armas contra sua cabeça.

— Soluço! — rugiu Stoico, vendo o filho ser jogado ao chão por outros quatro agressores.

O líder dos bandidos, um homem com uma cicatriz que cortava seu rosto de cima a baixo, riu de forma seca. Ele segurava um facão pesado, a lâmina dentada e suja de ferrugem e sangue antigo.

— Vocês têm muitas provisões para apenas dois homens — disse o líder, chutando as costelas de Soluço. — E esse garoto... ele parece que nunca teve que sacrificar nada de verdade.

— Deixe ele em paz! — Stoico lutava contra os homens que o seguravam, os músculos de seu pescoço saltando pela tensão. — Peguem o que quiserem, mas deixem meu filho!

O homem da cicatriz olhou para o pé esquerdo de Soluço, que estava preso sob a bota de um dos capangas. Um sorriso cruel se formou em seus lábios.

— O mundo exige sacrifícios, grandão. E eu gosto de deixar lembranças.

O que se seguiu foi um pesadelo de som e dor. Stoico, na sala escura, cobriu os ouvidos, mas o som da TV era implacável. O brilho do facão descendo, o grito agudo e dilacerante de Soluço que cortou o ar da floresta, e o jorro de sangue quente que manchou a neve suja. O pé esquerdo do rapaz foi decepado com um golpe único e selvagem.

— NÃO! — Stoico urrou na sala vazia, as lágrimas escorrendo por sua barba ruiva.

Na tela, Soluço arquejou, o rosto perdendo toda a cor enquanto entrava em choque, o corpo tremendo violentamente sobre o solo congelado.

— Agora, para o prato principal — disse o líder, voltando-se para Stoico.

— Pai... não... — Soluço tentou esticar a mão, a voz falhando, os olhos nublados pela dor insuportável.

Stoico olhou para o filho uma última vez. Não havia medo em seus olhos, apenas uma tristeza infinita e um amor que nem mesmo o apocalipse poderia apagar.

— Fique vivo, Soluço — sussurrou o Stoico da tela. — Viva por mim. Viva pela sua mãe.

Os homens não foram rápidos. Eles queriam que fosse uma lição. O primeiro golpe de facão atingiu o ombro de Stoico, o segundo o abdômen. Ele não gritou. Cada golpe era recebido com um rosnado de desafio, até que o líder finalmente sacou um revólver e o encostou na têmpora do líder viking.

— Adeus, gigante — disse o homem.

O disparo ecoou como um trovão. O corpo de Stoico desabou pesadamente, o sangue se misturando ao de Soluço na terra. Os homens riram, pegaram as mochilas e os suprimentos, e desapareceram na floresta, deixando o rapaz mutilado para trás, sangrando ao lado do cadáver do pai.

A tela ficou preta.

O silêncio na sala de TV era tão pesado quanto uma lápide. Stoico permaneceu caído, as mãos enterradas no rosto, os soluços sacudindo seu corpo maciço. Ele era o chefe de Berk. Ele era o matador de dragões. Mas ali, diante do destino, ele se sentia menor do que um grão de areia.

— Isso... isso não pode acontecer — soluçou ele para as sombras. — Eu não posso deixá-lo sozinho. Não assim.

Lentamente, a luz da sala começou a mudar. A tela desapareceu, e o chão sob seus pés parecia oscilar. O cheiro de maresia e fumaça de turfa começou a retornar. Ele estava voltando.

Stoico abriu os olhos. Ele estava de volta ao Grande Salão de Berk. O calor das lareiras era real. O barulho das risadas dos vikings era ensurdecedor. À sua frente, na mesa comprida, Soluço — o seu Soluço de quinze anos, com as duas pernas intactas e o olhar curioso — tentava desenhar algo em seu caderno de anotações.

O coração de Stoico batia tão forte que ele achou que quebraria suas costelas. Sem dizer uma palavra, ele se levantou, caminhou até o filho e o envolveu em um abraço desesperado, apertando-o contra o peito com uma força que fez o rapaz soltar um gemido de surpresa.

— Pai? — perguntou Soluço, a voz abafada pela túnica de pele de Stoico. — O que houve? Você está me esmagando.

Stoico não respondeu de imediato. Ele apenas aspirou o cheiro de metal e sabão que emanava do filho, sentindo a batida ritmada do coração do jovem contra o seu braço.

— Eu só... — Stoico se afastou um pouco, segurando os ombros de Soluço com as mãos trêmulas. — Eu só precisei ter certeza de que você estava aqui.

— Onde mais eu estaria? — Soluço arqueou uma sobrancelha, um sorriso torto surgindo em seu rosto. — Eu não vou a lugar nenhum, pai.

Stoico olhou para os pés do filho. Dois pés. Calçados com botas de couro simples. Ele sentiu um nó na garganta. Ele não sabia se o que vira era um aviso dos deuses ou uma maldição de algum espírito maligno, mas uma coisa ele jurou para si mesmo naquele momento.

— Escute-me, Soluço — disse Stoico, sua voz assumindo um tom de gravidade que silenciou as mesas próximas. — De hoje em diante, as coisas vão mudar. Eu vou te ensinar tudo o que sei. Não apenas a lutar com dragões, mas a sobreviver a homens. A sobreviver ao pior que este mundo pode oferecer.

Soluço piscou, confuso com a intensidade súbita do pai.

— Pai, do que você está falando? Eu já estou treinando com o Bocão e...

— Não é o suficiente — interrompeu Stoico, os olhos brilhando com uma determinação feroz. — Nunca será o suficiente. Nós vamos nos preparar. Se o fim do mundo vier, se as sombras se erguerem... você não será uma vítima. Você será um líder. E você estará pronto.

Soluço olhou para o pai por um longo tempo. Ele viu o medo escondido atrás daquela fachada de ferro, algo que nunca tinha visto antes. Ele não entendia o que Stoico tinha visto ou por que ele parecia ter envelhecido dez anos em um único minuto, mas ele assentiu lentamente.

— Tudo bem, pai — disse Soluço suavemente. — Eu estou com você.

— Eu sei que está — sussurrou Stoico, sentando-se novamente, mas mantendo uma das mãos sobre o ombro do filho.

Ele olhou para a porta do Grande Salão, para a escuridão da noite de Berk. Ele sabia que, em algum lugar, em algum tempo ou em alguma realidade, o perigo espreitava. Mas enquanto ele respirasse, enquanto o sangue corresse em suas veias, ele mudaria o destino.

Ele não permitiria que a neve se tornasse vermelha. Ele não permitiria que o silêncio ganhasse a voz de seu filho.

— Coma, Soluço — ordenou Stoico, tentando recuperar a compostura enquanto seu olhar varria cada canto do salão, agora sempre vigilante. — Temos muito trabalho a fazer amanhã.

Soluço voltou ao seu caderno, mas de vez em quando olhava de soslaio para o pai. O mundo parecia o mesmo, mas algo fundamental havia mudado no coração do Grande Chefe. E, nas sombras do futuro que Stoico vira, um novo caminho começava a ser trilhado — um caminho onde o aço não falharia e onde o pai estaria lá para garantir que o filho nunca tivesse que caminhar sozinho.

Stoico apertou o cabo de sua caneca de hidromel até que os nós de seus dedos ficassem brancos. Ele ainda conseguia ouvir o eco do disparo na floresta. Mas agora, ele tinha o presente. E no presente, ele seria o escudo que Berk e Soluço precisavam, custasse o que custasse.

— Ninguém vai encostar em você — murmurou ele tão baixo que apenas o vento entre as vigas do teto pôde ouvir. — Nem os mortos, nem os vivos. Eu juro por Odin.
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